Tariq Ali realiza conferência em curso no Rio de Janeiro

Principal atração do 16ª Curso do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), o escritor paquistanês Tariq Ali participou da segunda mesa da programação para tratar da hegemonia político cultural dos Estados Unidos…

Da esquerda pra a direita: Vito Giannotti (NPC), Marcelo Santos (Unesp) e Tariq Ali. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

Principal atração do 16ª Curso do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), o escritor paquistanês Tariq Ali participou da segunda mesa da programação para tratar da hegemonia político cultural dos Estados Unidos. Reconhecido internacionalmente por suas críticas à influência norteamericana  na geopolítica internacional, o intelectual fez uma análise da mídia nos últimos anos e respondeu às perguntas da plateia.  A atividade ocorreu anteontem (24) na Caixa Cultural, no Rio de Janeiro.
Para o jornalista paquistanês houve uma mudança na mídia desde o colapso da União Soviética e o fim do comunismo, após o período da guerra fria. Ele afirmou que naquele momento a mídia era mais diversa em muitos países do ocidente, e num mundo divido em dois os seus veículos apresentavam como melhor o modelo ocidental. Nos anos 90, concluiu Ali, os jornais independentes perceberam que não tinham mais voz com o capitalismo e formou-se uma característica universal.
“Nesse período a mídia já apresenta uma característica monocórdia, elogiando o Consenso de Washington e o mercado, e ignorando as dissensões. Muitas empresas de mídia globais acreditavam que eram as responsáveis por colocar os políticos no poder, e os políticos também acreditavam nisso. Mas isso mudou com a Venezuela, Bolívia, Equador e Paraguai, pois nesses países 90% da mídia se opôs aos bolivarianos que estavam se opondo às oligarquias locais. Por elas, eles [Chavez, Morales, Correa e Lugo, respectivamente] não se elegiam, e os movimentos sociais da América do Sul deram uma lição para o mundo todo”, afirmou Ali.
 “Até mesmo no Brasil, quando o Lula foi negociar diretamente com o Irã e os turcos, a mídia brasileira o atacou. É uma questão de se não seguir o ditame dos Estados Unidos, eles são atacados”, exemplificou.
Ainda de acordo com o crítico, hoje esses conglomerados midiáticos são compostos por cinema, distribuição de filmes, editoras e o controle e monopólio dos meios de comunicação de massa, constituindo “mídias únicas, dominantes e oligárquicas”. Esse sistema tem seu apogeu evidente com Berlusconi, na Itália, que, segundo Tarik, é um grande proprietário da mídia e a usou para seu partido e chegar ao poder; graças ao enfraquecimento da esquerda italiana, ponderou.
Por outro lado, o escritor lembrou da experiência da TV Al Jazeera com a veiculação de imagens alternativas que repercutiram em todo o mundo. Ele observou que o escritório da emissora em Cabul, no Afeganistão, foi bombardeado e no Iraque eles informaram às tropas americanas onde estavam seus equipamentos justamente para evitar qualquer insegurança. No entanto, ponderou Tariq, mesmo assim o seu correspondente chefe foi morto em Bagdá. Em conversa com o diretor da TV, Tariq soube que eles têm 15 equipes diferentes no Iraque e mantém uma relação muito ruim com as tropas americanas.
Foi com base nas experiências da Al Jazeera que surgiu a Telesur, TV multiestatal criada com o apoio de Argentina, Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e Venezuela, afirmou Ali. “A Telesur foi a única presente no golpe de estado em Honduras, e vendeu suas imagens para todo o mundo. Vivemos no mundo da imagem, fornecer imagens alternativas é uma maneira de combater o monopólio”, destacou.
Para ele, a internet tem gerado outros fenômenos, como a emergência de estações de rádios e TVs alternativas, “que são uma combinação de diferentes formas que oferecem soluções parciais ao que pode ou deveria ser feito. É o desafio ao monopólio da informação pela internet”, disse.  
Tariq Ali fez a crítica de que na América do Sul a tortura ainda é um problema sério, lembrando que “o pior centro é no Afeganistão onde as pessoas são torturadas do jeito mais grotesco todos os dias”.
O jornalista concluiu afirmando que o nível de disparidade entre os ricos e os pobres nos Estados Unidos está talvez pior que o da crise de 29, quando houve o crash na bolsa. “E isso, com outras variações, se estende para outras áreas do mundo. Nosso pior inimigo é a despolitização efetiva e a apatia estimulada pelo que nós vemos”, finalizou.
Abaixo seguem algumas perguntas endereçadas da plateia ao intelectual paquistanês:
"Foi um grande erro do governo Lula ir para lá policiar essencialmente em nome dos Estados Unidos", opinou Tarik Ali sobre a ocupação no Haiti. Foto: Gabriel Bernardo/Fazendo Media.

A Folha de São Paulo disse que se não existisse Bin Laden, Tariq Ali seria o pior inimigo dos Estados Unidos. Por quê?
Não sabia, que bom. Eu não sou inimigo da classe trabalhadora dos Estados Unidos, eu sou um crítico e tenho muito orgulho disso. É normal a mídia criticar os meus livros. A questão é: por que a Folha, da maior cidade desse país, defende os Estados Unidos? Por quê? É o país que eu mais visito e frequento. Meu mais recente livro é uma crítica ao Obama, porque ele representa a política do Bush. Só que mais bonito e fala melhor no mundo da celebridade, o que mudou foi a música de fundo. Então explico quem é esse cara e por que a continuidade imperial é o que mais importa a essa gestão.
Como é a mídia no oriente?
O oriente é muito grande. No Oriente Médio tem a Al Jazeera, que influenciou outras emissoras. Mas no oriente geral, o Paquistão é um exemplo de onde a mídia tem sido muito poderosa ameaçando os governos. Em alguns países não existe nenhuma liberdade, mas isso varia. Elas usam também informações das agências internacionais.
O que acha da possibilidade de uma agência de notícias na América Latina?
Seria uma boa ideia se você tivesse bons jornalistas, porque para poder combater e competir tem de ser de um nível mais alto que o deles.
Como a favela pode resistir à mídia burguesa?
Não acredito que a mídia os afete em demasia, não creio que os noticiários os afetem muito porque eles estão sempre em conflito com as suas necessidades diárias. Há também os problemas das drogas, como no Paquistão, então eles acabam vivendo o dia a dia. A questão é como mudar a vida dessas pessoas nesses territórios, com transporte público, moradia popular, etc.
Qual a sua opinião sobre a ocupação das tropas da ONU, capitaneadas pelo Brasil, no Haiti?
Eu fui totalmente contra isso. Foi um plano franco americano para tirar o Aristide [presidente deposto em 2004] do poder, porque ele não queria privatizar as águas para uma empresa francesa. Desde o século XIX muitos governos pagavam aos franceses por plantações fechadas desde a escravidão, e o Aristide reivindicou esse dinheiro para as políticas do país.
Foi um grande erro do governo Lula ir para lá policiar essencialmente em nome dos Estados Unidos. Um general brasileiro cometeu um suicídio, decepcionado por policiar um país em nome de uma oligarquia. Ouvi dizer também que outro general pediu demissão, e o que está acontecendo lá é um desastre. Chávez, por outro lado, denunciou o golpe e ofereceu asilo a Aristide. Espero que reconheçam o erro e que isto não vai gerar um assento no Conselho de Segurança da ONU.