Arquivo da tag: BNDES

Joesley Batista, o agroboy do momento

Joesley Batista. Foto: Agência Senado
Joesley Batista. Foto: Agência Senado

Alguns veem diferença aqui e ali, mas temos na prática mais de 20 anos de governos PSDB-PT, alguns partidos na órbita, campanhas todas compradas, como já o eram, mas agora em nova fase. A Petrobrás foi desmontada – tentaram, a empresa é maior que isso – por tucanos e petistas, esquemas contínuos. A questão das empreiteiras, BNDES, alguns setores fortes da economia (“os campeões nacionais”), todos entraram na ciranda.

Em 2013, o hoje famoso nacionalmente Joesley Batista foi denunciado pelo Ministério Público por sonegar mais de RS$ 10 milhões em impostos entre 1998 e 1999. Ainda muito jovem, ainda com menos de 40 anos, dizem que transformou a empresa na maior do mundo no segmento, resta saber os detalhes – sabe-se que foi em grande parte com ajuda do BNDES, o PT no comando.

Até 2006 não estava nem entre as 100 maiores, se tornou em três anos a primeira do mundo. Ou os petistas admitem tráfico de influência (e fornecem detalhes), ou vão ter de adotar a tese capenga da meritocracia, que ninguém vai comprar. A empresa estava então em mais de 20 países, faturamento anual de mais de 30 bilhões de dólares. Daria para comprar a República de novo, todo ano, não é tão caro assim.

Em 2012, ficaram tão ricos que criaram a tal J&F, que tinha papel e celulose, banco, biodiesel, até fábrica de xampu e sabão. O BNDES é um caso interessante: não emprestava, entrava como “sócio”. Foram 8,3 bilhões de reais em ações, em três anos, mais outros 2 bilhões de empréstimos. Não teve outro grupo que recebeu mais: cifras inéditas até então.

Tudo muito “natural”, parte da estratégia “nacional” de “desenvolvimento”, dizem. Tudo baixíssimo valor agregado, país nenhum cresce sem investir em tecnologia nacional, de ponta. Quem disse isso não foi a oposição, e sim o IPEA, até então centro de excelência sem grandes interferências, e muitos outros.

Até a indústria nacional chiava frequentemente: a Associação Brasileira de Frigoríficos, por exemplo, furiosa com o desequilíbrio no mercado, com a nova gigante ditando os preços. Consideram que o BNDES inexplicavelmente inchou alguns grupos. Difícil de rebater, mesmo com os eventuais interesses em jogo. Joesley agora decidiu falar – e já havia muito a dizer, sobretudo do tráfico de influência. Luciano Coutinho, o ex-homem forte do BNDES, lulista na prática política, certamente tem muito a explicar.

Joesley pode ser o homem que vai explicar, em breve, como conseguiu ficar bilionário a partir dos aportes do banco na gestão Lula. Essa operação envolve a alta cúpula do PT, incluindo Antonio Palocci, e Coutinho.

Na época, em 2007, Coutinho à frente, elegeram empresas que retomariam o crescimento nacional: Oi, JBS, EBX. Hoje quebradas ou com executivos na cadeia.

A análise de um economista, direta: “Praticamente todas as empresas do grupo EBX pediram recuperação judicial ou foram vendidas. Eike Batista está na cadeia, acusado de corrupção. A Oi, a supertele brasileira, não conseguiu evoluir no setor e pediu recuperação judicial, assim como a LBR, outra escolhida para ser campeã na venda de laticínios. Agora, a BRF e a JBS estão envolvidas no escândalo da operação Carne Fraca, da Polícia Federal”.

Acrescenta: “Além disso, mesmo a JBS tornando-se de fato uma campeã nacional, pouco se viu em retorno ao país, dado que grande parte das empresas adquiridas por ela sequer estavam no Brasil”.

E tem aí outras partes, sempre muito interessantes. Da Piauí, 2015: “A casa de Joesley em Angra, comprada do apresentador global Luciano Huck, foi um presente que ele deu à mulher, Ticiana Villas Boas, apresentadora da TV Bandeirantes”. Isso foi em 2013. Sem contar a história maluca do boato de que o filho do Lula era dono da Friboi: na investigação, descobriram partir de um site ligado ao Instituto de Fernando Henrique Cardoso. Até agora impune, inacreditável.

O outro caso estranho – esse mais grave – é o de Henrique Meirelles, defensor do livre mercado, atuando junto ao grupo de Joesley. Ele mesmo um dos grandes nomes do governo em outros momentos. Dizia que a economia de mercado é a melhor, mas que a JBS poderia receber incentivos: não faz nada de errado, tudo dentro da lei.

Na Piauí, excelente matéria há dois anos de Consuelo Dieguez, a dica: “O total de repasses do Tesouro a bancos públicos para fomentar o crédito cresceu mais de 30 vezes entre 2007 [e 2014]: de 14 bilhões, passou para 477 bilhões de reais”. O Brasil quebrou, mas alguns “setores” da economia enriqueceram. Deu até pra comprar casa em Angra, jatinhos.

Depois vieram as brigas e negociações: em Goiás com Marconi Perillo, que depois perdoou dívidas do grupo; em Brasília, com Kátia Abreu, que criticara a concentração promovida pela JBS. Tudo pacificado, claro. Negócios são negócios. A briga veio depois: a Polícia Federal entra aí, aparentemente. Mas há mais interesses do que se imagina. Uma reviravolta a cada ataque.

Joesley ainda tem relação mal explicada com Fernando Cavendish, da Delta: quase comprou a empresa. Investimento na construção civil? Difícil acreditar, não há quem compre essa tese, nem quem explique em detalhes por que o negócio não saiu.

Temer, agora presidente, sempre manteve contato com Joesley, com Wesley, com a JBS, assim como fez Lula, relações pouco republicanas, diante do cenário. Era uma “aposta”, a “indústria nacional”, nada privado, embora agora começamos a saber mais sobre os detalhes importantes, os antes ocultos.

A JBS deu mais de 360 milhões de reais para campanhas em 2014, para quem quisesse receber, sobretudo para os dois campeões do pleito eleitoral. Uma miséria perto das bondades dos governos, todos.

O cenário, agora, é mais confuso. Pouco se sabe a mando de quem, ou se há algum tipo de comando, mesmo que frágil: não parece haver resposta fácil. PSDB e PMDB no governo, PT ameaçado de afundar junto, por sua relação estreita, histórica, com o grupo. A ver.

Pai (ou padrasto?) dos pobres e mãe (certamente!) dos ricos

Um dos aspectos mais chocantes do período em que o Partido dos Trabalhadores impôs sua hegemonia sobre a esquerda brasileira foi a passividade com a qual esta aceitou o entrelaçamento de interesses com os mais predatórios segmentos da burguesia e com os mais repulsivos inimigos da liberdade. 


Práticas que, quando adotadas pelos adversários de direita, eram denunciadas como emblemáticas de sua condição de inimigos do povo, passaram a ser copiadas descaradamente pelos mandatários do PT e toleradas pela companheirada como um preço a ser pago pela governabilidade.

Duas delas foram esmiuçadas pelos jornalões paulistas neste final de semana. O Estado de S. Paulo, em editorial do sábado (16), constatou que vultosos recursos públicos foram generosamente doados pelos governos petistas não apenas para os companheiros empresários, mas também para os camaradas banqueiros:

Sabia-se que as centenas de bilhões de reais que, entre 2009 e 2015, o Tesouro repassou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar investimentos não estimularam o crescimento, mas beneficiaram muitas empresas escolhidas pelo governo do PT, daí o programa ter sido chamado de bolsa-empresário, uma ajuda financeira do poder público para grupos empresariais preferidos do Palácio do Planalto. 

O que pesquisas recentes demonstram é que não foram apenas as empresas selecionadas pela administração petista que ganharam com esse imenso desperdício de dinheiro público. Mesmo dispondo de condições bastante favoráveis para administrar os recursos do Tesouro (que assumiu os subsídios implícitos nas operações), o BNDES ficou com uma parcela reduzida dos resultados desses financiamentos. Os bancos comerciais que realizaram as operações em seu nome se apropriaram de mais de 80% dos rendimentos. O programa transformou-se, também, numa espécie de bolsa-banqueiro

…o Tesouro emitiu títulos de dívida pública para transferir R$ 520 bilhões ao BNDES. Esses recursos deveriam ser utilizados no financiamento de máquinas e equipamentos, de modo a estimular a produção e, assim, reativar a economia. O PSI [Programa de Sustentação do Investimento] deveria durar um ano, mas foi sendo renovado seguidamente até o fim do ano passado, quando o governo petista resolveu enterrá-lo.

Foi de grande valia para um grupo de empresas, mas, apesar de sua longa duração, de sete anos, e, sobretudo, do montante que envolveu, não teve resultados expressivos para o País. A economia não se recuperou e, desde meados de 2014, está em recessão…

…Levantamento feito pelo economista José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, mostra que os bancos comerciais (…) se apropriaram de mais de R$ 8 bilhões dos R$ 10 bilhões de spreads que as operações geraram. O BNDES, assim, ficou com menos de R$ 2 bilhões.

E, na Folha de S. Paulo dominical, ficamos sabendo que o malfadado projeto de transposição do rio São Francisco, uma descarada maracutaia em benefício do progressista agronegócio, continua detonando orçamentos e prazos:

Sérias dúvidas sobre a capacidade do rio São Francisco de gerar água suficiente para a bilionária obra da transposição fizeram o governo lançar um novo programa de revitalização do rio.

Batizado de Novo Chico, (…) o programa visa terminar obras de saneamento nas cidades na bacia do rio, desassorear o leito e recuperar mananciais, entre outras intervenções. Estão acertados gastos de, no mínimo, R$ 10 bilhões até 2026.

Mas o valor vai aumentar porque o governo ainda trabalha no orçamento de algumas intervenções, como dragagem, e também pedirá aos Estados da região que invistam mais recursos no projeto…

…quase dez anos depois [do lançamento do programa], o governo já gastou R$ 10 bilhões na obra dos canais e R$ 2,2 bilhões na revitalização, e nenhuma delas está pronta. Além disso, em ambas há suspeitas de desvio de recursos, corrupção e ineficiência. A construção dos canais é alvo da Lava Jato.

Admito, humildemente, que passei batido pela bolsa-empresário e pela bolsa-banqueiro no momento em que deveriam ter sido contundentemente denunciadas e combatidas. Mea maxima culpa.

Mas, quanto à bolsa-agronegócio, esta foi objeto de uma infinidade de artigos, principalmente durante a greve de fome do bispo Flávio Cappio, com a qual me solidarizei. Em dezembro de 2007, cobrei incisivamente uma postura mais digna e combativa por parte da esquerda:

Passamos a vida recriminando a sordidez da política oficial e as negociatas que colocam recursos públicos a serviço de interesses privados. Como procedemos, no entanto, quando um bispo sexagenário ousa confrontar os abutres que saqueiam uma das regiões mais miseráveis do País e arrisca a vida em defesa do seu rebanho? O que estamos fazendo para apoiar esse altaneiro desafio às práticas viciadas e viciosas de nossa democracia? Pouco, quase nada.

E, em carta aberta a Lula, botei o dedo na ferida:

A relutância extrema do seu governo em discutir a interligação das águas do rio São Francisco é evidência gritante de que tal projeto não sobreviveria a um debate franco. E reforça as suspeitas de que haja interesses escusos envolvidos. 

Cidadãos de reconhecida competência e credibilidade apontam falhas de todo tipo: concepção equivocada, relação custo/benefício muitíssimo pior que a de projetos alternativos, danos ecológicos que podem se tornar catastróficos. Por que tanta insistência, a ponto de tocar a obra com soldados, evocando os tempos sinistros da ditadura militar?

Hoje salta aos olhos que os opositores do faraônico projeto sempre estiveram certos. E que as suspeitas por eles levantadas tinham tudo a ver, pois tal elefante branco, inicialmente orçado em R$ 4,6 bilhões, já consumiu R$ 12,2 bilhões e agora somos informados de que vai exigir, pelo menos, outros R$ 10 bilhões. Ou seja, o estouro se encaminha para a casa de 400% e nada nos garante que ficará por aí…

Esta fase do amoralismo petista no poder será lembrada pela verdadeira esquerda como motivo de terrível vergonha e como anos totalmente perdidos para a revolução brasileira.

Antônio Conselheiro não viu realizada sua profecia de que sertão viraria mardestacada na obra-prima de Glauber Rocha (clique aqui assista-a na íntegra). Lula também dificilmente a verá…

Atingidos por hidrelétrica financiada pelo BNDES sofrem com alagamentos

Moradores dizem que responsabilidade dos alagamentos é da hidrelétrica Santo Antônio.

Do Movimento Atingidos por Barragens com edição da Plataforma BNDES e informações da TV Rondônia. Captação de imagem: Rede TV Rondônia.

Os moradores de Jaci Paraná, distrito de Porto Velho atingido pela hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira (RO), estão sofrendo com alagamentos provocados pela construção da usina, informa a reportagem da Rede TV Rondônia. A construção da usina contou com mais de seis bilhões de reais em empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Segundo os atingidos, toda a área onde ocorreu o alagamento é pantanosa e foi modificada pela construção da usina. “Nós tínhamos uma mata que protegia nós; eles fecharam essa área e agora quando o rio enche não dá conta de segurar e nós ficamos alagados. Nunca [houve alagamento como este antes], eu moro aqui há 10 anos, tem uma senhora que mora há 50 e nunca aconteceu isso”, contou uma moradora.

Assista à reportagem:

Atingidos por hidrelétrica financiada pelo BNDES sofrem com alagamentos

Moradores dizem que responsabilidade dos alagamentos é da hidrelétrica Santo Antônio.

Do Movimento Atingidos por Barragens com edição da Plataforma BNDES e informações da TV Rondônia. Captação de imagem: Rede TV Rondônia.

Os moradores de Jaci Paraná, distrito de Porto Velho atingido pela hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira (RO), estão sofrendo com alagamentos provocados pela construção da usina, informa a reportagem da Rede TV Rondônia. A construção da usina contou com mais de seis bilhões de reais em empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Segundo os atingidos, toda a área onde ocorreu o alagamento é pantanosa e foi modificada pela construção da usina. “Nós tínhamos uma mata que protegia nós; eles fecharam essa área e agora quando o rio enche não dá conta de segurar e nós ficamos alagados. Nunca [houve alagamento como este antes], eu moro aqui há 10 anos, tem uma senhora que mora há 50 e nunca aconteceu isso”, contou uma moradora.

Assista à reportagem:

BNDES muda estatuto para ampliar operações internacionais

Leia a íntegra do Decreto que altera o estatuto e relembre os erros internacionais que ainda podem se repetir.

Do site Plataforma BNDES
Foto: FOBOMADE

Mulher indígena presa na Bolívia durante protesto pacífico contra projeto financiado pelo BNDES. Relembre o caso e veja o que o Banco pode fazer para não repetir erros em sua atuação internacional.

Na última terça-feira (06/12) foi publicado no Diário Oficial o decreto da presidenta Dilma Rousseff que altera o Estatuto do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), autorizando a instituição a financiar aquisições e investimentos de empresas brasileiras no exterior. O Banco também poderá captar recurso no mercado externo para ampliar suas operações.

Com a nova regra, empresas como a Eletrobras, que segundo fontes usadas pelo jornal Valor Econômico estaria na disputa para comprar parte da portuguesa EDP, terão um novo incentivo do Banco público.

Leia abaixo a íntegra do decreto e reveja o artigo “Banco de Desenvolvimento para quem e por quais meios?” feito pela pesquisadora Ana S. Garcia para a Plataforma BNDES. Nele a pesquisadora faz um raio-x das operações internacionais do BNDES.

DECRETO No – 7.635, DE 5 DE DEZEMBRO DE 2011

Altera o Estatuto Social do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, aprovado pelo Decreto nº 4.418, de 11 de outubro de 2002.

A PRESIDENTA DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso IV, da Constituição, e tendo em vista o disposto no parágrafo único do art. 2 o e no parágrafo único do art. 9º da Lei nº 5.662, de 21 de junho de 1971, DECRETA:

Art. 1º

O art. 9º do Estatuto Social do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES, aprovado pelo Decreto nº 4.418, de 11 de outubro de 2002, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art.9º ……………………………………………………………………………………………………………………………………..

…………………………………

VIII – utilizar recursos captados no mercado externo, desde que contribua para o desenvolvimento econômico e social do País, para financiar a aquisição de ativos e a realização de projetos e investimentos no exterior por empresas brasileiras, subsidiárias de empresas brasileiras e empresas estrangeiras cujo acionista com maior capital votante seja, direta ou indiretamente, pessoa física ou jurídica domiciliada no Brasil, bem como adquirir no mercado primário títulos de emissão ou de responsabilidade das referidas empresas.

………………………………………………………………………………….” (NR)

Art. 2º

Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 5 de dezembro de 2011; 190º da Independência e 123º da República.

DILMA ROUSSEFF
Fernando Damata Pimentel

 

Relatório inédito aborda monopólio na produção de etanol no Brasil

Foi lançado hoje (13/10) pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos relatório denominado “Monopólio da Produção de Etanol no Brasil: A Fusão Cosan-Shell”.

O estudo, que foca na fusão Cosan-Shell, avalia as tendências mais recentes no setor canavieiro e analisa o papel da produção de etanol no Brasil. Segundo o documento, é possível verificar um “crescente processo de formação de monopólios no setor”, principalmente com participação de empresas petroleiras. Além da Shell, a BP (British Petroleum) e a Petrobrás passaram a controlar uma parte significativa da produção de agrocombustíveis no país.

A maior concentração de capitais é acompanhada por um aumento da expansão territorial do monocultivo da cana, principalmente em áreas com acesso a infraestrutura, como a região Sudeste, e em regiões com vastas bacias hidrográficas, como o Cerrado. “Este movimento evidencia que a suposta ‘competitividade’ do etanol brasileiro no mercado internacional está baseada na necessidade de maior apropriação de recursos naturais, como terra e água”, avalia o Relatório.

A pressão da bancada ruralista no Congresso Nacional para mudar o código florestal é parte deste contexto, explicam os autores. “Portanto, a tão propagada ‘eficiência’ do setor não se sustenta, na medida em que se constata uma queda no nível de produtividade, ao mesmo tempo em que crescem pressões do agronegócio para avançar sobre áreas de preservação ambiental”.

Mito da ‘eficiência e competitividade’ do etanol brasileiro

As formas de aquisição de terras para a expansão do monocultivo da cana ocorrem através do arrendamento, ou seja, “da substituição da produção de alimentos, ou do avanço da fronteira agrícola”. Este processo, conclui o Relatório, “está ligado à crise econômica internacional e a um movimento de capitais financeiros que geram uma bolha especulativa, causando um forte aumento no preço da terra e dos alimentos”.

O discurso sobre a “modernização” da produção de etanol também serve para encobrir o aumento da exploração do trabalho, concluem seus autores. Ao longo do estudo, os autores identificaram que não é o ‘atraso’ do setor que leva aos casos de descumprimento dos direitos trabalhistas. “Pelo contrário, constatamos que a preponderante mecanização do corte da cana agrava a exploração dos trabalhadores. Ou seja, a lógica deste modelo de produção está baseada na superexploração do trabalho, o que nos permite desvendar outro mito sobre a suposta ‘eficiência e competitividade’ do etanol brasileiro”.

Os autores destacam o alto índice de endividamento e inadimplência da indústria canavieira – fato comprovado pela dependência de empréstimos a juros subsidiados que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) tem fornecido ao setor sucroalcooleiro. Ano após ano, as usinas demandam perdão e rolagem de dívidas com bancos estatais, além de diversas formas de subsídios e incentivos fiscais.

“Estes dados nos levam a concluir que o verdadeiro ‘produto’ deste setor não é a cana, o açúcar ou o etanol, mas uma enorme dívida financeira, social e ambiental. Esta constatação nos ajuda a explicar a manutenção de mecanismos de superexploração do trabalho e de um modelo agrícola baseado no monocultivo e no latifúndio, que necessita expandir sua apropriação de bens naturais. Portanto, somente uma transformação deste modelo seria capaz de superar as crises simultâneas no âmbito econômico, social e ambiental”, conclui o estudo.

O relatório completo em pode ser acessado em http://www.social.org.br/revistacosanshel.pdf