Categorias
Brasil Saúde Terapia Comunitária Integrativa

Na terapia, a palavra é o remédio

Entrevista de Adalberto Barreto à Rede Nacional de Mobilização Social, realizada por Danielle Lopes Bittencourt, editada por Eliane Araújo em 03/10/2007.

Mobilizadores – O que é e como surgiu a Terapia Comunitária?

R. O Centro dos Direitos Humanos da favela do Pirambu, em Fortaleza, me enviava os casos que tinham repercussão psíquica. Eu os recebia com meus alunos no Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará (UFC). Com o aumento da demanda, decidi, em comum acordo com meus alunos, não mais recebê-los no hospital, mas ir até onde eles viviam: na comunidade de 4 Varas, uma das 150 comunidades organizadas da grande favela do Pirambu. Chegando lá, encontrei cerca de 30 pessoas. Todos queriam um remédio para controlar insônias, depressões, tentativas de suicídio. Logo me dei conta que não poderia medicalizar problemas da existência, onde o sofrimento emerge com força. Tratava-se muito mais de pessoas necessitando ser acolhidas, escutadas, apoiadas, do que doenças a serem tratadas. Logo precisei as razões de minha presença e disse-lhes: ‘Eu não vim aqui resolver os problemas de vocês. Eu vim resolver os meus. Só que para isso eu necessito de vocês. Eu com meus alunos também viemos buscar respostas para nossas inquietações, nossos sofrimentos’. E perguntei-lhes: ‘Vocês estão satisfeitos com os médicos?’ A resposta foi unânime: ‘Não’. ‘E por quê’?’ ‘Porque eles não escutam a gente, estão sempre apressados…’ ‘Pois bem, eu vim aqui aprender a formar médicos mais humanos, mais atenciosos e mais respeitosos dos valores culturais. Eu vim me curar de minha alienação universitária’. E disse-lhes: ‘Eu sou médico, tenho um saber adquirido na universidade que me permite prescrever os remédios. Mas vocês também têm um saber herdado de seus antepassados. Quem é descendente dos índios tem o saber dos pajés e xamãs, quem é descendente de africanos tem o saber dos pretos velhos com seus remédios e meizinhas. Quem tem 50 anos tem um saber produzido por 50 anos de vida. Portanto cada um de nós tem algo a partilhar. É isso que iremos fazer aqui. Cada um vai poder partilhar seu saber, fruto de sua experiência’. Estávamos iniciando uma atividade que posteriormente estruturou-se e tornou-se a terapia comunitária sistêmica integrativa.

Mobilizadores – Quais os principais fundamentos da Terapia Comunitária?
R. A Terapia Comunitária tem construído sua identidade, alicerçada em 5 grandes eixos teóricos:
– O Pensamento Sistêmico que nos permite compreender que somos um todo, em que cada parte influencia e interfere na outra parte. Temos problemas, mas também temos as soluções;
– A Teoria da Comunicação nos lembra a riqueza e a variedade das possibilidades de comunicação entre as pessoas e nos convida a ir além das palavras, para entender a busca desesperada de cada ser humano pela consciência de existir e pertencer, de ser confirmado e reconhecido, como indivíduo e cidadão;
– A Antropologia Cultural nos alerta para a importância da cultura, esse grande conjunto de realizações de um povo ou de grupos sociais, como o referencial a partir do qual cada membro de um grupo se baseia, retira sua habilidade para pensar, avaliar e discernir valores, e fazer suas opções no cotidiano;
– A Resiliência: conceito que nos permite ultrapassar uma visão de mundo que exclui outras fontes produtoras de “SABER”. Não podemos negar que os indivíduos e grupos sociais dispõem de mecanismos próprios para superar as adversidades contextuais.

Enfim, nossa ação consiste em reativar as potencialidades da comunidade capazes de enfrentar a fragmentação que provoca a vida “na rua”, relacionada a certos contextos conjunturais, da mesma forma que construímos espaços de reconstituição pessoal e de reforço dos laços sociais. A Terapia Comunitária se apóia, pois, nas competências dos indivíduos e nos saberes produzidos pela experiência. Seus participantes são verdadeiros especialistas do sofrimento, cujas histórias de vida têm permitido se tornarem especialistas na superação de obstáculos e na produção de um saber, geralmente, ignorado pela academia. Em contextos de precariedade, ignorar os recursos internos pessoais e os externos torna toda ação um paliativo, que serve bem mais para aliviar nossa consciência do que para responder a uma demanda de forma eficaz.

Mobilizadores
– Como este método funciona na prática? Como são formados e conduzidos os grupos nas comunidades? De que forma acontece a formação dos terapeutas comunitários?
R. A Terapia Comunitária foi concebida para ser desenvolvida por qualquer pessoa, sem nenhuma formação acadêmica anterior, desde que siga uma formação específica e preencha os pré-requisitos, dentre os quais: 1- Ser escolhido pela comunidade; 2- Ser alguém já engajado em trabalho comunitário, pois a experiência como líder que organiza reuniões será muito útil ao trabalho; 3- Não ser adolescente, nem pessoa imatura, “super-rígida” ou preconceituosa e conhecer as diversas atividades que seu município desenvolve, para que a Terapia Comunitária venha dar apoio às outras atividades, e não funcione de forma isolada das outras ações. A Terapia Comunitária é uma ação cidadã que transcende classes sociais, credos, profissões, partidos… Cada um partilha seu saber, sua competência, construindo uma grande rede solidária na multicultura brasileira.

Todos são chamados a serem cuidadores de si e de suas comunidades. Os grupos de terapeutas são formados por pessoas dos mais diversos universos: agentes comunitários de saúde, artistas, agentes pastorais das diversas igrejas, sacerdotes, lideranças comunitárias, psicólogos, curandeiros, assistentes sociais, educadores, enfermeiros, advogados, fisioterapeutas… Nossa experiência tem mostrado que a equipe de terapeutas comunitários, quando composta de lideranças comunitárias e profissionais de saúde ou da área social, funciona de maneira mais sólida e eficaz. Depois da seleção, feita com base nos critérios apontados, os escolhidos devem fazer a formação.

Trata-se de um curso de capacitação profissional com 360 horas/aula, assim distribuídas: 70 horas/aula são dedicadas aos aspectos teóricos; 70 horas/aula às vivências terapêuticas, quando serão utilizadas técnicas de relaxamento e autoconhecimento, e 140 horas/aula dedicadas à realização de práticas em terapia comunitária, equivalentes à condução de cinqüenta rodas de terapias como terapeuta ou co-terapeuta realizadas em sua comunidade e ou instituição, com 80 horas/aula de supervisão dos professores da instituição organizadora. Este curso, geralmente, ocorre em quatro módulos, sendo dois de quatro dias, com intervalo de dois meses, e outros dois módulos de três dias, com intervalo de três meses. Pede-se que, durante os dias de curso, os participantes fiquem em regime de internato, pois a convivência com o grupo, nesses dias, é fundamental para a formação de vínculos e consolidação da rede.

Durante toda a formação, os terapeutas comunitários são acompanhados, de perto, por uma equipe de psicólogos, psiquiatras e educadores especializados. Após o primeiro módulo, os participantes já devem iniciar o estágio prático em equipes de duas ou três pessoas. Até o segundo módulo, cada equipe deverá ter realizado pelo menos dez sessões terapêuticas. No final do curso, é conferido um certificado pela Universidade Federal do Ceará ou por outro pólo formador responsável desde que o participante tenha cumprido as exigências do curso que ocorre, no máximo, dentro de dois anos. Quem desejar mais informações sobre as capacitações pode entrar no site da Associação Brasileira de Terapia Comunitária (www.abratecom.org.br)

Mobilizadores –
Como as pessoas reagem diante da necessidade de serem atores na mudança de suas condições de vida e não apenas expectadores passivos? Como é abordada a co-responsabilidade dos integrantes da comunidade para a solução dos problemas que vivenciam e sua competência em solucioná-los?
R. Se queremos transformar as comunidades de excluídos, fazendo com que se integrem, que descubram seus valores como pessoas, os valores que a cultura oferece como recursos, que foram destruídos pelo colonizador e continuam sendo por outras formas de colonização, temos que ajudá-las nesta descoberta. Temos que ajudá-las a verbalizar suas sensações e suas emoções, transformando-as em pensamento transformador. A partir daí, os excluídos poderão ser sujeitos da história, e não mais meras vítimas e espectadores. O ponto de partida da roda de Terapia Comunitária é uma “situação-problema”, apresentada por alguém e escolhida pelo grupo. O animador procura estimular e favorecer a partilha de experiências possibilitando a construção de redes de apoio social. É a partilha de experiências entre os participantes que mostra as possíveis estratégias de superação dos sofrimentos do cotidiano e permite a comunidade encontrar, nela mesma, as soluções para os problemas que a pessoa, a família e os serviços públicos não foram capazes de encontrar isoladamente. A comunidade descobre que ela tem problemas, mas também tem as soluções. Quem chega com um problema vai sair com algumas possibilidades de resolução e, aos poucos, vai descobrindo que a superação dos problemas não é obra particular de um indivíduo, de um iluminado, ou de um terapeuta, mas é da coletividade. Descobrir que seu sofrimento tem a ver com variantes sociais que precisam ser prevenidas possibilita às pessoas: relativizar seus sofrimentos; descobrir que não estão sós; receber o apoio do grupo; criar novos vínculos e construir nova rede de apoio, favorecendo um maior grau de autonomia, de consciência social e co-responsabilidade. O mote, ou seja, a pergunta-chave que desencadeia a reflexão é: ‘Quem já viveu algo parecido e o que fez para resolver?’ Emergem então do próprio grupo as várias possibilidades de resolução. A comunidade partilha as experiências similares de vida e sabedorias de forma horizontal e circular. Cada um torna-se terapeuta de si mesmo a partir da escuta das histórias de vida. Todos são co-responsáveis na busca de soluções e na superação dos desafios do cotidiano. A comunidade torna-se espaço de acolhimento e de cuidado, sempre atenta às regras: fazer silêncio; não dar conselhos; não julgar; falar de si usando a primeira pessoa – EU; propor músicas, poesias ou histórias apropriadas. Na Terapia Comunitária, a palavra é o remédio, o bálsamo, a bússola para quem fala e para quem ouve. Na roda de Terapia Comunitária procura-se: fazer uma reflexão sobre o sofrimento causado pelas situações estressantes; criar espaços de partilha destes sofrimentos, digerindo uma ansiedade paralisante que traz riscos para a saúde destas populações; prevenir, promover a saúde (atitude positiva) em espaços coletivos, e não combater a patologia (atitude negativa) individualmente. Estes fatores estressantes só podem ser enfrentados com a força do grupo no devido tempo, antes que degenerem em patologias, encarecendo o tratamento. Poder contar com um recurso (vizinhos, amigos) torna a pessoa menos dependente das instituições, menos oprimida pelos próprios problemas e, portanto, mais autônoma.

Mobilizadores – Como o sofrimento causado pela exclusão social e pela pobreza se manifesta na vida e na saúde dos moradores de comunidades e de que forma a terapia comunitária pode ser um recurso para lidar com esse sofrimento? Quais os problemas mais abordados nos encontros?
R. O sofrimento crônico transforma-se num fatalismo aniquilador de esperanças, gerando comodismo. “Não adianta fazer nada. Se correr o bicho pega e se ficar o bicho come”. E aos poucos as pessoas vão perdendo a confiança em si, em seu potencial e vão alimentando atitudes de fracasso, de auto-desvalorização e dependências as mais diversas, provocando o que chamo da “síndrome da miséria psíquica”. O sofrimento é a matéria-prima da TC, na medida em que podemos transformá-lo em crescimento. Para compreendermos melhor, me permitam uma metáfora: o sofrimento é como o “excremento”, a “merda” que pode ser transformada em estrume, em alimento para as plantas crescerem e produzirem flores e frutos. O foco de nossa reflexão é centrado no “sofrimento” e a pergunta-chave é: “O que tenho feito de meus “excrementos”, de minhas “merdas”, de meus traumas? Já aprendi a transformá-los em adubos ou apenas a exalar odores insalubres e poluentes de vidas?” Na escola da vida, os grandes especialistas do cuidado souberam lidar com esta alquimia. Transformar sofrimento em sensibilidade, em energia reparadora, possibilitando a construção de uma nova ordem social, o renascer das cinzas. Com uma amostragem de 12.000 questionários em 12 estados brasileiros, foram identificados os problemas de maior incidência: “estresse e emoções negativas” (somatizações e ansiedade; “emoções negativas”: raiva, vingança, mágoa, desânimo e desprezo – 26,7%). O segundo tema mais freqüente é “conflitos nas relações familiares” (19,7%). Os problemas ligados ao uso de álcool e outras drogas se encontram em terceira posição de destaque em todos os estados: 11,7%. A quarta categoria de problemas foi “questões ligadas ao trabalho”, juntamente com a quinta colocada “desemprego”: 9,6%. O sexto colocado foi “depressão” (9,3%). O sétimo lugar é ocupado pelos problemas relacionados com a violência (4,6%) contra a mulher, a criança e o idoso e homicídio.

Mobilizadores – Existem experiências de utilização da Terapia Comunitária em contextos de grande violência urbana? Como ela poderia contribuir para fortalecer a comunidade na superação desta questão?
R. Existe sim. Hoje a Terapia Comunitária já está presente em todas as grandes cidades brasileiras, dentre elas, São Paulo, Santos, Manaus, Belém, São Luiz, Teresina, Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza… São grupos que vivem em contexto de desagregação e exclusão social, muitas vezes agravado pelas migrações forçadas. Nesses contextos, encontramos não somente a pobreza econômica, mas a pobreza cultural, a fragilidade de laços sociais, a incapacidade de se organizar de forma mais democrática e, sobretudo, a auto-imagem desvalorizada, a baixa auto-estima que, muitas vezes, culmina na perda da própria identidade e dignidade. Trata-se, pois, de uma “terapia para a prevenção”, uma vez que permite ao excluído e marginalizado enfrentar a realidade que ameaça distanciá-lo de sua cultura e destruir sua identidade. Integrado em sua cultura e em sua comunidade, ele torna-se consciente de seus direitos e deveres individuais e sociais, para uma existência cidadã, digna e plena. Nesse sentido, prevenir é, sobretudo, estimular o grupo a usar sua criatividade e a construir o seu presente e o seu futuro, a partir de seus próprios recursos. Embora esta proposta terapêutica esteja mais voltada para grupos que vivem condição social vulnerável, em termos de saúde mental e autonomia individual e comunitária, nossa experiência tem mostrado que ela pode ser aplicada em qualquer grupo de pessoas pertencentes às mais diferentes classes sociais, idades, situações sócio-econômicas e profissionais.

Mobilizadores – A Terapia Comunitária está prevista na Política Nacional de Humanização do Sistema Único de Saúde como uma das atividades de acolhimento dos usuários dos serviços públicos de saúde. Como ela tem sido incorporada pelos serviços de saúde?
R. A Terapia Comunitária já faz parte da política pública da Secretaria Nacional Anti –Drogas (SENAD). Capacitamos cerca de 800 terapeutas comunitários, com ênfase em questões de álcool e outras drogas, que estão atuando nos grandes centros urbanos onde essas questões trazem muito sofrimento para as famílias. A TC já foi implantada em quase todos os estados brasileiros e pelas prefeituras de São Paulo, Londrina, Brasília, Fortaleza, Santos e outras. Por solicitação do atual ministro da saúde, Dr José Gomes Temporão, apresentamos um projeto para implantação em nível nacional, através das ações básicas de saúde, como o Programa de Saúde da Família, o Humaniza SUS [política de humanização do Sistema Único de Saúde], programas de educação e saúde, saúde mental e SENAD. A proposta da Terapia Comunitária vem, portanto, se somar às práticas comunitárias já existentes, apresentando-se como uma abordagem efetiva e promissora para a imensa demanda por serviços de atenção à saúde. Entre os seus diferenciais e propósitos, podemos realçar:
– Ir além do unitário para atingir o comunitário;
– Sair da dependência para a autonomia e a co-responsabilidade;
– Ver além da carência para ressaltar a competência;
– Sair da verticalidade das relações para a horizontalidade;
– Desconstruir a atitude de descrença para ressaltar o potencial de cada um e da comunidade;
– Ir além do privado para o público;
– Romper com o clientelismo para chegar à autonomia;
– Romper com o modelo de concentração da informação para promover a circulação de saberes e trocas colaborativas;
– Romper com o isolamento entre o “saber científico” e o “saber popular”;
– Promover a consciência crítica e a cidadania.

Mobilizadores – Há resistências à adoção da Terapia Comunitária? Existem estudos de impacto da aplicação deste método?
R. Até agora não encontramos resistências significativas na implantação da TC porque a temos apresentado como um espaço de acolhimento, de escuta e de cuidado que tem permitido direcionar melhor as demandas. Só afluem para os níveis secundários de atendimento as pessoas que não resolveram suas necessidades nesse primeiro nível de atenção. Ela não tem a pretensão de ser uma panacéia, nem de substituir os outros serviços da rede de saúde, e sim complementá-los. Atua em nível primário, promovendo a saúde e jamais trabalhando com a patologia. Fizemos uma avaliação de seu impacto com base em 12 mil questionários aplicados em 10.007 rodas de Terapia Comunitária, com 150 mil atendimentos, em 12 estados brasileiros. O resultado mais importante foi constatar que a TC reduz a demanda por serviços especializados: apenas 11,5% dos atendimentos realizados na TC precisaram ser encaminhados para redes de serviço, em grande parte para o nível primário de atenção à saúde. Já 88,5% dos problemas apresentados nas rodas encontraram solução na própria terapia comunitária. Consideramos que este trabalho demonstrou, na prática, que a Terapia Comunitária: facilita o encaminhamento das pessoas com sofrimento psíquico para a rede de assistência integral; acolhe os adictos egressos de instituições que necessitam de apoio de uma rede saudável na qual eles possam se amparar e construir novos vínculos; reforça as redes sociais primárias; e oferece uma rede de apoio e acolhimento às famílias dos usuários.

Mobilizadores
– O que é o Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária (MISMEC) e quais são os objetivos do Projeto 4 varas?
R. O MISMEC-CE, conhecido também como projeto 4 varas, tem como grande preocupação investir na prevenção e procurar criar um modelo de atendimento a pessoas em crise, que leve em conta os recursos e as peculiaridades da cultura local. Desenvolve uma experiência de terapia de comunidades numa favela, em que procura resgatar a dimensão contextual, sem perder de vista a dimensão individual, biológica, psicológica, inter-relacional e ambiental. Outros objetivos são: lutar contra todo tipo de exclusão e promover a integração de pessoas e comunidades no resgate da dignidade e da cidadania; favorecer o desenvolvimento comunitário e valorizar as instituições tradicionais, portadoras de sabedoria popular e guardiãs da identidade cultural; evitar a exclusão dos mais pobres, sobretudo nas situações de desestruturação social e cultural, e buscar meios de revitalização social e cultural, reabilitação e reinserção. A fim de atingir estes objetivos tem sido necessário:
a) reforçar os vínculos entre as pessoas, respeitando a cultura de cada um; mobilizar os recursos e competências culturais locais, para promover a saúde comunitária; e construir uma rede social de proteção e inserção, promovendo uma cultura de paz. A comunidade deve funcionar como “agente terapêutico” no processo de inserção social, evitando a alienação da própria cultura, a perda da identidade, ajudando os indivíduos a sentirem-se membros efetivos de sua comunidade.
b) criar gradualmente uma nova consciência social, para que os indivíduos tomem consciência da origem e das implicações sociais da miséria e do sofrimento humano e, sobretudo, para que, em meio a tantas dificuldades, descubram suas potencialidades terapêuticas e capacidades transformadoras.
Trata-se, pois, de uma “terapia para a prevenção”, uma vez que permite ao excluído e marginalizado enfrentar a realidade que ameaça distanciá-lo de sua cultura e destruir sua identidade. Integrado em sua cultura e em sua comunidade, ele torna-se consciente de seus direitos e deveres individuais e sociais, para uma existência cidadã, digna e plena. Nesse sentido, prevenir é, sobretudo, estimular o grupo a usar a sua criatividade e a construir o seu presente e o seu futuro, a partir de seus próprios recursos. Nossa proposta rompe, portanto, com o pensamento dominante, que considera que: o povo é ignorante, e nós precisamos educá-lo; a tradição é um obstáculo ao progresso e não é possível colaborar; só existe um modelo de intervenção válido.

http://www.coepbrasil.org.br/portal/publico/apresentarConteudo.aspx?CODIGO=C200832920140625&TIPO_ID=3

Por Adalberto de Paula Barreto

Doutor em Psiquiatria e Antropologia. Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Social. Criador da Terapia Comunitária Integrativa. Autor de vários livros. CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/8155674496013599.

Ver arquivo

Deixe uma resposta