Programa na UFRJ atende hipertensos graves e de difícil controle

Taisa Gamboa, Boletim Olhar Vital da UFRJ – Segundo o Ministério da Saúde, as doenças cardiovasculares são as primeiras causas de morte no Brasil, atingindo 32,3% da população. A hipertensão arterial é responsável por 35% de todos os grandes eventos cardiovasculares, sendo fundamental uma abordagem diagnóstica e terapêutica adequada visando diminuir a alta morbimortalidade. A hipertensão arterial é uma entidade clínica multifatorial que se caracteriza por níveis tensionais elevados associados a alterações metabólicas, hormonais e a fenômenos nutricionais.

Para atender adequadamente hipertensos graves e de difícil controle, o Programa de hipertensão arterial do Hospital Universitário da UFRJ (ProHart) foi iniciado em 1999. Com o intuito de obter melhor controle clínico e reduzir as complicações e os custos do acompanhamento dos hipertensos do HUCFF foi elaborada uma rotina de avaliação e tratamento inicial do hipertenso. Para auxiliar esse trabalho, na última semana, o Hospital chegou a comprar seis aparelhos eletrônicos de medição da pressão arterial de altíssima tecnologia. Leia a matéria na íntegra clicando no título.

Feijoada de Bamba da Vila no último sábado de cada mês

O público prestigiou e lotou a quadra da Vila Isabel no seu primeiro evento gastronômico, e tipicamente carioca, a feijoada. Por ser em Vila Isabel, onde se costuma dizer que, quem nasce em Vila Isabel, já nasce poeta ou compositor, o evento ganhou o nome de Feijoada de Bamba e será realizado sempre no último sábado de cada mês, das 12h às 18h. O evento, que foi lançado no dia 24/9/2005 e contou com a apresentação da Velha Guarda Musical de Vila Isabel e do grupo Nosso Canto, terá a cada edição uma atração musical diferente.

Modernidade alternativa em debate

Theotonio dos Santos abriu o segundo dia do REGGEN 2005 elogiando a atuação das lideranças chinesas e do Partido Comunista Chinês, que demonstraram, segundo ele, que é possível obter o crescimento sustentado de uma nação sem fazer um controle rigoroso da inflação, tal como propõe (no plano das idéias) o neoliberalismo. “Isso demonstra a falácia da imprensa ocidental de que a China cresceu por causa da abertura do capitalismo e do neoliberalismo”, disse.

Ele falou sobre a importância de se reivindicar o marxismo para a direção do processo econômico, rumo ao que classificou como “modernidade alternativa” – concepção que nega a interpretação de que ‘modernidade’ é sinônimo de ocidentalismo eurocêntrico. “O ‘orientalismo’ nasceu no ocidente, que o transformou num saco de gatos. Na concepção eurocêntrica, a Europa, com seus 500 ou 600 anos, é o berço da história, enquanto que o Oriente e seus seis mil ano não possui história”.

Giovanni Arrighi: “Não temos nem sequer o vocabulário para falar sobre a China”

Acadêmico da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, Giovanni Arrighi participou do REGGEN há dois anos atrás e começou lembrando a intervenção de Andre Gunder Frank, um dos ilustres participantes do evento de 2003 e que faleceu este ano. “Duas semanas antes de sua morte, nos falamos por telefone e o que me impressionou foi que, mesmo sabendo que iria morrer, queria conversar sobre o que estávamos produzindo”, lembrou Arrighi.

Conforme registrou a Revista Consciência.Net à época, Gunder Frank argumentou a palavra Hegemonia deveria ser esquecida, porque não há e não haverá uma hegemonia. “O poderio e o ingresso à posição dos Estados Unidos atualmente estão baseados em duas condições-chave: o dólar e Pentágono. Essas duas características, seu poder financeiro e bélico, são concomitantemente as bases do seu ingresso à posição atual e também seu calcanhar de Aquiles (…) A sociedade de consumo norte-americana não tem condição de exportar tanto quanto importa, sua demanda é muito superior à sua produção. O que gera um déficit crescente de U$ 500 bilhões ao ano” [leia o texto de Renato Kress sobre a exposição em www.consciencia.net/reggen/materias.html].

Para Arrighi, que baseou parte de sua exposição na fala de Frank, a História precisa ser revisitada, mas não só ela. “Precisamos entender que tipo de globalização estava emergindo nos anos 80. O fato é que o termo ‘globalização’ foi seqüestrado pelos neoliberais. Se globalização significa integração mútua entre os povos, então talvez já existisse há séculos e mesmo milênios”, sustentou. Ele continua, afirmando que a globalização virou sinônimo de “não há alternativas” durante o governo Clinton nos EUA (1993-2000), que tomou para si a famosa frase da Margareth Thatcher nos anos 80.

Para o sociólogo, esta fase do “todos contra todos” chegou ao fim, devido a dois fatores básicos: resistência dos povos ao custo dessa lógica do capital e, principalmente, o neoconservadorismo dos EUA, que rejeita a idéia de globalização. “Bush dificilmente pronuncia a palavra globalização”, argumentou, complementando que este pensamento visa privilegiar o uso militar das forças hegemônicas. Estas, no entanto, já não existem, diz Arrighi. “A hegemonia americana já era. O que os EUA querem é a dominação sem hegemonia. Eles têm o poder de causar maiores danos ao mundo apenas com o poder bélico”.

Arrighi fez também uma breve análise do futuro da geopolítica mundial. Citando China e Brasil, vê como potências emergentes os países que possuem grandes contingentes populacionais. “Estamos falando de novos tipos de ‘Estados’ com um quinto da população mundial. Partindo do futuro, Arrighi foi ao passado para buscar argumentos. “Quando a História mundial for reescrita, vamos parar de falar sobre a revolução industrial inglesa como central para a modernidade”, disse, em crítica a parâmetros históricos eurocêntricos.

“Nesse mesmo período, na China, havia não exatamente uma revolução industrial, mas uma revolução industriosa. No começo do século XIX, a China havia passado em pouco tempo de 150 milhões de habitantes para 400 milhões de habitantes. Ao invés de haver uma deterioração da sociedade, houve uma pequena melhoria. Este é o verdadeiro milagre chinês, um processo que agregou mais do que a revolução industrial inglesa, que deixou inclusive um legado para o Japão, onde aconteceu a mesma coisa, em menor escala”, comentou.

Arrighi comentou que uma das origens da competitividade da China foi as bicicletas que, segundo ele, seria sinônimo de saúde e qualidade de vida. “Foi um grande erro os chineses começarem a usar mais carros, porque é esta força e saúde do povo chinês que permitiu que eles pudessem utilizar com eficiência a tecnologia ocidental”. Arrighi afirma que, apesar de ser um povo pobre, o chinês possui saúde e educação. “Unindo estes fatores ao empreendedorismo e às técnicas gerenciais que nunca deixaram a China, o país pôde crescer da forma que cresce”. Arrighi argumenta que não é a mão-de-obra barata que sustenta o desenvolvimento no país, e sim o preparo de seu povo.

Em outro ponto apresentado por ele, disse que o Estado-nação “não é uma invenção européia”, pois já existia muito antes – mesmo que com concepções diferentes – na Ásia. É o caso de Japão, Laos e Camboja. Outras nações, como a Indonésia, só não foram pelo mesmo caminho pois eram frutos do colonialismo. “A Ásia experimentou mais de 300 anos de paz, até a guerra entre China e Japão no século XVIII”, diz Arrighi, argumentando que, ao revisitar a história do capitalismo e da civilização ocidental, acharemos o militarismo desde o início dos tempos. Por conta desse ímpeto imperialista, a Europa acabou por refazer a geografia mundial, exceto o sudeste asiático. “Não estou dizendo, com isso, que a China é menos ou mais violenta. Mas seguramente não é lá que residem atualmente ameaças à paz”.

Arrighi comentou ainda sobre a emergência do sudeste da Ásia como novo pólo de acumulação de capital. Neste momento, argumento, é preciso estar atento às novas configurações das relações entre capital e Estado e entre capital e trabalho. “Não temos nem sequer o vocabulário para falar sobre esta nova realidade. Não temos a linguagem para discutir sobre o que se passa na China”, alertou.

Jan Kregel resgata Raúl Prebisch e John Keynes

Integrante do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da Organização das Nações Unidas (ONU), Jan Kregel falou no REGGEN 2005 durante o segundo dia, 9 de outubro, no saguão principal de eventos do Hotel Glória, no Rio de Janeiro. Mais um a relembrar a frase de Margareth Thatcher de que “não há alternativa”, Kregel falou exatamente sobre sua visão acerca das alternativas ao desenvolvimento e à globalização. Ele atribuiu a frase a um pensamento que começa no pós-guerra, quando se iniciou o processo de acumulação do capital.

Na ONU, durante o pós-guerra, Kregel diz que se achava que economia era economia em qualquer lugar do mundo. Dez ou quinze anos depois, este era o posicionamento oficial dos Estados Unidos nos órgãos internacionais. No entanto, ressaltou que a América Latina, por exemplo, possui uma teoria econômica própria, uma estrutura própria e uma história. Citando o economista argentino Raúl Prebisch (1901-1986), Kregel falou sobre a desigualdade presente hoje em escala global. Apontou três causas possíveis: razões históricas, concentração de terra e concentração de riqueza. O economista falou também sobre a contradição para a superação dessa condição. “Dependemos dos investimentos externos para gerar emprego, mas esses próprios investimentos que geram mais desemprego, por conta das políticas restritivas impostas, tais como as altas taxas de juros, que reduzem a demanda interna”.

Outro grande nome da história da economia citado por Kregel foi John Maynard Keynes (1883-1946), que, segundo o expositor, sugeriu o aumento do gasto público como forma de aumentar a demanda interna. Estes gastos públicos, oferecidos pelo governo, deveriam ser pagos no entanto pelo mercado de capitais. Sempre que houvesse necessidade, as contas do governo deveriam ser deficitárias, diz Kregel citando o pensamento de Keynes.

Em outro ponto, afirma que o avanço de empresas que vendem supérfluos em países em desenvolvimento depende de elites que comprem estes supérfluos. “Do contrário, não investiriam nesse país”. Dessa forma, ele aponta a “taxa sobre consumo” ou “imposto sobre supérfluos”, que poderia chegar a até 200%, como forma de provocar a redução do consumo de supérfluos e promover assim a contenção de gastos. Ele diz que as grandes potências discutem medidas semelhantes, mas que uniformizaram as taxas, de modo que a proposta não faria mais sentido.

Kregel diz que é uma falácia afirmar que os mercados internacionais produzem preços mais competitivos do que os mercados nacionais, já que na primeira hipótese quem acabará por definir os preços são as transnacionais.

Jomo Kwame Sundaram: Por uma estratégia nacional de desenvolvimento

Destacando alguns dos pontos de estrangulamento do desenvolvimento que impedem o que classificou como “taxas de retorno social”, o pesquisador do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Jomo Kwame Sundaram, procurou apontar as formas como as economias se organizam e ressaltou que um capitalista nunca fará investimentos se não obtiver altas taxas de retorno econômico. No Brasil, acrescenta, há um alto custo de investimento.

A economia política que possibilita a acumulação capitalista, diz, é promovido por um determinado tipo de populismo comum na América Latina, bem como a famosa escola da “Teoria da Dependência”. Para Sundaram, é preciso revisitar outras teorias latino-americanas dos anos 60 e 70 que ajudaram a desenvolver a região. Ele aponta a contradição entre o aumento dos fluxos financeiros e comerciais e as barreiras para os fluxos de seres humanos, situação que considera irônica.

Outra realidade que Sundaram destacou é o declínio dos manufaturados genéricos e o crescimento da importância das indústrias de propriedade intelectual, que têm ganho força há apenas duas décadas. Além disso, o pesquisador criticou a maior parte das reuniões que acontecem em lugares como Doha e Genebra, apontando que nestes encontros não se discute efetivamente desenvolvimento. O modelo simplista, sustenta, que divide os modelos de exportação e substituição de importações precisa ser revisto.

Ele se uniu, no entanto, às críticas ao neoliberalismo com cautela. “A liberalização do comércio é um animal diferente. Temos que falar sobre isso depois”. Segundo ele, até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheceu que a liberalização financeira fracassou, mesmo que suas operações continuem seguindo a mesma linha neoliberal anteriormente adotada.

Três falácias importantes, explica, foram derrubadas. A primeira dizia que, com a liberalização, o fluxo de capitais de países ricos para países pobres e em desenvolvimento aumentaria. O segundo afirmava que o neoliberalismo possibilitaria financiamentos a custos menores. E o terceiro sustentava que haveria uma baixa volatilidade financeira no mercado mundial. Nenhuma delas se confirmou, assegura. As conseqüências desse processo foi o aumento, nas palavras de Sundaram, de “governos vulneráveis aos ditames do mercado financeiro”, além de crescimento do número de ministros da Fazendo e presidentes do Banco Central obcecados com o controle da inflação.

Outro problema apontado, surpreendentemente, foi a sedução do poder. “Países emergentes foram seduzidos por grandes potências para fazer concessões, com a promessa de se tornarem potências”. Como foi possível, questiona, que alguns países emergentes como o Brasil pudessem crescer durante décadas? Em relação a estes precedentes históricos, o Brasil não está sozinho. Durante o pós-guerra, temos o exemplo da Alemanha e do Japão e, mais recentemente, China e Índia.

Para responder parcialmente a esta pergunta, Jomo Kwame Sundaram afirma que não é possível trabalhar com um único modelo econômico e sugere o que chama de “flexibilidade institucional” – que nada se confunde com a flexibilidade neoliberal, destaca-se – para enfrentar problemas de acordo com o surgimento destes. Esta flexibilidade institucional, esclarece, é a habilidade e a capacidade de responder aos problemas econômicos de um determinado país ou região. Neste último ponto, ele ressalta a importância de se fortalecer não só os Estados-Nação, mas também os blocos regionais.

A capacidade política de sustentar os modelos propostos de forma independente, sustenta, deve ser acompanhado de uma base social destes regimes políticos, como forma de lidar com os problemas que aparecerão e buscar estratégias nacionais de desenvolvimento.

Gilberto Dupas: Grandes corporações e o Estado neoliberal puro

O professor da Universidade de São Paulo (USP) Gilberto Dupas abriu sua palestra afirmando que tanto as teses de Max Weber quanto as de Karl Marx acabaram por se confirmar. Weber, por exemplo, previa que, para sua expansão, o capitalismo necessitava de um excedente populacional para se sustentar. Citando muitos e muitos dados de sua pesquisa acerca das transnacionais que se destacam hoje no mundo, Dupas pegou o exemplo da Wal-Mart, que lucra em um ano o correspondente a metade do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Com salários baixíssimos e péssimas condições de trabalho, o trabalhador da Wal-Mart forma uma espécie de novo paradigma, que inclui a incorporação dos mercados de pobreza ao consumo internacional. Dupas conta que o presidente da Nestlé descobriu que, em muitos lugares do mundo, a lata de leite condensado que vende se tornou um produto de luxo e que, recorrentemente, serve como um presente de aniversário. Pensando nisso, a Nestlé lançou então uma lata com um laço, em formato de presente, para vender mais produtos para pessoas de baixa renda.

O século XX, admite, foi uma demonstração da “força do capitalismo” e trouxe muita concentração e pobreza. Segundo dados de sua pesquisa, os Estados Unidos possuem hoje 32% do PIB mundial, enquanto outras cinco potências – Japão, Alemanha, Rússia, França e Itália – possuem cerca de 30% do PIB mundial. Desta forma, aponta, apenas seis países possuem pouco mais de 60% da renda e do poder de compra mundial.

Voltando-se para a China, Dupas acrescentou que este país asiático possui quatro importantes frentes no cenário geopolítico mundial. Abre seus mercados no que lhe convém (fornecimento de mão-de-obra, por exemplo), fecha igualmente no que lhe convém (tecnologia), é um dos grandes “piratas” do mundo atual (propriedade intelectual) e entra com força total na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Dupas explica que um mercado que cresce acima do PIB só pode ser um bom mercado caso consiga agregar valor, algo que passa do longe do que acontece hoje nos países “emergentes” e outras nações mais pobres. No México, cita, alguns produtos saem com taxa de 5% e possuem uma rentabilidade de até 200% no mercado internacional, demonstrando a falácia de alguns números acerca da exportação destes países.

Outro ponto que Dupas achou importante destacar foi o fato de que a Argentina, mesmo tendo saído do maior calote de sua História, igualou a sua taxa de “risco-país” à taxa do Brasil – mesmo que este último tenha seguido todos os ditames do mercado financeiro com sua intocável disciplina fiscal. No caso da China, procura diferenciar Dupas, há grande quantidade de mão-de-obra barata e que recebeu educação adequada. Já sobre o Brasil, questiona: “Será que este modelo de industrialização ainda serve para países como o nosso?”

Ao relacionar as trocas realizadas entre Brasil e China, Dupas explicou que o Brasil exporta basicamente commodities para a China, enquanto esta exporta tecnologia para o Brasil. Ele contou que, em recente debate com o economista Delfim Netto argumentou que “temos que nos acostumar” com essa realidade, “argumento” que foi prontamente rebatido por Dupas.

Para o pesquisador da USP, as grandes corporações internacionais definem atualmente a produção mundial, preços, nível de empregos e outros fatores. Essa dominação da economia mundial causa, entre outras conseqüências, degradação ambiental, crescimento de contaminação pela indústria química, proliferação dos transgênicos, propaganda enganosa e desemprego, entre outros aspectos. No atual estágio do capitalismo, a tendência é que estas corporações acabem por se fundir com o “Estado neoliberal puro”, prevê Dupas. Em oposição a esta frente, estão os movimentos sociais.

O poder destas empresas transnacionais, explica, é sintetizado pela expressão “way out”, ou seja, a possibilidade que elas têm de fazer pressão política ao determinar o fechamento de filiais, aumentando assim o desemprego. Além destas “sanções”, que por definição são atos políticos, as transnacionais também concedem benefícios a governos que colaboram com suas políticas, classificada por Dupas como a “governança socialmente benéfica”. Este, define, é o princípio da “não-alternativa”, que alimenta o que chama de “miopia competitiva”.

Esta força, alerta o sociólogo, não é exatamente ilegal nem ilegítima – ele tentou definir como “meta-legal”, ou seja, um sistema com leis próprias não-tradicionais. Desta forma, questiona: esta crescente “sedução retórica” das transnacionais, o marketing dos valores dominantes e a ameaça do “way out” serão suficientes para manter tais estratégias? “Estas são questões vitais que deixarei soltas no ar”.

Quem se responsabiliza pelos “avanços” da tecnologia? Por avanços, Dupas inclui os retrocessos que a ciência proporcionou ao mundo atual, tal como os riscos dos transgênicos e sua baixa produtividade agrícola, os possíveis riscos à saúde dos celulares, a doença da vaca louca, entre outros. “Quem legitima esses processos?”, questiona.

Com o fim da utopia, sustenta, a política perde espaço e gera governos com discursos populistas e que, uma vez eleitos, afirmam que estão fazendo “o possível”, se assemelhando com governos anteriores e mantendo uma estrutura de poder excludente. Como exemplo mais visível para os brasileiros – apesar de o fenômeno ser observado em toda a América Latina –, cita a política monetária e fiscal do governo Lula, eleito com ampla base popular e com apoio dos movimentos sociais.

A despeito do discurso falacioso das grandes potências hegemônicas de que bastaria abrir a economia para gerar desenvolvimento, é preciso desenvolver também vantagens para as economias periféricas que agreguem valor aos produtos, bem como estratégias econômicas próprias. “É preciso coragem para colocar em debate o que é sistematicamente escondido da população”, sustenta, citando, entre outros aspectos, a questão ambiental e os monopólios criados pelo capitalismo.

Para constituir essa frente, Dupas sugere a integração de cidadãos e consumidores em redes, que já constituem um novo espaço de soberania cooperativa. O preço a pagar por esta nova realidade global, afirma, é a redução relativa da soberania das nações. Para ele, esse movimento seria um ganho cooperativo internacional determinante para a renovação da política.

A América do Sul poderia ser, então, uma região de destaque para essa alternativa, já que unida soma uma população de 450 milhões de pessoas e possui um Produto Interno Bruto (PIB) de mais de um trilhão de dólares. Este bloco poderia, então, salvar a região, já que “o Mercosul está na UTI e talvez nunca mais saia”. Em torno deste projeto, três pontos básicos uniriam a região: a Amazônia, a abertura do Pacífico e a matriz energética comum. A legitimação da economia mundial, neste sentido, se dá apenas com respeito a projetos nacionais, responsabilidade e transparência.

Falando sobre terrorismo, Dupas afirma que, além do desespero e do fanatismo, ele é gerado também pela exclusão social provocada pelo atual sistema econômico. Por que o tiranismo econômico japonês e chinês, questiona, deu certo na Ásia, mas o mesmo tiranismo norte-americano não “obteve tanto sucesso” na América Latina? Esta questão diz respeito aos investimentos feitos em cada região e à criação de mercados, fatores que se deram de formas diferenciadas nos dois continentes. Os mecanismos utilizados na A.L. provocam a redução dos investimentos em infra-estrutura, fator extremamente danoso para o desenvolvimento da região.

Desta forma, Dupas sugere como saídas para a América Latina, entre outras coisas, o fortalecimento dos Estados nacionais e a emergência de novos atores econômicos. A Organização Mundial do Comércio (OMC), afirma, tem características liberais, mas isso não é o suficiente para falar sobre seu viés. As patentes da área de biotecnologia ou do setor farmacêutico, exemplifica, dão poder de monopólio às empresas que as detém. Um dos principais é o poder de retirada, ou seja, a liberdade que as transnacionais têm de fechar suas empresas e se mudar para lugares mais vantajosos.

A eficiência de um determinado país no mercado global não possibilita necessariamente a apropriação do excedente econômico gerado. Para Dupas, os países “emergentes” certamente nunca emergirão se continuarem com o baixíssimo valor agregado atual. Além disso, esses países possuem enorme dificuldade em formar marcas globais. É o exemplo do Brasil, um dos maiores produtores de café do mundo e que, mesmo assim, perde em exportação para países como Alemanha e Itália.

Falando ainda sobre a política econômica do governo brasileiro, o pesquisador da USP lamentou que o Partidos dos Trabalhadores (PT), ao chegar ao poderoso governo brasileiro, não tenha nem sequer testado idéias que historicamente apoiou – como o keynesianismo. Para Dupas, adotando tais medidas, seria possível ir além dos limites atuais no cenário econômico. As dificuldades de crescimento relacionadas à deficiente infra-estrutura brasileira, diz, se retro-alimentam. Quanto menos se investe em infra-estrutura, menos o país poderá crescer, de forma que haverão então menos verbas para a infra-estrutura.

As taxas de juros básicos da economia – taxa selic – são outro aspecto importante que se retro-alimenta. Quanto mais altas, maior o endividamento do governo e maior, portanto, a “necessidade” de altas taxas de juros. Sem razoável explicação e com boa base de irracionalidade, o governo prefere mantê-las a níveis muito altos. Além disso, Dupas explica que outro fator que limite nosso crescimento, o “risco-país”, é no fundo também uma taxa de juros, já que é a diferença entre os nossos juros e os juros dos Estados Unidos.

Esta situação que ele classifica como “esquizofrênica” foi comparada à crise vivida durante a primeira metade do século XIX, de 1810 a 1840, quando a região experimentou um baixo crescimento econômico. Dupas concluiu dizendo acreditar que, para ter condições de se sustentar politicamente, governos como o brasileiro terão que buscar mais cedo ou mais tarde alternativas ao processo de estagnação econômica.

Marco Antonio Dias: Um possível novo império

Representando a Universidade das Nações Unidas (UNU), Marco Antonio Dias destacou a China como novo centro econômico mundial. Ele acredita que o fenômeno chinês seja uma reação ao poder imperial dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, um possível novo poder imperial. Como aspecto positivo, Dias destaca que a China é um caso exemplar para se mostrar a importância da pesquisa e da formação para o desenvolvimento de uma Nação. “Eles têm consciência de que conhecimento é poder”, pontua, citando a grande quantidade de estudantes chineses que, com o apoio do governo, estudam no exterior e depois retornam ao seu país de origem. “Esse retorno só ocorre porque o governo chinês dá condições. Eles sabem da importância da produção do saber”.

Dias se disse surpreso com rápido crescimento chinês, relembrando uma cidade em que visitou em duas oportunidades, em um intervalo de dois anos entre as visitas, e que havia passada de 2 para 6 milhões de habitantes neste período.

Com todo esse poder, Dias alerta para o surgimento de um novo império, que poderia, inclusive, ameaçar diretamente os EUA. Em relação aos déficits astronômicos sustentados pela economia norte-americana, por exemplo, Dias sustenta: “Se a China decidir se aliar à União Européia e/ou ao Japão e decidir cobrar tudo de uma vez, os Estados Unidos quebram. (…) Minha geração sempre quis ver o fim da hegemonia norte-americana”.

Dando o tom crítico do evento, Marco Antonio Dias aproveitou para alertar: “Há debates em que se gasta muita adrenalina, mas no fundo é tudo teatro”.

Ben Turok: A África é o último dos mercados

O sul-africano Ben Turok veio ao REGGEN representando o parlamento de seu país. Em sua breve introdução, destacou que a África tem tido um pouco mais de atenção do mundo porque a Europa teme o terrorismo e o fonte contingente migratório oriundo de todo o continente, principalmente do Norte. Além disso, ele sustenta que o capitalismo, em seu limite, deverá buscar os “mercados do terceiro mundo”. Neste caso, a África pode ser a última das tentativas de um sistema em decadência. Turok falou um pouco sobre programas que visam unificar o continente negro.

Jaime Osorio: Bases do padrão de reprodução do capital

O pesquisador da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM) do México Jaime Osorio apresentou seu trabalho sobre o padrão de reprodução do capital, crise e mundialização. Ele sustenta que esse padrão se movimento por meio de algumas bases. A saber: patentes (propriedade intelectual), trocas econômicas desiguais, juros da dívida, entre outras. Essa batalha, afirma, se dá fundamentalmente entre as nações centrais e a periferia do sistema, de onde se observam diferenças significantes de poder de apropriação.

Para Osorio, é importante se questionar se a China é uma potência emergente capitalista ou uma potência emergente que opera dentro do sistema mundial capitalista. Para ele, estas são duas realidades opostas, já que delimitam a maneira que as Nações devem se comportar. “É comum encontrar hoje em dia um tipo de discurso que nos coloca frente a uma série de tarefas que precisaríamos realizar”, afirma, questionando o modelo de desenvolvimento dos anos 50, baseado na industrialização dos países. Esta saída, exemplifica, trouxe apenas um outro tipo de subdesenvolvimento. De nada resolve os problemas fundamentais da população.

Desta forma, quais são os atores sociais que, hoje em dia, poderiam levar adiante este processo de desenvolvimento? Mesmo assessorados por técnicos do primeiro mundo, as classes dominantes se demonstraram incapazes de levar adiante um projeto desenvolvimentista. “Não sabiam, por exemplo, que aumentar salários é bom?”, questiona. “As classes empresariais precisam se reinventar”.

Manoranjan Mohanty: Uma nova consciência global

Pesquisador da Universidade de Déli, na Índia, Manoranjan Mohanty – para nós do Consciência.Net, o simpático “mano” Mohanty – foi um dos palestrantes do dia 9 de outubro, durante o REGGEN 2005. Ao analisar a relação entre duas declarações de direitos humanos dos anos 50 e a atual cooperação regional no continente asiático, Mohanty enxerga uma contradição básica entre duas correntes.

Uma delas é liderada por líderes do governo e grandes empresários, que utilizam os instrumentos de cooperação regional como facilitadores para a aceleração da globalização. De outro lado, os movimentos sociais desafiam a primeira corrente a responder à crescente conscientização dos povos acerca dos seus direitos. Esta consciência acerca dos direitos fundamentais se transformou, agora, num fator importante para o movimento global por alternativas à globalização.

Em uma rápida conversa reservada com os estudantes Gustavo e Luanda, respectivamente da UFRJ e da PUC do Rio de Janeiro, “mano” Mohanty se mostrou interessado em saber o que pensavam os jovens brasileiros acerca do neoliberalismo. A primeira reação de ambos foi: “Bom, eles não pensam nada a respeito, pois nem sequer sabem do que se trata”. Esta é, para os estudantes, a realidade de grande parte da juventude. Outra parcela sabe do que se trata, mas se beneficia do processo de globalização e prefere não pensar no neoliberalismo como danoso para países como o Brasil – se isolando assim da realidade. E um outro grupo de jovens possui consciência acerca da desigualdade em escala global que provoca o fenômeno, procurando assim construir novas alternativas para o futuro.

É fato: assim como uma alternativa à globalização, precisamos também de muitos “manos” como Mohanty, abertos às realidades locais e preocupados com o que os jovens pensam, para fazer do mundo um lugar melhor.

Adrián Sotelo: Nome e sobrenome às forças de transformação

Estamos experimentando grandes transformações no mundo do trabalho, que dizem respeito a vários aspectos – social, ético, cultural, psicológico, econômico e tecnológico. Estes fenômenos não implicam na anulação da centralidade do trabalho dentro da luta econômica e política entre o capital e o trabalho, mas podem sobretudo trazer novas experiências para a sociedade de classes, ajudando a superar o sistema de relações sociais vigente. É nestes termos que o sociólogo Adrián Sotelo Valencia, da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), começa sua intervenção.

Ao problematizar o conceito de globalização – será uma ficção? –, Sotelo desmembra sua existência em diversas frentes – cultural, econômica etc. Está preocupado muito mais em analisar quais são os sujeitos históricos que poderão mudar a correlação de forças no mundo – e em particular no México –, se perguntando então qual será o papel das classes sociais e qual será o papel do Estado nesta mudança. Este “esforço de sair da teoria”, sustenta, consiste em dar nome e sobrenome aos atores sociais deste processo, aprofundar o entendimento sobre a globalização e conhecer melhor os sujeitos concretos que lideram a transformação dos povos e nações.

Pesquisadores discutem modelo econômico mais humano

Com o tema “Alternativas à Globalização: Potências emergentes e os novos caminhos da Modernidade”, começou neste sábado (8/10) o II REGGEN (Rede de Economia Global), no Hotel Glória, no Rio de Janeiro. O evento segue até o dia 13 de outubro. Assim como na primeira edição, em 2003, o REGGEN se iniciou com uma homenagem ao economista Celso Furtado. Em seu lugar, esteve presente sua mulher Rosa Furtado, que agradeceu o esforço de Theotonio dos Santos, coordenador do evento, ao realizar uma grande mobilização dois anos antes em torno do nome de Celso para o Prêmio Nobel de Economia. Diversas autoridades e pesquisadores marcaram presença no primeiro dia de encontro. Além de evento de 2003 e do atual, em 2005, o REGGEN já organizou encontros menores em três outras universidades: na UnB, em Brasília, na UFSC (Santa Catarina) e na USP (São Paulo).

Theotonio dos Santos: visão mais ofensiva e propostas concretas

O primeiro a falar foi o presidente da mesa e coordenador geral do REGGEN, Theotonio dos Santos, que lembrou que a Rede já conseguiu publicar quatro volumes com os textos apresentados em 2003, em oito dias de intenso trabalho [veja a nossa cobertura em http://www.consciencia.net/reggen/reggen2003.html%5D. Ele lembrou que a edição de 2003 girou em torno à crítica ao hegemonismo dos Estados Unidos, e que 2005 haveria de ser portanto mais propositivo. “Precisamos de uma visão mais ofensiva, de planos mais propositivos quanto às alternativas à globalização”, sintetizou.

No REGGEN de 2003, esta já era a fala do sociólogo Emir Sader, que destacou: “Tenho uma preocupação em relação ao Fórum Social de Porto Alegre: ele não tem sido um lugar de geração de alternativas. É angustiante a velocidade em que temos avançado em alternativas. (…) Precisamos organizar uma construção de uma política anti-hegemônica. Analisando a política de captação da articulação global que permite a hegemonia, a política de comércio mundial e verificando as causas dos nossos problemas graves na formulação de alternativas a isso. (…) É preciso que haja mais políticas como o plebiscito sobre a ALCA. Para que tenhamos maiores elos que garantam a legitimidade do executivo”.

Theotonio destacou que um importante estudo de um banco suíço apontou quatro centros de poder no século XXI, já na metade do século: Rússia, Índia, China e Brasil. Neste sentido, a Rede de Economia Global se esforça em reunir representantes destes quatro países com a finalidade de promover a integração, acrescendo ao grupo a África do Sul, segundo Theotonio por sua importância estratégica. Ele finalizou a primeira parte de sua fala afirmando que a idéia eurocêntrica de que ‘modernidade’ significa ocidentalizar-se é uma tese superada. Para Theotonio, nenhum país é modelo e todos devem ter soberania quanto aos caminhos de suas economias. “Há experiências acumuladas por povos para atender necessidades de emancipação, e assim deve ser”.

Ex-pesquisador da Universidade das Nações Unidas (UNU) no Japão, Marco Antonio Dias representou a instituição para destacar que a proposta que Theotonio dos Santos fizera acerca de uma rede de economia na UNESCO que tivesse nomes independentes como o do egípcio Samir Amin sofreu muita resistência. Dias fez uma breve saudação ao REGGEN e alertou que, mais do que um projeto de Nação, tanto ele como Theotonio tinham uma leitura de que, diante dos desafios da globalização, era necessário construir um projeto de civilização.

Em breve mais sobre o primeiro dia. Neste domingo tem muita gente boa, entre eles: Samir Amin (Fórum do Terceiro Mundo), Jan Kregel (Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU), Giovanni Arrighi (Universidade John Hopkins, EUA), Jomo Kwame Sundaram (Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU), Gilberto Dupas (USP), Luis Fernandes (MCT) e Marco Aurélio Garcia (Assessor Especial da Presidência da República), tudo pela manhã.

À tarde: Beverly Silver (Universidade John Hopkins – EUA), Manoranjan Mohanty (Universidade de Delhi – India), Gao Xian (Academia Chinesa de Ciências Sociais – China), Ben Turok (Parlamento da África do Sul), Antonio Carlos Peixoto (Coordenadoria para Assuntos Internacionais do Governo do Estado do RJ), Yves Berthelot (PEKEA) apresentado por Marc Humbert (PEKEA), Sedi Hirano (USP), Eurico Lima Figueiredo (UFF), Berta Becker (UFRJ) e Samuel Pinheiro Guimarães (MRE).

Li Shenming: O movimento socialista do século XX foi apenas um prelúdio

Depois de Theotonio, foi a vez de Li Shenming, vice-presidente da Academia Chinesa de Ciências Sociais, uma instituição de pesquisa que orienta boa parte do pensamento político e social do governo chinês.

Shenming começou sua fala afirmando que o socialismo não se extinguiu, mesmo com a derrocada da União Soviética no final dos anos 80, e mais ainda: está emergindo das adversidades. Citando o filósofo alemão Karl Marx por diversas vezes, Shenming argumentou que o marxismo continua tendo uma forte vitalidade. “Dizem que o capitalismo teria ganho definitivamente. No entanto, é no final do século XX, no berço do capitalismo, que circulam duas notícias importantes”, diz. Segundo ele, duas importantes agências de notícias, entre elas a BBC News, publicam pesquisas sobre os maiores pensadores do milênio. “De 30 mil pessoas, 27% escolheram Karl Marx”, destacou. “Em segundo lugar, muito atrás de Marx e com apenas 10%, está David Hume [filósofo escocês]. Platão, Sócrates, Aristóteles e Hegel ficam muito atrás”.

Para Shenming, a História se comprovou mais uma vez como “juiz definitivo e justo”, e a concepção e metodologia de Marx estão de acordo com a vontade das massas e se demonstraram “científicas” – contradizendo, neste ponto, Rosa Furtado que, em sua fala em homenagem ao ex-marido Celso Furtado, disse que a economia não é uma ciência e que não pode se separar da política, tal como sustentava Celso.

O pesquisador chinês defendeu, desta forma, uma reorientação dos rumos da sociedade global. “A globalização econômica das grandes potências e o rápido desenvolvimento da ciência e da tecnologia só fizeram aumentar as contradições do atual sistema, apressando assim o processo de construção de alternativas à globalização. Fazendo uma retrospectiva histórica, Shenming destacou que durante todo o século XX, o capitalismo experimentou vários tipos de monopólio – o privado, o estatal e o internacional, verificado atualmente. Estas novas características do sistema não superaram, no entanto, as contradições fundamentais e os problemas estruturais.

A revolução tecnológica (principalmente da informática) impulsionou as forças produtivas, mas, para Shenming, novamente Marx reapareceu como instrumento necessário de entendimento da nossa realidade: as máquinas, diz, se revelaram muito mais perigosas que os cidadãos. O capital, em sua fase internacional, se apropriou desta tecnologia para aumentar sua circulação no mercado financeiro global, separando-se da economia real e da cadeioa de produção. A multiplicação do seu valor, sustenta Shenming, cria um cenário onde países e indivíduos ricos ficam cada vez mais ricos, ao passo que países e indivíduos pobres ficam cada vez mais pobres.

“Nosso grande líder chines dizia… Onde há opressão, haverá luta e rebeldia”, disse Shenming, lembrando a figura de Mao Tsé Tung. O pesquisador lembra que o neoliberalismo não alcançou os avanços que pretendia e só promoveu recessões econômicas e sociais. No início do século XXI, diante da crescente pauperização dos povos em todo o mundo, o capitalismo internacional começa a ficar menos ganancioso e, por outro lado, para se sustentar, começa a cortar empregos, investimentos e, desta forma, a demanda interna de potências ocidentais. Esta é a causa fundamental da recessão, diz Shenming, que brinca: “O capitalismo perdeu sua elegância”.

Ao mesmo tempo que provocaram a crise estrutural que observamos, os principais agentes do capitalismo – tais como instituições multilaterais (FMI, Banco Mundial etc.) e elites das potências hegemônicas – se beneficiaram do neoliberalismo no mundo inteiro, exceto pelo já referido fato de que o aprofundamento da recessão econômica e o desenvolvimento da ciência e tecnologia criaram condições mais amplas para a construção de alternativas. “Há indícios de que estamos em uma fase de recuperação das tendências socialistas na Ásia, África e América Latina”, ressalta.

“O movimento socialista do século XX foi apenas um prelúdio do desenvolvimento do socialismo real”, teoriza, lembrando que hoje há alguns importantes países com projetos de desenvolvimento do socialismo, tais como China, Cuba, Vietnã, Laos e Coréia do Norte. Já nas potências ocidentais, sob regime capitalista, Shenming lembra que o interesse por Marx é crescente, tal como mostraram duas pesquisas citadas pelo pesquisador que envolveram 30 mil pessoas. “Outro ponto importante é que nos países que eram socialistas, as forças socialistas voltam a se reunir. E em países na Ásia, África e América Latina que sofreram com o neoliberalismo surgiram não poucos governos de esquerda”, lembrou.

“Se tivermos uma visão mais ampla sobre o mundo, percebemos que o desenvolvimento das nações é espiral, árduo e longo. O planejamento dos povos quanto às alternativas já pode ser observado sobre o horizonte”, conclui.

Imprensa ocidental deturpa

Ao comentar a exposição de Li Shenming, Theotonio dos Santos apontou como era de fácil observação o fato de que a imprensa ocidental vende uma imagem deturpada da China. Nesta visão, o desenvolvimento da China seria resultado de uma “abertura” ao neoliberalismo e ao capitalismo, algo completamente distinto do que pensa o governo chinês e seus intelectuais, para os quais a intervenção estatal é essencial. “Os neoliberais dirigiram o fracasso da Rússia e do Leste Europeu, não foram os chineses. O FMI e o Banco Mundial nunca orientaram a política econômica da China”, disparou Theotonio.

Roberto Amaral: “Precisamos acreditar neste país”

Ex-ministro da Ciência e Tecnologia durante o governo Lula, Roberto Amaral sofreu pressões, afirmou Theotonio dos Santos, pelo apoio que deu ao REGGEN 2005. “Eu não sabia que vinha para a mesa, não sabia que ia falar e muito menos que podia, em auditórios como esses, citar Marx”, brincou, se referindo à palestra anterior, de um representante chinês, que citou o filósofo alemão Karl Marx por diversas vezes. O Hotel Glória, onde se realiza o encontro, é um dos mais caros do Rio de Janeiro e o público é formado basicamente de estudantes e intelectuais das classes média e alta.

Para se referir a Marx, Amaral falou sobre a necessidade de intervir na realidade para modificá-la, e modificá-la para melhor. “Celso Furtado, assim como Florestan Fernandes, interpretou este país para mudá-lo”. Unindo-se às homenagens feitas a Celso, o ex-ministro disse não saber o que é mais importante sobre o autor: sua bibliografia ou sua biografia. “Foi um dos grandes patriotas deste país, e esta é outra expressão que caiu em desuso, patriotismo. Precisamos resgatar estes valores, resgatar o valor da política e a importância de acreditar neste país”, disse.

Ele acredita que a maior tragédia política que vivemos hoje é decorrente do abandono da utopia. “Passamos a nos ater à chamada governabilidade”, criticou, em referência indireta ao governo Lula, iniciado em 2003 e que tem adotado uma política de alianças que não obedece critérios ideológicos. Finalmente, fazendo uma referência a uma importante obra da literatura internacional, concluiu: “Que viva Dom Quixote e que desapareça da nossa frente os Sancho Panças”.

Elmar Altvater: “Precisamos construir uma economia pós-autista”

Integrante da Universidade Livre de Berlim, o alemão Elmar Altvater fez um grande esforço para falar em português, ressaltando que respeita a diversidade lingüística mundial, algo que “temos que defender”. Ele brincou no começo, lamentando que, em eventos na Europa e em seu país, mesmo não havendo um único representante da Inglaterra, todos se comunicam em inglês. “Não é em alemão nem em português”. O autor tem um estudo de fôlego sobre a Amazônia que alcança 600 páginas e, infelizmente, nunca foi traduzido para o português.

Para Altvater, a importância de Celso Furtado para o mundo se dá pelo fato de que foi ele um dos primeiros a criticar o neoliberalismo, já nos anos 70. Ele lembrou que o fenômeno teve início no período pós-guerra, nos anos 40 e 50. A economia, sustenta, é algo que deve estar ligado à sociedade. “No capitalismo, a economia se desliga da realidade e não se dá conta dos atores sociais envolvidos. Este tipo de economia é uma economia abstrata, autista, e precisamos portanto construir uma economia pós-autista”. Isso se daria basicamente, diz, com a redistribuição de renda e propriedade, principalmente a propriedade rural. É por isso, argumenta, que a relação cidade-campo é fundamental para este processo de transformação.

Além desses fatores, é preciso reconhecer a importância da economia global atualmente. Há vários fatores externos que podem influenciar a economia de um país, entre eles os termos de troca (“terms of trade”), as taxas de juros e de câmbio e o endividamento externo e serviços da dívida. As questões financeiras e econômicas são vitais, diz, mas se trata também (e principalmente) de fatores políticos. “São decisões políticas as responsáveis pelos rumos econômicos”.

Para Altvater, os conceitos de desenvolvimento e modernização se diferem fundamentalmente. Enquanto este é oriundo principalmente dos EUA, o segundo diz respeito a uma alternativa, uma necessidade de estabelecer o planejamento estatal da economia e tomar mais atos políticos. “Não é só o mercado que é importante para que haja o crescimento da economia de um país”, alerta.

Em decorrência desse processo, Altvater enxerga um fenômeno que chama de “failing states”, algo como “Estados fracassando”, por conta da precarização do trabalho e do trabalho informal, dos desastres ecológicos crescentes e do terrorismo, entre outros aspectos.

Hoje, argumenta, talvez não seja tão importante o termo “socialismo”, porque precisamos buscar outras formas de poder. Ele cita como exemplos a economia solidária e o cooperativismo. Estas formas, ressalta, não são feitas com um partido centralizado, nem pelo Estado. “É uma economia que vem debaixo, que é solidária e coletiva”. Nesta perspectiva, ele classifica a economia informal como o “neoliberalismo debaixo”. Outro ponto que Altvater sustenta como importante para o futuro do mundo são as energias renováveis. “É muito importante pensarmos o que Celso Furtado pensou, mas temos a obrigação de ir além. Pensando sobre e em cima de Celso, mas além do pensamento dele”.

A viúva de Celso, Rosa Furtado, fez uma breve fala relembrando a campanha que Theotonio dos Santos mobilizou para lançar o nome de Furtado ao Prêmio Nobel de Economia. “O comitê do Nobel perdeu uma grande chance”.

Afro-brasileiros no novo antigo milênio


Nestor Carrena nasceu em Lagos, na Nigéria, em 6 de setembro de 1913. Seus avôs maternos seriam originários de Porto Alegre, sua mãe de Lagos e seu pai de Daomé (atual Benin). Registros históricos atestam, no entanto, que o sobrenome Carrena veio de um italiano, originário de Gênova e estabelecido em Lagos no século XIX.

Ainda muito jovem, Nestor aprendeu com a mãe a arte da música e os mistérios do português. Aos 11 anos cantou sua primeira modinha nessa língua. Três quartos de século depois, ainda recorda letra e acordes que dedilha no piano da sala. Nestor teve atuação importante na sociedade dos retornados, tendo presidido em mais de uma ocasião a União dos Descendentes Brasileiros de Lagos.

Assim como Nestor, ao longo do século XIX e até inícios do XX, milhares de brasileiros de origem africana, escravos libertos ou forros (nascidos livres) migraram para a África, o chamado “retorno” – ainda que, para muitos “retornados”, a África nunca tivera sido terra natal. Deixavam o Brasil, em sua maioria, em busca das origens e de um futuro melhor, ou simplesmente fugindo da perseguição e da falta de oportunidades de um país que engatinhava no processo de emancipação de seus escravos, etapa indispensável de um projeto de nação no qual os negros ainda não tinham lugar.

Instalados em cidades como Lagos (na atual Nigéria), Uidá, Porto-Novo e Ágüe (Benin), Lomé (Togo) ou Acra (Gana), esses retornados constituíram uma verdadeira comunidade, homogênea nos traços deixados pela herança brasileira, em especial a educação – rigorosa e majoritariamente católica, muito diferente daquela dispensada pelas famílias locais a seus filhos e netos.

No dia 5 de outubro, a Revista Consciência.Net visitou a mostra Cartas d’África: Uma história de retornos, que procura resgatar a trajetória de alguns desses brasileiros e de seus descendentes. A exposição esteve no Sofitel, em Copacabana, Rio de Janeiro, durante a III Conferência Bienal da Associação para o Estudo da Diáspora Africana no Mundo (ASWAD), de 5 a 7 de outubro.

Além da simpática figura de Nestor, o projeto Cartas d’África resgata um passado que a maior parte de nosso pensamento eurocêntrico, ainda atual e vivo, prefere esquecer: a importância dos negros para a construção de uma identidade nacional. Para os que não pretendem pactuar com o ideal histórico de “embranquecimento” da população brasileira e entender um pouco mais sobre nossas verdadeiras origens, conhecer o projeto é essencial.

“Feliz Novo Milênio”

Em 1978, Nestor esteve no Brasil em companhia de Angélica da Rocha. Juntos, assistiram o carnaval do Rio de Janeiro, de Salvador e Brasília. Uma revista semanal registrou na época a descoberta da terra ancestral. Nestor mandou um recado por meio do projeto Cartas d’África, onde diz: “Eu, Nestor Carrena de Lagos, Nigéria, envio minhas saudações fraternas a todos os membros da Família Carrena no Brasil. É por isso que estou cantando e tocando piano, o que aprendi com minha falecida mãe. Feliz novo milênio”.

Outros depoimentos e mais sobre o projeto: www.cartasdafrica.com

Guatemala: capital campesina de Latinoamérica

Guatemala, uno de los países de Centroamérica, que sufre el aumento de la pobreza y la miseria en el campo, y que ha sido duramente golpeada por fuertes lluvias causadas por tormentas tropicales que han agravado esta situación, se ha convertido desde ahora hasta el 12 de octubre, en la Capital del movimiento campesino organizado de América Latina.

En efecto, en país de los “chapines”, se desarrollará el IV Congreso Continental de la Coordinadora Latinoamericana de Organizaciones del Campo, CLOC; durante los días 9, 10 y 11 de octubre. (…) Por José Coronado, Minga Informativa-CCP.

Diário fundado em 13 de maio de 2000

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