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‘Si me permiten hablar’, 30 anos depois

Mulher, trabalhadora, indígena. A boliviana Domitila Chungara se engajou na luta política e participou da derrubada da ditadura do general Hugo Banzer. Com essa história a repórter Raquel Junia, editora de Movimentos Sociais do Fazendo Media, ficou em primeiro lugar no I Concurso Latinoamericano de Reportagem. Leia a matéria…

Mulher, trabalhadora, indígena. A boliviana Domitila Chungara se engajou na luta política e participou da derrubada da ditadura do general Hugo Banzer. Com essa história a repórter Raquel Junia, editora de Movimentos Sociais do Fazendo Media, ficou em primeiro lugar no I Concurso Latinoamericano de Reportagem. Quando esteve na Bolívia para a realização do presente trabalho, a jornalista também produziu a mais completa cobertura do processo da Assembléia Constituinte daquele país (a série pode ser lida em http://www.fazendomedia.com/
internacional.htm). Segue abaixo a reportagem vencedora.
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‘Si me permiten hablar’, 30 anos depois
Por Raquel Junia
Um dos cartazes afixados na sala de aula da escola de Alfabetização Política anuncia a palestra de Domitila Chungara no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Não está escrito o ano do evento, mas Domitila lembra sem esforço que foi no final da década de 70.
Domitila Barrios de Chungara ficou conhecida no mundo todo quando a professora brasileira Moema Viezzer publicou o livro “Si me permiten hablar…Testimonio de Domitila – uma mujer de las minas de Bolivia”, com original em espanhol. Moema a conheceu na Tribuna do Ano Internacional da Mulher, no México, onde começou a recolher o seu testemunho.
No livro, Domitila narra com riqueza de detalhes a vida nos acampamentos mineiros da Bolívia, a luta dos sindicatos de trabalhadores das minas e também a organização das mulheres, sobretudo do acampamento Siglo XX, onde viveu. A publicação circulou pelo mundo e é facilmente encontrada na Bolívia, em uma edição de bolso. No Brasil, com um pouco de sorte, acha-se o livro em sebos.
Hoje, Domitila vive na cidade de Cochabamba, região central da Bolívia. Já não é uma trabalhadora mineira porque assim como centenas de mineiros saiu do acampamento quando as minas foram privatizadas e os trabalhadores demitidos. Em sua casa, com o Che pintado no muro, Domitila recebeu essa repórter, que ainda era estudante de jornalismo, no ano de 2007.
Domitila continua combatente
Ironicamente, a poucas quadras da casa de Domitila Chungara está uma das obras sociais de Simon Patiño, dono de minas e considerado um dos barões do estanho na Bolívia. A entrevista está marcada para as 10 horas, apresso o passo para não chegar atrasada.
É na residência de Domitila – uma casa simples, de grades azuis e o rosto conhecido de Che Guevara pintado próximo ao portão de entrada –.que funciona uma escola de formação política, com o nome Escola de Alfabetização Política. Aos 70 anos, Domitila preserva a capacidade de relatar tudo com a mesma clareza de detalhes com a qual se expressou no livro ‘Si me permiten hablar…’. Um dos pôsteres afixados na parede diz: “Cinco mulheres contra a ditadura de Banzer” e traz uma foto delas abaixo, entre elas, está Domitila.
“Sempre disseram que a mulher é da casa, e o homem é da rua. Proibiram a gente de participar em esportes, centros culturais, inclusive não nos permitiram ter acesso à educação. Diziam: ‘para que vão aprender a ler e a escrever se isso só serve para elas mandarem cartas para os namorados!’”, começa a conversar.
Apesar disso, ela conta que as mulheres não se deixaram abater e cita também os exemplos de Bartolina Sisa, Gregória Apaza e Juana Azurduy, que também se rebelaram em épocas distintas. Nas minas – ela conta – até 1961 não havia organização das mulheres e geralmente os homens não aceitavam que elas fossem às reuniões. Domitila relata que, no início, a organização cuidava apenas do que ela chama de luta social. Ou seja, brigar pela qualidade e quantidade dos alimentos da mercearia onde os mineiros compravam e depois era descontado de seus salários, reclamar as goteiras no telhado das casas, a falta de professores na escola. Entretanto, a qualidade de vida piorava. Apesar das greves dos mineiros, o salário não aumentava e havia mais repressão por parte do governo.
“Em uma assembleia dos trabalhadores mineiros as Amas de Casa resolveram desabafar: ‘nos disseram que quando a mulher fosse apoiar o seu marido, se organizasse, estaríamos melhor, mas estamos pior, nossos filhos estão morrendo de fome’. Aí um dos dirigentes do sindicato nos respondeu: ‘companheiras, é que a luta não é apenas social, nem apenas econômica, mas a luta fundamental é a política”.
Domitila diz que elas começaram a pensar a respeito, apesar de sempre terem dito à elas, desde que eram criancinhas que a política “era obra do diabo”.“ Dissemos que tínhamos medo da política. E esse companheiro retrucou: ‘Então, nunca vamos solucionar nosso problema porque o governo está sempre nas mãos dos poderosos, e os pobres nunca tiveram acesso ao poder e sempre será assim’. E aí perguntamos: ‘será que isso é verdade?’ Investigaremos! Começamos a investigar e chegamos à conclusão de que os seres humanos desde que nascemos todos somos políticos”.
Alfabetização política
E assim, Domitila expõe as idéias de forma didática e reproduz os diálogos que teve ao longo de sua trajetória. Já se vai uma hora de conversa, interrompida apenas duas vezes pela chamada do telefone.
Ela continua dizendo que tem clareza que existe uma luta de classes, dos ricos contra os pobres. Alerta, entretanto, que não são “os pequenos ricos” os inimigos da classe trabalhadora. Os inimigos não são quem tem dois carrinhos e duas casinhas, na expressão dela, mas os grandes, donos dos computadores, do petróleo, das fábricas de armas.
“O governo está fazendo alfabetização, mas o povo precisa de alfabetização política, que entenda tudo o que é a política, os partidos, o neoliberalismo, o nacionalismo, o socialismo. Uma vez consciente de tudo isso, ele vai decidir o que quer”.
A conversa já se estende para além do meio-dia, Domitila fala quase que ininterruptamente por um pouco mais de duas horas. Já está visivelmente cansada, também por causa de um princípio de gripe ou alergia. Ela anuncia que precisamos parar porque precisa fazer o almoço para um dos seus netos. O garoto vê desenho animado no interior da casa. Por último, Domitila alerta sobre o que considera uma má influência da religião nas mulheres e termina e reproduzindo mais um diálogo.
“Por exemplo, eu tenho irmãs religiosas. Quando estavam nos retirando das minas, em 1985, saímos à pé dos acampamentos e nossa intenção era chegar à La Paz em marcha. Mas o exército nos deteve no caminho e nos atacou com violência e tivemos que regressar. Depois disso, eu com muita raiva falo com uma de minhas irmãs: ‘o exército nos fez voltar e não querem nos escutar’. Ela me escuta e diz: ‘é assim, Domita, assim sempre tem que ser. Eles nunca vão escutar, não vamos encontrar a justiça dos homens, mas a de Deus. Além disso, nós pecadores estamos pagando por nossos pecados’. Me deu uma vontade de bater nela. Em que pecamos? É pecado lutar por uma fonte de trabalho?.
Em tom de ironia, continua:
“Colocam coroas de ouro nas imagens da Virgem Maria, mantos bordados. Se a Virgem Maria visse isso ela falaria: ‘quem são essas virgens que estão adorando? Não sou eu”, sorri Domitila.
Cochabamba
Cochabamba, onde vive Domitila, foi minha porta de entrada e saída da Bolívia. Na ida, é verdade que passei por Santa Cruz, mas foi em Cochabamba que andei pelas ruas a primeira vez. Já de cara me impressionaram aquelas mulheres. Por que se vestiam diferente? Por que aquela roupa tão bonita era considerada cafona por quem é da cidade? Tantos aguayos coloridos, tanta comida pelas ruas… No mercado, barracas e mais barracas vendendo as polleras, de todas as cores que se possa imaginar. Foi em Cochabamba que vi pela primeira vez pelo menos duas Bolívias.
Fui convidada a experimentar o sorvete típico do lugar. Pequenas pirâmides de sorvete em três cores estavam em baldes de alumínio. Vermelho, amarelo e branco – canela, baunilha e coco – descobri que viram sorvete pelas mãos fortes de mulheres que mexem a mistura nesses baldes até que ela vire a pirâmide que pude ver e experimentar.
Estás rico? – pergunta meu amigo. Não tanto, pensei, o lugar é simples, as pessoas também. Sim, mas era rica aquela feira popular, eram ricos aqueles povos que conseguiam transformar gelo em uma pirâmide de sorvete sem nenhuma tecnologia a não ser a mão e um balde de alumínio. Então, respondi: “Muito rico”. Depois fui saber que riqueza nesse caso era sinônimo de gostosura, pelo menos respondi certo.
Antes de despedir-mos Domitila conta a história do Rei Midas. “Meu pai sempre me contava a história do Rei Midas. É assim: o Rei Midas gostava muito de ouro, pelo ouro adoecia. Ouro, ouro, ouro era o que queria. Um dia apareceu um duende e disse que ele poderia fazer o pedido que quisesse. Ele pediu e o duende o concedeu o dom de converter tudo em ouro. Ele ficou muito feliz, tchotcho da vida! Transformava tudo em ouro, todas as coisas da sua casa que ele tocava viravam ouro. De tanto brincar de fazer tudo virar ouro, ele se cansou, teve fome e pediu comida e algo para beber. Trouxeram um frango enorme para ele, quando tocou o frango, virou ouro, a água também. Não podia comer nem beber. Foi ficando desesperado e começou a chorar e depois se arrependeu: ‘quero doar toda a minha fortuna em troca de poder comer’. O duende o atendeu, ele voltou ao normal e bem mais pobre, mas estava feliz porque pelo menos podia comer”, Domitila pausa para dizer que foi do pai que ela ouviu essa história pela primeira vez.
“No mundo, esses 20 por cento está assim, não lhes importa matar, fazer guerra, mentir para conseguir dinheiro. Esses 20 por cento de Reis Midas estão destruindo o mundo. Quando eles se arrependerem já vai ser tarde e não vão ser só eles a pagar por isso, mas todos nós”, alerta Domitila Barrios de Chungara, uma das mulheres bolivianas que um dia resolveu que os “Reis Midas” não poderiam continuar dominando o mundo.

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