O Lindo Conto da Meritocracia Brasileira

Por Tiago Leão Monteiro,
De acordo com o site da entidade Ironman (Brasil), este é o “maior evento de Triátlon do mundo, que desafia os atletas a percorrer(em) 3.8 km de natação, 180.2 km de ciclismo e 42.2 km de corrida” e aqueles que conseguem terminar o percurso podem levar de oito a dezessete horas de sufoco para fazê-lo.
Sabemos que na nobilíssima competição desportiva todos os participantes largam do mesmo lugar, ao mesmo tempo, segregando os preparadíssimos homens e mulheres, ou seja, em total (ou quase) igualdade de oportunidades, e nada menos que a nata do atletismo mundial participa do evento.
Já no Ironman da vida profissional brazuca, a maioria esmagadora dos participantes divide-se, não entre triatletas, mas entre aqueles “maratonistas” de araque fantasiados que se destacam na largada e não aguentam meio quilômetro de corrida, e aqueles que, mesmo levando a sério, alcançam no máximo a marca de 20km dos 42,195 km.
Há também aquela minoriazinha que incrivelmente consegue alcançar o fim, mesmo que transbordem a barreira das dezessete horas, como o caso do “sem teto” que estudava com livros achados no lixo e virou médico.
Mas atenção ao detalhe. No Ironman brazuca, cada participante larga de uma posição diferente.
Diretamente de Ibiza, o triatleta radicado nas tracks da Universidade de Massashusets chega de possante, é filho de
um diretor da competição e larga a menos de 10km do fim da corrida.
Depois dele, alguns não tão abastados e não tão preparados largam do fim da natação e se estrepam para alcançar alguma das poucas bicicletas disponíveis para a próxima etapa. Os sortudos se apaixonam pela magrela e nunca mais a abandonam.
Chegando de busão, van, a pé e até de carro de boi, aqueles matutos que, ainda aprendendo a andar, mal largam e já são excluídos da disputa por um maluco já saído da corrida, algum agente da segurança ou mesmo por outro participante.
Tem até o que nem ao menos consegue largar. A direção da prova não permite, sabe-se lá (será?) por que.
Alguns coitados desnutridos, não sabendo nadar, quase se afogando na praia são agraciados com uma boiazinha bem pequena, daquelas de por no braço de bebês, e ficam ali boiando eternamente (essa “colher de chá” é nova – é pegar ou largar), ao menos até um daqueles três lá de cima resolver excluí-los da prova.
Meritocracia é, ou deveria ser um sistema que visa sempre justiça e equidade, não dando espaço para distinções de gênero ou raça, posição social, status ou condição financeira, e outros mais fatores. Não me parece muito justa essa peleja ou, ao menos próximo do conceito, mas essa é a meritocracia à brasileira tão defendida pelos ditos neoliberais.
Pergunto-te, agora: A quem realmente interessa o Ironman brazuca?
(*) Tiago Leão Monteiro é advogado.
http://www.ironmanbrasil.com.br/2014/fln/br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Meritocracia

Um comentário sobre “O Lindo Conto da Meritocracia Brasileira”

  1. Seria imoral ou sem noção falarmos em meritocracia num país tão desigual como o Brasil. Pessoas desprovidas do mínimo possível. Em países onde esse mínimo é uma conquista, aqui é privilégio.

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