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Somos todos reis magos e rainhas magas

Reis magos e rainhas magas, somos todos nós

Neste domingo, no Brasil, a Igreja celebra a festa da Epifania, ou manifestação da presença de Deus na humanidade, através de Jesus, aberto a todas as culturas e povos. O evangelho é Mateus 2, 1- 12.

Não se trata de um relato histórico e sim de um comentário a textos bíblicos como Isaías 60 e salmos, que dizem: reis virão do Oriente e trarão presentes para o rei Messias (Sl 72, 10 – 11).

Conforme o evangelho de Mateus, as primeiras pessoas a virem adorar Jesus, ou seja, reconhecer a presença divina no menino Jesus foram magos que vieram do Oriente. Magos eram os sacerdotes de religiões da natureza. A Bíblia os considera como bruxos e, portanto, gente afastada de Deus. Já o Catolicismo popular os imaginou como reis e sábios. Chama-os de “santos reis magos”. Diz que eram três. Os pintores retrataram um deles como negro e uma tradição oriental estampava um deles como uma jovem mulher. Assim mostra a universalidade do encontro entre Jesus e os magos.

De fato o Evangelho conta de forma simbólica e poética como religiosos de outras religiões se aproximam de Jesus e o aceitam como presença de Deus no mundo. De acordo com esse conto do evangelho, para aqueles magos do Oriente que eram astrólogos e observavam as estrelas, o chamado divino veio através da luz de uma estrela. Seria como dizer que o chamado divino para os do Candomblé vem através dos búzios e dos jogos de Odu. Ou que os índios virão a Belém através dos Encantados da floresta.

No relato do evangelho, chama a atenção como no meio da sua busca, os magos acharam que deveriam ir ao centro do poder religioso e político. Esse contato com Herodes e com os sacerdotes só deu problema. Segundo o conto de Mateus, eles acabaram involuntariamente provocando o massacre dos inocentes e a perseguição de Herodes ao menino Jesus. Os sacerdotes da religião correta sabiam muito bem a verdade . Interpretaram corretamente a profecia. No entanto, isso não os levou a Deus.

O evangelho diz que quando os magos chegaram a Jerusalém, sede do poder político e religioso, a estrela sumiu. Não havia mais como caminhar. Quando se afastaram do poder e retomaram a direção da aldeia de Belém, a estrela voltou a brilhar no céu e os conduziu ao presépio.

Deus chamou os irmãos de outra fé e outras culturas para caminhar, não na direção de algum centro de peregrinação. Guiou-os para uma aldeiazinha, perdida nas montanhas, chamada Belém. Apesar de serem pagãos e não saberem nada da Bíblia e da verdadeira fé, eles aceitaram adorar e reconhecer em uma criança pobre a presença divina.

Os presentes dos magos são simbólicos. São oferecidos a Jesus e à presença divina que os magos veem nele. Ver a presença divina em Jesus, menino recém-nascido e pobre na periferia do mundo é reconhecer essa presença em todo ser humano, principalmente no mais empobrecido. Em nome de Jesus, somos chamados a reconhecer a dignidade de todo ser humano, a presença divina nele. Ao mesmo tempo, temos de cuidar da sua fragilidade e suas chagas. É isso o que significam o ouro, incenso e mirra.

Cada um de nós vive uma busca interior. Uns com mais intensidade e coragem. Outros deixam sua busca meio adormecida e se acomodam no ponto  já encontrado e se deixam levar pela banalidade do dia a dia… sem se colocar tantas questões e sem ousar novas interrogações. Alguns nem percebem mais que têm essa busca interior. Entretanto, é ela que dá sentido à nossa vida. As folias e reisados lembram a todos que temos de retomar permanentemente nossa peregrinação….

No caminho espiritual, as instituições religiosas funcionam como pousadas e estalagens. Às vezes, cômodas ou às vezes muito incômodas. Essas pousadas podem ser úteis para nos confirmar que a estrada é mesmo o que São João da Cruz chama de “caminho na noite escura da fé”. Nas pousadas que são as instituições religiosas, muita gente se acomoda, se torna “importante” e desiste de caminhar. Manter-se na estrada implica aceitar ser pequenino, desprotegido e quase sempre marginal… Nem todo mundo topa isso. Conforme os evangelhos, a Igreja não deveria ser apenas a pousada (isso é, religião) e sim o grupo que caminha juntos. Por isso, o próprio termo Igreja significa assembleia e não templo ou religião. O templo e os elementos religiosos podem ser expressão, mas serão sempre pousadas provisórias do caminho juntos. O caminho é guiado pela estrela e não pela pousada.

A parábola da viagem dos magos a Belém deve nos levar a pensar quais estrelas Deus tem nos enviado até agora em nossas vidas.  Comumente padres e pastores leem esse evangelho ensinando que os magos vieram de longe para adorar a Jesus, portanto para ser cristãos. Dizem que o Cristianismo é uma religião universal, aberta a todos e acolhe a todos mas, em uma linha inclusiva. Isso significa que todos são chamados a ser cristãos. ( A casa está aberta, mas para vocês virem aqui). Uma leitura mais profunda do texto poético, parabólico de Mateus pode nos levar a uma interpretação mais aberta e pluralista. A acolhida de Jesus é abertura ao outro e no concreto Belém e o presépio se tornam lugares que simbolizam um encontro de culturas e de religiões e não apenas o outro que entra na nossa.

Deus se encontra na casa da periferia, na gruta que não tem portas nem muros. Adorar é admirar-se, é reconhecer o divino no humano, em todo ser humano, mas especialmente no mais pequenino e pobre. O papa Paulo VI encerrou o Concilio afirmando: “Para se encontrar a Deus, é preciso encontrar o ser humano”.

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