O caso Vágner Love

“Mais uma vez a hipocrisia e o cinismo (características inexoráveis dessa grande mídia) ficaram mais do que evidentes no caso que envolveu o jogador do Flamengo, Vágner Love. Como teimam em fazer com todos aqueles que se mantêm fiéis às suas raízes mais humildes, a grande mídia tenta denegrir, marginalizar e intimidar o jogador…”

Mais uma vez a hipocrisia e o cinismo (características inexoráveis dessa grande mídia) ficaram mais do que evidentes no caso que envolveu o jogador do Flamengo, Vágner Love. Como teimam em fazer com todos aqueles que se mantêm fiéis às suas raízes mais humildes, a grande mídia tenta denegrir, marginalizar e intimidar o jogador. Tudo isso pelo simples fato de Vágner ter ido a um baile na comunidade da Rocinha. Essa simples atitude foi suficiente para que houvesse uma tentativa de associá-lo ao tráfico de drogas; um verdadeiro absurdo!
Aliás, se fosse possível dar um conselho ao Vágner, na também absurda suposição de que ele estaria envolvido com o tráfico, o conselho seria o seguinte: Vágner, se você realmente pensa em traficar drogas para ganhar dinheiro, não vá para a Rocinha e nem para nenhuma outra favela ou morro do Rio de Janeiro. Ali funciona apenas a parte do varejo das drogas; como se fossem pequenas barraquinhas que vendem no varejão. Se a sua intenção é enriquecer com as drogas, vá morar em algum condomínio de luxo da Barra, de Ipanema ou compre uma daquelas mansões de Angra dos Reis; lá a venda é no atacado. São nesses lugares que o tráfico realmente dá muito dinheiro e você não corre risco algum da polícia entrar metendo o pé na porta para lhe prender ou executar. Entendeu, Vagner?
Numa pergunta que mostra o tamanho da hipocrisia da grande mídia, um repórter perguntou ao Vagner se ele tinha visto alguém armado quando estava na Rocinha. Ora, até a pessoa mais imbecil e idiota da face da Terra sabe que em qualquer favela que tem tráfico de drogas é comum a presença de indivíduos armados. A pergunta que todos nós deveríamos fazer, e que não seria dirigida ao Vágner, é: como essas armas chegaram até lá? Mas nesse caso, a resposta não iria agradar aos donos do poder midiático, pois eles teriam que acusar aqueles que são, para eles, os exemplos máximos de Civilização: Estados Unidos, Suíça, Alemanha, Israel, etc. Que são, na verdade, os maiores produtores de armas do planeta. E se essas armas são produzidas legalmente, então todas elas possuem numeração de série para que haja controle na venda e na produção. O que significa que quem produz sabe muito bem para onde, para quem e qual quantidade está sendo vendida. Saber como e por que essas armas estão chegando aqui é que é a grande questão.
Se realmente houvesse a vontade e a intenção de acabar com o tráfico de armas (o que consequentemente acabaria com o poder bélico dos traficantes), a primeira medida a ser tomada era fechar as fábricas onde esses armamentos são produzidos. Seria a mesma lógica que se usa quando se diz que para acabar com o tráfico de drogas é preciso atacar o local onde as drogas são produzidas, e justifica-se, então, a política do War on Drugs (Guerra às drogas), arquitetada e patrocinada pelo país que mais produz armas no mundo: os Estados Unidos. Caso contrário, seria como tentar enxugar um local onde houvesse uma torneira aberta constantemente. Ou seja, você retira um pouco de água daqui e dali, mas como a torneira continua aberta e jorrando mais água o seu trabalho e esforço não têm eficácia e nem utilidade nenhuma!
Outro ponto forte de hipocrisia e cinismo dos baluartes da moral e dos bons costumes é a diferença de tratamento dispensada para casos que são muito mais graves e preocupantes do que o caso do Vágner. Porém, esses envolvem figuras que pertencem geralmente aos quadros de funcionários das grandes emissoras (principalmente os próprios jornalistas e também atores e atrizes de renome) ou aqueles que simplesmente pertencem à elite financeira desde o berço. Para ilustrar melhor essa colocação, citarei alguns exemplos. Um caso clássico é o Cazuza, que participava de grandes orgias e usava vários tipos de drogas fossem elas lícitas ou ilícitas. Mesmo com tudo isso, acabou por se tornar herói nacional e exemplo de vida para várias gerações. Para comprovar isso basta assistir o filme baseado na sua vida, Cazuza: o tempo não pára, para constatar que o seu comportamento e as suas atitudes são encobertas por uma áurea de romantismo, coragem, idealismo, candura, etc.
Mais recentemente, tivemos os exemplos dos atores Marcelo Anthony e Fábio Assunção, onde ambos se envolveram com drogas e com traficantes de drogas. No entanto, o tratamento que receberam foi do tipo que é dispensado às pessoas doentes, com problemas psicológicos, que precisavam de ajuda, carinho e compreensão. Jamais foram tratados como marginais, pessoas que poderiam oferecer algum risco à sociedade ou servirem de mau exemplo – nesse caso é bom lembrar que nem o Vagner Love e nem o Adriano (outro jogador de futebol perseguido pela imprensa) nunca foram flagrados usando e nem portando drogas. O que nos faz refletir sobre o porquê de tanto estardalhaço e espanto pelo fato de um ou outro jogador freqüentar a comunidade onde nasceu, cresceu e possui amigos, parentes, etc. A resposta só pode ser a do eterno preconceito, menosprezo e sentimento de superioridade moral e ética que a classe dominante tem em relação àqueles mais necessitados na pirâmide societária. No fundo é aquela velha lógica do Ter para Ser; se você não Tem você não É nada.
Destarte, podemos ver porque o simples fato do Vágner Love ter ido a um baile na Rocinha foi tratado como se essa atitude do jogador fosse um verdadeiro crime. Bom seria que toda essa severidade moral e ética se estendesse também para aqueles que pertencem à classe dominante. O que seria daqueles que são vizinhos de um Paulo Maluf, Daniel Dantas, José Roberto Arruda, a família Sarney e tantos outros? Como reagiriam essas pessoas ao receberem aquele famoso tratamento dispensado, desde os tempos mais remotos, aos mais pobres: pancada, cadeia e morte? Mas como sabemos muito bem, os tipos de crimes cometidos pela classe dominante, embora atinjam muitos mais pessoas e sejam muito mais violentos e letais do que aqueles cometidos pela classe menos abastada, são os que possuem as menores penas e uma maior quantidade de alternativas para o cumprimento dessas penas (e isso nos raríssimos casos em que alguns deles sofrem alguma condenação). Como disse M. Foucault em seu livro Vigiar e Punir:
“A prostituição patente, o furto material direto, o roubo, o assassinato, o banditismo para as classes inferiores; enquanto que os esbulhos hábeis, o roubo indireto e refinado, a exploração bem feita do gado humano, as traições de alta tática, as espertezas transcendentes, enfim todos os vícios e crimes realmente lucrativos e elegantes, em que a lei está alta demais para atingi-los, se mantêm monopólio das classes superiores.” E conclui: “Não há então natureza criminosa, mas jogos de força que, segundo a classe a que pertencem os indivíduos, os conduzirão ao poder ou à prisão.”
Portanto, para aqueles que fazem esse porco, hipócrita e cínico jornalismo, peço apenas que tenham um pouco de vergonha na cara, menos ambição financeira e mais ética na sua profissão. Se o mundo está se tornando esse lugar insuportável para se viver, vocês têm uma boa parcela de culpa nessa piora. E espero que cada vez mais os valores cultuados por pessoas como vocês e os seus senhores sejam cada vez mais destruídos e desmoralizados por todos aqueles que vêem a vida como algo bem maior e mais importante do que esse amor pelo dinheiro, cultuado e propagado por vocês. Seria o fim do seu mundo mesquinho e vazio se esses garotos que estão ficando famosos e milionários jogando futebol, voltassem para suas comunidades não apenas para curtir um baile ou rever amigos e parentes, mas que também ajudassem na transformação política, social e cultural dessas pessoas. Que gastassem um pouco do seu prestígio e do seu dinheiro construindo bibliotecas, cinemas, teatros, cursos de filosofia, história, sociologia e tantos outros. Seria o início de um novo mundo ou, como disse Charles Chaplin: “Um mundo que daria futuro à juventude e segurança à velhice.” Quem sabe um dia? Quem sabe…
(*) Renato Prata Biar é historiador e pós-graduado em Filosofia.

11 respostas em “O caso Vágner Love”

Maravilha de crítica!
Essa semana debatia com um amigo sobre a polêmica envolvendo o jogador Adriano. E a conclusão que cheguei não foi outra, se não, a do”puro preconceito”.
Se esses jogadores fossem flagrados numa boate enchendo a cara de uísque e rodeados de “marias chuteira”, não haveria tanta repercusão midíatica.
Triste é comprovarmos, com esses tipos de matérias jornalística, que os jornais não estão preocupados em noticiar fatos e acontecimentos de interesse do público, mas sim de vender jornais. Seja através do sensacionalismo ou de especulações mentirosas como essas.
Esses tipos de notícias (sem ética, sem compromisso social, sem vergonha na cara), me fazem concorda, que para os meios de comunicações dominantes de nossa sociedade não é preciso de jornalista diplomados.
Parabéns pelo belíssimo texto!!!

Caro Renato,
concordo quando vc fala dos dois pesos e duas medidas dados pela mídia aos crimes cometidos pelos ricos. Mas gostaria de pedir licença pra expor um outro lado que vejo nessa questão:
Não acho correto tb quando os jogadores são tratados com paternalismo, como se fossem pobres coitados que por serem de origem simples estão blindados de critica, afinal ” estão só voltando as suas raizes”.. Isso me soa como a velha culpa burguesa mostrando suas garras…
Na minha opinião, esses jogadores optam por visitar a favela justamente na sua fração de concentração de criminalidade, que não chega a 1% dos moradores como apontam as pesquisas. O fato é que ali está o poder, a ostentação e o mundo das facilidades, coisas que alguns jogadores (é bom que se diga)adoram…
Hj no O Globo um cara falou mais ou menos assim: É da cultura da favela, que se faça uma saudação , uma gentileza quando chega alguem importante, falando do Vagner Love…Concordo com ele, mas tb é da cultura da favela queimar pessoas suspeitas em peneus de carro e amarrar com fita crepe, e aí, vamos relativizar tb??? Escoltar com fuzil pode mas amarar e matar não pode, é isso?
Não tem desculpa eles poderiam não estar ali, mas estão conscientes e dialogando com aquele mundo, não tem jeito. Esses caras prestam um grande desserviço a propria comunidade – a visão que as pessoas terão de lá sera sempre estigmatizada. Eles ajudam a reproduzir com suas presenças o que esse cineastas riquinhos e um Manoel Carlos da vida fazem nas telas: FAVELA =VIOLÊNCIA E PESSOAS VIOLENTAS.
Eu tô pra ver o dia em que vai sair um filme das inumeras histórias de superação de pessoas que venceram dificuldades e estudaram e trabalharam e se tornaram alguem…Esse enredo daria um filmaço na mão de um bom cineasta, mas não adinanta enquanto jogadores do flamengo estiverem indo pra esses lugares, frequentar o seu lado mais sombrio, com o apoio discreto da Globo que reserva meia hora do Fantástico pra que façam sua defesa, não vai ter ibope nunca. O espectador vai querer sempre ver mesmo o fuzil, o baile, a loira bombada e a camisa do flamengo, se divertindo com a miséria alheia.
Infelizmente.

Totalmente aceitável para uma pessoa que possui vínculos do passado ou não,visitar o lugar onde morou,é totalmente hipócrita quem aponta o dedo para o Love e Adriano,frequentar uma favela não significa necessariamente ter relação direta com tráfico mas a mídia faz uma balbúrdia em cima do caso como se Love e Adriano tivessem feito algo inadimissível,um fato que acontece todos dias nesse puto país.

Deixe uma resposta