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Com apoio da ONU, evento debate nesta quinta-feira (6) no Rio regulação da mídia e liberdade de expressão

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O Centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio), o Coletivo Intervozes e o Instituto de Estudos Socais e Políticos (IESP) da UERJ, com apoio do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, convidam para a mesa-redonda “O papel da regulação da mídia na liberdade de expressão”.

O evento acontece na quinta-feira, 6 de agosto, às 19h, na sede do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro (Rua Evaristo da Veiga, 16 – Centro).

A mesa-redonda contará com a participação do relator especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), Edison Lanza. Também farão parte da mesa a deputada federal Jandira Feghali e a professora Suzy dos Santos, da Escola de Comunicação da UFRJ.

O objetivo do encontro é conhecer a experiência latino-americana e internacional de regulação da mídia e seus impactos na liberdade de expressão e discutir a implementação destas políticas no Brasil.

Serviço
Mesa-redonda: O papel da regulação da mídia na liberdade de expressão
Local: Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro – Rua Evaristo da Veiga, 16 – Centro
Data: 6 de agosto – 19 horas (Atenção: a entrada do prédio do Sindicato fecha às 20h)

Massacre midiático

Por Guilherme Boulos (*)

A opinião pública, outrora mais comedida, aderiu de forma radical ao antipetismo. PT virou sinônimo de bandalheira e seus eleitores são ignorantes que parasitam em torno dos programas sociais. Opinião pública, já disse Millôr Fernandes, nada mais é do que aquilo que se publica.

Antes de tornar-se um discurso amplamente difundido –em especial no Sudeste, Sul e Centro-Oeste do país– o antipetismo foi cuidadosamente fermentado por um grupo bem mais seleto, o daqueles que publicam. Os 30 Berlusconi brasileiros na definição da organização europeia Repórteres Sem Fronteiras.

Agora que se apresentam chances reais de o PSDB retomar a presidência da República, o que era desgaste progressivo tornou-se massacre aberto. A guerra de baixa intensidade virou um bombardeio indiscriminado.

A página Manchetômetro (manchetometro.com.br) realizou levantamento das notícias positivas e negativas aos candidatos nestas eleições. O resultado revela muito sobre a imparcialidade do jornalismo brasileiro. Dentre os três principais jornais impressos do país, as chamadas de capa positivas para Dilma foram quatro. Para Aécio Neves, 32. Já as negativas, foram 176 para Dilma e 31 para Aécio.

No principal telejornal do Brasil, o "Jornal Nacional", da TV Globo, a cobertura com notícias favoráveis para Dilma foi de quatro minutos e 14 segundos. Para Aécio foi de nove minutos e 52 segundos. No caso das notícias desfavoráveis, para Dilma o tempo foi de 53 minutos e para Aécio foi de sete minutos e seis segundos.

Não estamos falando apenas de parcialidade. Este limite já foi ultrapassado. Trata-se de bombardeio midiático contra a candidata do PT. Bombardeio agora intensificado com denúncias seletivamente vazadas de um inquérito supostamente sigiloso sobre a corrupção na Petrobras.

Que houve e há corrupção na Petrobrás parece certo. Que a imprensa tenha o papel de divulgá-la é algo inquestionável. Mas o mesmo critério deveria ser aplicado para o caso do aeroporto de Cláudio (MG) ou para o cartel fraudulento do metrô de São Paulo. Com o mesmo tempo, o mesmo tom acusatório e as mesmas proporções. Os números do Manchetômetro mostram outra coisa.

Mas, convenhamos, ao PT agora não adianta chorar. Teve 12 anos para levantar o debate da democratização das comunicações no Brasil e não o fez. Faltou coragem e sobrou soberba. Acreditou que o pacto social era uma mágica que duraria para sempre. Tornou-se neste caso –como em muitos outros– vítima da sua falta de ousadia para mudanças estruturais.

O monopólio das comunicações no Brasil é escandaloso. O relatório dos Repórteres Sem Fronteiras, publicado no ano passado, apenas diz o que é sabido desde muito tempo acerca da propriedade dos meios de comunicação no país. "As características do mecanismo geral de funcionamento da mídia estorvam a livre circulação da informação e impedem o pluralismo. Dez grandes grupos econômicos, correspondentes a outras tantas famílias, dividem entre si o mercado da comunicação de massas", constata o relatório. Estas famílias são os 30 Berlusconi brasileiros.

Qualquer tentativa de debater criticamente essa estrutura é tachada como censura, numa jogada desses grupos para manter seus privilégios. São grupos econômicos bastante lucrativos, inclusive por meio de contratos de publicidade oficial. E não sejamos ingênuos, seus controladores têm posição política e classe social. Liberdade de comunicação é precisamente o que essa estrutura monopolista impede. O poder de informar a sociedade não pode ser propriedade de 30 famílias.

Mas, se o PT sequer questionou essa estrutura de privilégios, por que tanto ódio ao petismo? Eis a questão. Algo leva a crer que seja pelos mesmos motivos que, mesmo com lucros recordes dos bancos, a Bolsa sobe quando Dilma cai.

A elite brasileira, nas finanças ou na mídia, não aceita concessões. Por menores que sejam. São intolerantes mesmo às mudanças de menor impacto e menos ofensivas a seus interesses. Resta algo do espírito da casa grande: ódio aos pobres, aos nordestinos, aos negros. Não suportam ascensão social, mesmo quando isso reforça sua posição no topo. Querem exclusividade no aeroporto, na universidade e no poder político.

E, não menos importante, querem Armínio Fraga como ministro da Fazenda. Compreensível. Fosse eu banqueiro ou magnata também iria querer.

Por isso encaram a derrota do PT como a sua vitória. E naturalmente, tendo os meios de comunicação nas mãos, conseguiram produzir um sentimento que abarca também os de baixo. A corrupção caiu como uma luva na massificação do argumento.

O massacre que estamos vendo e veremos até o dia 26 revela a adesão em bloco da elite à candidatura de Aécio e sua aposta na polarização. Se ganharem, poderão consolidar uma onda conservadora no Brasil e na América Latina. Se perderem, podem ter que pagar pelo exagero da dose, já que polarização não é algo que possa se desmontar com a mesma facilidade com que se cria.

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Guilherme Boulos, 32, é formado em filosofia pela USP, professor de psicanálise e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Também atua na Frente de Resistência Urbana e é autor do livro “Por que Ocupamos: uma Introdução à Luta dos Sem-Teto”. Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo em 16/10/2014.

El lado de adentro

¿Qué diría? ¿Qué podría llegar a decir? Talvez lo de siempre. O no. Lo mismo pero no igual. Casi lo mismo, entonces. Pero no tanto. Un escritor es un tema y sus variaciones, dijo alguna vez Mario Vargas Llosa. Pero no es necesario recurrir a figuras tan importantes de la literatura latino-americana, para llegar adonde me parece que puedo querer llegar ahora.
Tal vez referencias más próximas, de esas que uno conoce personalmente, sean más adecuadas. Nunca me olvido de algo que le oí decir a Saraiva, un escritor paraibano, a respecto de por qué escribía: para decir lo que quiero. Lo que se me da la gana. Esta es una de las ventajas del lenguaje directo: todos lo entendemos. No hay dudas de qué está queriendo decir. Está queriendo decir lo que dijo, y punto.
Hace ya muchos años que tomé este camino de venir a la hoja, de decir lo que pienso, lo que voy viendo, lo que voy viviendo. Así fui recuperando mi lado de adentro, seriamente amenazado por la invasión de nociones externas no solamente sobre cómo debería escribir, qué debería escribir (las reglas que pululan en la llamada comunidad científica) sino, mucho peor; qué debería ser yo, o quién era yo.
Esta invasón externa me estaba matando. Yo no era yo mismo, era algo o alguien que habia aprendido a creer que era, pero que no era. Yo no era eso. Entonces, por sugestión de María, mi esposa, me puse a escribir. Escribir. Escribir y escribir, y no paré más. Era el año de 2001. Empecé a venir en la hoja, y a venir cada vez más, y a encontrar en las personas que me leían, señales de que algo estaba ocurriendo.
Algo importante: yo estaba volviendo, y había, hay un lugar para mí allí, en ese mundo externo donde hay gente que también se busca, gente que viene trabajando para ser ella misma, como yo. Así fui encontrando espacio en algunos medios electrónicos, lo cual fué fortaleciendo mi confianza de que estaba en el camino correcto. Un lugar compartido.
Espacios dialógicos. Varios de estos medios digitales fueron cerrándose, o tranformándose en otro tipo de espacios, ya no tan abiertos, y me fui quedando con menos espacios. Menos espacio. Menos lugares donde publicar, pero más claridad sobre lo que estaba haciendo. Tal vez termine por publicar solamente en mis propios blogs, como tanta gente ya lo viene haciendo. Pero por ahora todavá sigo apostando en lugares colectivos.
Lugares compartidos con gente que piensa diferente. Tengo una profunda aversión al sectarismo, no importa cual sea. Creo que lo humano es el dato básico de mi vida, el eje que me orienta. Y lo humano es diverso y contradictorio, plural. Así que no hay más remedio que seguir insistiendo sobre lo mismo. Seguir poniéndome en el papel y soltando las hojas al viento, como lo vengo haciendo.
Aquí y allí alguien me hace saber de sus sentires al leer lo que escribo, y esto va construyendo como que una escalera que nos aproxima. No es poco lo que debo a estas devoluciones que he recibido. Sin ellas, esto no estaría siendo escrito. Así como yo he ido encontrando mi lado de adentro, otras personas también lo han encontrado, lo siguen encontrando y buscando. El proceso es infinito. Tiene la duración de la vida. Así que es esto lo que quería decir. Y como ya lo dije, es hasta aquí que llegan estas líneas.

Por trás da disputa política, a força das teles


De olho no financiamento eleitoral, PMDB defende interesse das Teles no Marco Civil da Internet e se une à oposição para derrotar governo; projeto coletivo pode ficar desfigurado
No dia 6 de novembro do ano passado, a bancada do PMDB, segunda maior da Câmara, se reuniu no Congresso Nacional para ouvir com exclusividade o que Eduardo Levy, diretor executivo do Sindicato das Empresas de Telefonia (Sinditelebrasil), tinha a falar contra o projeto do Marco Civil da Internet, que já naquela época trancava a pauta da casa. Uma didática exposição concentrava as principais críticas sobre a tão falada neutralidade da rede e defendia a desnecessidade de um projeto sobre o assunto.
Diante das informações prestadas, o deputado Fábio Trad (PMDB-MS) levantou a mão. “A pergunta que eu faço ao Levy é a seguinte: se hoje nós temos uma desigualdade, afinal de contas todos pagam em tese o mesmo por serviços diferentes, existe algum estudo que demonstre prejuízo financeiro às empresas, às Teles, por exemplo, em virtude dessa igualdade diante de serviços diferentes?”
A resposta veio em seguida. “Não é que o projeto provoque prejuízo às Teles. O que está em jogo ai é que o projeto provoca uma necessidade de investimento maior para manter o nível de serviço igualitário, que acarretará, ao fim, no aumento do custo para o usuário”, afirmou um convicto Eduardo. Não o Levy, como seria de se esperar, mas Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara, e apontado como o mais ferrenho defensor dos interesses das empresas de Telefonia nessa questão.
O objetivo da palestra de Levy era municiar os deputados peemedebistas para o debate que ocorreria naquele mesmo dia, à tarde, também convocado por Cunha, com a Comissão do Marco Civil. O encontro entre a bancada e o representante das Teles, disponível no Youtube, demonstra bem o grau de confusão de interesses na bancada do Marco Civil da Internet, que se agravou com a disputa política entre PMDB e o governo Dilma durante a votação do projeto neste ano, seguidamente adiada.
O Marco Civil, como o próprio nome diz, refere-se à criação de princípios básicos, uma espécie de Constituição de direitos e deveres fundamentais a serem seguidos no mundo digital. Trata-se de uma matéria que envolve interesses complexos e difíceis de serem equacionados. Algo que, por mais técnico que pareça, terá repercussão direta na sua sua vida e na dos 100 milhões de brasileiros conectados.
As regras a serem definidas no Marco Civil terão repercussão direta na vida dos brasileiros – não apenas dos já conectados na dos que ainda irão se conectar. Também afetarão instituições tão diversas quanto as próprias empresas de Telecomunicação, como Oi, Telefônica ou Tim; os provedores de conteúdo, entre eles Google, Facebook; a sociedade civil organizada; a Polícia Federal e o Ministério Público; e até mesmo as relações internacionais do governo Dilma Rousseff.
O histórico da lei da internet, feita pela internet
O projeto que está para ser votado, e que corre o risco de ser desfigurado no Congresso, é resultado da mobilização da sociedade e de um processo democrático acompanhado de perto pela pesquisadora Juliana Nolasco, da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Ela trabalhou no Ministério da Cultura, que participou do início do processo de elaboração do Marco Civil, e atualmente, já fora do governo, finaliza uma dissertação de mestrado sobre o tema. Para nos guiar ao longo dessa reportagem, ela destacou alguns momentos-chave da discussão.
O primeiro aconteceu em 2007. Na época, o então senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) reuniu propostas em torno de um projeto de lei que previa uma série de crimes em informática. A opção do legislador era, portanto, iniciar a regulamentação da Internet por meio da criminalização de condutas.
“O Brasil tem uma tradição de regular primeiro o crime. Para se ter uma ideia, a primeira lei brasileira que tratou sobre direito autoral foi o Código Penal do Império”, diz Ronaldo Lemos, professor de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio e do Creative Commons Brasil.
Lemos, uma figura emblemática em todo esse processo, foi o primeiro no Brasil a defender a regulamentação civil, antes da penal, no universo digital. Ainda em 2007, publicou um artigo intitulado “A internet brasileira precisa de um Marco Civil”, no qual defendia que antes de criminalizar condutas, seria necessário elaborar um texto de princípios, o que nos Estados Unidos é chamado de “bill of rights”.
O projeto de Azeredo continuou na pauta nos anos seguintes. Em 2009 já havia sido aprovado por uma série de Comissões da Câmara e estava pronto para ser ser votado em plenário.
Ativistas da internet, encabeçados pelo sociólogo Sérgio Amadeu e pelo publicitário João Carlos Caribé, iniciaram uma ampla campanha contrária ao projeto, convocando reuniões e abrindo o debate na rede. O Projeto Azeredo, que defendia penas de até 4 anos de prisão por condutas genéricas, como invasão de sites (cuja interpretação poderia até mesmo penalizar alguém que copia o texto de um site e reproduz e seu blog), ganhava ali a pecha de “AI-5 digital”, em referência ao ato institucional da governo militar que, em 1968, suspendeu direitos constitucionais e endureceu de vez o regime ditatorial que havia se instalado em 1964.
A campanha chamou a atenção do governo e a tramitação foi momentaneamente paralisada na Câmara. No meio de 2009, o então chefe de gabinete adjunto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Cezar Alvarez, convidou um grupo formado por estudiosos e ativistas da rede, como Marcelo Branco, por exemplo, assim como defensores da Lei Azeredo, entre eles representantes da Polícia Federal, para conversar sobre o assunto. “Ele [Alvarez] nos disse que o projeto estava parado, mas o governo precisava de uma alternativa. Foi então que defendemos a necessidade do Marco Civil”, conta Lemos, que também participou da reunião.
Alvarez comprou a ideia e a vendeu para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pouco tempo depois, no final de junho de 2009, Lula foi a Porto Alegre participar do Fórum Internacional do Software Livre e, em discurso simbólico, defendeu que, em seu governo, seria “proibido proibir”, instando, naquele mesmo pronunciamento, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, a elaborar um anteprojeto de lei a ser enviado ao Congresso.
Genro passou a bola para a equipe do então secretário de Assuntos Legislativos, Pedro Abramovay, jovem advogado que aos 28 anos chegou a assumir interinamente o Ministério da Justiça.
A primeira decisão de Abramovay foi elaborar o texto de forma colaborativa. Ele convidou Lemos, na época ainda na FGV-Rio (Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro), que ficou responsável por montar uma plataforma digital, hospedada no culturadigital.br, possibilitando a participação de todos os atores interessados no tema.“Decidimos que o melhor caminho seria escrever a lei da internet pela internet”, conta Lemos.
E assim foi feita a lei. Um primeiro texto foi apresentado em 2010, e depois de mais 2 mil contribuições de atores tão diversos quanto Google, Polícia e ativistas de software livre, o projeto ficou pronto em 2011 para ser enviado ao Congresso. Essencialmente, o texto final reafirmava que a internet é um espaço livre, onde prevalece a liberdade de expressão, a liberdade de acesso à informação, garantindo a privacidade dos seus usuários, cujos dados só podem ser expostos por meio de autorização Judicial.
“É uma história curiosa, porque quem participou do debate está junto nesse processo, desde a Polícia Federal até os provedores de internet. Essa aliança que apoia o texto do Marco Civil é improvável e foi forjada graças às conversas”, lembra Abramovay. ”No começo, as posições do Google, Uol e do pessoal de software livre eram muito diferentes. Mas conseguiram se juntar, porque viram que tinham vários interesses em comum”.
Molon: buscando consenso
O anteprojeto de lei chegou ao Congresso em 2011 e uma comissão especial foi montada para analisar o caso. Como relator foi escolhido o deputado Alessandro Molon (PT-RJ), jovem professor de história que ganhou popularidade na comunidade católica carioca com um programa chamado “Deus é dez” e entrou para política com bandeiras ligadas aos direitos humanos.
O assunto na época não estava entre as prioridades do governo Dilma Rousseff, ocupada em lidar com as primeiras dificuldades com sua base de apoio no Congresso. Molon decidiu continuar o diálogo com a sociedade e reabriu os debates, promovendo sete audiências públicas e seminários, que reuniu 62 palestrantes de dezenas de instituições das mais diversas áreas. As sugestões para o texto também vieram por meio de redes sociais como o Twitter.
“O que o Molon fez foi muito legal. Ele não abriu para a sociedade como se estivesse fazendo outro processo. Ele reconheceu o processo anterior e continuou a conversa”, diz Abramovay.
Desde o início, porém, o deputado percebeu que empresas de telecomunicação, com forte presença no Congresso, institucionalmente representadas pelo Sinditelebrasil, dirigido por Eduardo Levy – aquele da palestra para a bancada do PMDB – eram contra a elaboração de um projeto, ainda mais se ele defendesse a neutralidade da rede como princípio.
A neutralidade garante igualdade de acesso aos conteúdos da internet para todos os usuários, impedindo as teles de oferecer pacotes diferentes conforme o valor pago. O que as empresas querem é exatamente o oposto: poder cobrar por um serviço apenas de vídeo, ou apenas de texto, ou mesmo diferentes velocidades a depender do tipo de conteúdo acessado, estabelecendo preços diferentes. O argumento é que, ao possibilitar que o usuário escolha o pacote que quer, o serviço é prestado de forma mais barata e mais efetiva.
Consciente da oposição de interesses, Molon tentou construir um projeto que obtivesse o apoio dos mais diversos partidos, mesmo que isso significasse fazer algumas modificações. Para agradar o DEM e o PSDB, por exemplo, que continuavam a defender a questão criminal em aliança com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, inseriu um artigo que obriga os provedores de conteúdo a guardar por 6 meses todos os logs, registrando o que cada Endereço IP — identificação de cada computador em uma rede — acessou na Internet.
Isso que desagradou outros interlocutores. A guarda das informações, por exemplo, foi criticada pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor): “há um problema a ser atacado no último relatório do Marco Civil. O artigo 16, que prevê a guarda obrigatória dos registros do que o usuário acessou na Internet, mesmo sem qualquer conduta suspeita, é uma afronta à privacidade. Essa obrigação reforma a postura de vigilância em massa que o Estado brasileiro deveria combater, não reproduzir”.
Além disso, especialistas afirmam que tal medida poderá inibir a existência de sites que permitem o vazamento de informações relevantes ao público, como faz a organização Wikileaks.
Molon diz que as críticas não têm fundamento. Segundo ele, as empresas que guardam o acesso aos sites não possuem forma de saber informações sobre determinados IPs — que só podem ser identificados pelos provedores de serviços (Teles). “A lei, no entanto, proíbe que um fale com outro, ou seja, quem tem a informação dos sites acessados não sabe quem os acessou e quem tem a informação sobre o usuário não sabe que o que ele acessa. A menos que tenha uma ordem judicial”, explica o deputado.
Efeito Snowden
Polêmicas à parte, o processo corria em ritmo lento na Câmara. A Internet ainda não estava na pauta do dia nem do governo, nem do Congresso. Só assuntos externos atraíam a atenção para essa discussão, como o vazamentos de fotos íntimas da atriz Carolina Dieckmann, em 2012, após uma invasão de seu computador, reforçando os que defendiam a criminalização do condutas na internet. Assim, a Lei Azeredo voltou tramitar. A mobilização contra ela persistiu e o deputado Paulo Teixeira apresentou uma versão substitutiva. O novo texto (Lei Carolina Dieckmann), que acabou sendo aprovado e já está em vigor, foi aprovado sem pelos menos 10 artigos que constavam na antiga lei, esvaziando exatamente os pontos que eram alvo de críticas.
Mas o fator que mudou definitivamente os rumos do Marco Civil ainda estava por vir. A partir de junho de 2013, o ex-agente da Agência de Segurança Nacional (NSA – sigla em inglês) dos Estados Unidos, Edward Snowden, passou a revelar, por intermédio do jornalista Glenn Greenwald, que mora no Rio de Janeiro, e da documentarista Laura Poitras, diversos documentos que demonstravam as dimensões espetaculares de um monitoramento cibernético ilegal promovido pelos americanos contra cidadãos, que também envolviam a quebra de privacidades de outros governos, entre eles do Brasil.
A papelada divulgada em outubro mostrava que a NSA monitorou ilegalmente emails de empresas brasileiras e de outros países, além de correspondências dos próprios chefes de Estado. Entre eles, Dilma Rousseff.
A presidente brasileira reagiu publicamente. Cancelou uma visita oficial que faria a Barack Obama e dias depois, na abertura da Assembleia Geral da ONU, fez um duro discurso, criticando a espionagem promovida pelos Estados Unidos e defendendo uma regulamentação internacional sobre o tema.
O Marco Civil ganhou relevância e o governo brasileiro passou a aspirar uma projeção internacional, liderando a regulamentação sobre o assunto. Ganhou um novo trunfo ao ver o Brasil ser escolhido como sede da Reunião Multissetorial Global Sobre o Futuro da Governança da Internet, marcada para os dias 23 e 24 de abril em São Paulo. A questão passou a ser o que mostrar no encontro que terá a participação de ministros de mais de 20 países, além de acadêmicos e representantes da sociedade civil, com o intuito de começar a construir essa regulamentação internacional.
A partir de outubro de 2013, o Marco Civil começou a tramitar em regime de urgência na Câmara a pedido da própria Dilma Rousseff, que passou a fazer exigências a Molon e realizar seguidos e longos encontros com ele no Palácio do Planalto. Um dos pedidos feitos por ela foi inserir no projeto um artigo que obrigasse os grandes provedores de conteúdo a construir data centers [central de dados] no Brasil, como uma forma de garantir a privacidade das informações que transitam por aqui.
A medida, um tanto polêmica, desagradou os provedores, como Google ou Facebook, e foi criticada inclusive por especialistas da área. Dificilmente será aprovada e já existe consenso dentro da Câmara de que seja analisada separadamente do texto principal.
Quem melhor explica a inconveniência da medida é o próprio Ronaldo Lemos: “Apesar de ser bem intencionada a medida é pouco eficaz e pode, além de encarecer a internet no Brasil, afastar grandes empresas do país. Um data center é como um grande armazém. Se ele está no meio de grandes rodovias, com várias pistas e muito tráfego, faz sentido construí-lo, mas se está em uma pequena estrada, o máximo que vai fazer é atrapalhar o trânsito”, diz. “Uma coisa é construir a infra-estrutura de rede e atrair data centers para o Brasil, a outra é criar uma obrigação”.
O poder das teles
Dentro do Congresso, porém, essa é uma questão menor. O que pegou mesmo foi o fato de Dilma ter encampado a neutralidade da rede como um princípio a ser defendido por seu governo.
Diante disso, as Teles começaram a agir. Multiplicaram-se as reuniões e conversas reservadas entre deputados e representantes das empresas, a fim de convencê-los a não aprovar o projeto. O encontro do dia 6 de novembro é apenas um exemplo.
O descontentamento foi reverberado dentro do Congresso por uma figura central, exatamente o líder peemedebista Eduardo Cunha, que tem relação histórica no setor. Ele foi presidente da Telerj, então estatal do Rio de Janeiro, que fazia parte do sistema Telebrás, privatizado no final dos anos 90. Processo licitatório, por sinal, que ficou marcado por fortes suspeitas de um esquema para direcionar o resultado a um consórcio liderado pelo Banco Opportunity, de Daniel Dantas.
Na ocasião, a Telerj foi adquirida pela Telemar e posteriormente virou a Oi, empresa que, hoje, tem presença constante no Congresso Nacional. Durante a tramitação do Marco Civil, seus gerentes trabalharam em conjunto com o sindicato representativo das empresas na tentativa de derruba-lo.
Nos bastidores do Congresso, deputados e seus assessores chegaram a comentar, reservadamente, que a atuação da Oi é uma das mais evidentes contra o Marco Civil. Parlamentares passam a falar, por exemplo, que uma votação favorável ao texto do Marco Civil poderia colocar em risco possíveis doações de campanha para as eleições deste ano.
As principais teles não podem doar, por serem concessionárias de um serviço público, mas empresas ligadas a elas são sim grandes doadores. A Oi é o melhor exemplo. Entre seus acionistas está, além de fundos estatais como BNDESPar, Previ e Funcef, a Andrade Gutierrez (representada pela AG Telecom), umas das empreiteiras que mais faz doação de campanha (veja aqui a composição societária da Oi).
Para se ter uma ideia dos valores envolvidos, a construtora doou para campanhas do PMDB de Eduardo Cunha um total de R$ 20,6 milhões e R$ 14,8 milhões em 2010 e 2012, respectivamente, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Diante de tal movimentação, a presidente acionou dois ministros para negociar diretamente com as Teles e tentar chegar a um acordo: José Eduardo Cardozo (Justiça) e Ideli Salvatti (Relações Institucionais). Pouco antes do carnaval, eles se reuniram com Molon e representantes das empresas no Ministério da Justiça. Saíram de lá com um discurso que parecia caminhar para um acordo. As Teles abririam mão da neutralidade, mas o governo inseriria na justificativa do projeto de lei uma observação dizendo que as empresas poderiam continuar oferecendo planos com velocidades diferentes, sem diferenciar o conteúdo mas garantindo a manutenção do que já existe.
Tudo parecia certo até que a crise política se instalou.
Marco Civil em segundo plano
“Infelizmente, o Marco Civil virou acessório. A questão agora é governo contra o PMDB”, resume Pedro Abramovay.
Insatisfeitos com o que consideram um pequeno espaço no governo, ao menos 9 partidos da base (PMDB, PP, PSD, PDT, entre outros) formaram informalmente o “blocão”, com mais de 250 deputados, pressionando por novos Ministérios e pela liberação de emendas indicadas por eles referentes ao ano de 2013.
A principal liderança do blocão é exatamente Eduardo Cunha, que de três semanas para cá passou a atacar o PT e a presidente Dilma, ameaçando inclusive romper a aliança entre os partidos. Disposto a promover derrotas ao governo, começou a reunir colegas para derrubar o Marco Civil. Fatores políticos, portanto, passaram a reforçar sua posição tecnicamente contrária ao projeto.
A articulação colocou em risco o que havia de consenso em torno do assunto. Partidos de oposição que eram favoráveis ao Marco Civil, como o PSDB e DEM, passam a vê-lo de forma política também. Afinal, derrotar a presidente Dilma no que lhe é de mais caro, em ano eleitoral, passou a ser mais interessante.
Com a crise política instaurada, as chances de derrota ainda são altas, mesmo com concessões feitas pelo governo, como a promessa de nomeação de peemedebistas para Ministérios.
Semanalmente, o projeto é pautado para ser votado, mas sem a certeza de que irá passar o governo dá um passo atrás e adia. Na semana passada, após uma reunião de líderes, Molon afirmou que “ambiente político”não está propício para a análise do tema. Naquele mesmo dia, o plenário da Câmara aprovou a criação de uma comissão interna para investigar a Petrobrás, derrotando o Planalto. No dia seguinte, deputados decidiram convocar ou convidar dez ministros, além de Graça Foster, presidente da empresa, para prestarem esclarecimentos sobre mais diversos assuntos, com a intenção de constranger o governo.
Nesta semana, Eduardo Cunha chegou a ir até o Palácio do Planalto na tentativa de iniciar um acordo. O impasse continua.
Diante da possibilidade de uma derrota, a sociedade civil voltou a se mobilizar. O músico e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil criou uma petição no site Avaaz alertando para os riscos do fim da neutralidade e, em uma semana, conseguiu mais de 330 mil assinaturas.
A insensibilidade do Congresso diante da demanda social por liberdade na internet frustra as expectativas de quem participou do processo de criação do Marco Civil desde o começo. “A mensagem que o Congresso passa é de descompromisso. De que não existe um plano sobre onde queremos chegar. Muito triste ver o Congresso capturado por uma agenda de curtíssimo prazo, casuística, deixando a agenda de longo prazo para escanteio”, avalia Lemos.
Fonte: Agência Pública

Pavlov y el control remoto

Gustavo Gorriti

Hace unos días un periodista joven me pidió una carta de recomendación para postular a un seminario en el extranjero cuyo contenido era, sin duda, muy útil profesionalmente.

Como el periodista al que me refiero es talentoso, y lo motiva un empeño constante por mejorar en su trabajo, me puse a redactar la carta. Toda buena carta de recomendación debe escribirse –si se quiere ser eficaz– con la mayor sinceridad posible. Por eso suele ser difícil. Hay quienes las convierten en un ejercicio diplomático con tantas vueltas, curvas, volutas y requiebres que las palabras pierden su significado. Terminan siendo inútiles y yermas o, lo que es peor, perversas, insinuando una equívoca criptografía en el mensaje.

Así que, si uno la hace, hay que escribirla, como está dicho, con la sinceridad que la hace eficaz. Claro está que los resultados de la eficacia no son siempre los esperados, pero así son los azares de las candidaturas, ¿verdad?

En este caso, el periodista recomendado tenía una característica insoslayable en su labor: trabaja para un noticiero de televisión de señal abierta.

Había, por supuesto, que incluir ese detalle. Así que escribí que el periodista era, ya lo sabemos, joven y talentoso. Eso funciona; lo contrario, no. Escribir que alguien es viejo y talentoso es como darle el beso de la muerte a su candidatura. Es injusto, ya lo sé, pero así es. Cuando dices talentoso, dices promesa; ¿y por qué un viejo no puede ser una promesa? Con el paso de los años el tema se me hace cada vez más caro, pero seguir con él sería perderse en una digresión, así que aquí lo dejo.

Seguí escribiendo sobre las muy recomendables cualidades profesionales y personales del periodista y mencioné los reconocimientos que ya había logrado. Pero añadí que un punto especial de consideración para el jurado debería ser que ese periodista trataba de realizar un trabajo honesto y de calidad en una de las compañías de televisión de señal abierta, lo cual era terriblemente difícil porque los principios periodísticos de estas compañías televisivas (específicamente las de señal abierta) son profundamente corruptos. Un trabajo comparable, dije, sería el de un nutricionista que se esfuerza en preparar y distribuir alimentación saludable dentro de una desenfrenada corporación de comida chatarra. Algunos de los productores de esas estaciones, y sus dueños por supuesto, harían que Rupert Murdoch pareciera, en comparación, la Madre Teresa del periodismo.

Es digno de apoyo tratar de hacer buen periodismo, seguí, en medio de una caterva de colegas hiperventilados e hipoeducados ocupados en exprimir hasta la última gota de morbo de la diaria cosecha de sangre, barro, vísceras, llanto y miserias que produce la ciudad, sin ninguna otra noción de contexto o respeto que no sea la del rating.

Le envié la recomendación al recomendado y su respuesta fue muy interesante. “Comparto mucho de lo que comentas” escribió. “Esa es una discusión que he tenido con jefes y directores durante años, y la mayoría son conscientes de ello. Lamentablemente, cada vez que nos hemos propuesto prescindir del morbo para enriquecer los contenidos, hemos perdido audiencia. Suena a la excusa de siempre, pero no hay un broadcaster en la televisión abierta que aguante ir a pérdida durante el tiempo que le demore a los televidentes valorar con su sintonía el esfuerzo del buen periodismo. Hoy, el gran director de prensa de la televisión peruana es el control remoto”.

La cita es larga, pero se justifica hacerla. Se trata, como ven, del discurso de una persona inteligente sobre la necesidad de hacer las paces, mediante una capitulación razonada, con las realidades menos agradables de la vida.

Cuando leemos la intervención famosa de Gabriel García Márquez en la asamblea de la SIP en 1996, en la que describió al periodismo escrito como “el mejor oficio del mundo”, vemos lo que requería lograr ser artesano (aprendiz, oficial o maestro) en el oficio sin par.

Había que tener una avidez sin saciedad posible por aprender, leer y leer. Ello suponía ser un autodidacta perpetuo y sin pausa y suponía también tener y usar los tres recursos indispensables del oficio: la libreta de notas (es decir, la memoria en notas organizadas, la biblioteca de la vida intensa), un “par de oídos… para oír lo que nos decían” y “una ética a toda prueba”.

“La lealtad fundamental de todo periodista no es con el dueño del medio, ni con su director, sino con el derecho de la gente a la información de calidad”.

García Márquez no lo dijo en esa ocasión, pero tanto él como los grandes periodistas que nos enseñaron la nobleza esencial de nuestro oficio tuvieron siempre claro que nuestro mayor deber, nuestra misión fundamental es llevarle a la gente la verdad de los hechos de importancia para sus vidas y su libertad. Porque la información de calidad es la base de todo poder, de manera que cumplir nuestra misión significa lograr ciudadanos capaces, bien informados, con el poder de fiscalizar acertadamente a quienes han delegado el manejo de sus bienes y destino colectivos. Por eso, la lealtad fundamental de todo periodista no es con el dueño del medio, ni con su director, sino con la gente y su derecho a la información de calidad.

Pero si un periodista se convierte en un instrumento de marketing (o en el plumario de quien le paga), y practica el periodismo chatarra (por llamarlo caritativamente) porque, supuestamente eso es lo que quiere la gente. Y si participa en los cotidianos operativos de condicionamiento conductual de la teleaudiencia, dándoles cada vez más morbo y mierda, y convirtiendo eso en un supuesto disfrute no solo vacío sino crecientemente humillante (porque ya quiero ver el día en el que se haga una cobertura siquiera parecida en lo impúdicamente morbosa sobre cualquier azar o desgracia que le caiga a la pareja o los padres o los hijos de los dueños o avisadores de los medios); y si luego de hacer ese condicionamiento bajo los mejores preceptos de la escuela L. Bozzo, de sonar y sonar la campana para que salive el perro pavloviano, convertimos la campana en un control remoto, ¿diremos que el perro se hizo cargo de su destino?, ¿diremos que la gente se hizo directora y dueña del medio en lugar de lo que es, víctima de los grupos cínicos e hipócritas que los condicionan para manejar contenidos y avisaje? ¿Y nosotros, periodistas, nos prestamos a ser parte de eso?

¿Recuerdan quién fue el que terminó su memorable discurso de renuncia al trabajo en el periódico al que dio nombre y fama, diciendo que “… no puedo ser el único a quien asquea el pensamiento de lo que hoy se presenta como noticia”? ¿No? Fue Clark Kent. Y aunque los periodistas no tenemos todos sus poderes, hay muchos que se cultivan y crecen cuando uno mantiene la capacidad de indignarse junto con la de reportear.

Fuente: IDL-Reporteros

http://idl-reporteros.pe/2013/10/10/columna-de-reporteros-151/

A comunicação popular e a soberania popular

Elaine Tavares

Em Curitiba, o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), mais o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Curitiba – Sismuc, Levante Popular da Juventude, SINPAF – Floresta, Rede de Educação Cidadã – Recid, Jornal Brasil de Fato, Central Única dos Trabalhadores – CUT e Sindicato dos Empregados em Estabelecimento Bancários de Curitiba e Região cumpriram a difícil tarefa de reunir jornalistas e comunicadores populares no II Encontro de Comunicação Popular do Paraná. Esforço gigantesco num tempo em que as pessoas estão mais ocupadas em teclar no face, em vez de realizar discussões em profundidade. Ainda assim, o trabalho desse grupo aguerrido vai rendendo frutos.

O segundo encontro trouxe debates importantes como a regulação da mídia, a conjuntura das lutas sociais e as alternativas que a comunicação popular consegue apresentar em várias partes do país. Reuniu uma gente ávida de conhecimento que se dividiu em oficinas específicas, mas que também apontou o caminho árduo do estudo sistemático de textos clássicos, de autores fundadores do bom jornalismo, tais como Adelmo Genro, Antônio Olinto, Marcos Faerman, Ludovico Silva e outros, esquecidos pelas escolas e pelos colegas.

Durante a atividade pudemos conversar sobre a comunicação popular, os desafios que temos em produzir jornalismo que seja conhecimento e a necessidade de avançar para o debate de soberania, seja no ponto de vista político, econômico ou comunicacional. Apontar para o novo, dialeticamente. Segue o conteúdo da fala que fiz:

“Eu estive aqui no ano passado e disse algumas coisas que entendo sigam bem atuais. A primeira delas é que a comunicação popular/comunitária/libertadora precisa superar a posição de resistência. Avançar para o novo, ser capaz de pavimentar outra práxis. Vejamos: qual é o alcance dos nossos veículos populares na relação com os meios de comunicação de massa comerciais? Então, trinta segundos no jornal das sete horas, na TV local, conseguem fazer a cabeça de milhões de pessoas em um mesmo instante. Número esse que não atingimos com nossos espaços de comunicação popular. E ainda que fiquemos por dias e meses falando num tema nos nossos jornais comunitários, sindicais ou rádios comunitárias, o nosso discurso é quebrado sem dó nem piedade pelos meios massivos, nos mesmos 30 segundos. Sequer somos uma alternativa para a maioria da população.

Dou um exemplo simples: a ação dos black bloc. Como podemos, com nossos veículos vencer a visão ideologizada que os meios disseminam de que essa gente é “vândala”? E, se, muitas vezes, até mesmos nossos companheiros demonizam a ação desse grupo, como vamos desconstruir o discurso edificado sobre os chamados “vândalos”, ou “baderneiros” ou “bandidos”, como a mídia diz. Um discurso no qual estão também incluídos os sindicalistas, os lutadores sociais, gente como nós. Basta que a gente comece a radicalizar a luta, sair da “ordem”, do “trilho democrático”. Pois, qual a eficácia do nosso trabalho diante da violenta massificação de uma ideia só? Por isso digo que o trabalho que fazemos tem de dar um salto de qualidade. Ele é, ou deveria ser, uma outra proposta, radical e diferente da que vemos na mídia comercial. Outra lógica, outra episteme. Pavimento para outro mundo, outra sociedade. Bueno, mas como fazer? Vamos apontar algumas veredas…

Proponho a vocês agora um exercício de perguntatória. Vivemos num país capitalista, dependente. Ou seja, somos a periferia do sistema, embora em alguns setores apresentemos aparência de “primeiro mundo”. Isso é maya, ilusão. Somos dependentes. Exportamos grãos, minérios, matéria prima. Importamos tecnologia. Nossa indústria está focada em nichos bem específicos. O abismo entre as classes é imenso. Logo, somos periferia. Então: Se nossa classe dominante escolheu ser associada menor dentro do sistema capitalista, acreditam vocês que há algum interesse em “democratizar” a comunicação? E o que queremos dizer com democratização? Seria melhorar o que aí está? Dar um pouco mais de espaço para os negros, as mulheres, os homossexuais, os movimentos sociais? Isso significa que se a Globo colocar mais negros, mulheres, pessoas com deficiência, índios e sindicatos na programação, está muito bem? Que me dizem? Pensem!

A questão que ponho para debate é bastante simples: nossa luta, como comunicadores, só tem sentido se visarmos a queda do oligopólio da informação. Cada jornal sindical, cada panfleto, vídeo, rádio comunitária preciso fazer sistematicamente esse trabalho de informação sobre o que significa para um povo ser informado por um conglomerado que detém todos os meios para si. No caso do Brasil, conforme o sítio “Os donos da mídia”, são de seis a 11 grupos ou famílias que ditam as regras. Depois vem mais uns poucos milhares de subordinados que reproduzem o mesmo discurso nos seus estados ou municípios. Quase 70% dos caras que fazem as leis nesse país são donos de algum meio de comunicação. Então, tudo está ligado. Existe um grupo que manda e é esse grupo que decido o que vamos ouvir ver, ler. Isso sim é uma ditadura. Temos de ter o compromisso de denunciar a desvelar isso todos os dias. Mostrar que, sim, vez em quando esse oligopólio faz uma novela com o negro como protagonista, ou coloca um cara bonito fazendo um comunista. Mas, no final, o negro reproduz as mesmas misérias do mundo branco, rendendo-se à ordem capitalista, e o comunista, no final, se “arrepende” e vira um moço comportado. Ou seja. Não basta ter negro na TV se ele reproduzir o modo de vida do branco. Não basta ter mais índio na TV, não quando ele faz o papel de um serviçal sem voz, ou uma figura exótica como a linda Cléo Pires. Não basta ver comunistas, sindicalistas ou lutadores sociais na TV, essa grande usina ideológica, se eles acabam sempre acomodando-se à via social democrata, reproduzindo e reforçando o discurso da elite dominante. Essa “democracia” não deve ser a nossa meta.

Tem aquele conto moralista do cara que diz: não podemos dar o peixe, temos de ensinar a pescar. Pois há quem vá mais longe nesse discurso moralista. Nem dar o peixe, nem ensinar a pescar, mas, juntos, em luta coletiva, conquistar o lago. Esse é o assunto. Conquistar o lago, destruir o oligopólio.

Nesse sentido, nosso trabalho é caminhar para a conquista dos meios massivos. Isso pode parecer uma coisa meio fora da casinha, mas não é. Significa que temos de tomar a decisão, a difícil decisão de fazer uma luta mais articulada e mais arriscada. Porque às vezes, pode ficar cômodo, ficar na periferia do problema, fazendo jornal, rádio ou vídeo, financiado até por algumas fundações estrangeiras, dos mesmos países que reforçam nossa condição de dependentes. Pode parecer suficiente que distribuamos alguns jornais, gravemos alguns vídeos, contemos algumas boas histórias. Mas, isso não é suficiente. Isso apenas amansa o monstro.

Não defendo que a comunicação seja o estandarte da revolução. Defendo que os que fazem comunicação popular e comunitária sejam mais ousados no enfrentamento das lutas gerais. Fazer o trabalho de resistência, mas subir um passo na compreensão de que o que precisa mudar é o tipo de estado que temos. E isso é algo que temos de ter dentro de nós, de cada um. De verdade. Senão tudo isso vira apenas uma musculação de consciência. Aquela conversinha de “ajudar os pobres”, ou “dar voz aos que não tem voz”. Os pobres não precisam de nossa comiseração e têm sua própria voz. O que deve ser nossa ação no mundo é o compromisso com mudar, de verdade, esse estado de coisas.

E aí vamos precisar de todo mundo. Principalmente dos sindicatos e dos movimentos sociais. Também eles precisam sair do discurso de gueto e começar a dialogar de verdade com a população. Uma rádio comunitária isolada não ajuda em nada. Há que estar articulada aos que lutam para transformar o mundo. E isso significa o nosso compromisso político para além do campo comunicacional. Temos de estar envolvidos com as lutas gerais, com a proposta de mudança, com a revolução. Pois afinal, só uma viragem total muda esse mundo. A disputa que travamos é desigual daí que temos de inventar. Ou inventamos ou morremos, dizia Simón Rodríguez.

Sobre a forma de dizer as coisas

Nosso trabalho como comunicadores ou jornalistas é noticiar. Falar de tal forma que toda a gente entenda, saindo do particularismo de um fato qualquer e garantindo àquele que lê, escuta ou vê a condição de compreender a universalidade do fato, como bem ensinou Adelmo Genro Filho. Narrar as coisas de tal forma que a pessoa compreenda a atmosfera toda na qual se deu o fato. As causas, as consequências, as forças envolvidas, os detalhes, o pano de fundo. É quase como se a notícia fosse uma espécie de análise de conjuntura em miniatura. E não importa o número de linhas. Temos de ter a capacidade de construir essa universalidade mesmo num texto de 20 linhas. Esse é o desafio do jornalista que precisamos ser.

Nossa trincheira é a palavra e ela tem de ser criadora. Não adianta fazermos comunicação comunitária/popular/transformadora usando as mesmas fórmulas alienantes que tanto criticamos. É, porque não criticamos a Folha apenas por sua posição política diante dos fatos. A própria forma de narrar é um elemento importante da política. Se eu conto um fato sem dar ao leitor a chance de vê-lo na sua inteireza, não faz diferença se somos a favor dos Sem Terra ou contra. Estaremos igualmente alienando e manipulando. Nossa forma de narrar tem de garantir ao leitor a possibilidade de entender o processo. E não estou falando aqui da fórmula liberal de mostrar os dois lados. Isso não existe, de novo é maya, ilusão. Nenhum fato tem dois lados. Existem muitos lados e nós temos de ter competência para narrá-los, percorrendo os fios da realidade, oferecendo chaves para que o leitor/espectador/ouvinte possa ele mesmo tecer a grande colcha da realidade.

Para isso precisamos estudar. E eu proponho a teoria marxista do jornalismo, de Adelmo Genro Filho. Do meu ponto de vista ninguém ainda conseguiu superá-lo. Mas sugiro a vocês um estudo sobre como fazer o jornalismo que ele anuncia. Não se ele citou bem a Hegel, ou se ele entendeu ou não a Habermas. Quero que vocês se fixem na proposta de narrativa. Como escrever, como contar uma história. Ele é brilhante. Ele é o novo! Não caiam nas armadilhas acadêmicas que buscam jogar luz em pontos que não interessam a ninguém. Como narrar, como fazer de um fato singular algo que transcenda para o universal. Ah, esse é o tesão! Essa é a revolução! Esse é o desafio.

Ludovico Silva

Outro teórico que deve entrar para o rol dos interesses dos jornalistas e comunicadores sociais é Ludovico Silva, um venezuelano que compreendeu muito bem como a televisão – e os meios em geral – agem na cabeça da gente. Ele percebeu que os meios são responsáveis por produzir na gente a mais-valia ideológica. Se o trabalho mal remunerado, se a superexploração tira de nós o que Marx chamou de mais-valia (que seria, ao fim, o lucro do patrão em cima do nosso esforço, o nosso trabalho excedente não remunerado), os meios de comunicação de massa, em especial a televisão, tiram a mais-valia ideológica. Assim, ele ultrapassa o conceito de indústria cultural, trazido pela escola de Frankfurt, e avança para o que define como indústria ideológica. Como assim? Ele mostra que a pessoa que está em casa, sentada diante da televisão, supostamente fora do mundo do trabalho, descansando, na verdade, segue enredada no mesmo processo de produção que já lhe extrai mais-valia. Diante da TV, bombardeado por anúncios de produtos, por programas que ditam moda e comportamento, a pessoa está colocada diante de uma consciência ideológica, portanto falsa, completamente ligada aos interesses do capital, permanecendo assim, de certa forma, escrava ideológica da burguesia e do capital. Logo, a indústria do grande capital não produz cultura, mas sim ideologia. E a televisão explora o homem como ser humano mesmo, e não como um produtor de força de trabalho. Invade sua consciência no mais profundo.

A leitura de Ludovico é fundamental para consolidar a compreensão da realidade daquilo que é produzido pela indústria ideológica, na qual os meios de comunicação ocupam papel importante. Entendido como essa indústria atua, nosso trabalho é desconstruir esse monstro para que os trabalhadores, os oprimidos, as gentes possam também entendê-lo e, desde aí, se colocar diante do que Marx chamou de consciência de classe. Ou seja. Ter claro o seu lugar no mundo do capital. Entender porque uma pessoa tem de ser explorada enquanto outra leva o lucro.

Óbvio que isso não é coisa fácil nem trabalho só da comunicação. Há que convencer nossos compas sindicalistas que têm tantos recursos na mão, como bem lembra o Vito Gianitti, mas que acabam também reproduzindo a mesma lógica dos meios. Mesma lógica, mesma linguagem, mesmo jeito de narrar. É certo que as mudanças tem de vir lentamente, muitas vezes usando as ferramentas dos inimigos porque, afinal, é o que as gentes conhecem, mas é necessário o compromisso com a mudança, senão acabaremos presos na armadilha ideológica.

Marx definiu muito bem o que é ideologia. Ela é o falseamento da realidade, ela esconde o real. Cabe a nós essa dura tarefa de tirar o véu, desvelar, revelar. Mas só poderemos fazer isso se também compreendermos todo esse processo. A partir daí cada ação nossa será feita com intenção, no plano da consciência crítica. E não no âmbito da consciência ingênua que é aquela que move as pessoas na abstrata intenção de “fazer o bem”, “ajudar os pobres”, ” dar voz aos sem voz”. Cada ação nossa será para desvelar a realidade e anunciar o mundo novo. Precisamos atuar na lógica da pedagogia da beleza, mostrando que um mundo em equilíbrio com a natureza, com as riquezas repartidas, trabalho coletivo e o fim da exploração é possível de existir e que cabe a todos nós construir.

Assim, nossa luta não deve ser reduzida a “democratizar” o que aí está, mas avançar para uma soberania comunicacional, dentro de um estado também soberano e destituído das amarras do capital”.

Fonte: ALAINET, América Latina em Movimento