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Soldados de Israel relatam ‘rotina de humilhação’ de palestinos

ONG acusou soldados israelenses de abusos na Cisjordânia. Foto: AFP via BBC

Guila Flint
De Tel Aviv para a BBC Brasil

Uma ONG israelense divulgou pela primeira vez os depoimentos de mulheres que serviram como soldados de Israel sobre a realidade nos territórios ocupados, denunciando uma “rotina de humilhação” a que são submetidos os palestinos nessas regiões.

A organização Breaking the Silence (“Quebrando o Silêncio”, em tradução livre), formada por reservistas israelenses, publicou os depoimentos escritos e gravados de 96 mulheres que serviram em batalhões de combate na Cisjordânia.

De acordo com elas, a prática de abusos e a humilhação de civis palestinos pelas tropas israelenses é “rotineira” e as soldados, querendo demonstrar que são tão capazes quanto os soldados homens, também participam de atos que são definidos pelo Exército como “inusitados”.

As ex-soldados descrevem cenas de espancamentos gratuitos de civis palestinos em pontos de checagem, de humilhação arbitrária e até de mortes de civis e falsificação dos fatos para encobrir atos ilegais das tropas.

Dana Golan, diretora da ONG, afirmou que “a sociedade israelense não quer pensar em nossas namoradas, filhas e irmãs participando ativamente na ocupação, exatamente como os soldados (homens)”. “Queremos acreditar que as soldados não são tão agressivas e não sujam as mãos, porém os depoimentos das mulheres provam que as soldados são tão corruptas quanto os homens e não poderia ser diferente”, acrescentou.

Depoimentos

A organização colheu mais de 700 depoimentos de militares israelenses, homens e mulheres, que serviram nos territórios ocupados desde o inicio da Intifada, em 2000. “Os depoimentos demonstram que as violações dos direitos humanos nos territórios não são resultado de um comportamento excepcional de poucos, mas decorrem do próprio domínio de uma população civil”, afirma a Breaking the Silence.

Segundo o relatório da ONG, os casos de violação dos direitos humanos de civis palestinos são muitas vezes resultado do “simples tédio” dos soldados que servem em centenas de pontos de checagem na Cisjordânia. Em um dos depoimentos, uma ex-soldado descreve uma cena, em um dos pontos de checagem, em que uma oficial ensinou civis palestinos a cantarem o hino do batalhão e em seguida, os civis, inclusive idosos e crianças, foram obrigados a cantar e dançar o hino militar.

“Uma sociedade que envia seu Exército para cumprir missões deve saber o que se passa em seu quintal e deve ouvir as vozes de suas filhas e filhos, mesmo se as historias não são agradáveis”, afirma a Breaking the Silence.

Treinamento especial

O Exército israelense descartou o relatório da ONG, afirmando que trata-se de “depoimentos anônimos”. Os autores, entretanto, afirmam que não revelaram a identidade das testemunhas para não prejudicá-las.

De acordo com um porta-voz militar, “os depoimentos não têm especificação de tempo ou local e é impossível examinar sua credibilidade”. “No Exército de Israel existem vários órgãos cuja função é investigar suspeitas de atos contrários às ordens e é obrigação de todo soldado ou oficial se dirigir a esses órgãos, caso sinta que alguma atividade foi cometida de maneira contrária às ordens”, disse o porta-voz.

“As tropas recebem um treinamento especial sobre o contato com a população palestina e as soldados recebem o mesmo treinamento que os soldados (homens)”, afirmou.

[Clique aqui para acessar o original desta matéria]
[Site da ONG Breaking the Silence em inglês]

Israel, Guerra Fria Árabe e o Massacre de Gaza

Ramez Philippe Maalouf
Mestrando em Geografia Humana – USP / Especialista em História das Relações Internacionais – Uerj

O Estado de Israel se proclama um “Estado judeu” em sua carta de fundação, porém, a realidade demográfica desmente tal pretensão, cerca de 20% da população israelense é árabe (palestinos, libaneses, árabes beduínos e drusos), há ainda armênios (cristãos) e circassianos. Há árabes no exército israelense, os drusos, que são seguidores da religião drusa, uma heterodoxia do Islã oriunda do xiismo. Os drusos apoiaram os judeus na chamada Guerra de Independência, entre 1947 e 1949, contra os palestinos e demais árabes. Portanto, a população árabe de Israel não é homogênea. A fundação de Israel foi possível através da expulsão de mais de 700 mil palestinos pelas forças judias em conluio com as monarquias árabes conservadoras (Jordânia e Egito) e governos árabes militares corruptos (Síria sob a ditadura do coronel Hosni Zaim), porém cerca de 100 mil palestinos permaneceram no chamado “Estado judeu”. Estes remanescentes deram origem à maioria dos atuais 1,4 milhão de árabes-israelenses.

Em 1967, como resultado da Guerra dos Seis Dias, Israel invadiu e ocupou a península do Sinai, tomada do Egito, as Colinas do Golã, tomadas da Síria, e os territórios palestinos da Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Com isto, uma grande população árabe passou a ficar sob o domínio de um Estado que se definia como judeu. Para reverter tal situação (um Estado judeu com 40% de sua população de origem árabe) os israelenses fomentaram um processo de colonização judia, com o apoio de extremistas religiosos judeus, nos territórios árabes ocupados, de modo a criar um “fato consumado” e forçá-los a sair da região ocupada. Foi para quebrar de uma vez por todas a resistência pacífica dos palestinos nos Territórios Ocupados e expulsar os palestinos para a Jordânia, que o então ministro da defesa, general Ariel Sharon, e o então premier, do partido Likud, de extrema-direita, Menachem Begin, resolveram, no verão de 1982, invadir o Líbano, com apoio de milícias libanesas, e expulsar a OLP para a Tunísia, causando a morte de mais de 20 mil árabes.

Derrotados no Líbano e duramente reprimidos nos Territórios Ocupados, os palestinos se sublevaram com paus e pedras contra a opressão israelense, em dezembro de 1987, iniciando a Intifada (levante em árabe) na Faixa de Gaza, o território palestino mais pobre e mais densamente povoado, logo se alastrando para a Cisjordânia. O então ministro da defesa do governo de coalizão likudista-trabalhista, general Yitzhak Rabin, ordenou uma dura repressão à população palestina, provocando comoção internacional. Para quebrar a resistência, os serviços secretos israelenses passaram a instilar a guerra civil intra-palestina, financiando grupos extremistas islâmicos, tradicionais inimigos da ideologia secular da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), principal liderança militar e civil do movimento nacional palestino. Dentre estas organizações extremistas apoiadas por Israel, destacou-se um braço da Irmandade (ou Fraternidade) Muçulmana egípcia, o Hamas, fundada em 1988.

A Primeira Intifada acabou perdendo força com a Guerra do Golfo, em 1991, e praticamente cessou de existir com os Acordos de Oslo, em 1993. Por outro lado, estes Acordos, assinados por Arafat, então chefe da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e Rabin (então premier de Israel), em 1993, legitimaram bantustanização dos palestinos nos Territórios Ocupados e Invadidos por Israel, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. A “bantustanização” significa o cerco das cidades e aldeias palestinas pelas colônias judias, desta forma, os palestinos passaram a viver em enclaves (territórios descontínuos), com acesso restrito ao mundo exterior. Assim, Israel mantém mais de 3,9 milhões de palestinos sob cerco permanente e enclausurados nos enclaves na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, impossibilitando a fundação de um Estado Palestino plenamente soberano. Entretanto, ao inviabilizar a fundação de um Estado palestino soberano, Israel, que se define como um Estado judeu, terá obrigatoriamente a conviver com uma população árabe em territórios sob seu domínio de fato, que somada, se iguala a população judia.

Aliados à “demopolítica” israelense, os Estados árabes estão em guerra civil aberta, sacrificando a população civil em conflitos “terceirizados”, ou seja, o combate a um Estado árabe rival ocorre através da intervenção externa de um Estado não-árabe. Este foi o caso das duas invasões americanas que destruíram o Iraque, em 1991 e em 2003 e as três grandes invasões israelenses do Líbano, em 1978, 1982 e em 2006. Inicialmente, a rivalidade entre os Estados árabes surgiu, em grande medida, como decorrência da Guerra Fria, na disputa entre os EUA e a antiga União Soviética (URSS) pela supremacia mundial. A disputa inter-árabe era entre as monarquias conservadoras (Jordânia, Marrocos, Arábia Saudita e xecados do Golfo), firmemente apoiadas pelos EUA e Europa, e as repúblicas militaristas de inspiração kemalista (nacionalismo reformista), como era o caso do Egito (pós-1952), Iraque (pós-1958), Síria (pós-1949) e Líbia (pós-1969), que buscaram apoio da URSS. A Guerra de 1967, com a humilhante derrota das repúblicas nacionalistas, diluiu esta divisão. Com o fim da URSS, a Guerra Fria, que jamais terminou, ganha novos contornos com a possível aliança asiática entre China, Índia e Rússia, entendida pelos EUA como uma ameaça real e imediata aos seus interesses. Tal enfrentamento mundial reflete-se no Oriente Médio via a aliança entre Irã e China, que é percebido pelos EUA como desestabilizadora ao equilíbrio mundial.

O Irã, país não-árabe e remanescente do Império Persa, por sua vez, tem um projeto nacional-desenvolvimentista, com pretensões de hegemonia sobre o mundo árabe, pois, pretende expandir sua revolução xiita pela região. A destruição do Iraque, entretanto, principal inimigo do regime nacionalista-xiita do Irã, favoreceu o regime dos aiatolás. É preciso lembrar que o regime islâmico de Teerã apoiou da destruição do país mesopotâmico pelos EUA, que resultou num massacre contra as populações iraquianas sunitas, xiitas, cristãs e palestinas. Por outro lado, o desenvolvimento de um programa nuclear pelo Irã gerou hostilidade não apenas do Ocidente, mas de Israel e de seus aliados árabes (Egito, Jordânia e Arábia Saudita), aumentando ainda mais a polarização regional. Formou-se, com isto, no mundo árabe, duas coalizões de caráter heterodoxo e paradoxal, o chamado “eixo xiita”, aliado à Rússia e China, formado pelo Líbano (após a posse de Michel Sleiman, pró-Hizbollah, grupo xiita), Síria (sob uma ditadura alauíta, ramo do xiismo), Irã (país não árabe) e o Hamas (grupo sunita palestino); e o chamado “eixo sunita”, cujo núcleo duro é formado pela Arábia Saudita, Marrocos, Jordânia, Egito e Israel (país dominado pelos judeus).

Esta nova Guerra Fria no mundo árabe é uma das principais razões do ataque de Israel à Faixa de Gaza, na virada de 2008 para 2009, que visa diminuir a pressão demográfica dos árabes em territórios sob ocupação israelense. Os bombardeios israelenses, sem qualquer resistência militar palestina efetiva, resultaram no massacre de mais de 1330 palestinos, em sua maioria civis (mulheres e crianças). Esta política foi denominada pelo historiador israelense Ilan Pappé como genocídio. O “eixo sunita” deu sinal verde para Israel massacrar os palestinos na Faixa de Gaza, o que vem ocorrendo sistematicamente desde 2005, de forma a enfraquecer/eliminar o Hamas e seus aliados regionais (Síria e Irã). Se a “coalizão sunita” entender que o novo presidente dos EUA, Barak Obama, será um linha-dura com o Irã, tal como W. Bush, a ponto de apoiar a neutralização do programa nuclear iraniano, é grande a possibilidade de um agravamento dos conflitos na região a tal ponto que possam eclodir em escala internacional, com conseqüências sombrias.

A postura de Obama é pautada pela ambigüidade, pois ao mesmo tempo sinaliza com uma conciliação com o “eixo xiita” (Síria e Irã), nomeia para seu secretariado nomes alinhados com o expansionismo militar israelense. Por outro lado, a grave crise econômica enfrentada pelos EUA pode inibir ambições imperiais, constrangimento que W. Bush não sofreu, e com isto pacificar, ainda que temporariamente, a região.

A duração desta crise regional depende exclusivamente do apoio que os Estados árabes do “eixo sunita” e os EUA oferecem a Israel, na guerra à “coalizão xiita”, e também da opinião pública israelense, que apesar de ser dividida, se revela cada vez mais belicista. Tudo indica que a coalizão árabe sunita, a qual Israel é aliado, não pretende mudar o “status quo”, ao contrário, não só quer mantê-lo, como também aprofundá-lo. Percebe-se, com isto, que ao contrário do que acredita a maioria das pessoas, este conflito não é apenas uma guerra de árabes contra judeus, mas, sim, uma guerra civil árabe, onde árabes e judeus se unem para assassinar árabes.

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