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Opinião

O homem cordial ataca de novo

O machismo brasileiro está sofrendo, me dizem, com uma espécie de “macartismo misândrico”, cujo contexto é o “discurso do ódio” crescente.

O machismo brasileiro está sofrendo, me dizem, com uma espécie de “macartismo misândrico”, cujo contexto é o “discurso do ódio” crescente.
O brasileiro não está mesmo acostumado a esse tipo de comportamento, escreveu Sergio Buarque de Holanda em 1936. Aqui, as relações de simpatia estão acima das regras impessoais do Estado weberiano, fortalecendo o que ele descreveu como o “homem cordial” – que nunca pressupôs “bondade”, e sim o predomínio de comportamentos de aparência afetiva. As manifestações do homem cordial, explicou, não são necessariamente sinceras ou profundas, se opondo aos ritualismos da polidez.
A chamada “mentalidade cordial” gera uma sociabilidade apenas aparente, ajudando a minar nosso senso de coletividade. A consequência é, evidentemente, o individualismo que não admite ser contrariado.
Há quem ache que o bom comportamento em relação a este Estado supostamente impessoal – o que garantiria a lei para todos, sem distinção de raça, credo, gênero etc – é um traço de civilidade. Em outras culturas talvez (talvez), mas não no Brasil. A cordialidade descrita pelo autor não significa “boas maneiras” ou respeito pelas instituições – são sobretudo expressões de fundo emotivo. Diz Buarque de Holanda: “Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo – ela pode exprimir-se em mandamentos e em sentenças. Entre os japoneses, onde, como se sabe, a polidez envolve os aspectos mais ordinários do convívio social, chega a ponto de confundir-se, por vezes, com a reverência religiosa”.
E nenhum povo está mais distante disso, completa ele, do que o brasileiro. “Armado com a máscara da polidez, o indivíduo consegue manter sua supremacia ante o social”, conclui Buarque de Holanda. Todas as normas da sociedade são formalmente respeitadas, mas nenhuma dessas normas é seguida. Por isso vivemos num país machista sem machistas, ou racista sem que viva aqui um único racista. Somos todos cordiais.
O sexo é, nesse contexto, um assunto privado – exceto em duas situações: quando o privado se torna público contra a minha “vontade” (nesse caso, passa a ser estatal, por meio de um processo jurídico) ou quando o privado é de interesse público (nesse caso, o Estado estaria sendo arbitrário ao limitar minha liberdade de expressão, caso eu queira falar sobre o tema e seja impedido por mecanismos jurídicos).
O moralismo que não obedecer essa regra geraria, nesse caso, processos na esfera estatal por “danos morais”, “difamação”, um “crime contra a honra”. No país do “homem cordial” e do patriarcado, o recente caso do professor “amansador de cornos” é mais um capítulo que opõe a falsa polidez do machismo institucional (sem machistas) ao efetivo desejo de falarmos abertamente sobre o tema. A resposta patriarcal, ao que parece, foi o famoso “nos vemos na Justiça”, enquanto que a grande questão parece ter sido a de sempre: “você sabe com quem está falando?”

Por Gustavo Barreto

Jornalista, 39, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis clicando aqui). Atualmente é estudante de Psicologia. Acesse o currículo lattes clicando aqui. Acesse também pelo Facebook (fb.com/gustavo.barreto.rio) e Twitter (@gustavobarreto_).

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