Solidariedade, democracia popular e o 6º Congresso do PCC de Cuba

Enquanto muitos brasileiros aproveitavam o último feriado descansando, São Paulo recebeu a XIX Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba. Com a presença de associações de vários estados e de países vizinhos, além dos cubanos convidados, o evento reuniu simpatizantes, militantes e solidários, centrando todas as discussões no tema solidariedade.
Como bem lembrou Dora Cesar, do Núcleo de Estudos Cubanos da Universidade de Brasília (Nescuba), ao citar José Martí: “Juntar-se, esta é a palavra do mundo”. Entre mesas que discutiram o bloqueio econômico e midiático e os 50 anos da vitória de Playa Gyrón, a convenção aprofundou diversos assuntos no intuito de espalhar informação e buscar métodos de se atingir a população latina que desconhece o que se passa em Cuba. A ideia é fugir do que é divulgado na grande mídia, que bloqueia as informações que qualificam a ilha como um país de alto nível educacional e evolução na saúde para toda a população. Há 50 anos, Cuba vencia além dos Estados Unidos, em Playa Gyrón, o analfabetismo que existia em seu território. Com a evolução da sua medicina, socialista, preventiva, a ilha passou os últimos anos se solidarizando com povos necessitados de ajuda enviando brigadas de médicos.
O bloqueio estadunidense criou um bloqueio econômico e midiático universal diante da sociedade cubana. Mantém esquecida para o mundo a história dos 5 cubanos presos nos Estados Unidos, criminaliza ações do Estado cubano e não abre espaço para que a ilha faça negociações com países que têm acordo com o país estadunidense. Como cita Magalys Llort, mãe de Fernando, um dos antiterroristas cubanos presos nos Estados Unidos, “não se pode ao menos respeitar?”
Os Estados Unidos mantém uma política de exclusão de toda e qualquer informação que beneficie a condição de caráter socialista em que Cuba vive. Utiliza-se do capital que possui para subverter cubanos insatisfeitos, compram-lhes palavras de ataque ao governo, compram a oposição, dá destaque a ela na grande mídia, e assim Cuba vive perante ao mundo uma ditadura e não a democracia social que os cubanos expuseram durante os quatro dias de convenção. O que não mostram é que a política social que Fidel construiu ao longo de pouco mais de 50 anos de luta trouxe planificação da economia, estimula a cultura como muitos países não fazem, tem um povo extremamente culto, consciente e participativo de suas lutas, sua revolução e sua política.
O encontro organizado pelo Movimento Paulista de Solidariedade a Cuba reuniu figuras como um comandante em luta ao lado de Fidel e Che Guevara em Playa Gyrón, Jorge Herrera Medina, Kenya Serrano Puig, presidenta do Instituto Cubano de Amizade aos Povos (ICAP), Zuleica Romay, presidenta do Instituto Cubano do Livro, o escritor Mário Augusto Jakobskind e Carlos Rafael Zamora Rodriguez, embaixador de Cuba no Brasil, entre outros.
Zamora Rodriguez relatou emocionado, em meio a gritos da platéia a favor da inclusão do socialismo no Brasil: “A revolução é do povo. Nasci antes do triunfo da revolução. Sabemos de onde viemos, quem somos e para onde vamos. Quando falam de Cuba a impressão é que falam de outro país, de outro mundo. A grande imprensa é parte da dominação, apóia a ação ofensiva. Construímos um país para construirmos juntos, decidirmos com todo conjunto da população. Não somos uma estrela a mais na bandeira dos Estados Unidos”.
Um tema questionado entre as mesas foi sobre as mudanças do 6º Congresso do Partido Comunista Cubano. Algumas falas da platéia questionavam o possível retrocesso distanciando-se dos ideais socialistas. Em resposta, Zuleica Romay, presidenta do Instituto Cubano do Livro e que participou do Congresso, ocorrido após 14 anos de paralisação, afirmou que para o capitalismo liberdade é consumir e o mercado é quem manda, tornando os ricos cada vez mais ricos.
“Estamos, agora, sendo autocríticos, no 6º congresso repensamos e reestruturamos nossa planificação. Temos que dar um salto econômico, incorporar formas de organização adequadas para a economia interna e para relações com outros países. Não se pode construir o socialismo se as pessoas não estiverem convencidas de que precisamos de cada um, do coletivo, para tudo, para crescer. Governamos com a gente, o povo. Temos que unir a juventude e a experiência”, observou.
Nídia Cuevas, professora do Instituto Superior de Relações Internacionais de Cuba acrescenta: “temos uma formação marxista, leninista e também martiniana. Estamos na etapa em que o capitalismo não quer ser destruído, deve-se combinar a planificação para melhorar a condição do povo. Hoje temos salário mínimo estabelecido independente do que se faz. Pode não ser suficiente, mas é o início. Temos cuidado em manter a proteção social dos trabalhadores, nenhum cubano vai ficar desprotegido. Não estamos privatizando o país, estamos em defesa da soberania”.
A partir de agora, segundo a presidenta do ICAP, Kenya Serrano Puig, os cubanos terão mais decisão sobre o próprio futuro. Ela explicou que são 8 milhões de cubanos participando, e democracia é um modelo de poder popular num processo de constante emancipação.
“O impacto do bloqueio, a batalha midiática e o terrorismo contra a ilha são muito fortes, mas podemos melhorar muito nosso país. Não é só Bush que se posicionou contra. Atualmente, se segue aplicando de maneira rigorosa o bloqueio. Os EUA criam frustração aos povos, pretendem que desistam da revolução. 7 em cada 10 cubanos nasceram pós-revolução, nasceram bloqueados e são capazes de discernir o que desejam fazer”, afirmou.
Kenya falou, ainda, sobre solidariedade: “Há um muro de silêncio sobre o caso dos 5 (cubanos patriotas presos pelos Estados Unidos). Solidariedade é um valor compartido, se dá e se recebe. Internacionalismo para o cubano é dar o que você tem, não o que lhe sobra. Seguimos compartilhando. E esperamos o apoio das nações amigas. Bloqueio é ilegal, unilateral e um genocídio”.
Justiça, essa é a palavra pedida pelos que pedem a liberdade dos cubanos que foram presos nos EUA por lutarem contra o terrorismo. Com a missão de obter informações sobre organizações terroristas que agiam em Cuba, partiram para os Estados Unidos. Quando descobriram os grupos terroristas, Cuba informou ao FBI e, ao invés de prender os tais grupos, o governo dos EUA detiveram os cinco patriotas cubanos sob diversas acusações sem fundamentos.
Os movimentos de solidariedade por todo o Brasil organizam Brigadas que vão a Cuba com o objetivo de conhecer sua sociedade, visitar museus, organizações sociais e escolas, trabalhar voluntariamente para quando voltarem ao país exporem a verdadeira sociedade que vive Cuba. O ICAP é que organiza os eventos pelo Brasil. Em janeiro acontece a Brigada Sul-americana que leva, do Brasil, 100 brigadistas a fim de conhecer de perto como os cubanos vivem em relação ao bloqueio. Seu Honório, brigadista há anos, pede a palavra: “Sempre lutei por liberdade, sempre pelo socialismo. Fui sequestrado, torturado, sou anistiado. Estamos enfrentando um inimigo, visível e invisível, atuando em toda parte do mundo”. As brigadas são subsidiadas pelo governo cubano e se apóiam nesses militantes para que a situação da sociedade de Cuba seja justamente divulgada e não sob os olhares da grande mídia.
(*) Lais Bellini é estudante de jornalismo da Unesp.

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