Mensagem do Papa Francisco

“Angelus” – 10.10.2021

A liturgia de hoje nos apresenta o encontro entre Jesus e um certo homem que possuía muitos bens e que passou para a história como o “jovem rico”. Não sabemos o nome. O Evangelho de Marcos, na verdade, fala sobre ele como um certo homem, sem dele dizer a idade e o nome, a dar-nos a impressão de que naquele homem todos podemos nos ver, como em um espelho. Com efeito, o seu encontro com Jesus permite-nos fazer um teste sobre a fé. Ao ler isto, eu faço um teste comigo sobre a minha fé.

Esse anônimo começa com uma pergunta: “que devo fazer para ter a vida eterna?” Observemos o verbo que ele utiliza:  dever fazer – para ter. Eis qual era a sua religiosidade: um dever, um fazer para obter. “Faço algo para conseguir o que me é útil”. Mas isto é uma relação comercial com Deus, um toma lá, dá cá. Ao contrário disto, a fé não é um rito frio e mecânico, um devo, faço, obtenho. É uma questão de liberdade e de amor. A fé é uma questão de liberdade, é uma questão de amor. Eis um primeiro teste: para mim o que é a fé? Se for principalmente um dever ou uma moeda de troca, estamos no mau caminho, porque a salvação é um dom e não um dever, é gratuita e não se pode comprar. A primeira coisa que temos que fazer é libertar-nos de uma fé comercial e mecânica, que insinua a falsa imagem de um Deus contábil, um Deus controlador, não um pai. E muitas vezes na vida podemos viver esta relação de fé comercial: eu faço isto para que Deus me dá aquilo.

Jesus – segunda passagem – ajuda aquele homem oferecendo-lhe o verdadeiro rosto de Deus. Com efeito, diz o texto: “Ele fixou o olhar nele, com amor”: Deus é assim! É daí que a fé nasce e renasce: não nasce de um dever, nem de algo que deve ser feito ou pago, mas de um olhar de amor acolhedor. É assim que a vida cristã se torna bela, se não se baseia em nossa capacidade e em nossos projetos, mas se baseia no olhar de Deus. A sua fé, a minha fé está cansada? Você quer revigorá-la? Busque o olhar de Deus: ponha-se em adoração, deixe-se perdoar pela confissão, fique diante do crucifixo. Em suma, deixe-se amar por Ele. Este é o início da fé: deixar-nos amar por Ele, que é pai.

Depois da pergunta e do olhar, há – terceira e última passagem – um convite de Jesus, que diz: “só lhe falta uma coisa”. O que faltava àquele homem rico? O dom, a gratuidade: “Vai, vende tudo o que possui, distribua-o com os pobres”. É o que talvez esteja nos faltando. Muitas vezes, fazemos o mínimo indispensável, enquanto Jesus nos convida a fazermos o máximo possível. Quantas vezes nos contentamos com o dever – os preceitos, alguma oração e muitas coisas do tipo – enquanto Deus, que nos dá a vida, nos pede que nos lancemos à vida! No Evangelho de hoje, vemos bem esta passagem do dever ao dom. Jesus começa recordando os mandamentos: “Não matar, não cometer adultério, não roubar…” e assim por diante. E chega à proposta positiva: “Venda, vende, dê, siga-Me!”. A fé não se pode limitar ao não, pois a vida cristã é um sim, um sim de amor.

Caros irmãos e irmãs, uma fé sem dom, uma fé sem gratuidade é uma fé incompleta, é uma fé frágil, uma fé adoentada. Podemos compará-la a um alimento rico e nutritivo que, porém não tem sabor, ou a uma partida jogada mais ou menos, mas sem gol. Não, assim não dá, falta sal. Uma fé sem dom, sem gratuidade, sem obras de caridade, ao final, se torna triste: tal como aquele homem que, embora olhado com amor por Jesus em pessoa, voltou à sua casa entristecido e com o rosto sombrio. Hoje, podemos nos perguntar: “Em que ponto anda minha fé? Eu a vivo mecanicamente, em uma relação de dever ou de interesse com Deus? Será que eu me lembro de alimentá-la deixando-me olhar e ser amado por Jesus? Deixarmos olhar e ser amados por Jesus. Deixar que Jesus nos olhe, nos ame. E, uma vez atraído por Ele, será que correspondo com gratuidade, com generosidade, de todo coração?

Que a Virgem Maria, que deu a Deus um sim total, um sim sem mas – não é fácil dizer sim sem mas: foi assim que a Virgem fez, dando um sim sem mas – nos faça saborear a beleza de fazermos da vida uma doação.

 

Trad: AJFC

Digitação: EAFC

 

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