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Polivalência e eficácia transformadora das linguagens artísticas: o caso das "charges"

Por mais de uma vez já tivemos oportunidade de expressar o nosso encanto pelo mundo das artes. Seguem impactado-nos, positivamente, a polivalência e a eficácia transformadora das diferentes linguagens artísticas. Uma delas – a dos cartuns ou das charges – aqui tomamos como objeto das presentes notas.

A exemplo de tantas outras expressões artísticas similares, as charges continuam a demonstrar seu enorme potencial crítico-transformador. Diferentemente de outras manifestações artísticas, a exemplo do mundo das letras, as “charges” comportam uma riqueza singular: expressar em um simples desenho, em uma simples imagem, dezenas e centenas de páginas. Chargistas despontam, portanto, como um um ser humano de refinada sensibilidade poética, à medida que, sem precisar de letras, mostram-se capazes de traduzir múltiplas cenas da realidade econômica, política e cultural, de modo penetrante e didaticamente convincente.

 

De vez em quando, sinto-me remetido aos anos 80, no exercício do magistério, especialmente na faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caruaru (FAFICA), quando insistia na leitura e debate dos temas relativos à sociologia e de outras disciplinas afins, incentivando as estudantes e os estudantes a recorrerem às páginas de jornais (Folha de São Paulo, Diário de Pernambuco, Jornal do Comércio e outros) e interpretarem as principais charges da semana, fazendo um vínculo orgânico com os diversos temas tratados no programa daquela disciplina. Eram anos de intensa mobilização dos movimentos sociais populares, sindicais e partidários, além de várias outras organizações da sociedade civil brasileira, em um esforço concentrado de superar os anos de chumbo da Ditadura Civil-Militar. Naquela ocasião, também despontavam ilustres cartunistas, a exemplo de Henfil. Em páginas de jornais, de revistas e de periódicos alternativos (O Pasquim, Movimento Em Tempo, Companheiro, Hora do Povo, Tribuna da Imprensa, Voz da Unidade, Tribuna da Luta Operária, entre outros), eram frequentes as charges muito bem elaboradas. 

Sem prejuízo e leituras específicas, relativas à sociologia, nosso propósito era o de despertar e fomentar a consciência crítica da moçada estudantil. E um dos meios que encontrava, estava presente no exercício de interpretação da realidade social, econômica política e cultural, por meio da perspicácia observável em várias daquelas charges. Eu utilizava deste recurso como instrumento de avaliação, que também era bastante apreciado pelos estudantes. 

Em se tratando de um dom artístico de excelência, as charges constituem instrumentos que poucos são capazes de trabalhar, de modo apropriado. Lidar com charges e cartuns requer especial talento, especialmente no que toca à capacidade de percepção do mundo em volta, requerendo sensibilidade refinada do observador da mesma realidade, além de muita criatividade, ao jogar com formas, linhas, cores, posições, etc. Praticamente sem palavras ou com pouquíssimas palavras, uma charge comporta uma demonstração de extrema capacidade de leitura da realidade posta como alvo do observador, da observadora, além nem de requerer deste ou desta uma qualidade extraordinária de traduzir as mais diferentes cenas da realidade social, política econômica e cultural, de modo a espelhar detalhes relevantes do que se quer mostrar 

A depender do talento do cartunista ou da cartunista, seu produto artístico se apresenta com maior ou menor qualidade. Nem toda charge, por consequência, espelhar valioso talento. lembro-me, por exemplo, de uma charge publicada no jornal “Hora do Povo”, no final dos anos 70, início dos anos 80 em que a charge publicada mostrava, de modo um tanto grotesco, a figura ou caricatura do então ministro Delfim Netto, arriando as calças, tendo em cima da charge o letreiro: “Delfim arreia as calças para o FMI”. Aliás, com justiça ou não, a figura de Delfim Netto constitui um dos alvos preferidos pela crítica artística daquela época. Um folheto de cordel, de autoria de Sebastião Silva, um poeta do sertão pernambucano, trazia a seguinte estrofe, que se notabilizaram:

 

O deputado Juruna

Cacique que não tem medo

Disse assim a Figueiredo

“Seu presidente reúna

Seu ministério, e puna

Esta corja de ladrão

Bote todos na prisão

O povo é quem diz assim

Se não der fim a Delfim

Delfim dá fim à nação

 

Ainda que se trate de uma estrofe relativamente contundente, vale registrar a postura relativizante do então ministro criticado. Diferentemente do atual presidente, o então ministro Delfim Netto é alguém portador de humor…

Voltando a focar as charges, elas tem atravessado décadas. No jornalismo, atualmente, podemos observar a contundência e sua capacidade de penetração, na crítica da realidade presente. Da pena de chargistas tais como Renato Aroeira, Carlos Latuff, Chico Caruso, Laerte Coutinho, Priscyla Vieira, Alexandra Moraes, Miguel Falcão, Régis Soares, entre outros e outras, têm brotado críticas notáveis, de grande alcance interpretativo da nossa realidade. Diversas charges têm impactado sobremaneira. Uma das mais recentes, de autoria de Renato Aroeira, desperta a ira dos bolsonaristas, por haver figurado na charge a caricatura do próprio Presidente da República associando-o à suástica. Os apoiadores de Bolsonaro não tardaram em buscar incriminar o artista. No entanto, carecem de argumentos convincentes, até porque cenas recentes protagonizadas pelo Presidente da República e por membros do seu entorno, de modo direto ou indireto, assinalam atitudes no mínimo simpáticas a ideias nazi-fascistas, o que constitui sério empecilho à sua defesa.

Graças, por um lado, ao perfil reacionário das correntes obscurantistas, e, de outro, às marcas próprias das charges, enquanto linguagem artística, interpõe-se um certo hiato entre as posições desses dois tipos de sujeitos políticos. Aqui, enfatizamos sobremaneira as marcas artísticas francamente rejeitadas pelas correntes obscurantistas e reacionárias. Ontem, como hoje, a arte comporta uma série de elementos subversivos a uma certa ordem tida como imutável (desde que controlada pelos setores dominantes), qualquer sinal de mudança ou de manifestação distinta do que aparece como “normal” provoca a ira dos detentores da mencionada ordem e, com ainda maior força, quando se trata de uma linguagem artística que se reveste de características claramente subversivas a esta ordem, tais como a crítica, a sátira, a ironia, o humor. Isto nos remete, por exemplo, à conhecida cena do romance de Umberto Eco, “O nome da rosa”, em que o genial autor descreve a perseguição daquela ordem eclesiástica, orientada pela repressão ao diferente, em um episódio como o que é mostrado no romance e no filme, em que o clérigo carrancudo se mostra raivoso com relação à manifestação do riso: o riso acena para atitudes de seres livres, o que não é tolerado por quem vive capturado pelo ódio, pela sisudez, pela avidez de comando.

As presentes notas tratam de manifestar nossa solidariedade a tantos cartunistas e chargistas de grande talento. A melhor expressão de solidariedade a estas figuras – homens e mulheres – dedicadas às artes em geral, e, em especial, às charges e aos cartuns, consiste em divulgar amplamente seu trabalho, notadamente entre os jovens, proporcionando uma ocasião de exercício crítico e de uma postura de protagonismo cidadão, diante das realidades mais adversas, com o compromisso de superá-las.

 

 João Pessoa, 20 de junho de 2020

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