Moradores do Morro dos Fogueteiros continuam abandonados pela prefeitura

Deslizamento na Rua 11, no Morro dos Fogueteiros, onde duas casas foram soterradas sem vitimar ninguém. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
Deslizamento na Rua 11, no Morro dos Fogueteiros, onde duas casas foram soterradas. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

O temporal que matou mais de 30 pessoas no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, também atingiu gravemente o Morro dos Fogueteiros, que fica nas redondezas, entre Santa Teresa e o Rio Comprido, no centro do Rio. Não morreu ninguém na comunidade, mas, segundo a presidente da Associação de moradores local, Cintia Luna, 10 famílias perderam suas casas e 50 estão com o seu imóvel interditado pela prefeitura por estarem em área de risco.
Mais de 15 dias depois dos temporais, ninguém recebeu o aluguel social do poder público: “Cheque aluguel é que nem cabeça de bacalhau, todo mundo sabe que existe mas ninguém vê”, criticou Luna. Segundo alguns moradores do Fogueteiros, as pessoas que perderam seus familiares no Morro dos Prazeres têm prioridade no atendimento, o que não isenta a prefeitura de sua responsabilidade.
A reportagem foi ao Colégio Monteiro Carvalho, onde foram atendidas 60 famílias do Morro dos Prazeres vitimadas pela chuva e serviu de centro de distribuição de mantimentos na região, informou Ângelo Santos, diretor da instituição. Segundo Santos, há apenas 11 famílias, cerca de 40 pessoas, no abrigo, dentre elas apenas uma não recebeu o aluguel social da prefeitura (até 19/03). Muitos estão com dificuldades em alugar uma moradia na região, também por causa do aumento do preço com a procura, apesar de alguns terem recebido um cheque no valor de R$ 1,200, que corresponde a três meses de aluguel. Os moradores que não arrumaram abrigo ou moradia , mesmo que provisória, tiveram de sair da escola no dia 20/04 e serão encaminhados para outro alojamento nas proximidades. A reportagem não foi autorizada a entrar no abrigo para conversar com as pessoas alojadas.
O esgoto a céu aberto e a precária coleta de lixo são problemas a solucionar na comunidade, denunciaram algumas lideranças. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
O esgoto a céu aberto e a precária coleta de lixo são problemas a solucionar no Morro dos Fogueteiros, denunciaram algumas lideranças. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Quem recebeu o Fazendo Media no Morro dos Fogueteiros foi Mário Medeiros, vice-presidente do Centro de Apoio a Moradores de Favelas de Santa Teresa e morador da comunidade. Ele explicou que a última vez que o poder público atuou nos Fogueteiros foi em 2003, com o projeto Favela Bairro, mas que acabou se transformando num “bairrinho” e só atendeu a parte de Santa Teresa: toda a região do Rio Comprido foi deixada de lado, aproximadamente metade da comunidade. Todas as obras nas encostas feitas há anos atrás estão intactas, essa é alternativa para o local apontada por Mario, que já foi presidente da associação de moradores na comunidade.
A única via acessível para automóveis aos Fogueteiros liga a Barão de Petrólis à comunidade, no Rio Comprido, e está obstruída pelos escombros. Duas retroescavadeiras e um caminhão da prefeitura estão removendo os entulhos e o barro. Senhoras idosas estão subindo com as suas compras andando, e as escadarias foram abaixo com os deslizamentos.
Na Rua Projetada, também na comunidade, na região conhecida como Raia, Silas Garcia Dutra, que mora na favela há mais de 40 anos, teve sua casa interditada e mais de 15 dias depois ainda não foi atendido. Silas participou de três reuniões, tem 4 filhos, e como não conseguia entrar em casa por causa da escada que desabou na porta de sua moradia, quebrou a parede para resgatar os seus móveis: está gastando R$ 380,00 com aluguel, mais a mudança.
Morro dos Prazeres, visual de dentro dos Fogueteiros. Parte da comunidade com a vista para o centro do Rio, e do outro lado a zona sul carioca com o Cristo Redentor ao lado, elementos que atraem a especulação imobiliária segundo os moradores. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
Morro dos Prazeres, visto de dentro dos Fogueteiros. Parte da comunidade tem a vista para o centro do Rio, e do outro lado fica a zona sul carioca com o Cristo Redentor ao lado. Esses elementos chamam a especulação imobiliária para a região, segundo os moradores. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Além dos deslizamentos, o esgoto que desce a céu aberto é um problema visível na comunidade. A galeria pluvial deságua num canal na rua Barão de Petrópolis, mas até chegar ao local fica exposta em muitos trechos no percurso. É o caso de José Vandick, que dos seus 72 anos 45 foram passados na favela, e tem o esgoto aberto na porta de sua casa numa rua onde moram 26 famílias.
“A gente queria que a prefeitura arcasse com o custo dessas obras, e ninguém faz nada. Estou há dois anos atrás deles, e dizem que tem de trocar a rede mas não se responsabilizam. Desde que houve um deslizamento por causa de um cano da Cedae, em 1987, o prefeito Marcos Tamoio exigiu e a partir desse dia nós pagamos o IPTU e outros impostos, tenho a planta de aprovação em casa”, disse Vandick.    
Vandick também relatou que houve há décadas atrás um projeto da Somar Engenharia, empresa responsável na época, e da atual GeoRio, empresa estatal de obras em encostas, que funcionam até hoje na comunidade. No entanto, como demonstrou Mário Medeiros, muitos trechos foram parcialmente atendidos e outros não receberam o serviço. No local dessas obras não ocorreu nenhum desastre com os temporais que afetaram o Rio no início do mês.

3 comentários sobre “Moradores do Morro dos Fogueteiros continuam abandonados pela prefeitura”

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  2. Tudo isso que na reportagem se evidencia, é o que sucessivos governos se negam realizar. O que tem piorado atualmente no Rio de Janeiro é a negação de serviços urbanos essenciais acompanhada de uma campanha sistemática de responsabilização e criminalização da população negada em seus direitos. O cinismo e a covardia ganharam espaço na mídia terrorista para se garantir reeleições e carreira política.
    Tudo se transformou em caso de polícia e militarização. As classes médias já rejeitam qualquer idéia de programas sociais, respeito aos direitos humanos etc. Tudo que chega ao pobre em forma de política pública social é entendido como “paternalismo” e coisa de governo “populista”. Há uma sistemática fascistização da sociedade, e, até produções cinematográficas espetaculares, e muito bem financiadas, incrementam a apartação e a limpeza social.
    Mas, é importante dizer: A TV Globo seqüestra governos; conduz e administra o cenário que transforma a vida do pobre num verdadeiro inferno.

  3. Circulando pela internet:
    Instituto de Arquitetos do Brasil
    Departamento do Rio de Janeiro
    SETE ESCLARECIMENTOS
    SETE ESCLARECIMENTOS
    À POPULAÇÃO SOBRE AS TRÁGICAS CHUVAS QUE SE ABATERAM SOBRE A
    REGIÃO METROPOLITANA DO RIO DE JANEIRO
    1. Nem toda favela é área de risco; nem toda área de risco é favela.
    2. Se não houvessem existido as obras de urbanização e reassentamento promovidas pelos programas ‘Favela Bairro’ e ‘Morar sem Risco’, o número de vítimas no Município do Rio de Janeiro teria sido, seguramente, muito maior. Esta é uma política correta e vitoriosa que precisa ser continuada.
    3. Não há solução eficaz e duradoura para o problema das enchentes e suas consequências sem investimentos públicos massivos, continuados e tecnicamente qualificados, principalmente nas áreas de habitação, transporte e saneamento. Habitação e Cidade são interdependentes e devem ser construídas simultaneamente.
    4. As famílias moradoras em áreas de risco iminente precisam ser apoiadas para se transferirem a um lugar seguro, garantindo-se a integridade de suas atuais moradias enquanto laudos técnicos sejam realizados sobre a natureza e permanência do risco.
    5. Havendo necessidade de reassentamento, ele deve se dar mitigando eventuais perdas relativamente às relações econômicas e sociais estabelecidas.
    6. Os governos federal, estadual e municipais precisam contar com estruturas de planejamento permanentes e estáveis, para a implementação de políticas urbanas de médio e longo prazo.
    7. A população pobre não é suicida. Mora em áreas de risco por falta de alternativas. Havendo modos de financiamento habitacional e transporte público de qualidade, toda a cidade se beneficia e novos danos sociais e ambientais se evitam.
    Nós, arquitetos do Rio de Janeiro, reafirmamos nossa solidariedade com as vítimas das chuvas e, em especial, com os que perderam seus entes queridos. Continuamos prontos a contribuir para a construção de uma metrópole melhor, mais justa, menos desigual, onde todos os cidadãos possam dispor de um lugar seguro para morar, integrado à cidade, e contando com os equipamentos e serviços públicos necessários à vida urbana contemporânea.
    Rio de janeiro, 14 de abril de 2010
    Conselho Administrativo e Conselho Deliberativo do
    INSTITUTO DE ARQUITETOS DO BRASIL / Departamento do Rio de Janeiro

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