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Mensagem aos irmãos e irmãs no 12º das CEBs em Porto Velho

Zé Vicente, o autor destas memórias, evoca e convoca, no texto a seguir, a caminhada das CEBs no atual contexto eclesial, e na história do Brasil…..

“… quando se ouvirem os tambores da Amazônia
E as flautas-índias, nas canções do centro-oeste
E as guitarras juvenis em nossas ruas
E os berimbaus nas capoeiras desses morros!
O céu vai clarear, o mar vai ressacar,
A gente vai cantar, vai dançar, vai louvar!
Salve esse tempo de graça, salve essa festa tão linda!
Festas das Comunidades, festa do povo de Deus!”

BENDITA MEMÓRIA!

A você que venha a ler esta mensagem e vai estar em Porto Velho – Rondônia, participando do 12º Inter-eclesial das CEBs, quero em primeiro lugar, abraçar com ternura de menino e pedir que volte a ler acima, as estrofes do canto “Festa das Comunidades” que compus para o 10º encontro de Iheus-BA, em 1992. Nele expresso a alegria de fazer parte dessa Caminhada, desde os 16 anos,quando dei os primeiros passos na minha comunidade rural, no Sítio Aroeiras, na paróquia de Orós, no sertão do Ceará, convocado pelo padre Djalvo Bezerra, de saudosa memória.

Em Canindé, de 05 a 08 de julho de 1983, participei e cantei, pela primeira vez, o “Baião das Comunidades”, era o 5º Inter-eclesial, em tempos de efervescência eclesial, numa primavera de profecia e participação popular. As comunidades,proclamando aos quatro pontos do Brasil o lema: “CEBS,POVO UNIDO,SEMENTES DA NOVA SOCIEDADE”, transformado em Hino, pelo cego e tocador, Patrício, do Maranhão. No campo político, vivíamos ainda sob a ditadura militar, já dando sinais de total esgotamento, mas nem por isso, deixava de patrocinar um clima de tensões e espionagem.
Dom Aloísio Lorscheider era o arcebispo de Fortaleza, a diocese acolhedora. Frei Lucas, ofm, era o pároco em Canindé e com a Equipe local, se desdobrou para hospedar e organizar a festa com os cerca de 600 participantes. Foi o último dos pequenos encontros.

Foram dias de muitas cores, cantos, testemunhos, chapéus e sementes, como símbolos presentes em todos nós, nos espaços em todos os momentos. Até uma pequena estátua de S. Francisco de Assis, o patrono da Cidade e das Romarias, recebeu na cabeça, um chapéu de palha, presente de Pedro Casaldáliga, o bispo profeta de S.Félix do Araguaia,um dos apaixonados pelas CEBs.

Por que estou relembrando esta memória?

É que estou convencido que sem memória não se constrói história, nem pessoal e muito menos de Comunidade e de Igreja. A missão que recebi foi essa de lembrar e cantar,a memória e o sonho, passo a passo,de coração em coração, de lugar em lugar, por todos os recantos do Brasil, onde tive e terei a graça de passar.Vou cantando,sim, a nossa história feita de lutas, martírios, desafios (eu sou um sobrevivente da seca), mas também de muito encanto de fé, esperança e utopia.

Seguirei sempre inquieto, tentando sensibilizar mais e mais gente, para caminhada, onde a Arte, em todas as suas expressões, seja assumida, como Missão e Ministério na Comunidade local, mas também com maior oficialidade nas Pastorais e Organismos de nossa Igreja. Por que não? Creio que a Conferência de Aparecida, sinalizou positivamente nessa direção de ousarmos mais no anúncio da boa nova, as multidões excluídas.

UM SONHO MADURO COM SUAS QUESTÕES:

Sonho, um dia desses, em que a gente possa trazer como tema central para o Inter-eclesial, “A ARTE COMO FONTE DE VIGOR E MISSÃO NA CAMINHADA DAS CEBS”. Não será tempo de uma atenção maior e mais cuidadosa, com essa outra forma de linguagem e seus grandes temas inspiradores?

A teologia, a mística, a eclesiologia, não estão sendo autenticamente comunicadas em toda essa grandiosa enchente de poemas, cantos, danças, peças de teatro, desenhos, símbolos etc. nascidos dos corações simples, apaixonados e amadurecidos no compromisso com a sagrada causa do Reino, anunciado e inaugurado pelo Divino Artista de Nazaré?

Venho me questionando ainda: Por que nós artistas da Caminhada temos sido tão medrosos na missão de arte-vida, quando se trata de juntarmos forças para um Projeto mais comunitário,aquele mesmo ensaiado quando projetamos o MARCA – Movimento de Artistas da Caminhada, dentro do 6º Inter-eclesial,em Trindade,Goiás, no ano de 1986? Precisamos fazer Escolas de Artes na Caminhada, para sensibilizar, capacitar, produzir, analisar, fazer circular a boa produção, com mais qualidade e investimentos,assim como já avançaram, em cheio, o Grupo de alguns companheiros e companheiras, que criaram o Ofício Divino das Comunidades e a Rede Celebra ou os Movimentos Pentecostais, Evangélicos e Católicos. Como tem ousado o MST, com suas Escolas de Formação com artes e, outras iniciativas ousadas a nível do Movimento Popular.

A quem está favorecendo essa nossa timidez? A vitalidade das CEBs, com certeza, para um novo tempo de missão, a meu ver, não o é. Nem tão pouco a Cultura da vida, da participação cidadã, da nova e urgente opção ambiental e da paz.

Por que algumas das Editoras e Meios de Comunicação confessadamente católicos têm sido tão limitados em oferecerem espaços para expressão do saber e das artes nascidas nos meios populares, nas comunidades?

Precisamos por em Rede, com mais planejamento, o que já vem sendo criado. Onde estão os acervos de nossa memória artística, fotográfica, filmada, pintada… produzida, desde o início da Caminhada?

A memória histórica comunitária, não só individual, pois somos muito pessoalistas, está carente de cuidados, assim como o meio ambiente.
Os Mártires, situados (as) na suas comunidades.

Os (as) Artistas, missionários (as), pastores, animadores (as), com suas comunidades de vida e testemunhos de entrega ao Reino, não merecem ter seus nomes e suas criações omitidos em nossos livros de cantos e liturgias ou apenas como citações anônimas nos livros de quem teve acesso ao patrimônio da escrita.

Esse é um sonho, meu irmão e minha irmã, não quero que seja apenas visto como queixa, embora seja entre nós mesmos que precisamos nos queixar e reclamar,quando o momento é propício,como este do 12º Inter-eclesial, feito palco e altar para a gente traduzir em palavras e atos de artes, o Grito, que vem e vai, da Amazônia e de todos os recantos e corações das Comunidades Eclesiais de Base e Movimentos Populares nesta Pátria Grande Latino-americana.

PORQUE NÃO ESTOU EM PORTO VELHO:

E quem disse que não estou?…

Em todos os Encontros que participei, no processo de preparação, seja no Nordestão, em S.Luis do Maranhão, no dozinho, em Porto Velho em 2008, quando tivemos a alegria de um encontro de Artistas da Caminhada, com a visita de D. Moacir e da Rede Celebra e decidimos juntos:

a) que a Equipe de Animação local, com o Zé Martins, continuasse no Serviço da animação do 12º, também em nosso nome;

b) decidimos que é urgente e necessário realizarmos Fóruns Periódicos de Artistas, Produtores Culturais e Comunicadores da Caminhada, indicamos até que o primeiro pudesse ser em Brasília, no final de 2009 ou em 2010,cheguei a contatar com Pedro Filho e Daniel Seidel, que comungam com a proposta;

c) assumi, em nome do Grupo de Artistas, apresentar a Paulinas-COMEP, um projeto,com músicas de vários artistas conhecidos e outras(as) mais novos(as), solicitando a retomada daquela produção de Cantos das Comunidades, que tanto bem fez a animação e celebrações da Caminhada. A resposta foi tímida, mas podemos continuar conversando e buscando novos caminhos. É a nossa missão, sobretudo quando nos pomos,como artistas e produtores, numa perspectiva comunitária e ecumênica e não somente individual ao gosto do mercado que impera atualmente.

Neste ano de 2009, vivenciei momentos lindos, sendo os três mais simbólicos, em Marataízes-ES, com as CEBs da Diocese de Cachoeiro do Itapemirim,Estado onde nasceram os inter-eclesiais na década de setenta. Em Cedro-Ce, na minha diocese natal, de Iguatu e na Festa Junina das CEbs,em Manaus-AM, no dia 27 de junho.

Acompanharei em vigília e na Romaria em Santa Cruz da Venerada, diocese de Petrolina, onde estaremos cantando, nos dias 25 e 26 de julho, festejaremos daqui do sertão do nordeste, a nossa comunhão com a celebração final do Inter-ecelsial, nesse coração pulsando alto, desde a Amazônia.

Assim, irmãos e irmãs, com a acolhida e a coordenação pastoral de D.Moacir, com todas as equipes e famílias queridas em Porto Velho, manifesto meu carinho e o canto que o Divino Artista do Universo, me enviou a cantar com todos e todas as artistas da Caminhada: “No olhar a gente a certeza de irmãos,reinado do povo!”

Meu abraço com toda ternura:

Fortaleza- Ceará, 10 de julho de 2009

Zé Vicente

Contato: zvi@uol.com.br

Por Rolando Lazarte

Doutor em sociologia (Universidade de São Paulo). Mestre em sociologia (IUPERJ). Licenciado em sociologia (Universidad Nacional de Cuyo, Mendoza, Argentina). Terapeuta Comunitário. Escritor. Professor aposentado da UFPB. Membro do MISC-PB Movimento Integrado de Saúde Comunitária da Paraíba. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

Uma resposta em “Mensagem aos irmãos e irmãs no 12º das CEBs em Porto Velho”

Membro do grupo Kairós-Nós tamém somos Igreja da Paraíba, apenas posso parabenizar ao irmão Ulisses Willy, do CEBI, por ter socializado tão belo texto do Zé Vicente. A Teologia da Libertação, como Leonardo Boff, Ivone Gebara, Pastor Osmar Ludovico, José Comblin, Alder Julio Ferreira Calado, João da Cruz Fragoso, Romero Venâncio e tantos outros e outras comprovam diariamente, não somente não está morta, como é, ainda, e cada vez mais, uma das ferramentas de recuperação da pessoa humana no contexto nordestino e brasileiro, latino-americano, pois que a sua razão de ser, o seguimento de Jesus em direção à vida plena aqui na terra, ao amor sem barreiras, à fraternidade com tudo o que existe, como São Francisco viveu e lembra no Cântico do Irmão Sol, é a destruição das relações capitalistas de exploração e a sua substituição pela comunhão, a comunidade, a integraçao com tudo que existe. É isto.

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