Sobre mídia e política

Publicado aqui no Fazendo Media, em janeiro, sob o título “Uma excelente reportagem e uma sugestão de pauta”, o texto abaixo mostra que, mais uma vez, uma tragédia no Rio de Janeiro não era apenas anunciada. Era anunciada e publicada antes que acontecesse…

1) Publicado aqui no Fazendo Media sob o título “Uma excelente reportagem e uma sugestão de pauta”, o texto abaixo mostra que, mais uma vez, uma tragédia no Rio de Janeiro não era apenas anunciada. Era anunciada e publicada antes que acontecesse. Na ocasião, exatos três meses antes dos deslizamentos, chamávamos a atenção especificamente para a situação em Niterói. O prefeito, em vez de prestar atenção nas denúncias do deputado Marcelo Freixo, preferiu xingá-lo. E as corporações de mídia, como sempre, ignoraram o perigo iminente. Deu no que deu. Por isso falamos e repetimos aqui: TEM QUE DEMOCRATIZAR A MÍDIA. Se ela fosse democrática, nesse caso, por exemplo, centenas de vidas poderiam ter sido poupadas, simplesmente porque teria sido possível chamar a atenção para a iminência da tragédia. Do jeito que a mídia está hoje, isso não é possível, porque os veículos com maior poder de difusão estão concentrados em poucas mãos. E essas poucas mãos pouco se importam com quem é pobre – geralmente quem morre nessas situações.
Uma excelente reportagem e uma sugestão de pauta
Por Marcelo Salles, 5 de janeiro de 2010
Na noite desta segunda-feira, dia 4, a TV Brasil mostrou que está a fim de produzir e veicular um outro tipo de Jornalismo. Em seu principal telejornal, o Repórter Brasil, a emissora exibiu extensa e corajosa reportagem sobre a tragédia ocorrida em Angra dos Reis, mas com uma grande diferença em relação às empresas comerciais: a especulação imobiliária aparece entre os atores causadores das cinquenta mortes.
A TV Brasil foi a campo e entrevistou um vereador da oposição, em Angra, e o deputado estadual Alessandro Molon. Eles criticaram, respectivamente, o desvio de verba da prefeitura municipal, que deveria ser usada na proteção ao meio-ambiente, e o afrouxamento, pelo governador Sérgio Cabral, da legislação que garante a segurança das construções em áreas de encosta. De quebra, o telejornal ainda explicou, didaticamente, como funcionam as autorizações para as intervenções em regiões consideradas de risco.
Enquanto isso, as corporações de mídia culpam a chuva – que não tem assessoria de imprensa e nem verba publicitária. Quem assistiu a esta reportagem do Repórter Brasil não apenas tomou conhecimento de aspectos fundamentais para a compreensão da tragédia em Angra dos Reis. Também entendeu por que é tão importante a existência de veículos de comunicação que não sejam pautados pela lógica comercial, da audiência a qualquer preço.
Novos desastres anunciados
Na última quinzena de 2009, o deputado estadual Marcelo Freixo protagonizou uma discussão importantíssima para o cidadão fluminense, mas que infelizmente ainda não teve grande repercussão nos meios de comunicação (quem sabe a TV Brasil não se interessa?). Trata-se da tentativa de aprovação da lei que amplia a área de proteção do Parque Estadual da Serra da Tiririca – que abrange os municípios de Niterói e Maricá -, cuja votação estava marcada para agosto. A demora, segundo denúncia gravíssima de Marcelo Freixo, ocorre devido a um acordo do prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, com o presidente da Alerj, Jorge Picciani. A maior beneficiária desse acordo é a especulação imobiliária, que em Niterói está concentrada nas mãos de uma empresa privada chamada Patrimóvel.
Em razão de sua luta pela aprovação da  lei (assinada também pelos deputados Rodrigo Neves e Luiz Paulo), Freixo foi xingado de “leviano” por Jorge Roberto num jornal local. Sua resposta, na mesma moeda, foi dada no dia 15 de dezembro, no plenário da Alerj, e publicada no Diário Oficial.
Quem vive em Niterói, como eu vivo há 30 anos, conhece bem os males da especulação imobiliária. Crescimento desordenado; muita gente sem casa, muita casa vazia; preços exorbitantes dos imóveis; um trânsito cada vez pior (já levei 50 minutos para percorrer 8km); problemas graves de distribuição de água e energia; poluição crescente das praias (incluindo uma das mais belas do mundo, a de Itacoatiara); saneamento básico comprometido.
Se a sociedade não se mobilizar agora, Niterói pode viver uma tragédia de enormes proporções nos próximos anos. Além, é claro, de as tragédias cotidianas citadas no parágrafo anterior continuarem deteriorando, aos poucos e sem divulgação, a vida de milhares de pessoas. Muitas delas devido a esse profundo caso de amor entre o prefeito e a Patrimóvel.
2) Do livro “A abolição”, de Emília Viotti da Costa (Editora Unesp): “Oitenta e três deputados votaram favoravelmente ao projeto. Apenas nove votaram contra. Eram todos membros do Partido Conservador e, com exceção de um deputado por Pernambuco, todos os demais representavam a província do Rio de Janeiro – o último reduto da escravidão”.
3) Trecho do blog do Thiago Domenici, em comentário a respeito do novo filme de Michael Moore, sobre o sistema capitalista: “O sábio jornalista Sérgio de Souza, meu mestre, editor de texto da magnífica Revista Realidade e fundador da Revista Caros Amigos, falecido há dois anos, dizia diante da minha perturbação com as injustiças e contradições do país, que o problema de fundo era o capitalismo. Ele sabia, com toda sua experiência e sensibilidade, que o jornalismo que fazíamos não poderia mudar a sociedade completamente, mas poderia tocar as consciências, despertar a atenção para as questões cruciais. E daí, o povo, munido da informação, faria sua parte em reivindicar e lutar por mudanças de maior impacto”. Íntegra aqui.
4) A massa cheirosa do PSDB: http://www.youtube.com/v/yuXgolrKWjA&hl=pt_BR&fs=1&
5) Vágner Love fez dois gols contra o Vasco, colocou o Flamengo na final do campeonato estadual e comemorou a vitória com o símbolo do amor, um coração. A melhor resposta contra o ódio das corporações de mídia, que fazem de tudo para associar sua imagem a de traficantes varejistas, enquanto elas próprias se associam, às escondidas, a traficantes atacadistas.

5 respostas em “Sobre mídia e política”

É impressionante o cinismo da mídia corporativa em relação as tragédias que acontecem. No domingo 11/04 o programa dito jornalístico das organizações globo, que vai ao ar nas noites desses mesmo dias explorou ao máximo o sofrimento das vítimas dos desabamentos. E ainda achando pouco vai ao ara hoje a noite o programa: profissão repórter da mesma emissora de tv. É isso ai, o que estamos vendo é a face mais cruel do capitalismo; não interessa de quem é o sofrimento com tanto que dê ums pontos a mais no ibope, o resto não importa. Só o lucro, esse sim, importa e muito. Como o grande intelectual Noam Chomsky em seu livro ele coloca na capa: O LUCRO OU AS PESSOAS, um bom motivo refletir o título.

A globo é uma empresa pau-mandada dos EUA que tá aqui pra destruir nosso povo e nosso país.
Entao, o único remédio é tod@s prestigiarmos o sítio/Tv ao vivo Telesur: http:(nao vou colocar o endereço porque o ant-span automático do FM exclui o post … infelizmente)
e também a nossa TV Camara, http:(idem)
Temos que fazer uma campanha nacional para exigir do congresso o cumprimento das propostas de democratizaçao da comunicaçao tiradas na CONFECOM.
Esqueçam a mídia pilantra nacional, desliguem a tv, saiamos do lixao midiático!
“minha tv tá juntando teia de aranha e seu destino é incerto …!”

A melhor ocasião para se ocupar imóveis privados e vazios passíveis de desapropriação, ou públicos, passíveis de negociações políticas, em áreas centrais, é agora.
Os protestos não podem reduzir-se à reivindicações de imóveis para moradia e aguardar futura decisão de prefeitos ou governadores. Os movimentos por moradia deveriam, ao mesmo tempo que reivindicam, planejar e organizar ocupações e ir negociando no processo.
Além de denunciar as condições dos desabrigados em abrigos não se pode ficar aguardando as embromações dos governantes. A imprensa, normalmente, passada a chuva e a retirada de corpos soterrados, sai do cenário e os desabrigados terão que se virar como puderem porque quanto menor o número de desabrigados em abrigos, indo para casas de parentes etc., não suportando os maus tratos e as humilhações, baixam os custos e a responsabilidade dos governantes em atender as necessidades de moradia. A tática sempre foi de embromar e desgastar os desabrigados para que se dispersem e não “encham o saco” dos governantes. Pois, construir casa para pobre ninguém quer porque não dá lucro, além de preços de terra para que os pobres possam pagar o custo final da moradia, somente se encontra bem distante das áreas centrais com poucos ou nenhum equipamento urbano disponível. Só dá lucro aos empreiteiros construir para a classe média comprar. E, como os governantes sabem disso, aliados com a imprensa corporativa, a especulação imobiliária e interesses de empreiteiras de obras públicas, tudo vai ficando esquecido e os pobres vão se ferrando mais ainda do que já estão.
O silêncio sobre a situação dos desabrigados preparará uma futura criminalização de suas ações políticas ou sociais.
Digo isso, porque fui sobrevivente e desabrigado nas enchentes e barreiras de 1988 em Petrópolis, e participei dos processos de negociação política, que são sempre muito semelhantes e, normalmente, se repetem.
Solidariedade aos companheiros de Niterói e Rio de Janeiro! Força na luta!
Grande e fraterno abraço.

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