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PACHAMAMA, A MÃE-TERRA NA AMÉRICA DO SUL

Longa metragem de Eryk Rocha faz um recorte histórico dos processos político-culturais na Bolívia e Peru. “Pachamama” entrará em cartaz nos cinemas em novembro…

pachamama1Buscando um recorte histórico do processo político-cultural em territórios da Bolívia e do Peru, passando pela região amazônica brasileira na tríplice fronteira, Pachamama é um documentário longa metragem gerado através de um grupo de pesquisa sob a direção do cineasta Eryk Rocha. Durante um mês de viagem, 7 profissionais, formando uma equipe multidisciplinar, viajaram em duas caminhonetes por um trajeto pré-definido, mas sem roteiro estabelecido. O resultado deu num livro de análise da conjuntura da integração sulamericana, uma série para a TV com 5 episódios e um documentário, o Pachamama, que provavelmente entrará em cartaz nos cinemas em novembro. Veja abaixo a entrevista com Daniel Santiago, mestrando em história, integrante da produção do filme, concedida após uma exibição do Cineclube ABDeC-RJ, na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro:
Como se deu a produção do filme?
Ela foi feita de uma forma corajosa. Teve o investimento pessoal de dinheiro mais as pessoas que trabalhavam na UFRJ, tem uma produção que leva a Urca Filmes, mas também o laboratório de Estudos do Tempo Presente. A gente tinha esse investimento prévio, mas que era muito reduzido, o set de filmagem era composto por 7 pessoas: um cineasta, três historiadores, sendo um deles sênior, um cientista político e dois coordenadores em logísticas que faziam os reparos nos caminhões e veículos.
Não tínhamos uma verba vultuosa, era todo mundo trabalhando no projeto de uma forma muitas vezes artesanal, desindustrializada. Também teve a série Da selva à cordilheira, que ajudou muito a financiar, porque ela vendeu o material que iria ser gerado para outros lugares. Essa venda retroalimentou o filme, mesmo o filme sendo o produto principal.
Até o momento, como está a circulação?
A série já passou no Canal Brasil, vai passar na TV Brasil, além de estar passando no exterior. E o filme está rodando em festivais, competindo em Gramado, chegou a ser exibido numa mostra não competitiva de Cannes, está movimentando.
No filme dá a impressão que vocês constataram uma grande diferença nos processos do Peru para o da Bolívia, por quê?
Porque no Peru tem dois cortes: ao mesmo tempo em que na década de 70 e 80 aconteceu um processo de transformação muito curioso, enquanto a maioria dos países no continente tinha uma ditadura militar de direita, no Peru a ditadura militar foi de esquerda com o Velasco Alvarado. Então teve outro corte que não foi propriamente a emancipação do índio enquanto figura política protagonizante do processo, mas ele proporcionou as possibilidades de educação, habitação, profissionais, mais técnicas em geral, para que hoje a gente pudesse ter no interior do Peru grandes obras e construções que têm índios quechuas ou aymaras, especialmente quechuas.
Quer dizer, houve uma possibilidade de corte social nesse sentido, e na Bolívia não. Mas ao mesmo tempo em que esse corte social aconteceu no Peru na década de 70, não emancipando índio, na Bolívia acontece o oposto de forma tardia: ali o índio se emancipa, ele não está mais sendo alçado pelo branco. E existem outros componentes: no Peru, por exemplo, a gente não foi até a costa, que é a região brancóide e de maior densidade eleitoral.
Então, o que acontece? Enquanto na Bolívia a capital fica numa região indígena que é La Paz, no Peru, não. Ela fica em Lima que é evidentemente uma região de litoral agroexportador, não tem uma presença costumeira ligada aos centros indígenas. Por que eu estou falando de centros indígenas e da proximidade de locais? Porque onde fica Cuzco era a capital do império Inca, que é uma presença pré-estatal já antecedente à conquista espanhola.
O que acontece ali é o seguinte: você tem uma concentração espacial de movimentos sociais, de movimentos políticos e culturais, que não está ali à toa. Ele está ali porque já existiu uma presença de Estado anterior, uma concentração institucional, política. A institucionalidade política desses movimentos sociais é de outra categoria, totalmente diferente da nossa. As comunidades, diferentemente das prefeituras e dos ministérios, representam para eles uma institucionalidade mesmo.
Trata-se de outra organização…
Exatamente. A partir dessas formas de organização política o império inca, ou até mesmo suas civilizações anteriores, existiam e se estabilizavam, eram nas decisões comunitárias. Isso vai se associar a uma questão de esquerda, muitas vezes de esquerda marxista ou até mesmo não marxista. Mas, a rigor, eu acho que a atribuição da gênese desse processo político na Bolívia e talvez do caráter tardio dele no Peru é esse: onde está localizado o poder e onde estão localizadas as institucionalidades dos movimentos sociais.

Esse roteiro foi espontâneo, como é dito no filme, ou tinha algo pré-estabelecido?
A gente tinha uma trajetória, mas não tinha roteiro, ele é construído. A gente mergulhou, se não nós só iríamos passar pela superfície desses processos. Por exemplo, a manifestação de Ponchos Rojos, a gente não sabia que ia ter uma manifestação. Estávamos na principal rua de La Paz, entrevistando pessoas comuns e em algum momento a gente olhou e falou: o que é aquilo lá no fundo? Estava passando uma turba de índios: Queremos passar!
Daí a gente falou: ih, eles estão com ponchos vermelhos, quer dizer, são esses os caras, é isso o que a gente estava procurando. Se a gente fosse em El Alto, a cidade-sindicato, onde está concentrada essa política, e tentasse procurar não teria nada tão espontâneo quanto isso.
Qual o motivo da escolha do nome do filme?
Pachamama é uma deidade aymara que está muito circunscrita a uma determinada lógica de pertença política-cultural-societária e até mesmo identitária do país em relação às comunidades. É uma coisa da terra, é a mãe-terra em aymara, e a ligação com o nome é muito óbvia. Talvez o governo do Evo Morales seja a grande explosão do filme, com todas as suas contradições e possibilidades. A coisa da coca, da pachamama, da posse junto a terra, a posse no sentido espiritual às vezes, cultural, como uma outra coisa que também adiciona e agrega muito ao filme é fundamental.
A escolha do nome do filme é uma escolha absolutamente incidental em relação à própria natureza do processo. Enquanto muita gente aqui no Brasil tenta encaixar o processo como uma revolução de esquerda, não é nada disso. Tem tons, tintas, coisas de esquerda? Tem, tem coisas de esquerda, mas não é bem simples assim.
Você pode ter ouvido do El Alto que eles mesmos se dizem, com muita propriedade, a última trincheira do processo político boliviano, que lá não tem cor política. Quer dizer, essa idéia de que existe uma revolução marxista clássica ocidental voltada para determinantes econômicos, dos meios de produção, isso não existe. Se tentar procurar isso lá, não vai entender. Vai soar mais uma vez como o homem branco que acha tudo aquilo muito exótico e entende que aquela realidade não é autônoma, mas um laboratório sócio-histórico de uma série de processos que são pertencentes a uma civilização que não é deles, e vai ter um corte completamente equivocado.

Por Gustavo Barreto

Jornalista, 39, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis clicando aqui). Atualmente é estudante de Psicologia. Acesse o currículo lattes clicando aqui. Acesse também pelo Facebook (fb.com/gustavo.barreto.rio) e Twitter (@gustavobarreto_).

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