O homem no lugar dos números

“O juro elevado está fazendo sangrar a economia. Preferia não dizer que, em 2008, em termos de amortização das dívidas interna e externa, foram despejados no ralo mais de R$ 280 bilhões”, destaca  o economista Marcus Oliveira.

Às vésperas de mais uma eleição, reformas agrária e tributária, Bolsa Família e desenvolvimento sustentável são temas presentes nos discursos dos presidenciáveis. De acordo com Marcus Eduardo de Oliveira, economista e mestre em economia pela USP, não há segredo. Para o país evoluir economicamente, o trabalho a ser feito deve diminuir a pobreza e não aumentar a riqueza. Mesmo que, para alguns, isso seja lógico, o professor não se considera um economista tradicional diante da opinião dominante.
– Uma economia só funciona quando coloca as pessoas em primeiro lugar. A economia é feita pelos homens e para os homens – afirma o professor.
O que Marcus considera o maior problema enfrentado pelo Brasil atualmente, não está na pauta principal das últimas aparições dos candidatos: o preço do dinheiro.
– O juro elevado está fazendo sangrar a economia. Preferia não dizer que, em 2008, em termos de amortização das dívidas interna e externa, foram despejados no ralo mais de R$ 280 bilhões. Conceitualmente falando, juros elevados impedem novos investimentos, à medida que torna atrativa a especulação financeira. Novos investimentos gerariam empregos, que geraria salários, que faria o comércio ser ativado, que melhoraria as vendas da padaria, da farmácia, do mercadinho da esquina.
Marcus explica que, dessa forma, parte dos recursos que deveria ser investida em infraestrutura acaba sendo direcionada para o pagamento de “dívidas estúpidas” que prejudicam a economia.
Marina, “um lula de saia”
Mas será que os eleitores entendem o que dizem os candidatos quando falam sobre economia? Para Marcus, não é por acaso que Marina Silva e Plínio de Arruda têm menos intenções de voto nas pesquisas.
– Os últimos dados do TSE mostram que somos uma nação com 136 milhões de eleitores. No entanto, ao analisarmos esse número devemos levar em consideração que mais de 53% dos eleitores são pessoas com pouco ou nenhum nível escolar. Nesse país, há 27 milhões de eleitores analfabetos ou que apenas sabem ler e escrever. Do eleitorado brasileiro, 33% têm apenas o primeiro grau. Fora isso, há um tipo específico de eleitor que é, por natureza, totalmente despolitizado.
As estatísticas apresentadas pelo professor são, em sua opinião, o motivo pelo qual propostas mais consistentes não são bem recebidas pela população, principalmente em se tratando de economia, algo que assusta quando não se tem tanta intimidade com o assunto. Porém, a fórmula para desmistificar o tema, segundo Marcus, foi resolvida por Lula. O uso de metáforas e um discurso mais simples, na sua visão, colaboram para que todos entendam o que está sendo dito.
– Quando Marina Silva fala em desenvolvimento econômico sustentável, esse assunto não chega com clareza para metade do eleitorado brasileiro. É preciso trocar o termo economia sustentável para algo mais palatável como, por exemplo, afirmar uma economia que respeita as condições do meio ambiente, uma economia que não agrida a floresta, os rios, que não provoca a devastação ambiental. O Plínio também sofre esse mesmo problema. Não adianta ele falar que é contra a privatização, contra os capitais especulativos ou a rolagem e amortização das dívidas interna e externa. É necessário falar que não vai vender nenhuma empresa, que é contra o pagamento de juros abusivos aos agiotas do mercado financeiro e que os capitais dos gringos estão entrando aqui apenas para aproveitar as facilidades oferecidas. Nem mesmo o termo “juros básicos” (Selic) deveria ser comentado quando se pensa em atingir metade do eleitorado.
O economista aposta que se Marina tornar seu discurso mais compreensível para todos, ela tem boas chances de ocupar o cargo de presidente em poucos anos. Em sua opinião, ela seria “um Lula de saia”.
Reforma Agrária
– Assim como fomos o último país das Américas a acabar com a ignomínia da escravidão, um dos lados mais sujos de nossa curta história, seremos também o último país a fazer reforma agrária – se é que um dia a faremos – afirma.
O economista se sente indignado ao ter que dar aula e dizer aos alunos que “somos um país com 800 milhões de hectares agricultáveis dos quais 200 milhões estão parados”. Para ele, os anos em que Lula esteve à frente do governo era o momento ideal para se firmar uma parceria com o Movimento Sem Terra (MST), mas fica em dúvida se o caminho para o sucesso na distribuição das terras ainda seja uma reforma.
– Talvez devêssemos pensar numa “revolução” agrária. Quem sabe por meio desse tipo de ruptura, ainda que de forma radical, a coisa aconteça. É hora de o movimento popular, em especial o MST, a Via Campesina, e os camponeses que estão esquecidos e largados num canto qualquer, sofrendo as mazelas do latifúndio, começar a pensar nisso. A história mostra que quem fez reforma agrária avançou, e quem não fez regrediu ou estagnou.

"...fomos o último país das Américas a acabar com a ignomínia da escravidão, um dos lados mais sujos de nossa curta história, seremos também o último país a fazer reforma agrária – se é que um dia a faremos", afirma Marcus.

Marcus garante que, no governo Lula, nem reforma agrária, nem tributária e nem judiciária aconteceram. Fato que ele considera uma lástima. O professor explica que a concentração de terras é algo culturamente enrraizado na sociedade brasileira no momento em que ainda éramos colônia.
– Aquela estupidez chamada Capitanias Hereditárias apenas plantou raízes do latifúndio. O fato é que nascemos divididos em 15 faixas de terra entregues a membros da Corte. Perceba então que a reforma agrária foi feita pela elite e para a elite. Isso é patológico.
Crescimento desenfreado X desenvolvimento sustentável
Os presidenciáveis mais populares ressaltam o crescimento e o desenvolvimento do país em larga escala. Já Marina Silva fala em formas sustentáveis de crescer. Ainda que longe de ocupar o cargo, propostas como as da candidata, que conciliam meio ambiente e desenvolvimento, são, na opinião de Marcus, urgentes e desejáveis. Porém, para ele, é necessário entender melhor a relação entre o desenvolvimento de uma economia saudável e o crescimento exacerbado.
– O modelo econômico a ser implantado, caso se queira, de fato e de direito, construir uma sociedade fraterna e menos injusta, deve trocar o crescimento, quantidade, por desenvolvimento, qualidade. Ainda que alguém entenda o contrário, é perfeitamente possível se desenvolver sem necessariamente crescer. Quando o crescimento apenas contribui para concentrar ainda mais a renda nas mãos de uma minoria que continua sendo privilegiada, a noção de igualdade de oportunidades – que a maioria tanto clama – se afasta ainda mais. Ainda hoje, o crescimento da economia é visto, não raras vezes, como santo remédio capaz de curar todas as enfermidades econômicas e sociais. Acontece que isso é um estupendo engano. Pobreza, miséria, fome não se acaba com crescimento da economia. Ele é apenas uma plataforma quantitativa da economia. Não adianta ter 40 milhões de usuários da rede internet e 90 milhões de aparelhos de telefonia celular se ainda tivermos 40 milhões de pessoas famintas, alguns milhões de brasileiros dormindo ao relento nas grandes cidades e milhares de crianças cheirando cola nas esquinas. Essa economia quantitativa, medida em números, não leva a nada.
Alinhando desenvolvimento e crescimento, o economista acredita que o grande tema das futuras campanhas políticas será o meio ambiente, porém, para que isso aconteça, ele garante ser necessário um “casamento harmonioso” entre economia e ecologia. Marcus conta que seus colegas de profissão ainda vêem a questão ecológica com ressalvas.
– A economia e o meio ambiente sempre andaram de mãos dadas. Esse distanciamento não era para ocorrer. A economia não pode se sobrepujar ao meio ambiente. É preciso ter clara a noção de que a economia só existe porque antes dela existem as relações da natureza que nos condiciona à vida.
Na opinião de Marcus, é explicando a relação entre crescimento, desenvolvimento e ecologia, que Marina deveria direcionar sua campanha para obter mais aceitação.
A gestão Lula e sua sucessão
– Ter emprego é estar dentro da perspectiva do desenvolvimento. E buscar o desenvolvimento é se libertar. Nós, economistas, temos clara a noção de que desenvolvimento liberta. Nisso me parece que não há dissenso.
Apesar de pensar que, no lugar do Bolsa Família, o governo deveria ter gerado emprego para todos, Marcus afirma que é inegável os benefícios que a gestão de Lula trouxe para as classes menos favorecidas e que, por sua popularidade, o atual presidente ganhará na história o espaço que já foi ocupado por Getúlio Vargas como pai dos pobres.
– Como a administração FHC foi marcada pela estabilidade da moeda, com um plano Real que acomodou o nível geral de preços, a administração Lula é e será vista pelos brasileiros como a “administração do social”.
Ainda que mais voltado para camadas economicamente prejudicadas, Marcus diz que Lula também fez também por classes com mais poder aquisitivo, e cita o aumento do número de viagens aéreas. Para o economista, quem lota os saguões dos aeroportos é a classe média, favorecida pelos baixos preços das passagens.
Diante de tantos feitos, sem querer desmerecer Dilma Roussef, Marcus acredita que ,elegendo a candidata, os eleitores acreditam estar reelegendo Lula. Ele ressalta que não quer dizer com isso que o presidente continuará no comando da administração. A transferência de votos, em sua opinião, demonstra apenas a vontade dos brasileiros de continuar a ver a figura do presidente no cargo.

11 comentários sobre “O homem no lugar dos números”

  1. Ótimo texto sobre a “era Lula”. Concordo com o Prof. Marcus, quando cita os benefícios trazidos aos menos favorecidos, como o Bolsa Família. No entanto, entendo que o que de fato faltou e continua faltando ao Brasil, é um projeto de desenvolvimento econômico e social, onde se pense economia, meio ambiente, fontes de energia alternativas, desenvolvimentos regionais com geração de empregos (exemplo:Nordeste). Em 2014 haverá a Copa, o maior evento esportivo do mundo, e o que o governo fará para capacitar sua população (exemplo- cursos de idiomas, atendimento ao turista, etc), gerar empregos com o turismo na Copa e pós-Copa, enfim, exemplos assim que considero “pensar adiante” , de modo sustentável e com desenvolvimento, agregando valores à sociedade …

  2. O Professor Marcos Oliveira é respeitado pelo que pensa e faz.
    E nós, os Animais Humanos, não devemos pensar e fazer a mesma coisa que o outro para respeitar o outro: a diversidade nos valoriza, nos retira inclusive a possibilidade de sermos percebidos como mais um parafuso na caixa, mais um eucalipto na floresta artificial.
    O HOMEM NO LUGAR DOS NÚMEROS é um inicio? O marco seguinte é O HOMEM NO SEU LUGAR NA NATUREZA?
    A economia é ciência antropocêntrica por natureza. Sua natureza não considera o Direito da Natureza, mas o direito do homem de exercer o seu domínio sobre a natureza. Um mineral, por exemplo: se pode ser explorado é minério, se não pode é mineral… a diferença está em PODER e na EXPLORAÇÃO.
    Colocar O HOMEM NO LUGAR DOS NÚMEROS é um início da mea-culpa na ciência econômica: soa mais justo mais homens com O PODER DA EXPLORAÇÃO, mais justo tendo o homem no centro, como o dono da balança de medir a Justiça. Pergunte ao boi, pergunte ao pássaro, pergunte ao Rio: é Justo colocar o HOMEM NO LUGAR DOS NÚMEROS? Certamente que Rios, Árvores e Animais Não Humanos não concordariam que haveria uma real modificação do quadro de injustiça a que estão submetidos, como massa de dominação da economia, esteja um ou todos os homens no lugar dos números.
    Extremamente difícil mudar o status: Árvore não vota, Rio não tem título acadêmico e Animal Não Humano não distribui cargos e benefícios como no jogo da barganha política.
    Necessito apostar na modificação do posicionamento do homem: será ele capaz de pensar e agir como sendo o que é? E o que é o homem? “O centro!”, responderão as ciências.
    Eu não sou centro, não sou periferia: sou Animal Humano, posicionado em meu lugar… na natureza.

  3. Nacir, acredito que o título da matéria é apenas uma simbologia para mostrar uma idéia de economia mais social. A entrevista mostra o bem social, que logo envolve o animal humano, no lugar de uma economia que só contabiliza e visa o lucro. Se você ler a entrevista perceberá um sentido menos literal e mais simbólico do título!

  4. O posicionamento do professor Marcus Eduardo me parece correto. Como economista ele faz a mea-culpa reconhecendo que sua disciplina não respeita a natureza e nem os homens. Daí a necssidade, muito bem reiterada por ele, de “colocar os homens no lugar dos números”. Quem ficoi com dúvida da esfera de economia social levantada pelo intelectual – por sinal esse pessoal das ciências econômicas gostam de explanar de maneira as vezes pouco compreensiva – devria reler a entrevista. Nesse caso, o professor foi claro e preciso. Concordo com ele.
    Pedro Mello

  5. Concordo plenamente que a economica existe em prol do homem e não dos sistema.
    É vergonhoso infelizmente ainda não termos realizado a reforma agrária, e termos tanta desigualdade dentro de imenso potencial.
    Por outro lado, somos nós os responsáveis por fazer a mudança, cada um de nós.
    O Brasil tem condições de revereter seu cenário de desigualdade, e ser um país sério.
    Diego Marchiori

  6. Em primeiro lugar gostaria de Parabeniza-lo pela entrevista. Concordo plenamente sobre qual deveria ser o principal objetivo da economia “Pessoas, e não Números”
    Prof. o que falta na Candidata Marina e no Candidato Plínio, com relação ao discurso eleitoral, tem de sobra em seus artigos,livros, entrevistas, palestras etc…o Sr. fala com muita clareza e simplicidade….
    A entrevista ficou ótima!
    Mais uma vez parabéns pelo seu trabalho!

  7. Excelente a visão desse economista. Pudera muita gente lá de Brasília, aqueles que decidem, pensar algo próximo a isso. Parabéns pela visão e pela maneira como bem pontua as situações prof. Marcus Eduardo.
    Jair

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