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O que mudou do meu natal

A manhã do dia 24 de dezembro acabava de se concluir quando seu Fernando, dona Ângela e a pequena Gabi vão no supermercado fazer compras. Como todos os anos, os caixas não davam conta da quantidade de pessoas que aproximavam-se guiando seus cheios carrinhos. Dentro deles, de tudo um pouco. Desde de azeitonas até chester e espumantes. O décimo terceiro sempre ajudava e o pagamento do PIS  veio em boa hora. Não existia na fila para passar no caixa e,o contato entre os pagantes era mínimo. As famílias conversavam pouco entre si e, de assuntos que pudessem durar pouco.

  • Papai. Como era o natal antigamente? Pergunta a pequena pegando uma caixa de panetone que estava no carrinho.

  • Era diferente minha filha. As pessoas tinham menos opções comparado a hoje. Tanto alimentar como de conversa ou entretenimento mas existia maior interação entre eles. Um dia como hoje era de muito compromisso pois, tinha que fazer as compras de presentes e alimentos, casas para visitar, presentes para entregar e pessoas para abraçar.

  • Hoje é diferente né papai? As pessoas quase não conversam entre si.

  • Lembro do tempo de sua bisavó. Seu avô e sua avó comprava uma muda de roupa nova para cada um de nós e nos levava para a casa de seus bisavós. Era uma festa. Enquanto  as mães terminavam de preparar a ceia que a avó já tinha começado desde cedo, os homens ficavam conversando sobre varias coisas na sala e nós que éramos pequenos, brincávamos até a hora de servir a ceia.  Hoje já não se vê mais isso. Cada um na fila com um telefone celular, sem conversar entre si. vidrado nas mensagens que chegam.

  • Então o Natal perdeu  a graça papai? Já não existe mais? Pergunta a menininha.

  • Não minha filha. O Natal sempre existirá porém, agora se modernizou. Ganhou outros rumos. Ele está compactado dentro da internet. Ele se tornou virtual.

Passaram algumas horas e, pelas oito horas daquela noite, o celular do seu Fernando começa vibrar desesperadamente. Muitas mensagens de Feliz Natal! e Boas Festas! Montagens de figuras, fotos de famílias… Lá fora, as ruas que se tornaram silenciosas e apenas algumas luzes, anunciavam  o nascimento do menino Jesus. Somente algumas. Parece que o auge da iluminação acabou perdendo o encanto nos últimos anos. Claro que anos atrás , poucas eram as figuras que expressavam o nascimento do menino Deus. Parece que estamos retornando ao passado porém de forma moderna.

A história foi retratada da forma em que dizia que Jesus nasceu em uma manjedoura e, foi somente essa a opção  encontrada como sala de parto para aquela noite. Hospitais e casas de parto fechadas. A primeira visita foi realizada por animais que estavam no estábulo. Uma estrela anunciou sem vibrar ou soar algum som como nos celulares, o nascimento de Jesus e, três reis magos que a entenderam foram pessoalmente saudá-lo naquela noite. Se existissem redes sociais naquela época, talvez a história seria diferente. Eu imagino Maria enviando mensagens: “Alguém no grupo para  indicar algum hospital ou sala de parto próxima? Por favor pessoal, a bolsa rompeu e, Jesus está perto de nascer. As pousadas por perto estão lotadas.” Certamente alguém enviaria vários endereços, telefones de hospitais, obstetras e, até mesmo doulas que se dispusessem para aquela noite. Mas não! Ele nasceu em sua simplicidade, sem celulares, redes sociais ou mesmo stories que pudessem registrar o momento. Jesus mesmo sendo Deus, simplesmente nasceu.

Já próximo  da meia noite os celulares da família tornaram-se imperiais e quase não deu tempo de sentar ao redor da mesa e comer a ceia. Muitas mensagens para responder, muitos ‘obrigados’, ‘idem’, ‘desejo o mesmo’, ‘seguimos unidos no próximo ano’. Mesmo que virtualmente, seguir unidos teria que ser uma das metas para o próximo ano. A pequena Gabi também atarefada passava emoticons para todos seus amiguinhos. Não poderia deixar uma mensagem sem resposta. Os pais da pequena, obcecados pelas telas de seus celulares não  desgrudava o olhar fixo da tela um só minuto. Um casal de amigos também convidados para a festa natalina, chegaram uma hora antes mas acabaram completando o time de internautas. De repente, uma explosão de fogos e um grito de feliz natal movimenta dona Ângela que anuncia no o grupo virtual da família: “vamos iniciar a ceia todos?”

Todo se entreolham e deixam os seus celulares. Pegam seu prato, talheres, colocam suas comidas para a ceia e depois de uma palavra de agradecimento começam a comer. Olhando claro,  as mensagens que não paravam de chegar nos seus telefones. O silêncio ainda seguia. Somente o mastigar dos alimentos para frear o barulho.

E o Natal? seguia mesmo que virtual. Anunciava a chegada do Papai Noel e o nascimento de Jesus que seguia guiado por uma estrela e não pela moderna fibra ótica.

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