Partido da imprensa brasileira

A imprensa escrita atua como partido de oposição. Quem mais perde com isso é o PSDB, que fica a reboque da agenda das redações dos grandes jornais. Por Oliver Buzzo

A imprensa escrita no Brasil tem longa tradição em militância partidária. Na Velha República, a filiação partidária dos jornais e revistas era de conhecimento público. Daí que, quando grupos políticos adversários se batiam nas ruas, era comum a invasão e destruição das redações da “imprensa inimiga” – fenômeno que ficou conhecido como “empastelamento”. Na Segunda República, Lacerda levou essa tradição ao seu ápice, pondo em cheque os governos de Vargas e de Jango.

Na fase atual a imprensa cumpriu um papel de vigília crítica na política e ganhou enorme respeito por isso. Muitos passaram a se referir a ela como uma espécie de “quarto poder”. Recentemente, no entanto, a imprensa sucumbiu, mais uma vez, ao ativismo partidário. O problema com uma imprensa desse tipo é que suas redações acabam se convertendo em laboratórios de manipulação da opinião pública.

No período que antecedeu a invasão do Iraque, a imprensa americana ajudou o governo Bush a convencer o povo americano de que o Iraque era um país terrorista. A estratégia de manipulação consistia em ligar, por meio da histeria e da repetição “ad nauseam”, dois fatos isolados: os ataques de 11 de setembro e o regime ditatorial de Saddam Hussein. Isso foi feito pela invenção de que o regime de Saddam tinha armas de destruição em massa e estava disposto a usa-las contra os EUA.

Para o resto do mundo a manipulação era óbvia. Mas a situação não é tão clara quando se está sob a influência da imprensa local. É difícil ficar imune à manipulação, quando jornais, revistas, televisão e demais veículos se unem para difundir uma versão única dos fatos.

Tome-se, por exemplo, a cobertura do acidente do vôo 3054 da TAM. A imprensa local associou a tragédia a uma segunda ordem de fenômenos: a “Crise Aérea” – alcunha sob a qual ficou conhecida a precariedade da infraestrutura dos aeroportos e do controle aéreo do país. Isso foi feito com o intuito de responsabilizar o governo Lula pela tragédia. Mas nenhum jornalista produziu uma evidência sequer ligando os dois fatos.

O acidente parece ter resultado da relação pilotos-aeronave. A única evidência externa a essa relação, que contribuiu para a tragédia, foi a ausência de uma área de escape no aeroporto de Congonhas. Mas esse é um problema que data da construção do aeroporto, na década de 30, e ignorado por todos os governos desde então. Mas, hei, não adianta argumentar. Lula é o culpado e ponto final.

Antes do 11 de Setembro, as ações terroristas eram retratadas na mídia de acordo com sua relevância. A partir do ataque às torres gêmeas, o governo americano e a mídia expandiram o significado do terrorismo para o de uma visão de mundo. O terrorismo, que antes era um caso de polícia, passou a determinar toda a política e o mundo foi dividido em dois eixos: o do bem e o do mal. Tudo isso para criar um estado de espírito belicista contra Saddam.

Até o “Mensalão”, a corrupção tinha uma cobertura proporcional na mídia. Notícias de esquemas de corrupção pipocavam aqui e ali na imprensa. PMDB, PFL, PSDB, PT e outros partidos tiveram suas administrações envolvidas em denúncias de corrupção na imprensa. A partir do “Mensalão”, a grande imprensa se mobilizou e passou a cobrir o assunto massivamente. A corrupção deixou de ser um problema político ou um caso de polícia. A histeria diária nos jornais em torno da corrupção originou uma nova doutrina – o moralismo político. A nova “teologia” tornou-se um marco zero na política.

Os tradicionais divisores de águas – esquerda e direita – foram substituídos pela divisão entre corruptos – os petistas e seus aliados – e éticos – o PSDB e seus aliados. Essa doutrina redesenhou completamente o mapa político do país. O PT de Lula e o PMDB de Quércia – inimigos históricos – se aliaram numa versão brasileira do eixo do mal. O PSOL, novo associado no clube do bem, está completamente à vontade ao lado do antigo PFL e troca afagos até mesmo com a base ruralista daquele partido. Quem diria! Luciana Genro, costumeiramente ridicularizada ao lado de Babá na grande imprensa, transmutou-se numa moralista respeitada. A maior mudança, aliás, se deu no campo da esquerda oposicionista – PPS, PV, PSOL – que abandonou sua agenda social em troca da agenda moralista.

Essa agenda ganhou o coração da classe média – grande consumidora dos jornais e revistas do país. A doutrina da moralidade, no entanto, não colou em meio aos setores mais pobres. Não porque esses setores sejam desinformados ou “vendidos”, como querem os espectros mais reacionários do debate. Com certeza a avassaladora cobertura do “Mensalão” chegou aos extratos inferiores e a corrupção incomoda igualmente todas as classes sociais.

Pesquisas acadêmicas indicam que os setores instruídos respondem mais positivamente aos estímulos da mídia. Esses setores tendem a acreditar que a versão da imprensa é a verdade e são, por isso, mais manipuláveis. É fácil entender por que o moralismo “pegou” nos extratos superiores. Para os setores médios e altos, a conta da corrupção é sentida no bolso; para as massas, no entanto, essa conta é sentida na carne e é paga com o próprio sangue. Ela é paga, diariamente, nas escolas depredadas, nos ônibus super lotados, nos hospitais sucateados, no salário mínimo de fome, etc. Os mais pobres, frequentemente, pagam a conta da roubalheira com a própria vida. Ora, essa conta era a mesma sob o governo do PSDB. Por que as massas se empolgariam com o show de moralidade tucana?

O governo Republicano americano beneficiou-se enormemente da histeria em torno do terrorismo. Bush se re-elegeu, controlou o Congresso e, por anos a fio, determinou a agenda política do país. O novo ambiente de mobilização permitiu às empresas de comunicação aumentarem suas vendas e seus valores na Bolsa de Nova York. Uma parceria (informal) de benefícios mútuos.

Esse é um ponto importante a ser compreendido: a manipulação não é um empreendimento organizado, acordado entre as partes e controlado por um órgão central. Essa caracterização é típica de regimes ditatoriais. Tudo o que é preciso para a imprensa “livre” levar a têrmo um esquema de manipulação, é dinheiro. Se uma determinada linha editorial estiver vendendo jornais, então toda visão divergente dela será automaticamente excluída.

A partir do “Mensalão”, o PSDB e a imprensa mantiveram o governo Lula encurralado por dois anos em salas de CPI´s. Os tucanos produziram material jornalístico vasto e barato para a imprensa. Em troca, os jornais e revistas fecharam os olhos para os “pecados” tucanos. O “acordo” funcionou maravilhosamente para os barões da imprensa, que viram seus jornais e revistas serem vendidos aos milhões ao longo da “Crise do Mensalão”.

A experiência originou uma sub-escola jornalística, que passou a empacotar qualquer notícia a respeito do governo Lula sob a alcunha de “Crise”. Para entender o processo, imagine se os desabamentos na nova linha de metrô em São Paulo estivessem ocorrendo sob uma administração petista. Os tucanos já teriam fabricado uma CPI e a imprensa estaria embalando o evento, desde o primeiro buraco, sob a manchete de “Crise no Metrô”. As imagens de filas intermináveis de pessoas no metrô e a profusão de artigos na imprensa comprovariam a sensação de “crise” no público.

A manobra, no entanto, foi um fracasso para o PSDB, que perdeu feio nas eleições presidenciais de 2006. Daí que os dois principais pretendentes tucanos à presidência, Aécio e Serra, passaram a pressionar para uma mudança da agenda do partido, em direção a uma oposição mais “propositiva” e “construtiva”. Mas a virada não tem sido fácil. A nova orientação desagradou as redações de jornais, que querem uma oposição sanguinária ao governo Lula.

O braço de ferro entre os caciques tucanos e os barões da imprensa ficou evidente na “Crise Renan”. O caso nasceu na redação da Veja e foi levantado no Congresso pelo PSOL. A bancada do PSDB, seguindo a nova orientação partidária, tentou jogar panos quentes no assunto e juntou-se ao governo na tentativa de abafar o caso.

A imprensa revidou, tirando uma maracutaia tucana de suas gavetas. Matérias diárias acerca de uma tal “Máfia do CDHU” (Companhia do Desenvolvimento Habitacional e Urbano) começaram a pipocar nas páginas dos jornais de São Paulo. Trata-se de um esquema de desvio de 1,1 bilhão de reais dos cofres públicos no governo Alckmin. O “recado” das redações foi compreendido pela tropa de choque tucana no Senado, que se alinhou ao DEM e ao PSOL na caça à cabeça de Renan.

O caso “Renan” virou um pesadelo para os tucanos. O presidente do Senado não é o boi de piranha ideal. Renan Calheiros é um cacique que sabe dos “negócios” dos seus pares e, desde o início, deixou claro que não iria jogar o jogo. O oba-oba com a corrupção é um ritual que se processa por meio de punições simbólicas. Renan precisa cair para que tudo permaneça o mesmo. Mas quem ousou brincar de carrasco com o Presidente do Senado, viu seu nome envolvido em denúncias de tramóias.

Nesse clima, os membros do Conselho de Ética, um a um, pularam fora do jogo. A operação de derrubada do velho cacique peemedebista originou uma crise política. O PSDB foi quem mais se desgastou na disputa. A desculpa “oficiosa” era que o líder no Senado, Arthur Virgílio, tinha “laços de amizade” com Renan. Estariam os moralistas tucanos colocando a amizade acima da ética? Ou havia algo mais que amizade nos “laços” entre Renan e Virgílio?

A interferência da imprensa na política interna do PSDB aguçou as divisões do partido. Primeiro, há o grupo de Alckmin, os “fundamentalistas” da moralidade. Foi para Alckmin o “recado” da imprensa paulista. O destinatário foi corretamente escolhido. O ex-governador de São Paulo é o político tucano que mais deve favores à grande imprensa. Além disso, ele é um surpreendente manipulador de bastidores e foi ele quem terminou com a paralisia do PSDB no caso “Renan”. O candidato derrotado do PSDB tirou a focinheira de seu ex-coordenador de campanha, o Senador Sergio Guerra, que partiu para o ataque a Renan. O resto da tropa tucana teve de se realinhar a partir daí.

Alckmin arquitetou sua imagem de bom menino por meio de um controle da oposição na Assembléia e, principalmente, com a ajuda da grande imprensa. As “travessuras” de seu governo raramente chegam às páginas dos jornais. Ele se sente tão a vontade em sua blindagem, que, às vezes, seu comportamento beira o ridículo. Depois das eleições, o ex-governador de São Paulo fez pose de desempregado e disse que ia voltar a medicar, pois tinha que levantar algum dinheiro para manter a família. Terminou curtindo umas férias de seis meses nos Estados Unidos. Mas tomou o cuidado de se matricular num curso de uma universidade americana. Para não sofrer questionamentos futuros, descolou uma bolsa de estudo e foi morar num quarto de estudante com a esposa! Quer mais? Alckmin fez questão de chamar a imprensa e mostrar que ele passava a própria roupa!

Não é preciso muito esforço para desmistificar a áurea ética em torno de Alckmin. Se é difícil encontrar coisas contra ele na grande imprensa, a blindagem, no entanto, não se estende aos seus amigos. Sua situação, nesse particular, não é muito diferente da de Lula: quase todo mundo à sua volta está ou esteve metido em alguma coisa. O colega de partido Sergio Guerra, citado acima, é uma dessas curiosidades da ética tucana. O Senador pernambucano foi um dos envolvidos no “escândalo dos anões do orçamento”. O presidente da CPI que investigava o caso, Roberto Magalhães, ignorou as fortes evidências contra Guerra e o inocentou, causando indignação na época. Tratou-se de um escambo político: o PFL liberou Guerra no caso; em troca o PSDB liberou Carlos Aleluia do PFL.

A estória é a mesma com todos os amigos de Alckmim. Até sua esposa esteve envolvida em lances suspeitos (aceitou “presentinhos”) e sua filha tinha “relações perigosas” com a dona da Daslú – notória por suas fraudes nas importações da empresa. Alckmin, como Lula, nada sabia. A única diferença, aqui, é a ausência de questionamentos sobre ele na grande imprensa.

A blindagem jornalística em torno do ex-governador de São Paulo fez dele o “queridinho” da classe média do sul do país, mas sua popularidade é baixa entre as maiorias carentes, mais interessadas nos programas sociais do governo, que na bandeira moralista de Alckmin e sua turma. Numa eventual disputa presidencial, o desafio de Alckmin será o mesmo das eleições passadas: ele terá que convencer a população carente a trocar o cheque do Bolsa-Família pelo cheque sem fundo da moralidade.

Segundo, há o grupo de Aécio, a 180º do de Alckmin. O governador de Minas é a grande força por trás dos movimentos de moderação na relação do PSDB com o governo. Aécio é um político pragmático e sua lógica é, pura e simplesmente, a do voto. Ele entende que não vai chegar à presidência dialogando com minorias e quer baixar, de vez, a bandeira da moralidade. Na sua matemática, Lula (não o PT, nem o PSDB) tem o voto das massas, logo, ele prefere se associar ao presidente, que a uma causa ou a um partido. Mas sua estratégia – de se colocar como herdeiro de Lula – encontra fortes resistências tanto no PSDB como no PT.

Terceiro, há o grupo de Serra. O governador de São Paulo é o mais técnico dos candidatos tucanos, daí que ele prefere falar em “gestão” e “eficiência” em vez de moralidade. O intelectual Serra se incomoda com as tendências lacerdistas de Alckmin. O potencial autoritário dessas tendências – na internet e nas conversas de bares, já há setores namorando com a idéia de uma intervenção militar para por fim ao governo Lula – desperta os piores pesadelos em Serra, que foi perseguido e exilado pelo regime militar.

Por outro lado, a estratégia anti-ideológica de Aécio pode “colar” de Minas para cima, mas dificilmente seria aceita de São Paulo para baixo. Daí que Serra procura ficar a meio caminho entre esses dois extremos, mantendo a bandeira da moralidade a meio pau, enquanto usa sua administração para fortalecer sua posição no PSDB paulista. A pedra no seu caminho é Alckmin (e não Aécio), que é forte em São Paulo e já demonstrou ser capaz de vencê-lo num confronto direto.

Enquanto o PSDB perde o rumo com suas divisões internas, a mídia escrita segue unida em seu canto monocórdico contra o governo. Uma espécie de competição se estabeleceu entre as várias redações de jornais e revistas. Semana a semana, seus articulistas disputam entre si quem fará o artigo mais indignado contra Lula. O presidente já foi chamado de pinguço, ladrão e assassino para o delírio dos leitores. Um dos principais articulistas da maior revista do país declarou, mais de uma vez, que seu objetivo é derrubar o presidente.

Aqui está o problema desses jornalistas. Eles começam a entender os limites do poder da imprensa e crescem frustrados, ao perceber que a pancadaria geral não afeta a popularidade do presidente. Em vez de mudar a pauta ou buscar uma causa que possam vencer, esses jornalistas, mais e mais, apostam suas fichas na próxima “crise”. O resultado é que, parte dos leitores já começam a perceber as diferenças no tratamento dos assuntos do governo para os da oposição. A discussão sobre a manipulação da mídia é intensa na internet.

Esse debate só chega às páginas de jornais para ser desmoralizado. A estratégia é sempre a mesma: qualquer questionamento acerca da sacrossanta imprensa brasileira é repudiado com o dogma da liberdade de imprensa. Os tempos de trevas da censura é evocado e o questionador vê-se ameaçado de excomunhão. Mas a imprensa não é o deus-todo-poderoso, que grande parte dos jornalistas imaginam. Quanto mais ela insiste em seu jogo sujo, mais e mais leitores exercitam seus juízos críticos em relação à mídia. Tal como o PSDB, ela se converteu num dos “patos” do jogo que criou. Atualmente, ela nada mais faz que rastejar, sem rumo, seguindo suas próprias pegadas.

Quem está ganhando esse jogo? Para responder a essa pergunta é preciso entender como as redações funcionam. A imprensa nacional é orientada por um jornalismo de baixo custo. Trata-se de um jornalismo passivo, os jornalistas passam muito tempo nas redações, em frente ao computador, pois há pouco investimento na produção de informações primárias. O trabalho de investigação jornalística praticamente desapareceu. Os “furos” e as frequentes denúncias que se vê nas páginas dos jornais e revistas nascem de material vazado. Num ambiente desse tipo não é difícil plantar informações nas redações.

Parte desse material de denúncia é fornecido por fontes suspeitas. É o caso dos ex-aliados de Renan, que estão suprindo a Veja com informações contra o presidente do Senado – gente do mais baixo calão. Quem está por trás desses informantes e que interesses movem esses ladrões, que denunciam ladrões? Os petistas tentaram entrar nesse jogo – o famigerado Caso Vedoin – e foram denunciados pela mídia. As investigações e os questionamentos que foram feitos com relação às fontes naquele caso, não ocorrem quando as denúncias são contra o governo ou sua base aliada.

O resto do material de denúncia é fornecido pela Polícia Federal. Aqui a fonte é, provavelmente, segura. Mas nenhum desses jornalistas geniais é capaz de se perguntar quem controla a Polícia Federal? Ou seja, na maior parte da vezes, é o próprio governo quem subsidia o vazamento. Então, quem está manipulando quem? Respondendo a pergunta acima, de quem está ganhando com o estado de coisas, ganha quem está rindo e é Lula quem não pára de fazer graça.

A imprensa prestou o maior dos favores a Lula, eliminando todos os poderosos à sua volta. O presidente não pára de rir. Lula aprendeu o jogo do “jornalismo barato” brasileiro e, com a PF numa mão, compreendeu que poderia ter a imprensa na outra mão. Ele colocou a PF para trabalhar e estimula o vazamento de informações à imprensa. Os jornalistas se fartam com a enxurrada de material fácil. De tempos em tempos, o presidente “sacrifica” um ministro, um deputado, um senador da base aliada ou um alto burocrata para saciar a fome de sangue dos nossos jornalistas. Eles dormem tranquilos, acreditando que são brilhantes e que dão as cartas do jogo.

O clima de perseguição da imprensa à base aliada impede que novas lideranças emerjam no interior do governo e se contraponham ao presidente. Lula governa sozinho. O PT e os caciques aliados estão de cabeças baixas. Ninguém quer se destacar com receio de ser o próximo da lista no altar sacrificial do governo. A situação do presidente se tornou tão confortável, que ele pode escolher seu ministério e auxiliares sozinho, com a liberdade de nomear pessoas da oposição em seu time. Todo mundo no governo deve obediência e lealdade ao presidente e a ninguém mais. A mídia transformou Lula no presidente mais poderoso da história do país. Seu poder só é comparado ao de Getúlio Vargas.

Quem mais perde nisso tudo é o PSDB. O lugar natural do partido é o de lider da oposição. Mas a imprensa deslocou o partido e ocupou seu espaço. Quem dita a agenda da oposição são as redações. O PSDB corre atrás das notícias e a posição do partido se deteriora a olhos vistos. Primeiro, o partido perdeu as eleições presidenciais. Em seguida, o partido perdeu a liderança da oposição. Quem está no comando da oposição no Congresso, agora, é o DEM e o PSOL, dois partidos minoritários. Por fim, o PSDB começa a perder apoio no interior de suas bases. Já há jornalistas “aliados” criticando o partido. Cresce, também, a insatisfação dos eleitores tucanos com o partido. Parte desses eleitores começam a migrar para o DEM. É o caso em São Paulo, onde o velho PFL utiliza a administração Kassab para vender sua nova imagem “DEM”.

Os caciques tucanos reconhecem que o partido perde espaço. Fernando Henrique prega “renovação” ao partido. O tucanato, entretanto, está longe de compreender a situação. Ela pode ser resumida numa frase: os tucanos estabeleceram um acordo de pauta com a imprensa, em vez de fazê-lo com o povo brasileiro. São bons de “política de mídia”, mas qual é a “política de bases” do PSDB? A maioria de suas liderenças – Fernando Henrique, Malan, Gustavo Franco, etc – dedica seu tempo a escrever artigos contra o governo Lula nas páginas da imprensa “amiga”. Alguém aí lembra a última vez que viu uma foto desse pessoal numa periferia, nas ruas, ao lado do povo? De onde essa turma tirou a idéia de que democracia é um jogo de minorias, exercitado em gabinetes?

Os desafios do PSDB para as eleições presidenciais de 2010 são dois. Primeiro, o partido terá de resolver suas divisões internas e levantar uma bandeira única. Se quiser ter alguma chance de bater o PT – ou melhor, o candidato de Lula – essa bandeira terá que contemplar as maiorias. Isso implica em por fim à ojeriza, de setores do partido, aos programas sociais.

Segundo, o PSDB terá de repensar suas relações com a mídia. Ter uma parceria com a imprensa parece um bom negócio. Mas o preço tem sido alto para o partido. De manipulador, o PSDB se converteu em vítima da agenda jornalística. O partido não conseguirá traçar um caminho próprio, enquanto sua agenda for decidida nas redações dos grandes jornais. Os tucanos vão ter que decidir se seu negócio é representar ou vender jornal.


Oliver Buzzo é sociólogo. Contato: oliverbuzzo@gmail.com

2 comentários em “Partido da imprensa brasileira”

  1. Lúcido, isento, brilhante!!!
    O melhor comentário politico que li nos últimos tempos.
    Inclusive manifestei opinião semelhante no blogo da Lúcia Hipólito dizendo coisa semelhante.
    Penso que o maior beneficiado da aceitação das denúncias pelo supremo é o Lula!

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