Categorias
Cidadania Cidades Mundo

Mensagem do Papa Francisco

“Ângelus” – Dia 05.09.21

O Evangelho da Liturgia de hoje apresenta Jesus a curar uma pessoa surda. Neste relato, impacta-nos o modo com que o Senhor realiza este prodígio. Assim ele faz: chama à parte o surdo, põe os dedos em seus ouvidos e com a saliva toca sua língua, então, levanta Seus olhos para o céu, suspira e diz “Effatá”, isto é, “Abre-te!”. Em outras curas, em relações a enfermidades tão graves quanto a da paralisia e da lepra, Jesus não realiza tantos gestos. Por que Ele faz tudo isto não obstante lhe ter sido solicitado apenas impôr Suas mãos sobre o doente? Por que Ele faz estes gestos? Talvez porque a condição daquela pessoa tenha um valor simbólico particular. Ser surdo é uma doença, mas também é um símbolo. E este símbolo tem algo a dizer a todos nós. De que se trata? Trata-se da surdez. Aquele homem não conseguia falar porque não podia ouvir. Com efeito, Jesus, para curar a causa do seu mal estar, antes de tudo coloca os dedos em seus ouvidos, depois na boca, mas, antes, nos ouvidos.

Todos nós temos ouvidos, mas, muitas vezes, não conseguimos escutar. Por que? Irmãos e irmãs, há, com efeito, uma surdez interior, que hoje podemos pedir a Jesus que nos toque e cure. E a surdez interior é pior do que a física porque corresponde à surdez do coração. Tomados pela pressa, por mil coisas pra dizer e pra fazer, não encontramos tempos para nos recolher e para escutar quem nos fala. Corremos o risco de nos tornar impermeáveis a tudo e de não darmos espaço a quem tem necessidade de ser escutado: penso nos filhos, nos jovens, nos anciãos, a tantos que não têm tanta necessidade de palavras e de pregações, mas de serem ouvidos. Perguntemo-nos: como anda a minha capacidade de escutar? Será que me deixo tocar pela vida do povo, será que sei dedicar tempo a quem está tão perto de mim, para escutar? Isto vale para todos nós, mas, de modo especial, para os padres, para os sacerdotes. O sacerdote deve ouvir o povo, não andar apressado, mas escutar… e ver como pode ajudar, mas só depois de ter ouvido. E todos nós: devemos, em primeiro lugar, escutar, só depois responder. Pensemos na vida em família: quantas vezes aí se fala antes de se ter ouvido, repetindo os próprios refrões, sempre os mesmos! Incapazes de escutar, sempre dizemos as mesmas coisas, ou não deixamos que o outro termine de falar, de se expressar, interrompendo-o. A retomada de um diálogo, muitas vezes, não passa por palavras, mas pelo silêncio, por não ficar paralisado, por recomeçar a escutar o outro com paciência, ouvir suas fadigas, o que sente por dentro. A cura do coração começa pela escuta. Escutar. É isto o que cura o coração. “Mas, ô pai, há gente chata que sempre fala as mesmas coisas…” Escutem-nas. E depois, quando terminarem de falar, diga sua palavra, mas primeiro escute tudo.

E o mesmo vale em relação ao Senhor. Fazemos bem ao enchê-lo de pedidos, mas melhor faremos pondo-nos, antes de tudo, a ouvi-Lo. Jesus pede isto. No Evangelho, quando lhe perguntam qual é o primeiro mandamento, Ele responde: “Escute, ó Israel!”. Depois, acrescenta o primeiro mandamento: “Você deve amar o Senhor com todo seu coração e o próximo como a você mesmo”. Mas, antes de tudo: “Escute, ó Israel”. Escute. Nós nos lembramos de nos pormos a escutar o Senhor? Somos cristãos, mas, por vezes, entre os milhares de palavras que ouvimos a cada dia, costumamos não encontrar nenhum segundo para fazermos ressoar em nós algumas palavras do Evangelho. Jesus é a Palavra: se não nos pomos a escutá-Lo, Ele passa adiante. Se não nos pomos a escutá-Lo, Ele passa adiante. Santo Agostinho dizia: “Tenho medo do Senhor quando Ele passa”. E o medo dele era de deixá-Lo passar sem escutá-Lo. Mas, se dedicarmos tempo ao Evangelho, encontraremos um segredo para a nossa saúde espiritual. Eia o remédio: cada dia um pouco de silêncio e de escuta, algumas palavras inúteis de menos e algumas Palavras de Deus a mais. Sempre trazendo o Evangelho no bolsa, que ajuda muito. Escutemos a Palavra de Jesus como sendo dirigida a nós hoje, como no dia do Batismo: “Effatá, abra-se!” Abramos os ouvidos. Jesus, eu quero me abrir à Sua Palavra. Jesus, abra-me a Sua escuta. Jesus, cure o meu coração do fechamento, cure meu coração da pressa, cure o meu coração da impaciência.

Que a Virgem Maria, aberta à escuta da Palavra que nela se fez carne, a cada dia, nos ajude a escutar o seu Filho no Evangelho e os nossos irmãos e irmãs, com coração dócil, com coração paciente e com coração atento.

Trad: AJFC

Digitação: EAFC

Deixe uma resposta