Maracanã: torcedores estão indignados com a reforma do estádio

Vaiados pelo público, Iphan e Emop participam de audiência no Ministério Público Federal no Rio para esclarecer reforma do Maracanã. Torcedores criticam elitização do estádio e Procurador diz que pode entrar com uma ação para a paralisação das obras…

Mesa composta para a audiência pública no Ministério Público no Rio. Foto: Bianca Mina.

A falta de transparência na realização das obras e a ausência de consulta à população para as decisões foram os principais problemas apontados pela sociedade civil sobre a reforma do Maracanã. O debate acerca do tema foi realizado em audiência pública no Ministério Público Federal (MPF), no Rio de Janeiro, com o auditório lotado, na última quinta-feira (28). O objetivo do evento segundo o Procurador da República, Maurício Andreiuolo, foi apurar a regularidade da autorização do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Iphan) junto a Empresa de Obras Públicas (Emop), responsável pela reforma do estádio. O governo do estado estima que as obras estejam orçadas em aproximadamente R$ 1 bilhão, mais do dobro do projeto inicial. Ao final do evento Maurício declarou que o MPF vai analisar a possibilidade de entrar com uma ação para embargar as obras.
De acordo com o superintendente estadual do Iphan, Carlos Fernando de Souza, o estádio foi tombado em 2000 no livro que visa preservar somente as características etnográficas do patrimônio e elas não serão alteradas com as obras. Souza disse ainda que o debate é tardio, já que a demolição da geral (setor mais popular do Maracanã) para os jogos panamericanos foi muito mais grave que a retirada da cobertura, e afirmou que se os ingressos ficarem mais caros não é por determinação do Iphan.  Para ele, a substituição das marquises pelas lonas tensionadas é uma questão secundária em relação à realização da Copa.
“Ninguém nunca se lembra do Maracanã pela cobertura, lembra por conta dos espetáculos esportivos e da festa da torcida, que efetivamente não estão na cobertura, estavam na arquibancada, estavam na geral. E o uso do bem tombado depende de outras políticas públicas, o ingresso do Maracanã não vai ser de forma alguma determinado pela sua arquitetura. Cumpre-se o que quiser a Fifa e no dia seguinte revertemos. O que vimos aqui foi a gentrificação total do maracanã para atendimento de um órgão que é gentrificador. Ele vem diminuindo há muito tempo a capacidade do estádio. É bacana discutirmos isso agora, mas lamento não termos discutido por que o Iphan não embargou em 2005 para a reforma do Pan”, declarou o superintendente, que à época não estava na cúpula da instituição.
Para o superintendente estadual do Iphan, Carlos Fernando de Souza, o mais importante é a realização da Copa comemorada pelos brasileiros. Foto: Bianca Mina.

A ex-chefe de divisão de Proteção Legal do Iphan, a arquiteta Claudia Girão, que participou do processo de tombamento do estádio, pediu a palavra no auditório e destacou que nesse projeto não há nenhum espaço popular.  Segundo ela, em mais de 20 anos na instituição nunca viu tanta mobilização por um patrimônio cultural, fato que demonstra a importância do Maracanã para a população. Ela criticou a demolição da geral sem consulta popular e afirmou que a essência do estádio não está sendo preservada.
O presidente da Emop, Ícaro Moreno, explicou que a geometria do estádio não será modificada mas grade parte da sua estrutura está condenada e coloca em risco a vida dos torcedores. Em sua justificação técnica para a demolição das marquises do Maracanã, que modificarão sua imagem aérea original que é cartão postal da cidade, Ícaro disse que 3 universidades brasileiras foram chamadas para estudar a estrutura e todas apontaram para a sua demolição. Ele observou ainda que o prazo é curto e o caderno de encargos da Fifa é muito rigoroso.
“Se não tem aprovação da Fifa não entra o pedido, então todo o arcabouço do país está voltado para a Fifa. Eu estou seguindo aquilo rigorosamente, e nós temos data cobrada dia e noite pela imprensa. A questão da cobertura foi uma exigência da Fifa, com esse prazo não dá pra fazer esse tipo de concreto e você fica fora da norma deles. Mas cobrir 90% dos usuários da chuva eu acho positivo, é agregar valor”, explicou Moreno.
Torcedores, intelectuais e especialistas criticam as obras

Sonia Rabello, vereadora do PV-RJ, e o economista Carlos Lessa se posicionaram contra a elitização do estádio. Foto: Divulgação.

O economista Carlos Lessa, conhecido por suas posições nacionalistas, observou que o Maracanã é “indiscutivelmente uma relíquia do povo brasileiro”. Para ele, alterar sua estrutura é, em termos históricos e de simbolismo, como se quisessem reformar o Coliseu na Itália. Defendendo o estádio com o conceito de relíquia patrimonial de uma sociedade, Lessa ressaltou que o povão não pode ficar sem esse espaço democrático onde ocorre a “sociabilidade” e um “ritual de nossa cultura”.
“A relíquia faz parte de uma identidade nacional e é um dado para o futuro. A saúde de uma sociedade passa pela relíquia. Sua forma e funcionalidade têm que ser preservados. Na geral era onde estava a presença do povo”, observou o intelectual.
Além da descaracterização do espaço, os torcedores estão muito preocupados com a elitização do Maracanã. Foram muitas as críticas feitas pelos participantes, algumas delas expostas num documento lido pela Frente Nacional de Torcedores durante o evento: o estádio foi pensado para a democratização do esporte e eixo da identidade nacional, e a manifestação cultural dos torcedores está cada vez mais sem espaço; queremos um “maraca” sem setores privilegiados e sem cara de shopping center; o estádio não pode ser privatizado com dinheiro público; não se sabia na época do Pan que éramos candidatos para a Copa? As obras realizadas há 3 anos estão sendo demolidas;  depois de 50 anos sem obras, em 11 anos foram realizadas 4 reformas; o Brasil tem o melhor futebol e torcida, e sua cultura futebolística deve ser preservada; etc.
Pedaços originais do estádio que estão sendo entregues a personalidades e foram criticados durante a audiência. Foto: Divulgação.

“Estão pasteurizando o modo de torcer, eu não vou ver o jogo sentado! Tudo isso faz parte de uma cultura, que não pode ser banalizada. A Suíça torce de uma maneira, o Brasil de outra. A geral não era para ser acabada, foi o primeiro ferimento no Maracanã que hoje está ferido como jamais o feriram. Ontem eu vi que está tudo esburacado. O mínimo que tem que fazer pelo torcedor e o público carioca é interromper essas obras e sentar e conversar. Para quê 110 camarotes? As melhores autoridades são as que frequentam o Maracanã, e todo mundo sabe que esse processo de elitização já começou tem tempo e tem como parar, não é fato consumado. Original ele não vai ser mais, mas pelo menos poderiam tentar fazer o mais próximo que o torcedor quer”, criticou Flavio Vilela, estudante de 26 anos que vai desde sua infância ao estádio e hoje representa uma torcida organizada na zona sul do Rio.
Aproveitando as manifestações dos torcedores dois setores da sociedade vieram expor suas situações: os vendedores ambulantes e indígenas. Estes por causa do antigo Museu do Índio colado ao estádio, que apesar de centenário e seu valor simbólico e histórico se encontra em ruínas, ocupado por alguns etnias indígenas que reivindicam o espaço para uma universidade para os nativos. Os ambulantes, por sua vez, denunciaram que desde o início das obras estão desempregados e não veem nenhuma política dentro do projeto para empregar esses trabalhadores depois da reforma do estádio.
A vereadora Silvia Rabello (PV-RJ) disse que não concorda com que a Fifa mande em nossa cidade e frisou a falta de participação social nesse processo. A falta de transparência dos órgãos públicos também foi apontada pela vereadora, que tem vasta experiência na gestão pública de proteção do patrimônio cultural e é autora de livros técnicos sobre o assunto.
“Esses eventos estão quase todos com dinheiro público e em sacrifício do patrimônio cultural. Afinal de contas o que a Fifa quer, aonde e em que extensão? E o custo disso tudo? Tombamento quer dizer preservação do objeto. Pode haver modificação, mas não descaracterização. Os órgão públicos têm que ser ouvidos e suas decisões publicadas de forma clara para que a população possa recorrer legitimamente. Não houve transparência e fundamento claro nas decisões”, afirmou.