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"O objetivo deles não é a condenação final, é dar despesa, é intimidar"

nassif_capaEm entrevista ao Fazendo Media, o jornalista Luis Nassif fala sobre o exercício do jornalismo contemporâneo no Brasil e relata sua batalha contra a revista Veja…

Por Marcelo Salles e Raquel Júnia

Em novembro de 2009, o jornalista Luis Nassif, que já passou por diversas mídias no Brasil e tem um dos blogs jornalísticos mais acessado do país, conversou com o Fazendo Media sobre o ofício na imprensa e a batalha que trava com a revista Veja na justiça. Nassif fez diversas denúncias contra o império da Abril, por meio da internet, e no final do mês passado foi condenado a pagar mais uma indenização no processo. Na ocasião, ele falou também sobre as mudanças que vêm ocorrendo no jornalismo em função do aparecimento de outras vozes com a internet.
Em que pé caminham os processos que a Veja está movendo contra você?
A Veja abriu cinco processos – quatro em nome de jornalistas, um em nome da Abril, todos em nome do mesmo advogado – visando duas coisas:  pressionar financeiramente, ter mais despesa com advogado e tudo mais, e jogar para ver se pega. Se pega cinco juízes diferentes, tem mais probabilidade de condenar do que se pegar um só.
Já conseguiram uma condenação de primeira instância, que provavelmente será reformada na segunda. Mas o objetivo deles não é a condenação final, é dar despesa, é intimidar, igual fizeram com patrocinadores do Projeto Brasil. Mas faz parte do jogo, quando eu comecei essa guerra eu tinha clareza de que o jogo seria pesado. [no dia 25/02 Nassif e a IG foram condenados a indenizar, por danos morais, em 100 mil reais Eurípides Alcântara, diretor da Veja]
Qual é a acusação nesse processo que eles ganharam na primeira instância?
Foi o caso Mario Sabino. Eu não li a sentença, mas no interrogatório os advogados dele e o juiz insistiam muito na questão que eu colocava cacos no texto, essa é uma análise de estilo. Quando eu falo do estilo agressivo dele, porque é um estilo agressivo, pornográfico, para os advogados eu estaria atentando contra a imagem dele. Eu acho que o juiz não analisou o contexto todo dessa batalha, inclusive o fato do Sabino utilizar o Sabininho, que é o Reinaldo Azevedo, para fazer os ataques indiretos. Então, o juiz analisou como se fosse eu e o Sabino e não era, era eu contra um esquema onde eles usavam várias pessoas interpostas para o ataque, mas faz parte.
Houve outros casos, por exemplo, com o Franklin Martins e o Azenha, que também ao que parece foram destacadas pessoas para ficarem bombardeando-lhes. Como é que você faz a leitura desse conjunto de ataques?
Aquilo ali é uma loucura porque quando você entra numa guerra, o exército convencional tem a força, então ele não apela para os ataques baixos, geralmente quem faz isso é a guerrilha. É a guerrilha que explode bomba e tudo, e faz esse trabalho mais violento porque é a parte fraca. Na Veja, com essa falta de discernimento, com essa truculência, com essa agressividade, ela resolve, como exército convencional.
Recorrem a esse tipo de jogo pesado, contratam pistoleiros desequilibrados, que são o Reinaldo Azevedo e o Mainardi, que é um cara que responde diretamente ao Roberto Civita para fazer os ataques. Depois de algum momento, pegaram o assessor da Soninha para montar esses ataques. De todo lado, para tentar liquidar de todas as formas, com advogados, com pressão aos patrocinadores e com esses ataques desqualificadores.
Veja só, eu sozinho, tendo que cuidar de um monte de coisas, empresa, vida profissional e tudo mais, definindo uma estratégia contra uma estrutura toda. E a minha sorte aí foi que essa estrutura é extremamente incompetente do ponto de vista jornalístico, e a arrogância fez com que eles perdessem a noção do impacto desses ataques baixos sobre a imagem deles.

Luis Nassif em entrevista ao Fazendo Media, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio, antes de sua palestra com Sebastião Nery no seminário "Jornalismo Literário". Foto: Raquel Júnia/Fazendo Media.

Recentemente meu advogado queria entrar com uma ação para tirar do ar os ataques, eu falei: ‘não tira, são os ataques que tiraram qualquer legitimidade da posição deles’. Agora, esse tipo de jogo aí não é estranho à Veja. Ela é uma revista que recorre a achaques. Quando ela faz um ataque violento contra livro didático sabendo que ela está atingindo concorrente comercial, qual é o termo que se dá a isso? O jogo dela sempre foi esse, o da desqualificação achando que ela tinha um mandato popular, que vinha lá de trás, da campanha do impeachment.
A mídia achou que poderia eternamente partir para esse jogo escandaloso de assassinato de reputação, de intimidação, de tudo, que seria absolvido pela opinião pública. Não entendeu nada das mudanças da opinião pública, não entendeu como estava rebaixando o nível do jornalismo. O que eu fiz foi esperar o momento. Veja bem, quando sofri os primeiros ataques da Veja, esse estilo virulento estava atingindo o auge e ali o que eu pensei: ‘é impossível você manter esse grau de agressividade permanentemente’.
Isso é um pouco semelhante ao que ocorreu no pós-impeachment do Collor, em que você viciou o seu leitor com escatologia. O leitor da Veja que abria semanalmente para ler aquele lixo é um doente. É que nem viciado em pornografia, você pega todo dia o jornal ou a revista querendo sangue, catarse, aquela escatologia, e é impossível você atender a essa demanda. O Mainardi tentou falar do Antonio Candido, do Chico Buarque, então, a questão toda é esperar o momento em que o pêndulo estava chegando ao final para você entrar batendo e foi o que eu fiz. Quando eu senti que aquela agressividade gratuita já estava cansando os leitores, provocando indignação geral, era o momento de começar a série.
Em algum momento você pesou as consequências que poderia sofrer?
Eu entrei nessa esperando tudo, conversei com a família antes: ‘Tô entrando nessa aqui, é um jogo muito pesado, vai afetar vocês’, e a resposta da minha mulher foi a seguinte: ‘se você não fizer, você morre’. Se eu preservasse isso dentro de mim para preservar minha família e tudo, a minha saúde iria para o vinagre. Então, quando eu entrei nesse jogo, eu estava preparado para tudo,  e tinha que estar preparado para suportar o grau de baixaria que veio.
"Quando eu entrei nesse jogo, eu estava preparado para tudo, e tinha que estar preparado para suportar o grau de baixaria que veio", observou o jornalista. Foto: Raquel Júnia/Fazendo Media.

A diferença minha e deles é a seguinte: a vida inteira eu sempre procurei o caminho mais difícil. Saí da Folha em 88 por pressão do Sarney e do Saulo Ramos, por brigar contra eles, atingi o auge do jornalismo com 30 e poucos anos, então, eu tenho estrutura para brigar contra isso aí.  E o que eles achavam é que se você não mostra aquela agressividade pornográfica é porque você não tem estrutura, bobagem!

Esse preparo psicológico da família foi essencial, tanto que antes da série eu comecei a fazer alguns enfrentamentos para eles despejarem a bílis deles. Toda vez que tinha aqueles ataques baixos, ainda incipientes, eu pegava as filhas mais velhas e falava: ‘lê isso aqui, vai piorar muito quando começar o jogo, então, acostumem-se com isso’. Nem todo mundo saiu inteiro, minha mulher passou três meses em depressão porque ficou até de madrugada lendo aquele lixo, eu não lia. Quando eu lia aqueles ataques, pegavam no fígado, mas eu olhava: “a guerra eu ganhei”. Isso aqui só comove aqueles grupos doentes, o que ele conseguiu formar foi um bando de depravados, deformados morais.
E a guerra está ganha hoje?
Está ganha, essa guerra dos blogs contra a mídia acabou. Não estou dizendo que foi uma vitória dos blogs em si, mas a própria situação, a incompetência desse pessoal, a conjuntura política e econômica, a maneira como evoluiu essa situação. A mídia não tem mais um décimo do poder que tinha há um ano. Em parte pelo desmascaramento a que foram submetidas pelos blogs, perderam o rumo num determinado momento, começaram a expor a credibilidade deles de uma forma que eu nunca vi.
E não só a Veja?
Não, o conjunto, a Folha, a Veja, O Globo! O que O Globo virou hoje? Virou um pastiche. Há três anos O Globo caminhava para ser o melhor jornal do país, que tinha garra nas reportagens, era cuidadoso nas informações, agressivo. O Estadão era cuidadoso também nas informações, mas não era agressivo. O Globo hoje o que virou? Virou um pasquim! Não o Pasquim como a gente conheceu, mas virou um jornaleco. A Folha aí com essas bobagens de ficha de Dilma, expondo o jornal de uma maneira monumental.
Estão todos caindo, não é só a questão da tiragem, essas tiragens são turbinadas. A Veja eu conheço dezenas de pessoas que recebem a revista sem pedir e sem assinar. A Folha eu conheço muitos casos de pessoas que pararam de assinar e continuaram recebendo. Evidente que se tivesse uma avaliação isenta de uma editoria, a tiragem caiu muito mais, mas mais do que isso, caiu a credibilidade.
Qual a credibilidade de um jornal desses hoje? Não tem. Tem uma torcida organizada desinformada, as pessoas informadas não confiam nos jornais mais. E agora você entra no segundo tempo, que é muito complicado: nós estamos entrando numa etapa da vida do país sem oposição. Desmoralizaram o conceito de oposição. Muitas vezes você tinha críticas ao governo e parava, ‘eu vou fazer críticas sabendo que toda crítica tem uma intenção golpista?’. Aquilo que o Luis Fernando Veríssimo escreveu uma vez: ‘eu me recuso a ficar do lado desse tipo de pessoas para criticar o governo’.
Se você não tem oposição, você sempre tem tentação totalitária. Isso aí não é virtude pessoal, o Lula é um democrata, mas o pessoal que vem pela frente aí se não tiver oposição é uma tendência inexorável da política. E quem vai defender a democracia? Os jornais com esse golpismo reiterado, com esses assassinatos de reputação, com esse comportamento bandido que assumiram? Esse é que é o problema. Então, o problema é defender a democracia contra o golpe desse pessoal, defender liberdade de imprensa contra a incompetência.
E essa mesma leitura vale para as televisões?
Vale, mais ainda. Essa questão do monopólio, do cartel do mercado de opinião, ficou nítido. Você pega o Jornal Nacional e o Bonner dizendo, ‘aqui não temos opinião, somos isentos’, isentos uma pinóia. A Lúcia Hipólito falou no prêmio Comunique-se: ‘eu falo o que eu quiser no Globo e nunca fui censurada’, fala o que o dono quer, pô!
Quando você fala esse negócio de ser oposição, ser oposição a quem? Esse conceito de oposição é curioso, quem é governo nesse mercado jornalístico? São os diretores de redação? Esses diretores montaram um pacto, as pessoas que saíram parece que não aderiram a pactos.
Que pactos seriam esses?
Uma aliança política para derrubar o governo, diferente de 2005. Acabou a diversidade que existia um pouco antes, acabou a liberdade de opinião do jornalista, então, as pessoas que saíram disso aí foram as que não se adequaram. É o caso do Franklin Martins, meu caso, caso do Luiz Carlos Azenha, do Rodrigo Vianna.
O que não esperavam, aí é que tá: você tinha antes a ferramenta, o jornalismo é uma ferramenta, é uma arma, eu venci essa guerra com a Veja porque eu fiz jornalismo. Procurei fazer jornalismo, levantar informações, coisas lógicas. A coisa mais incompreensiva desse processo é que quem detinha esse conhecimento jornalístico, os jornais e televisões, deixaram de deter.

"Eles cometem reiteradamente erros porque desaprenderam fazer jornalismo. Foi tanta manipulação nesses anos todos aí...", critica Luis Nassif. Foto: Raquel Júnia/Fazendo Media.

Quando você vê os veículos que tinham esse controle, digamos, da credibilidade jornalística, da técnica jornalística, não têm. Por que cometem tantos erros, é só manipulação? Não, a manipulação tem um objetivo específico. Eles cometem reiteradamente erros porque desaprenderam fazer jornalismo. Foi tanta manipulação nesses anos todos aí, isso já vem nos anos 90, no meu livro sobre jornalismo nos anos 90, eu mostro muitos casos de manipulação.
Quando a internet começa a bater, mostrar todos os erros, e eles não corrigem por quê? É só arrogância? Não, desaprenderam. Toda estrutura jornalística desses jornais foi contaminada por esse tipo de jogada que já vem dos anos 90, piorou agora. O repórter é obrigado a sair na rua e voltar com um escândalo qualquer, se é verdadeiro ou não, não interessa.
O fim da exigência do diploma entra nesse bojo aí?
Não. O que acontecia antes é que você fazia faculdade, que era um curso técnico, e a redação sempre era uma melhor escola do que a faculdade; hoje deixou de ser. E hoje com avanço da internet e tudo, acho que as faculdades vão se tornar imprescindíveis, desde que mudem o currículo. Você saber dominar as ferramentas de internet, saber como tratar grandes massas de informação, saber como fazer as pesquisas em banco de dados especializados. Isso hoje exige um conhecimento específico.
As faculdades hoje são muito mais úteis do ponto de vista da formação do que eram antes, porque hoje o conhecimento fora das redações é muito maior do que as redações.  O pessoal não sabe trabalhar as ferramentas de internet, tanto não sabem trabalhar que a Veja com todo o poderio dela não conseguiu definir uma estratégia de comunicação adequada.
Mas interessa para eles uma boa formação?
Ah, interessa. Uma coisa é boa formação técnica, outra coisa é boa formação jornalística. Tem jornalista que não quer entrar em jogos de manipulação. O que aconteceu de um tempo para cá é que criaram uma geração de yuppies dentro dos jornais, é o que a Veja fez nos anos 70 também. Se você quiser subir e fazer carreira, tem que se considerar um membro da classe superior, tem que conviver com outro nível, tem que ter visão radical contra as esquerdas, reviver a guerra fria, umas coisas malucas. Então, criou esse padrão que vem do Neocom que a Folha embarcou nessa história.
Antes eu achava que essas crises aí e o próprio aparecimento da imprensa alternativa obrigariam os jornais a serem mais profissionais, mas você tem um imenso mercado de trabalho excepcional que está surgindo para os jornalistas e vai ter que ter agências de formação para todo lado. Então, eu acho que essa melhora não vai se dar no âmbito dos jornais, vai se dar num outro âmbito. E hoje aquela visão de que tem que ter uma identidade única, que nem uma revista, com um pensamento único, uma linha única para a uniformidade, é uma visão anacrônica, uma visão de passado. Você vai ter obviamente sites, blogs, mais de torcida, de afinidades políticas, mas o próprio fato de você ter blogs de direita, esquerda e toda essa diversidade, já leva a esse confronto salutar de ideias.

7 respostas em “"O objetivo deles não é a condenação final, é dar despesa, é intimidar"”

Comparando-se 2005 com o que agora se anuncia para 2010, e um futuro governo em condições melhores de “peitar” os caras com apoio na sociedade civil e instrumentos político-jurídicos, o desespero pode mesmo tomar conte dessa máfia e partirem para ações mais articuladas com os militares golpistas de plantão.
Pode surgir uma frente terrorista melhor articulada com apoio externo mobilizando essa classe média sedenta e viciada nessa pornografia jornalística a que o Nassif se refere.
Esse tipo de mobilização fascista vem sendo trabalhada há muito tempo.
Penso que este será também uma tarefa para os órgãos de inteligência, como a ABIM articulada com a polícia federal , dando-se um caráter de segurança Nacional a essa questão. Pois, vão trabalhar a desestabilização do governo brasileiro sistematicamente com métodos que talvez antigos fascistas como o próprio Roberto Marinho teria escrúpulos em utilizar.
Nessa encruzilhada, fazer uma oposição responsável ao governo é ajudá-lo a derrotar essa máfia sem comprometer as liberdades democráticas afirmando a autonomia no risco da cooptação em disputa pelas verbas publicitárias pública e privada.
A alternativa prussiana de social-democratas tende a enquadrar oposições de esquerda como posições de direita e enfiar tudo num mesmo saco. Aí, em nome da democracia, da derrota da direita, etc., um novo arranjo de forças que “higienize” essa elite brasileira e recupere sua credibilidade para uma nova etapa de acumulação do capital, a repressão certamente recairá sobre as esquerdas combativas e o pensamento crítico.

Bastante complicada essa questão da mídia. O leitor crítico que quer informação isenta e de qualidade não consegue confiar em mais nenhum veículo.
Colunistas e meios de comunicação estão muito mais comprometidos com interesses particulares e ideologias do que com a verdade.O próprio Nassif, aliás, é acusado de ser “chapa-branca”.
O dossiê contra a Veja, ao meu ver, foi mais um meio de tentar acabar com a revista responsável por seu despejo da Folha do que dever ético para com o jornalismo. Por outro lado, a despeito dessas suspeitas em relação às suas reais intenções, foi positivo o fato de que Nassif possibilitara maior crítica por parte do público antes manipulado pela mídia.
Questiono essa informação do entrevistado, segundo a qual Veja e as outras não se emendam porque “desaprenderam” ou por que são arrogantes. Ele diz que as tiragens caíram. Se assim o fosse, esses veículos teriam reparado seus vícios, afinal, antes de quererem desqualificar a esquerda, Lula, PT, etc. são empresas e como tais, o objetivo final é o lucro,do qual sua sobrevivência depende.
Mas talvez essas tiragens se caíram mesmo com o crescimento da força da Internet, não caíram tanto a ponto de “meter medo” na velha mídia que, a meu, ainda continua bastante poderosa. Eles ainda tem fôlego para transformar notícia em crises e escândalos ou não?

parcerias injustas.governo federal é fercomercio juntamente com senac ,deixa a desejar .porque pgsenac da ao cidadão oportunidade de qualifica-se. se é um programa social de gratuidade ,o aluno deveria tre por direito ajuda de custo já que amaioria destes alunos estão desempregados,a evazão escolar muitas vezes é por falta do dinheiro para pagar a passagem . correto é que o aluno bolcista tenha ajuda de custo.

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