Arquivo da categoria: Memória & Consciência

O sacrifício dos inocentes

Há coisas sobre as quais gostaria de nunca ter escrito nem lido uma linha, nem ter sabido que existiam. Infelizmente, a vida me fez saber que os jovens são mortos pelas forças policiais e militares, pela bandidagem, pelas patotas sindicais, fascistas, neofascistas, nazistas, e ponha istas na lista. Quando jovem, eram os estudantes e os operários assassinados pela repressão na Argentina, as pessoas dos bairros populares que resistiam às forças de ocupação na Argentina ocupada, sim, não sabias, a Argentina foi ocupada pelas forças da repressão, mais de uma vez, anos a fio, e nesta tarefa, os nossos caiam como moscas. Foram Santiago Pampillón, Cabral, Bello, os mortos pela ditadura de Ongania. Depois viriam os outros mortos, os mortos da ditadura devastadora de Videla, o genocídio, que não poupava jovens nem crianças, mulheres nem velhos.

O tempo passou, e a Argentina voltou à democracia, mas os jovens continuaram morrendo, continuam morrendo, sendo assassinados pela polícia de gatilho fácil e por patotas sindicais, por bandos clandestinos, como do lado de cá: no Brasil, na Paraíba, em Pernambuco, a morte continua ceifando vidas jovens, supostamente por acerto de contas entre traficantes; na verdade, há grupos de extermínio, cuja ação tem sido combatida, entre outros, pelo deputado Luiz Couto. No Rio de Janeiro, um jovem baleado numa parada gay. Gay ou o que for, a morte não pode ser permitida como argumento dos que não tem argumento.

Senão, será como naquele escrito de Bertolt Brecht: primeiro, levaram os comunistas e eu não protestei, não sou comunista; depois, vieram pelos judeus e eu não protestei, não sou judeu, e quando vieram por mim, era tarde. É tempo ainda de deter a barbárie, essa indiferença, essa passividade cúmplice que banaliza a morte dos jovens, sob o manto da indiferença: não é comigo, algo terá feito. Isto diziam quando os alvos éramos nós, a massa dos que algo tinham feito para merecer a perseguição da ditadura. Não se pode cair na indiferença sob o argumento indefensável, de que o morto era gay ou era comunista ou era o que era. Era uma pessoa, como você e eu, e tinha o direito de existir, como nós temos. É tempo de evitar o pior. É tempo de parar a morte. É tempo de parar com o sacrifício dos inocentes.

Exige-se investigação rigorosa sobre a agressão a Douglas

NOTA OFICIAL

O Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT reivindica investigação rigorosa do caso do menino Douglas, 19 anos, que foi baleado na barriga após a 15ª Parada do Orgulho LGBT-Rio, ocorrida no último dia 14, que reuniu 1,2 milhão de pessoas na orla de Copacabana. Caso fique provado que o disparo realmente foi feito por militares que faziam a ronda no local, como relata familiares da vítima, o Grupo Arco-Íris cobra punição exemplar ao homofóbico.

Cabe lembrar que as Forças Armadas e todos os operadores de segurança de nosso estado e do país têm por obrigação garantir a segurança e a proteção de tod@s cidadãos (ãs), independentemente de credo, cor, orientação sexual e identidade de gênero. A Organização também salienta a importância de as Forças Armadas reverem seus códigos militares, que carrega em seus escritos as tintas de um militarismo intolerante e violento aos LGBT.

Este é apenas um caso entre milhares de outros. A cada dois dias, um homossexual é assassinado em virtude de sua orientação sexual. A homofobia é uma questão real; é uma chaga social que precisa ser sanada. Necessitamos o quanto antes que o PLC 122/06, que criminaliza a homofobia no país, seja aprovado pelo Senado Federal. Precisamos de políticas públicas que fomentem a cidadania de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e combatam à homofobia, principalmente no âmbito da educação, a fim de que novas gerações mais plurais e respeitosas nasçam com novas perspectivas em relação à diferença.

Julio Moreira

Presidente do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT

250 Anos da Morte de Sepé Tiaraju

Os Sete Povos Missioneiros: Das Fazendas Coletivas ao Latifúndio Pastoril Sul-Rio-Grandense

Por Mário Maestri, 2006 – atualizado em outubro de 2010

I. A Colonização Tupi-Guarani das Américas
Nos anos 1600, três grandes comunidades nativas dividiam-se os atuais territórios do Brasil Meridional. Na Serra e no Planalto, viviam povos de língua jê, especializados na caça, pesca e coleta florestal. Os campos abertos eram dominados pelos nativos pampianos, hábeis cavaleiros após a introdução do gado vacum e cavalar nessas regiões pelos europeus.

Os guaranis pertenciam à importante civilização tupi que colonizara boa parte da América do Sul, após dominarem a horticultura de floresta tropical e sub-tropical, na Amazônia Central, há mais de dois mil anos. Eles foram os últimos chegados ao atual Rio Grande do Sul.

As aldeias tupi-guaranis, com uns 150 habitantes, tinha de três a cinco residências coletivas. O chefe da aldeia e das moradias comunitárias possuía prestígio comunitário, mas nenhum poder de fato sobre a comunidade aldeã. A família celular independente era a unidade de produção e de consumo de base dessa micro-sociedade.

Cada três a cinco anos, as aldeias tupi-guaranis transferiam-se  de local, devido ao esgotamento da caça e da coleta e à degradação das condições higiênicas dos terrenos habitados e das regiões próximas. Comumente, as aldeias super-povoadas dividiam-se durante as transferências periódicas, dando origem a uma nova comunidade independente.

Minha aldeia, meu mundo
O mundo tupi-guarani esgotava-se nos quadros da comunidade aldeão, formada em geral por famílias aparentadas residindo nas moradias coletivas. As aldeias eram independentes, pois supriam as necessidades de subsistência dos moradores sem a necessidade de realizarem trocas econômicas inter-aldeãs.

Os aldeões dispunham comunitariamente dos territórios controlados pela aldeia, desconhecendo qualquer forma de apropriação privada da terra. Reinava grande solidariedade entre os produtores, sobretudo da mesma moradia coletiva. Alguns bens eram do domínio dos moradores da residência – amambaé. Armas, utensílios, ferramentas, etc. pertenciam aos aldeões, individualmente – abambaé.

A produção tupi-guarani assentava-se na divisão sexual do trabalho. O homem caçava, pescava, guerreava, participava da construção da moradia coletiva, abria as clareiras para as plantações, em geral associado aos companheiros de moradia, etc. A divisão sexual do trabalho tupi-guarani sobrecarregava as mulheres, responsáveis pela coleta, pelo transporte, pelo cuidado dos filhos, pelo preparo dos alimentos, etc. As mulheres eram responsáveis pelas plantações.

O produto-base da horticultura tupi-guarani era a mandioca brava, de alto poder calórico e escassa riqueza protéica. Os tupi-guaranis não criavam animais para o abate, de grande, pequeno e médio porte. Nos meses de escassez de caça e de coleta, careciam penosamente de proteínas, o que parece ter contribuído à prática do abate e consumo cerimonial dos inimigos.

Os tupi-guaranis partiram do Médio Amazonas para colonizar boa parte da América do Sul. O braço guarani avançou ocupando as florestas em galeria dos afluentes da margem direita do Amazonas – atuais Bolívia, Paraguai, Uruguai, sul do Brasil, etc. O braço tupinambá despontou na foz do Amazonas e ocupou, muito rapidamente, grande parte da então exuberante Mata Atlântica do litoral.

II. Missões – Um novo mundo guarani
Em 1494, em Tordesilhas, as coroas portuguesa e espanhola dividiram os mundos descobertos e a descobrir. Na América do Sul, nos territórios brasílicos, a coroa portuguesa enriqueceu-se distribuindo graciosamente sesmarias – pouco mais de treze mil hectares – aos homens bons com cabedais suficientes para povoá-las e explora-las com o braço americano e africano escravizado.

Os colonos espanhóis enricaram-se empregando, em forma direta e indireta, o trabalho americano nas fabulosas minas de prata dos Andes, em plantações, estâncias, etc. Privilegiados na partilha de Tordesilhas, faltavam-lhes entretanto capitais para ocupar e explorar diretamente as imensas regiões do continente que lhe couberam na exótica apropriação americana.

A administração real espanhola temia que os portugueses avançassem sobre os territórios não ocupados, aproximando-se das cobiças minas andinas, fontes de ingentes riquezas. As missões constituíram inteligente projeto de ocupação, de defesa e de incorporação de imensas regiões das Américas e vastas populações ao mundo colonial espanhol, praticamente sem investimentos.

A Coroa espanhola propunha que as comunidades nativas dispersas se reunissem em pueblos estáveis, sob a administração de jesuítas, franciscanos, dominicanos, etc. Os pueblos, misiones, etc. dependeriam diretamente do rei de Espanha, escapando portanto das pesadíssimas exigências em tributos e em trabalho dos insaciáveis proprietários coloniais.

Impasses e soluções
À exclusão dos povos andinos, não houve comunidade nativa que mantivesse os tupi-guaranis longe dos territórios florestais do litoral e das margens dos rios e das lagoas que conquistavam para assentar suas aldeias e roças horticultoras. A aldeia e as moradias comunitárias tupi-guaranis formavam coesas e poderosas equipes de produtores de alimentos e de guerreiros.

Por razões compreensíveis, os guaranis acolheram positivamente a opção missioneira. Após uma expansão territorial pluri-centenar vitoriosa, havia um século que as comunidades tupi-guaranis perdiam inexoravelmente as terras, a liberdade e a vida para a frente de expansão colonial ibérica.

O embate americano entre os nativos guaranis e os colonizadores ibéricos confrontava, por um lado, a comunidade doméstica nativa, ignorantes das diferenças de classe e da organização do Estado, estruturada em aldeias autárquicas e, por outro, Portugal e Espanha, Estados classistas, vanguardas do mercantilismo, inseridos na divisão mundial do trabalho.  Comumente a aldeia tupi-guarani isolada apoiava o europeu no combate à comunidade vizinha, sua inimiga tradicional.

Modo de produção missioneiro
A proposta das missões retirara  as comunidades tupi-guaranis da perplexidade e do desalento em que haviam sido lançadas pelas derrotas incessantes diante dos vorazes colonizadores ibéricos, ao garantir-lhes segurança relativa diante dos encomenderos espanhóis e dos escravizadores paulistas. Ela constituía uma via para a sobrevivência comunitária.

Sobretudo, as reduções asseguraram às comunidades americanas melhorias substanciais na alimentação, na moradia, no vestuário, na segurança, etc., ao ensejarem a transição da comunidade de produção guarani doméstico-aldeã pré-classista à sociedade missioneira, estatal, comunitária, baseada em uma mais elevada divisão do trabalho.

Hábeis horticultores, os guaranis aclimataram com facilidade as técnicas, as ferramentas e as plantas da agricultura européia. Incorporaram ao quotidiano produtivo as ferramentas de ferro, o arado simples, a tração animal, a adubação, a fruticultura. Com a crescente importância da agricultura, essas práticas,  monopólio feminino na sociedade guarani, tornaram-se tarefas masculinas, realizadas com o apoio feminino, nas Missões.

Tecer redes e faixas de algodão era tarefa feminina tupi-guarani. Liberadas parcialmente das obrigações horticultoras, as mulheres assumiram novas responsabilidades na fiação e na tecelagem do algodão e da lã, produzindo vestimentas e cobertores que facilitaram a ocupação de regiões golpeadas duramente pelos frios invernais, como o nordeste do atual Rio Grande do Sul.

Cerâmica e olarias
O conhecimento oleiro simples guarani desdobrou-se nas práticas ceramistas missioneiras que produziam os materiais com os quais se levantavam e telhavam os celeiros, os estábulos, os galões, as igrejas, as moradias, as oficinas, etc. Novas residências com diversos aposentos unifamiliares recebiam os habitantes das antigas moradias coletivas.

A divisão sexual e familiar do trabalho, apoiada na cooperação simples entre os produtores das residências coletivas e da aldeia, ampliou-se, originando práticas produtivas realizadas comumente por artífices especializados. As reduções possuíam de trinta a quarenta oficinas: ferraria; marcenaria; olaria; sapataria; tecelagem; tornearia, etc.

Os guaranis desconheciam completamente a criação animal. Em verdade, as Américas desconheciam o gado vacum, cavalar, muar, etc. Sobretudo, as missões introduziram-nos nas práticas pastoris vacuns, cavalares, caprinas, ovinas, etc., que forneciam com segurança e relativa fartura os recursos protéicos que as comunidades nativas tinham, em abundância, apenas episodicamente.

Realizada muitas vezes em ervais distantes, a extração-produção da erva-mate tinha grande importância para as missões. Diariamente, distribuía-se uma cuia de erva-mate por família missioneira. A erva entrava como equivalente nas trocas inter-missões e era exportada, em grandes carretas de duas rodas, para regiões, não raro, muito distantes – Buenos Aires, Santa-Fé, Chile, Peru, etc. A criação de mulas era igualmente uma outra importante fonte missioneira de recursos.

Contabilidade social
O missioneiro recebia pequena parcela da terra comunal  para sua exploração familiar. Porém, trabalhava comumente nas plantações comunitárias nas segundas e sábados. A produção agrícola e pastoril comunitária financiava a subsistência dos trabalhadores especializados [administradores, artífices, ervateiros, vaqueiros, etc.] ou improdutivos [velhos, doentes, etc.]

No contexto de técnicas e métodos novos e tradicionais, o desenvolvimento da produção missioneira comunitária [tupambaé]  e familiar [abambaé] permitiu divisão do trabalho e, conseqüentemente, produtividade social superiores às da comunidade guarani tradicional. O que ensejou o sustento de uma comunidade maior, com maior esperança de vida e segurança.

Grande parte do consumo familiar da comunidade missioneira era produzida pela própria família. A administração central de cada missão – cabildo –, monopólio dos caciques, organizava a equalização das trocas internas entre os agentes das diversas esferas produtivas. A contabilidade central substituía a mercantilização como meio de troca dos mais diversos produtos, que não se transformavam em mercadorias para serem consumidos, dominando seu valor de uso e não de troca.

A maior parte do produto excedente, liberada pela maior produtividade do trabalho, era reinvestida na comunidade, sob a forma de bens de produção, instalações, etc. O caráter progressista do novo modo de organização e de produção aumentava o prestígio dos seus vetores ideológicos — os jesuítas e o cristianismo – e a coesão social missioneira. Não devemos porém fantasiar sobre as condições gerais de existência nas missões guaranis, transformando-as como quase paraísos sobre a terra. Era muito dura e árdua a luta pela sobrevivência material nessa comunidade.

III. Das Missões do Tape aos Sete Povos
De 1610 a 1634, os jesuítas espanhóis fundaram as províncias guaraníticas do Paraguai: Itatim, Guairá e Uruguai. As missões do Tape faziam parte da província do Uruguai. Seus dezesseis pueblos localizavam-se no noroeste do Rio Grande do Sul atual, no Planalto e nos vales do Jacuí, Ibicuí e Ijuí.

Muito logo, as reduções do Tapes foram atacados por mamelucos paulistas, à procura de nativos para serem escravizados, devido à falta de braços africanos cativos, sobretudo desde a ocupação holandesa de importantes portos negreiros portugueses da costa da África. Nesse então, a casa real espanhola reinava igualmente sobre Portugal [Unificação Ibérica 1580 – 1640]. Nos fatos, despreocupava-se com os assaltos lusitanos às missões espanholas, pois eles alimentavam em braços os rendosos engenhos açucareiros das colônias do Brasil.

Talvez vinte mil missioneiros tenham sido arrastados para as capitanias portuguesas como cativos. Antes da viagem, matavam-se os caciques e os guerreiros mais combativos, para que não organizassem revoltas. Os velhos e as crianças eram executados ou abandonados, para que não atrasassem a marcha terrível. Essas terríveis operações foram e continuam sendo elogiadas por importantes setores historiográficos como responsáveis pela expansão das fronteiras brasileiras.

Em 25 de março 1641, expedição escravizadora de 3.400 homens – paulistas, mamelucos e tupis – foi completamente derrotada nas barrancas do rio M´Bororé, afluente do rio Uruguai, por quatro mil missioneiros portanto as armas tradicionais, arcabuzes e canhões de bambus gigantes, reforçados com couros de animais. Com o início da guerra de libertação de Portugal, em 1640, a Coroa espanhola permitira que os missioneiros se armassem contra os seus antigos súditos portugueses, agora inimigos figadais.

Vacarias missioneiras
Entretanto, em 1636-8, para protegerem-se das razias paulistas, os missioneiros do Tape transferiram-se para a margem direita do Uruguai, abandonando os atuais territórios do Rio Grande do Sul para se estabelecerem nas regiões da atual província argentina de Misiones e no sudoeste do Paraguai. Entretanto, a ocupação de parte dos territórios sulinos teria importante conseqüência na história posterior dessa região.

Em 1634, cada missão recebera umas cem cabeças de gado para formar rebanhos. Quando da retirada para a outra margem do rio, os animais foram deixados nas margens meridionais do Jacuí, para que se reproduzissem. Como as condições ambientais da região – pampa –  eram excelentes, as manadas de gado reproduziram-se exuberantemente e expandiram-se para o litoral, à busca de pastagens, alcançando o Atlântico e avançando para o sul, dando origem às vacarias da região – campos de gado selvagem. Essas manadas de gados enriqueceram-se igualmente com as infiltrações de gados desgarrados, chegados da outra banda do rio Uruguai.

Os vaqueiros missioneiros atravessavam periodicamente o rio Uruguai para levar rebanhos para as estâncias, extraídos das vacarias formadas entre o rio Jacuí e a lagoa dos Patos. As estâncias das missões eram imensas, ainda que menores, em relação às vacarias. Nelas, os gados eram reunidos periodicamente em rodeios, ainda que em forma muito extensiva. As invernadas eram pequenas estâncias, próximas às missões, de onde os gados eram retirados para o consumo. Sobretudo os acidentes geográficos e valas com plantações de espinheiros e outras barreiras mantinham os gados nas estâncias. Posteiros missioneiros controlavam as passagens por onde os gados escapavam.

Povoados pelos gados selvagens, os campos do atual Rio Grande do Sul formavam uma enorme hacienda, trilhada continuamente pelos vaqueiros missioneiros à busca dos animais. Após a organização das estâncias, as vacarias do Mar, nas pastagens que iam da margem direita do rio Camaquã até o rio Negro, no atual Uruguai, eram mantidas como uma espécie de reserva estratégica, de onde se extraíam animais, quando necessário.

Sacramento – os portugueses no Prata
Durante a Unificação Ibérica [1580-1640], os lusitanos desenvolveram rentável atividade comercial na bacia do Prata, contrabandeando trabalhadores escravizados, produtos da costa do Brasil e manufaturados, sobretudo, ingleses, em Buenos Aires, sobretudo pela prata. As autoridades espanholas fechavam os olhos para essa atividade, pois dava-se no interior do império espanhol. Em 1640, com o início da guerra de independência lusitana, o mercado platino fechou-se inexoravelmente aos comerciantes lusitanos, em boa parte cristão-novos de judeus.

Com a crise do comércio açucareiro, determinada pela difusão da plantação dos canaviais pelas grandes potências européias no Caribe, a coroa lusitana procurou novos negócios, enquanto promovia a procura das minas. Entre eles, promoveu a ocupação do norte de suas possessões americanas. No sul da América, em janeiro de 1680, os lusitanos fundaram a colônia do Santíssimo Sacramento, na  deserta margem oriental do Prata, diante de Buenos Aires, em territórios pertencentes à Espanha, segundo o Tratado de Tordesilhas. A feitoria almejava sobretudo prosseguir o rendoso comércio interrompido quarenta anos antes. Entretanto, uma nova atividade garantiria igualmente o sucesso econômico da cidadela – a caça dos animais vacuns bravios das vacarias pelo então crescentemente valorizado couro.

A coroa espanhola respondeu à intrusão lusitana cercando, atacando e conquistando, em agosto, a cidadela, com a ajuda de mil milicianos missioneiros. No ano seguinte, Sacramento foi devolvida pelos espanhóis aos lusitanos, que a obtiveram em cerradas negociações diplomáticas. De então a 1777, a Colônia tornaria-se o grande pomo da discórdia entre as coroas ibéricas no sul da América.

Sete Povos das Missões
Diante da nova situação, a administração espanhola ordenou que os missioneiros atravessassem novamente o rio Uruguai para fundar, desde 1682, novas reduções no noroeste dos atuais territórios sulinos. Os Sete Povos da Banda Oriental do rio Uruguai foram formados pela fundação sucessiva das reduções de São Miguel, São Nicolau, São Borja, São Luiz Gonzaga, São Lourenço, São João Batista, Santo Ângelo.

A nova ocupação estendeu o controle, mais ou menos legal e efetivo, dos Sete Povos sobre grande parte dos atuais territórios sul-rio-grandenses e uruguaios. No Planalto, os gados missioneiros ocuparam os campos abertos e os ervateiros missioneiros exploraram parte das matas da região. Nos pampas, já em 1683, os vaqueiros de São Miguel chegaram até a região da atual cidade de Bagé, próxima da fronteira atual com o Uruguai, de onde se retiraram devido à oposição dos nativos locais.

Com administração própria, os Sete Povos permitiam melhor gestão dos recursos pastoris, agrícolas, ervateiros, etc. da região e uma melhor proteção desse flanco do Vice-Reinado do Peru, ameaçado por Sacramento. Entretanto, cada missão possuía suas terras, seus gados, suas estâncias e administrava-se independentemente. Produzindo em geral os mesmos produtos, eram muito limitadas as trocas e, portanto, a inter-dependência dos Sete Povos.

No início do século 18, os trinta povos das Missões Ocidentais e Orientais do rio Uruguai possuíam uns 150 mil habitantes. A população dos Sete Povos seria de 30 mil missioneiros, sobretudo guaranis, ainda que ali vivessem parcialidades de outras origens nacionais – charruas, minuanos, etc. Uma população considerável. Na época, Portugal apenas ultrapassaria um milhão e meio de habitantes.

Missão cumprida
As Missões protegiam essas regiões da expansão lusitana, participando ativamente dos ataques aos portugueses, o que as debilitava fortemente, já que os milicianos missioneiros eram, nos fatos, roceiros, vaqueiros, artífices, etc., que tinham que abandonar suas funções para ir à guerra. As milícias missioneiras protegiam também as povoações espanholas dos ataques de nativos ´selvagens´. Eram verdadeiras guarda pretoriana contra eventuais insubordinações das elites criollas às autoridades coloniais.

As Missões incorporavam também economicamente esses vastos territórios da América do Sul ao espaço colonial hispânico, pois exportavam diversos produtos – erva-mate, mulas, couros etc. – para pagar os impostos de capitação, devido à coroa, e adquirir o que não podiam ou não queriam produzir na região.

O crescente esgotamento da produção mineradora andina e o desenvolvimento da importância da bacia do Prata para as trocas comerciais e as comunicações selaram a sorte dos Sete Povos.  O crescente desenvolvimento semi-autônomo de fato de uma verdadeira nação guarani-missioneira desagradava mais e mais as classes dominantes crioulas, que cobiçavam as terras e sobretudo a mão de obra missioneira.

IV. O Tratado de Madrid e a Guerra Guaranítica
Em janeiro de 1750, em Madri, as coroas ibéricas pactuaram solução pacífica global das desavenças territoriais americanas. Para a América Meridional, acordou-se trocar a colônia de Sacramento, lusitana, pelos territórios dos Sete Povos, espanhóis. O tratado garantia à Coroa espanhola o domínio pleno do estuário do Prata às custas das populações missioneiras, expropriadas de suas vilas, moradias, oficinas, igrejas, terras, fazendas, rebanhos e ervais.

O Tratado ordenava: “Das povoações ou aldeias que cede sua Majestade Católica na margem oriental do rio Uruguai, sairão os missionários com todos os móveis e efeitos, levando consigo os índios para os aldear em outras terras de Espanha […]; entregar-se-ão as povoações à Coroa de Portugal, com todas as suas casas, igrejas e edifícios e a propriedade e posse do terreno […].”

Os missioneiros deviam abandonar as terras natais e localizaram-se, a mais de seiscentos quilômetros, no setentrião da então semi-deserta Banda dos Charruas [Uruguai]. Como a transferência era decisão que os ibéricos não esperavam que os missioneiros obedecessem de livre-vontade, em 1751, tratado secreto acertou o uso conjunto da força militar luso-espanhol contra a previsível resistência missioneira.

Para ocupar as Missões, a Coroa portuguesa mandou vir camponeses sem ou com pouca terra das ilhas dos Açores e da Madeira. Os casais assentados receberiam 272 hectares de terra, ferramentas, sementes, dinheiro, etc., tudo gratuitamente. Até 1754, três mil ilhotas associaram-se aos 1.500 povoadores da região, num salto qualitativa da população luso-brasileira local. Esperava-se que os camponeses garantissem a posse daqueles territórios e produzissem braços e meios de subsistência para as tropas coloniais.

Guerra guaranítica
O general-de-batalha Gomes Freire de Andrade, comissário português da expedição demarcadora, ao chegar ao Rio Grande, concedeu sesmarias no Chauí, em Viamão, em Cima da Serra, no Vale do rio dos Sinos, no Jacuí, no Caí, no rio das Antas, na Vacaria dos Pinhais, procurando incentivar a ocupação latifundiária sesmeira dos territórios sulinos pelos luso-brasileiros.

Em setembro de 1752, a expedição luso-espanhola – astrônomos, diplomatas, engenheiros, geógrafos, militares, etc., – encontrava-se em Castilhos Grande e, em inícios de outubro, assentava o primeiro marco divisório. Porém, muito logo, seria barrada por tropas missioneiras comandadas por José Tiaraju – Sepé –, alferes real de São Miguel, na coxilha de São Sebastião, no atual município de Bagé, já em territórios missioneiros.  As tropas gerais missioneiras encontravam-se sob o comando de Nicolau Neenguiru, corregedor de Concepción, na margem ocidental do Uruguai.

Em 23 de fevereiro de 1754, uns trezentos missioneiros atacaram por quatro horas a apenas fundada tranqueira de Rio Pardo, fronteira oeste luso-brasileira, no vale do Jacuí. Teriam morrido 22 atacantes e de três a quatorze defensores. Em 28 de abril, tropas unificadas dos Sete Povos assaltaram, novamente, com pouquíssima decisão, o forte de Rio Pardo, que reforçara suas defesas.  Nos inícios dos combates morreu Alexandro Mbaruari, comandante militar de São Miguel, chefe geral das tropas missioneiras.

Em 1574, um poderoso exército português, com mais de mil homens em armas, partiu de Rio Grande, no litoral, para Rio Pardo, onde chega em agosto. As tropas espanholas também chegam à região. Porém, devido ao forte inverno e à resistência missioneira, em novembro de 1754, os exércitos ibéricos retiram-se da região, após pactuarem armistícios separados com os representantes dos pueblos que, nos fatos,  ampliavam as terras sob controle lusitano.

Finalmente, em 16 de janeiro de 1756, um exército hispano-português de 2.600 homens, poderosamente armado e artilhado, reuniu-se nas cabeceiras do rio Negro, nos atuais territórios uruguaios, de onde partiu para as Missões. Ao entrar em terras missioneiras, as tropas ibéricas sofreram diversas emboscadas. Porém, em inícios de fevereiro, caía em combate Sepé Tiaraju, comandante das tropas de São Miguel.

A morte de Sepé
Em 7 de fevereiro, os missioneiros armam mais uma emboscada às tropas ibéricas, ao deixarem, como isca, uma ponta de gado à vista dos invasores, sedentos em animais, para a alimentação da importante tropa. Cavaleiros missioneiros atacaram céleres e lancearam mortalmente dois peões portugueses que haviam cruzado o arroio Guacacay  para reunir, abater e carnear os animais.

Talvez prevenidos contra a tática, utilizada anteriormente pelos missioneiros, às  cinco e meia da tarde, o comandante Andonaégui enviou trezentos soldados espanhóis e portugueses, em dois esquadrões, em perseguição dos setenta a oitenta cavaleiros missioneiros, reunidos próximos a um capão.

Na perseguição, a montaria de Sepé Tiaraju teria tropeçado em um desnível do terreno, lançando o cavaleiro ferido ao solo.  Aproveitando a oportunidade, um peão português quebrou uma lança contra o chefe militar missioneiro. No combate, os espanhóis tiveram dois mortos e os missioneiros, oito.

A documentação é divergente e imprecisa sobre os acontecimentos posteriores. Possivelmente capturado e identificado, devido ao livro de orações e cartas que levava consigo, Sepé teria sido torturado por seus algozes – “queimado com pólvora ainda quando aspirando” e martirizado “de outras maneiras”.

A seguir, Sepé teria sido justiçado com um tiro de pistola, pelo próprio governador de Montevidéu, talvez para conquistar a honra da morte de um chefe missioneiro. O corpo de Sepé, decapitado, teria sido recuperado pelas tropas missioneiras, para enterramento de fortuna. Acredita-se que o chefe missioneiro morreu lutando em algum ponto da cidade de São Gabriel.

A grande derrota
As razões da derrota missioneira foram sobretudo políticas. Os jesuítas tentaram impedir diplomaticamente e, a seguir, retardar, a implementação do tratado, esperando sua anulação. Nos fatos, após poucos anos, o Tratado seria efetivamente denunciados.  Assim, terminaram dividindo-se quanto à implementação das ordens emanadas pela Coroa espanhola.

Os superiores da Companhia de Jesus apoiaram o abandono das Missões, entregando, em maio de 1753, os Sete Povos às autoridades civis e religiosas de Buenos Aires. Entretanto, alguns jesuítas permaneceram, até o fim, nas missões, em contato com os caciques missioneiros, apesar de jamais se terem juntado abertamente à resistência.

Com a defecção jesuítica, a oposição encontrou-se nas mãos dos administradores dos Sete Povos que se dividiram igualmente sobre  o caminho a seguir. Eles mantiveram sempre a esperança de negociar a manutenção dos Sete Povos, procurando preservar ciosamente as relações com Espanha. Durante todos os combates, as tropas missioneiras mantiveram ação militar essencialmente defensiva.

Apesar de possuírem uma enorme homogeneidade de civilização, os Trinta Povos jamais constituíram entidade coerida por laços sociais, econômicos e políticos necessários. Nos fatos, constituíam verdadeiras autarquias, mantendo frágeis laços essenciais entre si.  A desorganização dos Sete Povos foi também uma ação ibérica contra a tendência, jamais realizada, de formação de uma nação guarani-missioneira no sul da América. Ensaio talvez retomado quando da chamada Guerra do Paraguai.

O Fim da República
Os povos da margem direita do rio Uruguai parecem não ter compreendido que também eram atingidos pelo Tratado de Madri, que se referia explicitamente às Missões da margem esquerda do rio. Sobretudo diante da defecção e neutralização do comando jesuítico unificado, jamais participaram efetivamente da resistência militar, que se restringiu às milícias dos Sete Povos. Repetiram assim o comportamento das comunidades aldeãs tupi-guaranis, de resultados igualmente desastrosos.

Vivendo a mesma autonomia sócio-econômica, os Sete Povos jamais unificaram e centralizaram ferreamente a resistência ao avanço ibérico, procurando comumente pactuar acordos em separado e fazer frente aos invasores apenas quando penetraram em suas terras. Jamais houve, nos fatos, a consciência plena de uma civilização guarani-missioneira reunindo os Trinta Povos, por além de uma língua, uma cultura, uma tradição e uma identidade comum.

Em 10 de fevereiro, em Caaibaté, 1.800 missioneiros, armados de lanças, arcos e flechas e peças de artilharia de bambu forradas de couro tentaram abrir negociações e impedir o avanço dos ibéricos que contavam com mais de 3.700 combatentes experientes, com poderosas armas individuais e artilharia.

Apesar das oposições históricas, as tropas dos Sete Povos teriam recebido o apoio de guerreiros charruas, minuanos, guenoas e outras comunidades nativas regionais, segundo parece chamados ao desconhecimento dos jesuítas.

Rejeitando o pedido de negociação, os canhões portugueses e espanhóis abriram fogo em forma coordenada, desorganizando as desmotivadas milícias missioneiras. A seguir, iniciou-se o massacre de talvez mil guaranis, perseguidos e executados.  Em 16 de maio de 1756, após pequenos confrontos, as tropas ibéricas entravam em São Miguel. A República dos Sete Povos fora derrotada. Ao menos, aparentemente.

V. A Consolidação do Latifúndio Pastoril Sulino

Missões – a primeira agonia
Em 1757, devido à demora do prosseguimento da demarcação e à não evacuação dos moradores dos Sete Povos, as tropas lusitanas, longe de suas linhas de defesa, recuaram para Rio Pardo, transferindo alguns milhares de missioneiros para Rio Pardo, Cachoeira do Sul e Gravataí, onde formaram aldeias de índios, o que causou um primeiro despovoamento nas Missões.

Assim, os portugueses debilitavam as forças militares hispânicas e minoravam  a   carestia de trabalhadores nas fazendas, plantações e vilas lusitanas. A seguir, os missioneiros foram obrigados a adotar a língua e nomes portugueses, dissolvendo-se na população subalternizada do Rio Grande do Sul. Essa enorme contribuição ao povoamento original do Rio Grande é menosprezada pela historiografia tradicional.

Derrotados, missioneiros migraram para a outra margem do rio Uruguai, para a Banda Oriental, para Entre Rios, etc. onde se agaucharam e se empregaram com peões, nas estâncias, como changadores, contrabandistas, corambreros, etc. Missioneiros incorporaram-se igualmente aos toldos charruas e minuanos do pampa uruguaio. Entretanto, importantes quantidades de guaranis mantiveram-se nos Sete Povos.

Em 12 de fevereiro de 1761, o Tratado de El Pardo anulou o Tratado de Madrid, de 1750, mantendo as condições anteriores, ou seja, Sacramento, em mãos portuguesas, e as Missões, sob domínio espanhol, e administração militar. Finalmente, os jesuítas foram expulsos das colônias hispano-americanos, seis anos mais tarde, em 1767.

Perda e Restauração
O confronto da França, em união com a Espanha, com a Inglaterra e, conseqüentemente, Portugal, seu pequeno e tradicional aliado, ensejou a chamada Guerra dos Sete Anos – 1756 a 1763 –, que envolveu diversos outros beligerantes.  Em outubro de 1762, tropas espanholas e missioneiras apoderaram-se da Colônia de Sacramento e, em abril de 1763, da vila de Rio Grande, obrigando aos luso-brasileiros a recuarem para os Campos de Viamão, para o Estreito, para o vale do rio Jacuí, até Rio Pardo.

Apenas em 1776, a vila e o porto de Rio Grande e as terras do interior rio-grandense seriam retomadas, por poderoso exército lusitano de sete mil homens, o talvez mais poderoso até então organizado pela coroa portuguesa nas Américas. Em resposta, os espanhóis ocuparam a ilha de Santa Catarina e Sacramento.

Em inícios de 1777, a morte de dom José I, e a entronização de sua filha, dona Maria I, permitiu a deposição do poderoso marquês do Pombal e a volta ao poder da grande aristocracia fundiária portuguesa. Em outubro de 1777, o Tratado Santo Ildefonso reconhecia a soberania espanhola sobre a colônia do Sacramento e sobre as Missões, em troca de Santa Catarina, em um tratado em tudo lesivo aos interesses da coroa lusitana.

Trigos, couros e mulas
Até 1780, a produção luso-rio-grandense centrava-se sobretudo no abate de bovinos pelo couro, na triticultura açoriana, na pequena agricultura de gêneros de subsistência, no envio de tropas sobretudo de mulas para Sorocaba, a grande feira sulina daqueles animais, em São Paulo, através da rota tropeira que levava os animais pelo noroeste do Rio Grande do Sul – Santo Antônio da Patrulha, Vacaria, etc. De Sorocaba, os animais eram vendidos para São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, etc.

Os trigais rio-grandense haviam sido plantados pelos colonos açorianos nas proximidades da lagoa dos Patos, ao longo do rio Jacuí e Taquari, nas cercanias de Rio Pardo, em geral com o apoio de trabalhadores cativos. Boa parte da produção triticultora era comercializada e embarcada no porto de Porto Alegre e exportada para o Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e, até mesmo, Portugal.

A ferrugem (1811), as dificuldades dos transportes, a rusticidade da produção, o alto preço relativo dos cativos, a inadequação da produção a produção escravista e, sobretudo, a concorrência do trigo estadunidense, após liberalização do comércio, em 1808, por dom João, sem preocupação com a defesa da produção artesanal, pequeno-mercantil, etc. do Brasil, levaram a que o trigo sulino fosse alijado dos mercados regional, `nacional` e mundial.

A decadência da mineração no Brasil Central, nos anos 1770, fez retrair o mercado muar para o transporte, arrefecendo a criação sulina, até ser relançada pelas necessidades da produção cafeicultura do Rio de Janeiro, a partir dos anos 1830. Nesse período, a economia mercantil sulina foi sustentada pela importante expansão da produção charqueadora, a partir de 1780.

A ocupação da Campanha
Inicialmente, a economia pastoril rio-grandense exportava couros para o mercado internacional e produzia carne apenas para o limitado mercado regional, em geral através do abate do gado selvagem – estâncias chimarrãs. A ocupação da Campanha por fazendas criatórias recebeu poderoso impulso com a instalação da indústria charqueadora, que valorizava os animais, ao permitir a conservação e o transporte de suas carnes através da salgação.

As grandes secas de 1777-8 e 1791-2, no nordeste do Brasil,  dizimaram os gados que alimentavam a produção de carne-de-sol sobretudo do Ceará e do Piauí, que abastecia tradicionalmente a colônia naquele produto, uma das bases da alimentação das populações escravizadas e de poucos recursos.

Com a expulsão dos espanhóis de Rio Grande, em 1776, charqueadas surgiram nas margens das lagoas, no rio Jacuí, em torno de Porto Alegre e sobretudo nas margens do arroio Pelotas. Desde então, as necessidades das capitanias do Brasil passaram a ser satisfeitas pelas charqueadas sulinas, que exploravam duramente a mão-de-obra escravizada. No mesmo período, formaram-se os saladeros orientais, sobretudo nas proximidades de Montevidéu.

Os numerosos oficiais trazidos para a reconquista de Rio Grande, em 1776, receberam ou apoderaram-se de sesmarias, valorizadas agora pela necessidade crescente de gado das charqueadas. Em pouco tempo, as terras acessíveis do pampa esgotavam-se. Em 1785, poucos anos após o início da produção sistemática de charque, 64,22 % das 841 propriedades sulinas recenseadas tinham mais de 1.000 hectares.

As estâncias de rodeio que surgiram voltadas à produção de animais para as charqueadas eram relativamente menores e exigiam um número maior de trabalhadores, ainda que reduzido, em relação às fazendas agrícolas do resto da colônia. As necessidades crescentes de mão-de-obra da produção pastoril foram satisfeitas em boa parte por trabalhadores escravizados, introduzidos na ciência da criação animal – cativos campeiros. Trabalhadores livres, detentores de boa parte de seus meios de produção – cavalo, arreios, boleadeiras, etc. –, os gaúchos resistiam ao arrolamento permanente como peões nas estâncias, dedicando-se comumente à caça ao gado selvagem, ao contrabando, etc.

O fim das Missões
Diminuídos poderosamente em sua população e territórios, sob a administração corrupta de prepostos espanhóis, os Sete Povos conheceram inexorável decadência, após a Guerra Guaranítica. Em 1801, aproveitando as hostilidades entre Espanha e Portugal, devido à guerra napoleônica, tropas irregulares luso-brasileiras apoderaram-se dos Sete Povos, apoiados por guarani-missioneiros, com falsas esperanças na ordem lusitana. A nova administração militar lusitana aprofundou os desmandos do governo espanhol.

O início da privatização dos territórios missioneiros ocorreria poucos anos mais tarde. Em 1808, dom João impulsionou  a ocupação dos sertões do Brasil. Nesse processo, mandou “descobrir, povoar e cultivar os campos de Guarapuava” [Paraná], que se encontravam “infestados [sic] de gentios”. Pretendia-se abrir estrada direta entre a feira de Sorocaba e as Missões, agora sob poder português, para facilitar e potenciar o comércio muar.

Em 1809-1810, um destacamento militar demarcou caminho entre Curitiba e os campos de Guarapuava, fundando a seguir o forte de Atalaia, freqüentemente atacado pelas comunidades nativas coroadas da região, que se esforçavam para defender seus territórios nacionais. Nos anos seguintes, criadores estabeleceram propriedades, nessas regiões, sempre mais ao sul, em direção à fronteira com o Rio Grande do Sul.

Em 1816, uma expedição partiu para estabelecer contato direto com as Missões, através dos campos de Guarapuava. O nativo Jongong, que orientou a expedição, temendo a belicosidade coroada nas margens do rio Uruguai, tomou o caminho do leste e dos Campos de Palmas, descobriu os Campos Novos, atravessou o rio Pelotas, chegou ao Campo do Meio, no nordeste do Rio Grande do Sul, de onde prosseguiu para São Borja.

A Expropriação Final
A expedição falhara na abertura de caminho direto entre a feira de Sorocaba e as Missões, mas redescobrira o caminho, através do Planalto Médio, ligando os Campos de Vacaria a Santo Ângelo, utilizado nos séculos anteriores, pelos nativos e pelos tropeiros e ervateiros missioneiros. A rota ficou conhecida como Caminho Novo das Missões.

A abertura do caminho entre os Campos de Vacaria e as Missões acelerou a ocupação da região e o início da substituição das antigas estâncias missioneiras por latifúndios pastoris ao longo da nova estrada, onde surgiram, a seguir, as povoações de Cruz Alta, Passo Fundo, Campo do Meio, Lagoa Vermelha, etc.

Desde 1816, o cabildo dos povos missioneiros e administradores luso-brasileiros vendiam, a preços mínimos, ou concederam, gratuitamente, terras missioneiras e terrenos não designados, ensejando que militares, tropeiros e criadores, chegados de São Paulo, Curitiba, Lages e Laguna, organizassem fazendas pastoris nas antigas estâncias guaraníticas. Entretanto, eram ainda significativas as populações missioneiras da região e as terras que ocupavam.

Golpe definitivo

O golpe definitivo seria dado, em 1828, quando da guerra de Independência contra o Império da Banda Oriental. Após ocupar e saquear as Missões, novamente com o apoio de parcialidades missioneiras, o caudilho oriental Fructuoso Rivera convenceu o que sobrava da população dos Sete Povos a acompanhá-lo com talvez quatrocentas mil cabaças de gado, para estabelecerem-se no noroeste do atual Uruguai. Muito logo, esses migrantes seriam reprimidos, massacrados, escravizados plena e parcialmente, devido às exigências sobretudo dos criadores rio-grandenses, estabelecidos no norte da Banda Oriental.

Segundo Nicolau Dreys, que escrevia na metade da década de 1830, a população missioneira caíra de vinte mil missioneiros, em 1801, para oito mil, em 1814. Em seu “Relatório ao Conselho Geral” de dezembro de 1830, o presidente da província sulina, o pernambucano Caetano Lopes Gama, visconde de Maranguape [1795-1864], escrevia: “Os Sete Povos […] estão quase extintos. Santo Ângelo, São João, São Luiz e São Nicolau não têm um só índio. São Borja, São Lourenço e São Miguel, apenas 38.”

Com os anos, à expropriação das terras das fazendas coletivas guarani-missioneiras, transformadas em latifúndios comumente explorados ao menos parcialmente com a mão de obra escravizada, seguiu-se a própria expropriação da memória. Os ex-missioneiros, agora, quando muito, gaúchos vagos e peões pobres, sequer recordavam-se dos tempos gloriosos em que senhoreavam solidários as imensas e frutíferas estâncias comunitárias dos Sete Povos Missioneiros.

Principais autores consultados:

  • BECKER, Ítala Irene Basile. O índio kaingáng no Rio Grande do Sul. São Leopoldo: E.UNISINOS,1995.
  • BRUXEL, Arnaldo. Os trinta povos guaranis. Porto Alegre: Sulina; Caxias do Sul: UCS, EST, 1978.
  • DALCIN, Ignácio. Em busca de uma terra sem males. Porto Alegre: Palmarinca, EST, 1993
  • FONSECA, Ari Veríssimo da. Tropeiros de mula: a ocupação do espaço; a dilatação das fronteiras. 2 ed. Passo Fundo: Berthier,
  • GUTIERREZ, Ester. Negros, charqueadas e olarias. Um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas: UFPEL, 1993.
  • KERN, Arno A. Missões: uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982.
  • KERN, Arno A. Utopias e missões jesuíticas. Porto Alegre: Ed. UFRGS, 1994.
  • LUGONM Clovis. A República “comunista” cristã dos guaranis: 1610-1768. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. L 105
  • MABILDE, Pierre F. A. Booth. Apontamentos sobre os indígenas selvagens da nação coroado dos matos da província do Rio Grande do Sul: 1836-1866. São Paulo: IBrasa; Brasília: INL, Pró-memória, 1983.
  • MAESTRI, M. (Org.) O negro e o gaúcho: estâncias e fazendas no Rio Grande do Sul, Uruguai e Brasil. Passo Fundo: UPF Editora, 2008. [Malungo, 14.]
  • MAESTRI, Mário & BRAZIL, M.C. [Org.]. Peões, vaqueiros & Cativos campeiros: estudos sobre a economia pastoril no Brasil. Passo Fundo: UPF Editora/CNPq, 2009. Tomo 1.
  • MAESTRI, Mário & ESSELIN, P. & QUEVEDO, J. [Org.] Peões, vaqueiros & Cativos campeiros: estudos sobre a economia pastoril no Brasil. Passo Fundo: UPF Editora/CNPq, 2009. Tomo 3.
  • MAESTRI, Mário & LIMA, Solimar O. [Org.] Peões, vaqueiros & Cativos campeiros: estudos sobre a economia pastoril no Brasil. Passo Fundo: UPF Editora/CNPq, 2009. Tomo 2.
  • MAESTRI, Mário. Breve história do Rio Grande do Sul: da pré-história aos dias atuais. Passo Fundo: EdiUPF, 2010. [no prelo]
  • MONTEIRO, Jonathas da Costa Rego. A colônia do Sacramento. 1680-1777. Porto Alegre: Globo, 1937. volume I e II.
  • NEUMANN, Eduardo. O trabalho guarani missioneiro no rio da Prata colonial: 1640-175O. Porto Alegre: Marins Livreiro, 1996.
  • PORTO, Aurélio. História das missões orientais do Uruguai. Porto Alegre: Selbach, 1954. Parte I e II.
  • RODERJAN, Roselys Vellozo. Raízes e pioneiros do Planalto Médio. Carazinho: Prefeitura Municipal de Carazinho/UPF/Diário da Manhã, 1991.
  • SANTOS, Lucila Maria Sgarbi et al. Bom Jesus: e o tropeirismo no Brasil Meridional. Porto Alegre: EST, 1995.
  • SEVERAL, Rejane da Silveira. A guerra guaranítica. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1995.
  • TOURON, Lucía Sala de; TORRE, Nelson de la; ELOY, Rosa A.; RODRIGUEZ, Julio C. Despues de Artigas (1820-1836). Montevideo: Pueblos Unidos, 1972.

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Mário Maestri, 57, é historiador. E-mail: maestri@via-rs.net

Traerse

Esa tarde, no tenías nada en especial para escribir. Ninguna historia o pensamiento en particular para compartir. Talvez solamente algunas impresiones, muy internas, pero no tanto que no puedan ser socializadas. No que lo fueran por primera vez, no, no es la primera vez que dices que el amor es un lugar, que libros son lugares, que escribir es uno de tus modos predilectos, sino el preferido, de traerte de vuelta, de darle una mano a quienes como tú, pelo mundo afora, tratan de traerse de vuelta también, en ese mutirão gigantesco que es la vida, que es el existir.

Muchas veces lees mensajes de algunos amigos o amigas, algún pariente muy cercano, donde percibes unos ecos muy fuertes, un sentir profundo. Entonces sabes, tus palabras son como el tocar de una guitarra, el son de un poema, el canto de un pájaro que canta en el centro de tu pecho, en el interior de quien te lee. Esta tarde en que el sol calienta, algunas voces se oyen a lo lejos, es lo que tienes para compartir. Dejas que las palabras que te trajeron te lleven, y te vas a seguir el día, tarde abajo, pero no cuesta abajo, sino hacia arriba, siempre más arriba, hacia la eterna Altura.

Carta a um amigo teólogo sobre o aborto nas eleições de 2010

Caríssimo Arnaldo,

Você se lembra do golpe eleitoral que estourou na véspera do primeiro turno das eleições de 2010 quando apareceu todo um alvoroço sobre a questão do aborto. Esse alvoroço permaneceu durante todo o mês de outubro até o segundo turno. Nas igrejas e fora das igrejas foram distribuídos milhões de panfletos assinados pelos bispos da diretoria do regional Sul 1 para intimar os católicos a votar no candidato José Serra. O motivo era que os candidatos do PT, principalmente a candidata à presidência da república, queriam legalizar o aborto no Brasil e, por conseguinte, queriam implantar uma cultura de morte.

Esse incidente me levou a refletir um pouco sobre esse fato bastante estranho e o seu significado eclesial. Quero comunicar-lhe aqui alguma coisa dessas reflexões.

Os bispos denunciadores se diziam os defensores da vida, isto é, pessoas que lutam contra o aborto e lutam contra todos os políticos que defendem o aborto descriminalizado no Brasil. O seu linguajar foi o que usam os movimentos que se dizem defensores da vida porque condenam o aborto. Era um linguajar violento, condenatório. Somente por distração os autores esqueceram-se de comunicar que a descriminalização do aborto estava no programa do PV, e que o candidato Serra já tinha autorizado o aborto em certos casos quando era ministro da saúde, o que lhe valeu os protestos da CNBB. Com certeza foi um esquecimento por distração. Por discrição os bispos omitiram o que aconteceu um dia na vida do casal de Serra, o que foi bom porque a vida privada não deve interferir com a vida pública

Sucede que a Igreja condena desde sempre o aborto, e estabeleceu uma pena de excomunhão para todos os que têm participação ativa. Conseguiu que houvesse no Brasil uma lei que criminaliza o aborto. Mas o Brasil é um dos países onde há mais abortos. Alguns dizem 70.000 por ano, outros estudos chegam a dizer que uma de cada 5 mulheres no Brasil já praticou um aborto. Sempre é um aborto clandestino e naturalmente é feito nas piores condições para os pobres. Pois para quem tem condições há clínicas particulares bem equipadas, conhecidas, porém jamais denunciadas pela Igreja.Sobre essas clinicas para os ricos o poder judicial fecha pudicamente os olhos. Afinal, trata-se de pessoas importantes As condenações da Igreja não têm nenhum efeito. A lei da república não tem nenhum efeito, Os defensores da vida não conseguem defender nada. Falam, falam, mas sem resultado. Condenam, condenam, mas o crime se comete com a maior indiferença pelas condenações verbais ou legais. Falam, condenam. e nada acontece. Eles se dão boa consciência achando que defendem a vida, mas não defendem nada. Há um lugar no evangelho em que Jesus fala das pessoas que falam e não fazem nada. Impedem a descriminalização mas defendem a situação atual, ou seja são defensores do aborto clandestino, que é a situação atual.

O seu argumento poderia ser que a descriminalização aumentaria o número de abortos. No entanto, a experiência de outros países mostra que, pelo contrário, diminui o número de abortos. Isto se explica facilmente. Pois uma vez que uma mulher pode falar abertamente em aborto, as autoridades podem com a ajuda de psicólogas, de assistentes sociais, de assistentes religiosos dialogar com ela e buscar com ela outra solução, o que de fato acontece. Muitas mulheres não teriam feito o aborto se tivessem recebido ajuda moral ou material, quando estavam desamparadas

Já que o documento era assinado por bispos, eu pensava que os bispos fossem explicar o que estão fazendo na pastoral da sua diocese para lutar contra o aborto clandestino, e fizessem propostas aos candidatos nas eleições na base das suas experiências pastorais. Mas não havia nada disso no panfleto. Teria sido interessante saber como fazia a pastoral diocesana para evitar que houvesse abortos. Mas não havia nada. Os bispos gritavam, assustavam, condenavam, mas não diziam o que faziam. Alguns leitores pensaram: já que não falam da sua pastoral para evitar o aborto, deve ser porque não existe essa pastoral. Falam contra o aborto, mas não fazem nada para evitá-lo. Condenam, e mais nada.

Pois, poderiam fazer muita coisa. Muitas mulheres que querem fazer o aborto, são mulheres angustiadas, perdidas, desesperadas que se sentem numa situação sem saída. Muitas querem o aborto porque os seus pais não aceitam que tenham uma criança. Outras são obrigadas a fazer o aborto pelo homem que as estuprou, e que pode ser o próprio pai, um irmão, um tio, um padrasto. Outras estão desesperadas porque a empresa em que trabalham, não permite que tenham criança. Outras são empregadas domésticas e a patroa não aceita que tenham que cuidar de uma criança. Então essas meninas ou moças ficam angustiadas e não sabem o que fazer. Não recebem atendimento, não recebem conselho, não recebem apoio nem moral nem material, porque tudo é clandestino e nem sequer se atrevem a falar com outras pessoas a não ser algumas amigas muito próximas. Não achando alternativa, a contra-gosto e com muito sofrimento recorrem ao aborto. A Igreja não as ajudou quando precisavam de ajuda.

A Igreja poderia ter uma pastoral para olhar o que acontece na rua, no bairro, quais são as meninas ou moças que podem estar em estado de perigo porque estão numa dessas categorias de risco. Poderia acolher ou dar assistência moral e material, dialogar, buscar outras soluções. A experiência mostra que às vezes um simples abraço faz com que desistam de fazer o aborto. O aborto é o resultado da indiferença da comunidade cristã. Somos todos culpados, todos cúmplices por omissão e, em primeiro lugar, teríamos que pedir perdão pelo nosso descuido em lugar de acusar essas mulheres. Era o que se esperava de um documento assinado por bispos, que, afinal, representam o evangelho e a maneira como Jesus tratava os pecadores.

Jesus não condenou os pecadores e o que se espera da Igreja é que tenha muita misericórdia, muita compreensão e que ajude efetivamente essas pessoas que estão numa situação tão difícil. Poderíamos fazer sugestões ao poder legislativo no sentido de criar instituições para responder e tantos casos em que a vida humana está em perigo, e este é um deles.

Não faz sentido dizer que sou contra o aborto e estou defendendo a vida se não faço nada. Não estou defendendo vida nenhuma e o aborto está aí e não faço nada. O governo tem uma lei que criminaliza o aborto e essa lei não se aplica. Só serve para que o aborto seja clandestino, isto é, feito nas piores condições morais e físicas, salvo para as pessoas de boa condição. Essa lei é inaplicável e a Igreja nem se atreve a pedir que ela se aplique. Seria preciso construir milhares de penitenciarias e colocar nas prisões talvez um milhão de mulheres. A Igreja não pede isso e se conforma com o aborto clandestino. Na prática nada faz contra o aborto clandestino.

Existe a alternativa da descriminalização, que é para os nossos defensores da vida a proposta de Satanás. A chantagem dos chamados defensores da vida fez com que todos condenem a descriminalização, como faz a Igreja. Quem sou eu para julgar? Os bispos do Regional Sul 1 acham melhor o aborto clandestino. Quem sou eu para discutir? Porém, teria o direito de pedir mais discrição e mais humildade, porque afinal somos todos cúmplices por omissão se não fazemos nada para prevenir os abortos tão numerosos no Brasil. A condenação é inoperante. Mas uma pastoral da família ou uma pastoral específica para esse problema poderia evitar que muitas mulheres angustiadas e desesperadas tenham que recorrer ao aborto que nenhuma mulher pede sem chorar. Porque esperar antes de desenvolver essa pastoral ?

Então, qual foi o testemunho de amor que a Igreja deu com esse panfleto eleitoral ?

José Comblin, grande pecador e cúmplice por omissão.

O que está acontecendo na Igreja?

Palestra proferida na Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), de San Salvador, em 18 de março de 2010.

“Boa tarde a todas e todos.

Não é a primeira vez que falo neste lugar, mas agradeço muito a amizade de Jon Sobrino. Nós nos conhecemos há muito tempo e eu o estimo como uma das cabeças mais lúcidas deste tempo que renovou completamente a Cristologia.

Bom… As perguntas de ontem me deram a impressão de que em muitas pessoas há um certo desconcerto em relação à situação atual da Igreja. Ou seja, uma sensação de insegurança. Como dizia Santa Teresa, por “não saber nada a respeito, que nada provoque temor”. Quando era jovem eu conheci algo semelhante e, talvez, pior. Era o pontificado de Pio XII. Ele havia condenado todos os teólogos importantes, havia condenado todos os movimentos sociais importantes, por exemplo, a experiência dos padres operários na França, Bélgica e outros países. Aí nós, jovens seminaristas e depois jovens sacerdotes, estávamos mais que desconcertados, perguntando-nos: mas, ainda há futuro? Eu me lembro que naquela época tinha lido uma biografia de um autor austríaco do papa Pio XII. E aí contava algumas palavras que havia escrito o Pe. Liber, jesuíta, professor de História da Igreja na Gregoriana. O Pe. Liber era confessor do Papa. Sabia tudo o que passava na cabeça de Pio XII e então dizia: “Hoje a situação da Igreja católica é igual a um castelo medieval, cercado de água, levantaram a ponte e jogaram as chaves na água. Já não há como sair (risos). Ou seja, a Igreja está cortada do mundo, não tem mais nenhuma possibilidade de entrar”. Isso foi dito pelo confessor do Papa, que tinha motivos para saber essas coisas. Depois disso veio João XXIII e aí, todos os que haviam sido perseguidos, de repente são as luzes no Concílio e de repente todas as proibições são levantadas. Aí renasceu a esperança. Digo isto para que não se perturbem. Algo virá. Algo virá que não se sabe o que, mas algo sempre acontece.

Como explicar essas situações que ainda podem recomeçar? Porque estamos nos aproximando da fase final da cristandade. Já faz muitos séculos que anunciaram a morte da cristandade… que está agonizando já faz cerca de 200 anos, mas ainda pode continuar sua agonia durante algumas décadas ou alguns anos. Ou seja, deixou de ser a consciência do mundo ocidental. Deixou de ser a força que anima, estimula, esclarece, explica a fonte da cultura, da economia, de tudo o que foi durante o tempo da cristandade. Tudo isso foi sendo destruído progressivamente desde a Revolução Francesa e aqui desde a independência, desde a separação do império espanhol. Então, pouco a pouco, apareceram muitos profetas que disseram que a cristandade morreu… já faz 200 anos. Mas agora creio que a cristandade está entrando em suas fases finais. Querem um sinal? A Encíclica Caritas et Veritate. Não sei quantas pessoas aqui leram a Encíclica. Se se vê a repercussão que teve no mundo: impressionante silêncio… Talvez silêncio respeitoso, mas mais provavelmente silêncio de indiferença. A doutrina social da Igreja não importa mais a ninguém, que também deixou de se interessar pelo que acontece na realidade concreta.

Há alguns anos, um sociólogo jesuíta muito importante, o Pe. Calvez, que teve um papel importantíssimo na criação e manutenção da Doutrina Social da Igreja, publicou um livro intitulado: “Os silêncios da Doutrina Social da Igreja”. Ainda está em silêncio. Deixa de entrar com força nos problemas do mundo atual. Fica com teorias tão vagas, tão abstratas, tão genéricas… A carta Caritas in Veritate poderia ser assinada pelo Fundo Monetário Internacional (risos), pelo Banco Mundial… sem nenhum problema. Não há absolutamente nada que incomode esse pessoal. Então, para quê? Esse é o sinal.

Querem outro sinal? A Conferência de Aparecida disse muitíssimas coisas muito boas. Quer transformar a Igreja em uma missão, passar de uma Igreja de “conservação” a uma Igreja de “missão”. Só que pensa que isso será feito pelas mesmas instituições que não são de missão, mas de conservação. Isso será feito pelas dioceses, pela paróquia, pelos seminários, pelas Congregações Religiosas. Estes aqui, de repente e por milagre, vão se transformar em missionários. Já se passaram três anos e o que aconteceu em sua diocese? Como se aplicou a opção pelos pobres? Não sei como é aqui, mas no Brasil não vejo muita transformação. Ou seja, a cristandade está se dissolvendo progressivamente, mas o problema é o depois. O que vem depois? Como? Daí a insegurança porque não sabemos o que vem depois. Isto aconteceu muitas vezes na história e ainda vai acontecer provavelmente muitas vezes. É preciso aprender a resistir, a suportar, a não se deixar desanimar ou perder a esperança pelo que vem acontecendo.

O que acontece é que em Roma não estão convencidos de que a cristandade está morta. Acreditam que as Encíclicas iluminam o mundo, que as instituições eclesiásticas iluminam e conduzem o mundo. Ou seja, é um mundo fechado, que de fato vivem em um castelo medieval, cercado de água. E então, o que acontece? Vamos ver como interpretar, como ver o que está acontecendo. E então ver qual é o “método teológico” que convém para isso.

O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo

É preciso partir de uma distinção básica que agora vários teólogos já propuseram entre o Evangelho e a religião. O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não fundou nenhuma religião. Não fundou ritos, não ensinou doutrinas, não organizou um sistema de governo. Nada disso. Ele se dedicou a anunciar, a promover o Reino de Deus. Ou seja, uma mudança radical de toda a humanidade em todos os seus aspectos. Uma mudança, e uma mudança cujos autores serão os pobres. Dirige-se aos pobres pensando que somente eles são capazes de agir com essa sinceridade, com essa autenticidade para promover um mundo novo. Seria essa uma mensagem política? Não é política no sentido de que propõe um plano, uma maneira… não, para isso a inteligência humana é suficiente; mas como meta política, porque isto é uma orientação dada a toda a humanidade.

E a religião? Aah! Jesus não fundou uma religião, mas seus discípulos criaram uma religião a partir dEle. Por quê? Porque a religião é algo indispensável aos seres humanos. Não se pode viver sem religião. Se a religião atual aqui se desintegra… Há 38.000 religiões registradas nos Estados Unidos! Ou seja, não faltam religiões, elas aparecem constantemente. O ser humano não pode viver sem religião, mesmo que se afaste das grandes religiões tradicionais. Então, a religião é uma criação humana. Entre a religião cristã e as demais religiões, a estrutura é igual. É uma mitologia. Assim como há uma mitologia cristã, há uma mitologia hinduísta, xintoísta, confucionista. Isso é parte indispensável para a humanidade. Ou seja, como interpretar todo o incompreensível da humanidade pela intervenção de seres com entidades sobrenaturais, fora deste mundo, que estão dirigindo esta realidade.

Em segundo lugar, uma religião são ritos. Ritos para afastar as ameaças e para acercar-se dos benefícios. Todas as religiões têm ritos. E todas têm pessoas separadas, preparadas, para administrar os ritos, para ensinar a mitologia. Isto é comum a todas. Então, isto devia acontecer com os cristãos também. Devia acontecer. Como poderiam viver sem religião?

Como começou essa religião? Deve ter começado quando Jesus se transformou em objeto de culto. O que aconteceu bastante cedo, sobretudo entre os discípulos que não o conheceram, que não haviam vivido com ele, que não haviam estado próximos dele. Então, a geração seguinte ou aqueles que viviam mais distantes, mais afastados, para eles Jesus se transformou em objeto de culto. Com isso se desumanizou progressivamente. O culto de Jesus vai substituindo o seguimento de Jesus. Jesus nunca havia pedido aos discípulos um ato de culto. Nunca havia pedido que lhe oferecessem um rito… nunca. Mas queria o seguimento, seu seguimento. Essa dualidade começa a aparecer cedo. 30 anos, 40 anos depois da morte de Jesus, já aparece com força suficiente para que Marcos escrevesse em seu Evangelho precisamente para protestar contra essas tendências de desumanização, ou seja, de fazer de Jesus um objeto de culto. Este Evangelho é precisamente para recordar uma palavra de profeta: Não! Jesus era isso. Jesus fez isso, viveu aqui neste mundo! Viveu aqui nesta terra.

Com o desenvolvimento da religião cristã que se fez – aqui problema para os teólogos –, progressivamente essa tentação reapareceu. Nasceu um começo de doutrina, o Símbolo dos Apóstolos. E o que diz o Símbolo dos Apóstolos sobre Jesus? Aah… diz que nasceu e morreu. Nada mais. Como se as outras coisas não tivessem importância, como se a revelação de Deus não fosse justamente a própria vida de Jesus, seus atos, seus projetos, todo o seu destino terrestre. Essa é a revelação, mas isso já vai se perdendo de vista. Os Símbolos de Niceia e Constantinopla, da mesma maneira: Cristo nasceu e morreu. O Concílio de Calcedônia define que Jesus tem uma natureza divina e uma natureza humana. Mas, o que é uma natureza? Um ser humano não é uma natureza. Um ser humano é uma vida, é um projeto, é um desafio, é uma luta, é uma convivência em meio a muitos outros. Isso é o fundamental se queremos fazer o seguimento de Jesus.

A religião: distinção entre o sagrado e o profano

Progressivamente, aparece a partir dos primeiros Concílios um distanciamento entre a religião que se forma. Com Niceia e Constantinopla já há um núcleo de ensinamento e de teologia e a Igreja vai se dedicar a defender, promover, aumentar essa teologia. Já se organizaram as grandes liturgias de Basílio e outros, e já se organizou um clero. O clero como classe separada é uma invenção de Constantino. Até Constantino não havia distinção entre pessoas sagradas e pessoas profanas. Eram todos leigos. Porque Jesus apartou a classe sacerdotal e não tinha previsto nenhuma maneira que aparecesse outra classe sacerdotal, porque todos são iguais. E não há pessoas sagradas e pessoas não sagradas, porque para Jesus não há diferença entre sagrado e profano. Tudo é sagrado ou tudo é profano.

Agora, na religião há uma distinção básica entre sagrado e profano. Em todas as religiões. E há um clero que se dedica ao que é sagrado. E os outros que estão no profano, na religião são receptores, não são atores. Não têm nenhum papel ativo. Para ter um papel ativo é preciso ser realmente consagrado. Isso começa no tempo de Constantino.

E a partir daquilo vão aparecer duas linhas na história cristã. Os que, como o Evangelho de Marcos quer recordar: Não, Jesus veio para mostrar o caminho, para que o sigamos. Isso é o básico, o fundamental. Uma linha que vai renovar, aplicar em diversas épocas históricas o que foi a vida de Jesus e como ele o ensinou. E em toda a história podemos seguir. Claro que não sabemos tudo, porque a grande maioria dos que seguiu o caminho de Jesus foram pobres, dos quais nunca se falou nos livros de história e, portanto, não deixaram nenhum documento. Mas há pessoas que deixaram documentos e com isso podemos acompanhar onde, na história da Igreja cristã, aparece o Evangelho. Onde se buscou primeiramente a vivência do Evangelho. Os que buscaram radicalmente o caminho do Evangelho foram sempre minorias, como dizia Helder Câmara, “minorias abraãmicas”.

A maioria está no outro pólo, na religião. Ou seja, dedicando-se à doutrina. Ensinando a doutrina, defendendo a doutrina contra os hereges e as heresias… Essa foi uma das grandes tarefas, praticar os ritos e formar a classe sagrada, a classe sacerdotal. Isso nos leva a uma distinção que vai se manifestar em toda a história. O pólo “Evangelho” está em luta com o pólo “religião” e “religião” com o pólo “Evangelho”. Em toda a história. Toda a história cristã é uma contradição permanente e constante entre aqueles que se dedicam à religião e aqueles que se dedicam ao Evangelho. Claro que há intermediários e assim não há pólos totais. Mas na história há visivelmente duas histórias, dois grupos que se manifestam. A história oficial: quando eu era jovem nos davam aulas de História da Igreja que era “história da instituição eclesiástica” e ali só se falava da religião, supondo que a religião era a introdução ao Evangelho. Mas isso é uma suposição: que tudo o que nasceu no sistema católico vem de Jesus, como se dizia na teologia tradicional em tempos da cristandade, que tudo o que existe na Igreja Católica Romana, ao final, vem de Jesus. Com muitos malabarismos teológicos se consegue mostrar que tudo tem finalmente sua raiz em Jesus. Não têm sua raiz em outras religiões, em outras culturas. Como se os cristãos que se convertem à Igreja fossem totalmente puros de toda cultura e toda religião. Todos trazem sua cultura e sua religião, e introduzem em sua vida cristã elementos que são de sua religião e cultura anterior e por isso resulta uma religião que é sempre ambígua, complexa. É inevitável, porque os seres humanos que entram na Igreja não são anjos. Eles estão carregados de séculos e séculos de história e de transmissão cultural e tudo isso entra, naturalmente, na Igreja. Daí uma oposição que em matéria política, por exemplo, se mostra claramente. Se diz: o Evangelho procede de Deus e, portanto, não pode mudar. A religião é criação humana, portanto, pode e deve mudar segundo a evolução da cultura, das condições de vida dos povos em geral. Se a religião fica apegada ao seu passado, ela é pouco a pouco abandonada a favor de outra religião mais adaptada. O que é muito compreensível.

O Evangelho é vivido na vida concreta, material, social. A religião vive em um mundo simbólico. Tudo é simbólico – doutrina, ritos, sacerdotes… –, todos são entidades simbólicas, que não entram na realidade material. O Evangelho é universal, porque não traz nenhuma cultura e não está associado a nenhuma cultura, a nenhuma religião. As religiões estão sempre associadas a uma cultura. Por exemplo, a religião católica atual está ligada à subcultura clerical romana que a modernidade marginalizou, que está em plena decadência porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. O Evangelho é renúncia ao poder e a todos os poderes que existem na sociedade. A religião busca o poder e o apoio do poder em todas as formas de poder. E são tão visíveis!

O poder… Lembro que na época da prisão dos bispos em Riobamba o núncio dizia: “se a Igreja não tem o apoio dos governantes, não pode evangelizar” (risos). Pode-se pensar o contrário: que caso se tenha o apoio dos poderes será difícil evangelizar. Mas essa é uma mentalidade que ainda é remanescente na cristandade entre a Igreja fundida em uma realidade político-religiosa e então naturalmente estavam unidas todas as autoridades: o clero e o governo; o clero e o Exército – tudo unido. Renunciar a isso é muito difícil. Renunciar à associação com o poder é muito difícil. Vou dar um exemplo. Meu atual bispo na Bahia é um franciscano, se chama Luis Flavio Cappio. Ficou famoso no Brasil por duas greves de fome que fez para protestar contra um projeto faraônico do governo, baseado em uma imensa mentira. Não há tempo para contar toda a história, mas se tornou conhecido e foi convidado para o Kirchentag da Igreja alemã. Depois do convite falou em várias cidades da Alemanha. Um grupo se aproximou dizendo que vinham para entregar-lhe uma doação, uma ajuda para as suas obras. E era bastante: cerca de 100 mil dólares. Ele perguntou: “De onde vem esse dinheiro?” Disseram-lhe que são algumas empresas, alguns executivos que o recolheram. Então disse: “Não aceito. Não quero aceitar o dinheiro que foi roubado dos trabalhadores, dos compradores de material”. Não aceitou nenhuma aliança com o poder econômico. Eu não sei quantos no clero não aceitariam (aplausos). Esse bispo é um franciscano igual a São Francisco. Toda a sua vida foi assim. Por isso fui morar ali para santificar-me um pouquinho em contato com uma pessoa tão evangélica…

Então, como nasceu a Igreja? A Igreja de que se fala: essa realidade histórica, concreta de que temos experiência. Para o povo em geral a Igreja é o Papa, os bispos, os padres, as religiosas, religiosos… esse conjunto institucional de que se fala e que provoca também tanta incerteza, como vimos. Como nasceu a Igreja? Jesus não fundou nenhuma igreja. O próprio Jesus se considerava um judeu. Era o povo de Israel renovado e os primeiros discípulos também; Os doze apóstolos são os patriarcas da Igreja do Israel renovado. A primeira consciência era que a continuação de Israel, a perfeição, a correção de Israel. Mas uma vez que o Evangelho penetrou no mundo grego, aí Israel não significava muitas coisas para eles e então Paulo inventa outro nome. Dá às comunidades que funda nas cidades o nome de “ekklesia”, o que se traduziu por “igreja”. O que é a ekklesia? O único sentido que tem no grego é “a assembleia do povo reunido que governa a cidade”. Na prática eram as pessoas mais poderosas, mas enfim é que na cidade grega o povo se governa a si mesmo e o faz em reuniões que são “ecclesias”. Paulo não dá nenhum nome religioso às comunidades; os vê como um grupo destinado a ser a animação. A mensagem de transformação de todas as cidades, de tal maneira que estão constituindo o começo de uma humanidade nova. E é uma humanidade onde todos são iguais, todos governam a todos. Depois vem a Carta aos Efésios em que se fala da Igreja como tradução de “kahal” dos judeus, ou seja, é o novo Israel. E a ecclesia é aí também o novo Israel. Ou seja, todos os discípulos de Jesus unidos em muitas comunidades, mas não unidos institucionalmente, mas unidos pela mesma fé. Todos constituem a “ecclesia”, a grande Igreja que é o corpo de Cristo. Ainda não existem instituições.

Mas, naturalmente, não podia continuar assim. Os judeus que aceitaram o cristianismo não abandonaram todos o judaísmo. E quando o número de cristãos cresceu, o número de comunidades, ali começaram a penetrar algumas estruturas. No tempo de Paulo ainda não há presbíteros, mesmo que São Lucas diga o contrário. Mas São Lucas não tem nenhum valor histórico; isso todo o mundo já sabe. Atribui a Paulo o que se fazia em seu tempo. Então imagina que Paulo fundou presbíteros, conselhos presbiterais. Como se justificaria um bispo sem ordenar sacerdotes? Então, parece evidente um começo de separação ainda muito simples, porque ainda não há sacralidade, não há nada sagrado. Os presbíteros não são sagrados, assim como os presbíteros das sinagogas não eram sagrados. Eles tinham uma função, uma missão de governo, de administração, mas não uma função ritual, ou uma função de ensino de uma doutrina.

Depois apareceram os bispos. No final do século II se estima que o esquema episcopal esteja generalizado, mas demorou bastante. Clemente de Roma, quando publica e escreve sua Carta aos Coríntios, diz “presbíteros”, o que não é bispo. Ainda em Roma não há bispo, só presbíteros. Mas se organizou o esquema episcopal. É provável que para as lutas contra as heresias, contra o gnosticismo, se necessitasse de uma autoridade mais forte, para poder enfrentar o gnosticismo e todas as novas religiões sincréticas que aparecem naquele tempo.

E a Igreja como instituição universal, quando aparece? Houve, no século III, Concílios regionais: bispos de várias cidades que se reuniam. Mas uma entidade para institucionalizar tudo não existia. Quem inventou esta Igreja universal foi o imperador Constantino. Ele reuniu todos os bispos que havia no mundo com viagens pagas por ele, alimentação também paga por ele, e toda a organização do Concílio foi dirigida pelo imperador e os delegados do imperador. Isto constitui um precedente histórico. Até hoje não estamos livres disso: que a Igreja universal como instituição tenha nascido com o imperador.

Depois, na história ocidental caiu o imperador romano e então progressivamente o papa conseguiu chegar à função imperial. Houve muitas lutas na Idade Média entre o papa e o imperador, mas sempre o papa se estimava superior ao imperador. Nas cruzadas, o papa era generalíssimo de todos os exércitos cristãos. Era uma personalidade militar – comandante em chefe do exército cristão. E dentro da linha dos Estados pontifícios, isto ainda se mantém.

Quando o papa perdeu o poder temporal, reforçou seu poder sobre as Igrejas: e governa as igrejas como um imperador, ou seja, todos os poderes são centralizados em uma única mão e com todas as vantagens de uma corte. Por que se não há nada de democracia na Igreja, quem são aqueles que orientam o papa? A corte! Os cortesãos, os que estão ali próximos. Claro que ele não pode fazer tudo, mas enfim uma corte separada do povo cristão. Ainda estamos sofrendo as consequências daquilo. O Papa Paulo VI disse em alguns momentos que realmente teria que mudar a função atual do Papa, ou seja, o que o Papa faz. João Paulo II na “Unum sint” disse também que é preciso dar-se conta de que o grande obstáculo no mundo de hoje é essa concentração de todos os poderes no Papa. Seria preciso encontrar uma outra maneira de exercer isso. Isso para dizer que tudo isto pertence à religião.

Tarefa da teologia: no Evangelho e na religião

A partir disso, qual é a tarefa da teologia? É complexa, justamente porque tem uma tarefa no Evangelho e uma tarefa na religião. A teologia foi durante séculos a ideologia oficial da Igreja. Seu papel era justificar tudo o que a Igreja diz e faz com argumentos bíblicos, com argumentos da tradição, liturgia, e um monte de coisas que eu aprendi quando estava no seminário. Claro que não acreditava nisso (risos), mas a maioria ainda crê nisso. Então, o que acontece?

Primeira tarefa: o que diz o Evangelho?

Primeira tarefa: o que diz o Evangelho? O que é de Jesus? O que é penetração do judaísmo, de outra cultura, de outro tipo de religião? O que vem de Jesus segundo o Novo Testamento? Todo o Novo Testamento não vem de Jesus? Não, as Epístolas pastorais que falam, por exemplo, dos presbíteros, isso não vem de Jesus. Então, a tarefa da teologia consistirá em dizer o que é de Jesus, o que realmente quis, o que realmente fez e em que consiste realmente o seguimento de Jesus.

Vendo a história, quais foram as manifestações, onde, em formas diferentes – porque as situações culturais eram diferente –, onde podemos reconhecer a continuidade dessa linha Evangélica? Porque se quisermos penetrar no mundo de hoje e apresentar o cristianismo ao mundo de hoje, tudo o que é religioso não interessa. O que pode interessar é justamente o Evangelho e o testemunho evangélico. Ninguém vai se converter pela teologia. Você pode fazer todas as melhores aulas, ninguém vai se fazer cristão por causa da teologia. Por isso, me pergunto: por que nos seminários se crê que a formação sacerdotal é ensinar a teologia? Eu não entendo, não entendo. Não há outra coisa necessária para evangelizar? Não é muito mais complexo? Por isso faz 30 anos que decidi, na presença de Deus, nunca mais trabalhar em seminários (risos).

Então, a linha evangélica é essa – São Francisco. São Francisco era um extremista. Não queria que seus irmãos tivessem livros: nada de livros. Com o Evangelho basta, não se necessita nada mais. Ele próprio dizia: “Eu, o que ensino, não aprendi de ninguém, nem do papa; o aprendi de Jesus diretamente, por seu Evangelho”. Bom, isso é o que pode convencer o mundo de hoje que está em uma perturbação completa e que se afasta sempre mais das Igrejas institucionais antigas, tradicionais. Quase todas as grandes religiões nasceram entre os anos 1.000 e 500 antes de Cristo, salvo o Islã que apareceu depois, mas que é um ramo da tradição judeu-cristã.

O que fazer com a religião?

Segundo, a religião. O que fazer com a religião? É preciso examinar em todo o sistema de religião, o que ajuda, o que realmente ajuda a entender, a compreender, a agir segundo o Evangelho. Isso terá nascido por inspiração do Espírito em monges, por exemplo? Se você olha a vida dos monges do deserto no Egito, isso não é uma mensagem. Não é uma mensagem e também não vem do Evangelho. Ou seja, muitas coisas vêm não se sabe de que tradição, talvez pode ter sido do budismo ou outras coisas assim. Então, examinar o que é o que ainda vale hoje, e sinceramente.

Jesus não instituiu 7 sacramentos. Até o século XII se discutia se eram 10, 7, 5, 9, 4. Não havia acordo. Finalmente, decidiram que havia 7. Bom, por motivos dos 7 dias do Gênesis, 7 planetas, o número 7… mas há coisas que visivelmente já não falam para as pessoas de hoje. Por exemplo, o sacramento da penitência com confissão a um sacerdote. Quantos se confessam atualmente? Há 20 anos, eu atendia na Semana Santa, em uma paróquia popular, 2.000 confissões, e o pároco outras tantas. Atualmente, 20, 30, ou seja, as pessoas já não respondem mais. Isso foi definido no século XII, XIII. Por que manter algo que já não tem nenhum significado e, ao contrário, provoca muita recusa? Ou seja, que alguém necessite falar com alguém, que o pecador goste de falar com alguém, mas não justamente ao sacerdote. Há muitas pessoas, muitas mulheres, que podem exercer esse ofício muito melhor, com mais equilíbrio, sem atemorizar como fazem os sacerdotes. Isso é uma coisa.

Mas há um monte de coisas que é necessário revisar porque não tem futuro. É inútil querer defender ou manter algo que já é obstáculo para a evangelização e que não ajuda absolutamente em nada. Nas liturgias há muitas coisas que mudar. A teoria do sacrifício foi introduzida pelos judeus, naturalmente. No templo se oferece sacrifícios, os sacerdotes são pessoas sagradas que oferecem o sacrifício. Toda essa teoria, atualmente não significa absolutamente nada. Que o padre seja dedicado ao sagrado para oferecer o sacrifício e que a Eucaristia seja um sacrifício, tudo isto vem de Jesus? Ah, não vem de Jesus. Então, é preciso ver se isso vale ou não vale. Para que manter algo que não vale?

E depois há também a outra parte: o que não ajuda, o que tem sido infiltração de outras tendências, outras correntes. Por exemplo, a vida ascética dos monges irlandeses. A Irlanda foi a ilha dos monges. Ali os bispos não tinham autoridade. Serviam apenas para ordenar sacerdotes, mas para as outras coisas podiam descansar. Quem mandava eram os monges. Os mosteiros eram os centros, o que é a diocese atualmente. Esses monges irlandeses viviam uma vida ascética, mas tão extraordinariamente desumana para nós que isso é impossível que venha de Jesus, é impossível que isso ajude, porque esses homens ali eram super-homens, mas não existem mais homens assim hoje. Um exercício de penitência que faziam, por exemplo, era entrar no rio – na Irlanda os rios são frios – e ficar nu para rezar todos os salmos (risos)… Essa maneira de entender a vida, não, não devemos considerar que isso seja cristão. Também não é marca de santidade. Não é assim que a santidade se manifesta. Examinar tudo o que vem de lá.

Todas as congregações femininas sabem o quanto é preciso lutar para mudar costumes, tradições que não são evangélicos. Quantos debates! Eu conheço uma série de congregações femininas e quanto tempo se gasta em discussões, disputas entre aquelas que querem conservar tudo e aquelas que querem abandonar o que não serve mais e encontrar outro modo de viver mais adaptado à situação atual! Então, a tarefa da teologia, claro que é mudar, isso muda a tradição, deixa de ser a ideologia de todo o sistema romano, mas essa não tem futuro. Esse tipo de teologia já faz tempo que foi progressivamente abandonado.

Na América Latina apareceu algo. Conhecemos um novo franciscanismo, ou seja, uma nova etapa, mas radical, de vida evangélica. Quando nasceu? Falei dos bispos que participaram disso e que animaram Medellín e da opção pelos pobres, dos santos padres da América Latina. E vocês os conhecem. Se for preciso marcar a origem do novo evangelismo da Igreja latino-americana, eu diria – não se esqueçam – dia 16 de novembro de 1965. Nesse dia, em uma catacumba de Roma, 40 bispos, a maioria latino-americanos, incitados por Helder Câmara, se juntaram e assinaram o que se chamou de “Pacto das Catacumbas”. Ali se comprometeram a viver pobres, na alimentação. Se comprometeram e, de fato o fizeram depois, uma vez que chegaram às suas dioceses. E depois, priorizar em todas as suas atividades o que é dos pobres, ou seja, deixando muitas coisas para se dedicar prioritariamente aos pobres e uma série de coisas que vão no mesmo sentido. Foram eles que animaram a Conferência de Medellín. Ou seja, nasceu aqui.

E tiveram um contexto favorável. O Espírito Santo já naquele tempo havia suscitado uma série de pessoas evangélicas. As Comunidades Eclesiais de Base já tinham nascido. Já havia religiosas inseridas nas comunidades populares. Mas, eram poucos e se sentiam um pouco marginalizados no meio dos outros. Medellín lhes deu como que legitimidade e ao mesmo tempo uma animação muito grande, e se expandiu. Foi toda a Igreja latino-americana? Claro que não. Sempre é uma minoria. Um dia, me lembro, um jornalista perguntou ao cardeal Arns – um santo, com quem vivemos muito boas relações de amizade: “você, senhor cardeal, aqui em São Paulo tem muita sorte, toda a Igreja se fez Igreja dos pobres, as monjas todas a serviço dos pobres, que coisa magnífica!”. Aí, Dom Paulo disse: “Sim, pois, aqui em São Paulo 20% das religiosas foram às comunidades pobres; 80% ficaram com os ricos”. Era muito. Atualmente, não há 20%.

Isto foi uma época de criação, uma dessas épocas em que há, às vezes, na história com uma efusão muito grande do Espírito. Mas temos que viver essa herança. É uma herança que é preciso manter, conservar preciosamente porque isso não vai reaparecer. Às vezes me perguntam: Por que hoje os bispos não são como naquele tempo? Porque aquele tempo foi uma exceção, ou seja, na história da Igreja é exceção. De vez em quando o Espírito Santo manda exceções.

E quem vai evangelizar o mundo de hoje? Para mim, são os leigos. E já aparecem muitos grupinhos de jovens que justamente praticam uma vida muito mais pobre, livre de toda organização exterior, vivendo em contato permanente com o mundo dos pobres. Já existem. Haveria mais se se falasse mais, se fossem mais conhecidos. Pode ser uma tarefa também auxiliar da teologia: divulgar o que está realmente acontecendo, onde o Evangelho está sendo vivido neste momento, para dá-lo a conhecer, para que se conheçam mutuamente, porque do contrário podem perder ânimo ou não ter muitas perspectivas. Uma vez que se unam, formem associações, cada qual com sua tendência, seu modo de espiritualidade. Não espero muito do clero. Então é uma situação histórica nova.

Mas acontece que os leigos deixaram de ser analfabetos; isso já faz tempo. Eles têm uma formação humana, uma formação cultural, uma formação de sua personalidade que é muito superior ao que se ensina nos seminários. Ou seja, têm mais preparação para agir no mundo, mesmo que não tenham muita teologia. Se poderia dar mais teologia, mas isso é outro assunto. Agora, não vamos pensar que amanhã quem vai colocar em prática o programa de Aparecida serão os sacerdotes. Eu não conheço tudo, mas levando em conta os seminários que eu conheço, as dioceses que eu conheço, seriam necessários 30 anos para formar um clero novo. E quem vai formá-lo? Para os leigos é diferente. Há muitíssimas pessoas dispostas, e pessoas com formação humana, com capacidade de pensar, de refletir, de entrar em relação e contatos, de dirigir grupos, comunidades… Mas muitos ainda não se atrevem, não se atrevem. Mas aí está o futuro.

Para terminar, uma anedota: me chamaram para ir a Fortaleza, no nordeste do Brasil. Atualmente, Fortaleza é uma cidade muito grande – um milhão de habitantes. A Santa Sé havia afastado, marginalizado o cardeal Aloísio Lorscheider, mandando-o ao exílio em Aparecida, que é um lugar de castigo para os bispos que não agradam. Então, veio um sucessor, Dom Cláudio Hummes, que agora é cardeal em Roma. Cláudio Hummes suprimiu tudo o que havia de social na diocese, despediu todos: 300 pessoas com a longa trajetória de serviço, com capacidade humana. Um dia me chamaram: eram 300, chorando, lamentando: “e agora não podemos fazer nada. E agora, o que vai acontecer?”. Eu lhes disse: “mas, vocês são pessoas perfeitamente humanizadas, desenvolvidas, com uma personalidade forte. Tiveram êxito em sua família, tiveram êxito em suas carreiras, em seus trabalhos profissionais. Do que agora se preocupam se o bispo quer ou não quer? Por que se preocupam se o pároco quer ou não quer? Vocês têm formação suficiente e a capacidade. Por que não agem, não formam uma associação, um grupo, de forma independente? Porque o Direito Canônico – o que muitos católicos não sabem – permite a formação de associações independentes do bispo, independentes do pároco. Isso não se ensina muito nas paróquias, mas é justamente algo que é importante. Então, vocês podem muito bem reunir 4, 5 pessoas para organizar um sistema de comunicação, um sistema de espiritualidade, um sistema de organização de presença na vida pública, na vida política, na vida social: 300 pessoas com esse valor. Se paga, tem que pagar a 5, cada um vai gastar nem sequer 2% do que ganha, ou seja, podem muito bem manter 5 pessoas dedicadas a isso. E vão escolhê-los entre 25 e 30 anos porque essa é a época criativa. Até os 25 o ser humano se busca. A partir deste momento termina seus estudos e já conseguiu um trabalho. Então já quer definir sua vida: estes são os que têm capacidade de inventar. Todas as grandes invenções se deram por gente com essa idade”. Mas não o fizeram. Por quê? O que acontece? Por que tanta timidez? “Vocês que são tão capazes no mundo, na Igreja nada!” Não se sentiam capazes, necessitavam do bispo que lhes dissesse o que fazer, necessitam de sacerdotes que lhes digam o que fazer. Como é possível? Certamente, não se lhes ensinou. Podem ser adultos na vida civil e crianças na vida religiosa.

Mas nós podemos! Nós podemos fazê-lo e multiplicá-lo em todas as regiões que vamos conhecer. Então, o futuro depende de grupos de leigos semelhantes, que já existem mesmo que ainda estejam muito dispersos. O futuro está aí, é tarefa de todos, começando pelos jovens. No Brasil há neste momento seis milhões de estudantes universitários. Dois milhões, são de famílias pobres – são pobres os que ganham menos de três salários mínimos, porque com menos disso não se pode viver decentemente. Dois milhões. E qual é a presença do clero? Pouquíssima. Alguns religiosos. Das dioceses? Nada. E ali está o futuro. São jovens que estão descobrindo o mundo. Claro, há alguns que entram no mundo das drogas, que se corrompem, mas é uma minoria. Ou seja, o conjunto são pessoas que querem fazer algo na vida. Se não conhecem o Evangelho não vão viver como cristãos. É preciso explicar, mas não explicar com cursos de teologia, mas explicar fazendo, participando de atividades que de fato são realmente serviços aos pobres. Isso é possível fazer.

Tarefa da teologia. Então será preciso mudar um pouquinho: menos acadêmico, mais orientado para o mundo exterior… com todos os que não estão mais na rede de influxo da Igreja, que não recebem. Mas, presença nisso. E uma teologia que se possa ler, sem ter formação escolástica, porque anteriormente se não se tinha formação aristotélica não se podia entender nada dessa teologia tradicional. Bom, a filosofia aristotélica morreu, ou seja, os filósofos do século XX a enterraram. Agora temos liberdade para ver no mundo como nos abrimos.

Obrigado pela atenção de vocês!” (aplausos)