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“Precisamos consumir notícias mais saudáveis e orgânicas”, afirma o cartunista Aroeira

Segundo Aroeira, é preciso repensar o fazer jornalístico e ser mais cuidadoso na seleção informativa numa época de notícias autônomas na internet.
É tempo de mudanças também, de acordo com o chargista, na vida política do país.

Foto: Facebook Renato Aroeira.
Foto: Facebook Renato Aroeira.

Embora tenha passado por grandes jornais, como o próprio O Globo, o cartunista Renato Aroeira não poupa críticas aos meios de comunicação tradicionais. Com seus desenhos ácidos não deixa em paz também certos políticos, e busca a transformação da sociedade com a sua arte. Desde 1998 desenha para o jornal carioca O Dia, e já recebeu prêmios Vladimir Herzog e Líbero Badaró, além da medalha Pedro Ernesto, da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.
Há algumas décadas circulando no jornalismo nacional, o mineiro de Belo Horizonte defende na entrevista, que foi realizada após um debate sobre a democratização dos meios de comunicação numa praça da zona sul carioca, o fim da grande empresa jornalística. Segundo ele, é preciso repensar o fazer jornalístico e ser mais cuidadoso na seleção informativa numa época de notícias autônomas na internet.
É tempo de mudanças também, de acordo com o chargista, na vida política do país. A democracia precisa ser mais participativa, e o poder mais concentrado nos níveis locais para se alcançar maior horizontalidade nos processos.
Você já trabalhou em vários jornais e é um cara consagrado como cartunista na mídia tradicional, mas se coloca como uma voz crítica. Como se dá essa questão do posicionamento político e artístico dentro de uma grande empresa?
A situação já foi melhor, ela deteriorou-se muito. A verdade é que há algum tempo eu era uma voz crítica tolerada dentro da mídia, mas depois por algum tempo fui censurado muito intensamente por dentro do jornal. A coisa melhora, mas agora as grandes empresas estão gostando de ter críticos nos seus quadros para poder alegar a multiplicidade de posicionamentos e a pluralidade. Então é um Gregório Duvivier na Folha, o Chico Pinheiro na Globo e de certa maneira eu também na imprensa média, porque O Dia é um jornal pequeno. Melhor isso que nada, mas não é o nosso espaço.
A mídia cidadã precisa ser independente, porque não há mídia sem ideologia. Ficar sob direção ideológica, política, jornalística, você está contido. Sua reportagem ou sua charge não podem explicitar tudo, assim como sua foto e assim por diante. Ela vai seguir certa condução e ordem. Eu comungo pelo fim da mídia centralizada, pelo fim da grande empresa jornalística. É um mastodonte obsoleto, do ponto de vista ideológico é criminosa e do econômico não tem sentido porque não consegue se sustentar. Nós profissionais da área devemos nos integrar a essa ideia do cidadão repórter, mas levando em conta que é preciso separar o joio do trigo. Informação é uma pedra que pode ser preciosa ou que simplesmente não vale nada, pura mentira. Acredito que a grande imprensa jornalística está com os dias contados, e não me vejo mais dentro dela. Estando hoje num jornal ainda grande que é O Dia, mas percebo que isso não existe mais como profissão. A grande imprensa está morrendo, vai se transformar para continuar impondo ideologicamente o que ela quer. Mas ficou melhor concorrer com ela agora do que há 30 anos, por exemplo.
Você pontuou uma dificuldade específica de pauta, que é falar sobre os evangélicos. Quais são os temas mais delicados de tratar?
O mais delicado dos temas é a própria imprensa, porque você faz uma crítica e ela responde dizendo que é um atentado à liberdade de expressão. Mas nem sempre é. A imprensa pode dizer o que quer, defendo a ideia de que qualquer idiota tem o direito de dizer o que quer. Mas é preciso haver mecanismos da sociedade para separar o joio do trigo e compreender que aquilo é uma idiotice, não é verdade. É preciso haver também educação para que ela possa lidar com isso, mas não vivemos numa época assim. Temos muita informação misturada com lixo, então no momento a tarefa é separar. Ser jornalista hoje é muito mais dizer para as pessoas o que não é verdade, do que apresentar uma notícia. A notícia está escoando de todos os poros da sociedade, todo mundo produz notícia. É igual música, houve um tempo que só se ouvia música numa catedral ou concerto, e hoje você ouve de forma massiva que chega a atrapalhar. Informação demais é poluição demais. Isso provavelmente vai passar, a sociedade estabiliza, mas a função do jornalismo agora é ser mais normatizado.
Nelson Rodrigues dizia: coitado, era o motivo de si mesmo. Mas agora tem uma coisa bacana, esse cara é o jornalista de si mesmo. Ele vai numa jornada atrás da notícia, da informação, separa o que é ruim do que é bom, consome o que precisa da mesma forma que a gente procura uma comida melhor mais saudável e orgânica. Precisamos consumir notícias mais saudáveis e orgânicas, que são vinculadas às verdades. Por isso defendo a ideia do jornalismo voltar a ser pequeno, a ser local por bairro.
O Franklin Martins no governo Lula apresentou um projeto de democratização dos meios, e houve todo um processo de mobilização e debate na sociedade que foi engavetado. E o governo interino já entrou cortando os recursos para a mídia alternativa. Qual a saída para a sustentação financeira desses veículos?
Isso eu não sei. Esse governo golpista temporário de certa maneira está ajudando a esquerda a se organizar e se compreender. Está sendo tão estupido, burro, cretino e criminoso, que acordou muita gente. É um bom momento para pensar também essa questão. Não tenho resposta para como nos sustentarmos. É evidente que esse trabalho é de 24h por dia e 7 dias por semana, acordo e durmo pensando em charges, então preciso pensar como pagar minhas contas e continuar produzindo materiais para a transformação da sociedade. Vamos ter que nos organizar, começar a viver de forma barata, fazer crowdfunding, ter uma central que organize a esquerda. Precisamos não só de agências com banco de imagens, precisamos dos organizadores de crowdfunding e produtores. Produzir jornal de verdade e barato.
Em relação à política, no Rio temos o PMDB há mais de uma década dominando a máquina. Qual a sua avaliação em relação a essa trajetória e quais as perspectivas?
Não é só aqui, é um modus operandi para poder chegar ao poder. A esquerda se associou com partidos como o PMDB, que acabou sendo o fiel da balança e cresceu de forma desmedida. É provavelmente a cabeça e o centro de cada uma das quadrilhas instaladas em qualquer coisa no Brasil. Já apoiei aliança para governabilidade, mas não dá mais. Não é manter a pureza, mas é melhor buscar de novo a organização pela base.
Ainda resta algo do PT? Resta. Há partidos de esquerda? Há, o problema deles é que precisa de uma democracia mais direta. Uma democracia mais direta é fundamental para pressionar. Temos mais meios de pressionar o Estado hoje, dá pra ver o que está acontecendo na sociedade. Temos mais condições de barrar o Pedro Paulo hoje, que o Cabral ou o Paes alguns anos atrás. É muito mais fácil hoje organizar um movimento visível. Não sei se consegue ganhar o poder, mas não sei se eu quero mais o poder do jeito que ele é. Talvez seja melhor pressionar a sociedade por baixo, que é uma coisa mais horizontal.
Então há um descompasso institucional em relação às demandas da sociedade? O arranjo atual do Estado está obsoleto? A reforma política não passou.
Mas se os caras não fizerem alguma coisa serão atropelados, ou então vai ter um tipo de ditadura. Uma ditadura judiciária é tão eficiente quanto outra qualquer, é possível. Mas se a evolução do Congresso ocorrer a democracia vai ter que mudar, ser mais direta. Isso significa voltar a conversar sobre os mecanismos da democracia direta.
No começo o PT usou o orçamento participativo, conselhos, fóruns, e abandonou por causa da governabilidade. Fez certo bem ao país, conseguiu distribuir alguma riqueza, incluir gente no processo econômico, mas não gerou consciência política e cidadania. O resultado disso vemos agora. Mais uma razão para que os jornais pequenos, numa democracia direta, tenham credibilidade e sejam as ferramentas por essa busca. É retornar às raízes, a esquerda precisa fazer isso periodicamente. Alguma coisa foi feita, mas esse método se esgotou.
A história mostra, aconteceu na França, na Itália e no Brasil. A esquerda geralmente com certa lambança da direita fica algum tempo, é expulsa por corrupção, que eu não sei se é a pura verdade, é derrotada e a direita pega aquilo que a esquerda produziu e impõe suas agendas. Aconteceu na Europa, e agora aqui no Brasil.
Qual a sua esperança, em que podemos apostar em termos de democracia?
Acho que teremos um período exacerbado de poderio dos juízes, eles estão preparando uma pequena tomada do poder. Não é uma coisa consciente, mas é uma instituição do Estado muito poderosa que está em alta com a população. O Moro, o Joaquim Barbosa, os procuradores, são heróis. Eles não são os filhos das putas que às vezes penso que são, mas muitos deles estão imbuídos do dever sagrado, acham que estão fazendo a coisa mais certa do mundo.Esse é o grande problema da democracia, por isso que a República dos Sábios não funciona.
A política na sua origem é justamente a arte de conciliar os caras que são inconciliáveis, isso é uma coisa que foi esquecida. Não adianta, não vamos conseguir impor a agenda única nunca para ninguém. Mas a gente pode influenciar as agendas que foram feitas. Política cada vez mais será na cidade, então eu acompanho muito mais no momento o [Fernando] Haddad e [Eduardo] o Paes….
Você acha que o Paes fez um bom governo no Rio?
Comparativamente, tendo no Rio um histórico de prefeitos pavorosos, o Paes é um prefeito razoavelmente esperto. Mas é um sujeito comprometido com uma maneira completamente diferente da que o Rio e a gente precisa. É um exclusivista, que separa, não compreende o que é uma comunidade carente, não entende que ditadura é um negócio que existe diariamente porque a polícia militar nunca saiu de lá. Prefeitos não têm o poder que deviam ter, e o Paes é um prefeito melhor que a média do Rio. Mas é horrível porque a necessidade do Rio é muito mais rápida que a evolução dos políticos no comando da cidade. Temos uma cidade sem transporte público, é um negócio inacreditável para uma cidade desse tamanho. Linda, cheia de gringo,mas é um péssimo prefeito. O Haddad é mais moderno? Muito mais, mas ainda está errado em muitos aspectos. Tem esse conceito da governabilidade, da composição. Política é discutir com contrários, mas não dá para compor com eles.
Algo que não abordei é importante ressaltar?
Isso que está acontecendo na Praça São Salvador é espetacular. Esse golpe fez isso acontecer de novo, estava rolando mas está aumentando. Quando cheguei aqui tinha doze mulheres organizando, nos vídeos das ocupações escolares você vê muito mais da metade meninas. As mulheres estão empoderadíssimas, então há mais do que apenas a política ganhando espaço na vida dos jovens. As identidades, a discussão de gênero, coitado do [Marco] Feliciano, essa é outra derrota que ele já tomou. Uma geração que a gente não achava mais que ia fazer empoderou-se, e é impossível tirar o que elas aprenderam até agora.
(*) Fotos e charges do arquivo pessoal do Renato Aroeira.

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