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POR QUE LER HILDA HILST: nota de leitura

Obras que nos introduzem ao pensamento de determinado autor ou autora, quando não se resumem a superficialidade, são sempre bem vindas. É o caso do trabalho coletivo organizado pelo professor da UNICAMP Alcir Pécora sobre a escritora paulista Hilda Hilst. O distinto professor é um velho conhecido pela organização da obra dispersa de Hilda Hilst para a editora Globo.

Um trabalho de primeiríssima qualidade. Muito da obra de Hilda Hilst estava fora de catálogo ou esgotada e sem perspectiva de reedições. Em cada uma das obras reeditadas, o Alcir Pécora faz uma introdução cuidadosa. Mesmo assim, as reclamações eram muitas sobre as dificuldades de leitura das obras da escritora paulista. Muito densa, hermética na maioria das vezes, pornográfica, sacrílega e por ai vai… As incompreensões eram e são muitas.

O livro que indicamos, tem por objetivo tentar desfazer tais equívocos das leituras apressadas ou superficiais da obra de Hilda. Logo de inicio temos uma nota de leitura feita pelo Alcir que nos situa nas obras da autora. “Seja como for, a obra de Hilda Hilst acabou sendo, em certa medida, substituída por um anedotário muito animado, mas francamente mesquinho, como chave de leitura para uma obra complexa e relevante como a sua”, afirmação como essa é justificada pelos exemplos dados pelo autor sobre as leituras que são feitas da obra de Hilda e de como isso só atrapalhou a sua recepção em diversos momentos da critica brasileira e do leitor em geral.

E prossegue Alcir: “De resto, nos textos de uma autora de seu calibre, não faltam questões complexas capazes de manter fiéis velhos leitores, e conquistar novos”, sendo isso que mais interessa a um leitor atento. Destaca ainda o organ izador a forma como Hilda Hilst é um tanto “anárquica” na utilização dos diversos gêneros literários, perfazendo assim um exercício de estilo. Prática da fusão, colagens, fluxo de consciência, poesia lírica, crônica, prosa rítmica, etc.

Os seguintes textos são mais de caráter biográfico. O assinado por Luisa Destri e Cristiano Diniz, intitulado “Um retrato da artista”, faz um percurso da vida e das publicações de Hilda. Da boemia intelectual à reclusão na “casa do sol”, a acidentada vida da autora faz-se como um “processo de parto”, doloroso mas realizador ao final de cada obra. Fica claro um principio básico na mudança radical de Hilda: não se faz escritor ou escritora quem leva uma vida frívola e tola em tempo integral.

Recado duro, mas quem sabe, necessário para jovens gerações que pretendem dedicar-se a escrita. Ficam também um pouco mais claras as razões da busca constante de “experiência mística” por parte de Hilda. Deus e o desespero de não conhecê-lo é uma constância na sua escrita e isto se deve em muito a sua reclusão.

O texto seguinte é o assinado por Sonia Purceno de nome “Ensaio de leitura” onde a autora destaca o “obsceno objeto do desejo de Hilda Hilst”. Pelas palavras do subtítulo temos uma noção de como entender um tema central na obra da escritora, a saber, o desejo e seus correlatos.

Afirma a comentadora: “O obsceno, portanto, será tratado como objeto de perseguição”, implacável perseguição, diríamos nós. Texto marcante na coletânea por seu recorte (o desejo, o obsceno, o prazer estoico) de momentos da vida e obra de Hilda Hilst e mais por sua ousadia em nos mostrar uma escritora que põe o coração a nu e desmistifica a tão valorizada razão. Como disparava a própria Hilda: “A vida? Uma aventura obscena de tão lúcida”.

A coletânea nos brinda ainda com uma série de citações de textos de Hilda Hilst, tanto da sua prosa como da sua poesia e destaca uma série de comentadores de sua obra. Uma obra indispensável para quem quer ser introduzido na obra de Hilda Hilst, uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira no século XX e que demonstra ter fôlego no século XXI.

Na esperança do afirma Alcir Pécora na sua nota de leitura: “Pude constatar o enorme apelo da leitura de Hilda Hilst sobre os jovens. Não precisava lhes dizer nada: chegavam lá sozinhos”. Animadora uma afirmação destas num país que despreza seus grandes escritores e escritoras e se deleita com uma literatura comercial e tola, no mais das vezes.

Romero Venâncio (Departamento de Filosofia – UFS)

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