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Lula: “Não se pode governar sem ouvir o povo brasileiro”

Para erradicar a fome, gerar renda e emprego, petista defende retomada de diálogo nacional: “A sociedade está ávida a participar da governança”, afirmou Lula, em entrevista a youtubers e mídia independente

Com o Estado praticamente reduzido a pó na sua capacidade de fomentar o desenvolvimento com inclusão social, o Brasil precisa agora articular um amplo movimento de reconstrução nacional. Para recuperar a democracia atacada pelo bolsonarismo, é necessária a retomada de uma plataforma de diálogo que envolva todos os segmentos da sociedade, defende o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em uma longa entrevista para youtubers e jornalistas da mídia independente, nesta terça-feira (26), Lula argumentou que o caminho de volta à cidadania passa por um aprofundamento dessas plataformas, popularizadas nos governos petistas pela Democracia Participativa e capazes de mudar o país, como nas gestões dele e de Dilma Rousseff.

Segundo Lula, o desmonte das estruturas do país foi agravado por Bolsonaro e apenas um governo de união nacional será capaz de implementar políticas para combater a fome, com crescimento econômico, renda e emprego. “A sociedade está ávida a participar do processo, não apenas para ganhar uma eleição, mas para ajudar na governança desse país, participando das principais decisões”, disse, entusiasmado. “É preciso acabar com a tese que se pode governar sem ouvir o povo brasileiro. É preciso criar mecanismos em que a sociedade organizada, através das suas entidades e organizações, possa dizer como quer as coisas”, defendeu.

 

Na conversa, Lula explicou que o modelo de consulta sobre os principais temas do país começou a ser testada pelo partido no início da década de 80, por meio do orçamento participativo municipal. Ampliada para a esfera federal, o mecanismo seria, inclusive um antídoto ao orçamento secreto de Bolsonaro.

“Nós não conseguimos criar o orçamento participativo no primeiro período do nosso governo, mas criamos a chamada democracia participativa”, explicou Lula. “O que era isso? A gente conseguia fazer conferências municipais, estaduais e nacionais, em que vários setores da sociedade diziam como e o que queriam”, apontou.

Lula lembrou das primeiras experiências com o modelo, em 1982. “Era o povo que dizia, se ele queria uma rua, uma escola, uma praça, uma creche. A ONU adotou inclusive o orçamento participativo como um modelo para os países em desenvolvimento”, disse Lula.

“Foi assim na questão da política nacional de saúde da pessoa com deficiência, em 2003,  na política nacional de educação especial, na perspectiva da educação inclusiva, em 2007, no programa brasileiro de acessibilidade urbana, em 2008”, enumerou Lula, citando várias áreas de atuação do governo, cujos conselhos foram desmontados por Bolsonaro, a exemplo do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea).

“Bolsonaro nunca se reuniu com ninguém, ele vive da mentira que ele criou”, criticou Lula. “Estamos tentando criar um movimento hora restabelecer a democracia. Esse país precisa ser cuidado, nossa floresta tem de ser cuidada, nossa água, nossas riquezas minerais, nossos índios, o povo negro, nossas mulheres têm de ser respeitadas. Ou seja, [precisamos] de um governo com o mínimo de tradição humanista, democrática, que tenha sentimento de fraternidade e solidariedade, palavras que o atual governo não quer ter relação”, lamentou.

Fome e recuperação

Lula detalhou que a missão de recuperar o país não será uma tarefa fácil, dado o tamanho da crise pós-golpe, mas fez questão de assegurar que o PT sabe como fazê-lo. “O Brasil esta numa situação econômica muito difícil, acho que o Brasil estará mais quebrado que o de 2003, teremos mais inflação, mais desemprego, menos massa salarial, menos aumento de salário mínimo, temos muito menos credibilidade interna e externa e uma coisa mais grave, o desmonte das coisas que funcionavam no Brasil”, enfatizou.

“A carne está proibida para uma grande parcela do povo brasileiro, está tudo caro. O salário cada vez menor, cada vez se ganha menos, há uma informalidade muito grande, tentam passar a ideia de que entregador de comida é empreendedor, são pessoas que foram levadas a acreditar em uma forma de emprego que os tornam praticamente escravo e um patrão que ele não conhece”, alertou.

 

Desigualdade

“A desigualdade não é um fenômeno da natureza, mas da incapacidade das pessoas que governam o país de cuidar do povo como ele merece. Temos fome, não pela falta de produção de alimento, mas pela falta de recursos para as pessoas comprarem o que comer”, justificou.

“Nós precisamos convencer a sociedade brasileira de que não não precisamos ter ninguém dormindo na sarjeta, embaixo de uma ponte. Isso não é bom para a classe média, não é bom para o povo mais rico”, opinou Lula.

“Tenho dito, sem bravata: é preciso incluir o povo pobre no Orçamento da União e o rico no imposto de renda. Quando estiverem pagando imposto justo, de acordo com o que ganham, pagando sobre lucros e dividendos, podemos ter mais recursos para aplicar em mais políticas públicas, sociais, de investimento em educação e saúde”, emendou.

Lula criticou o que considera “a falta de um olhar humano” dos países mais ricos sobre os mais pobres, em especial diante de mais de 900 milhões de famintos. “Se a Declaração Universal dos Direitos da ONU, se nossa Constituição diz que todos têm direito de comer, temos de garantir. Já provamos que é possível, e tenho dito sempre: não é possível que o Brasil, terceiro produtor de alimentos no mundo tenha gente com fome, que seja o maior produtor de proteína animal e tenha pessoas correndo atrás de carcaça de frango, de osso”.

“Se quando eu terminar meu mandato, cada brasileiro esteve tomando café, almoçando e jantando, eu terei realizado a obra da minha vida. É possível acabar com a fome no planeta, é possível que nenhuma criança morra de desnutrição”, garantiu.

Petrobras e Eletrobras

“Tudo o que eles querem fazer no Brasil é vender”, reclamou Lula. “Querem vender a Petrobras, que não é apenas uma empresa de petróleo, mas uma extraordinária empresa de investimento em pesquisa. Quando aprovamos fazer plataforma, sonda e navio, aprovamos uma lei que [estabelecia] que 65% dos componentes tinham de ser nacionais. Para quê? Para a gente produzir aqui, gerar emprego aqui. Eles acabaram com isso”.

“Por que o preço da gasolina está tão caro? Porque acabaram com a BR e temos quase 400 empresas importando gasolina dos EUA. Importando em dólar, livre de pagamento de imposto. É por isso que o preço está R$ 7, R$ 8 em vários lugares. Não existe nenhuma explicação para os preços da gasolina serem em dólar”, demonstrou Lula.

“Se a Eletrobras for privatizada, você não tem como fazer um programa como o Luz para Todos, porque não tem nenhuma empresa que queira ser socialista a ponto de querer levar luz de graça para as pessoas”. Lula lembrou dos investimentos das gestões petistas no programa, da ordem de R$ 20 bilhões.

Pandemia, papel do SUS e teto de gastos

Lula se solidarizou com as famílias das vítimas da Covid-19 e voltou a condenar a atuação letal do governo na crise. “Bolsonaro deve ser responsabilizado por menos metade das mortes nesse país. Ele não respeitou cientistas, médicos, o SUS, os laboratórios brasileiros”.

O petista também reforçou a importância da atuação do Sistema Único de Saúde (SUS), a despeito do subfinanciamento causado pelo Teto de Gastos de Temer e Bolsonaro. “A história não termina com o fim da pandemia, esse país sempre foi respeitado por sua capacidade de vacinação. Vamos ter de tratar, se voltarmos, a questão da saúde como prioritária. Tiraram 12 mil médicos do Mais Médicos, que estavam nos ligares mais longínquos, atendendo pessoas que antes não conseguiam médicos por muito anos”.

Sobre o teto, foi taxativo: “Não aceitamos a lei do teto de gastos, que foi feito para garantir que os banqueiros tivesse o deles no final do ano. Queremos garantir que o povo tenha o seu todo dia, todo mês e todo ano. Fazer política social não é gasto, é investimento”, insistiu Lula, adiantando que, em um novo governo seu, “a Saúde terá um capítulo especial, um tema que será levado à sério”.

 

Geração de empregos

Lula apontou para medidas cruciais adotadas nos governos do PT e que tiraram 36 milhões de pessoas da extrema pobreza e geraram mais de 22 milhões de empregos formais. E apontou para os desafios do trabalho na era digital. “Quero fazer mais. Como vamos gerar mais empregos?”, questionou. “Não vamos gerar como nos anos 80, porque a política industrial brasileira, que tinha 30% do PIB nacional, só tem 11% hoje. Uma indústria como a Wolksvagen, que no meu tempo de metalúrgico, tinha 44 mil trabalhadores, hoje só tem 7 mil. A Ford foi embora, a Toyota mudou não sei para onde”, comparou.

O petista provocou os participantes, afirmando que a sociedade precisa debater que tipo de modelo quer no país. “Qual é o novo mercado de trabalho? Qual o emprego vamos oferecer para a juventude, que dissemos que tinha de estudar para vencer na vida? A gente quer qualificá-los melhor. Mas para qual emprego? Trabalhar com uma bicicleta no iFood?”, indagou.

Para Lula, se o brasileiro sonha em ser empreendedor, é preciso dar condições reais e dignas para o sonho de um pequeno negócio e esse caminho não passa pelo atual modelo dos aplicativos. “Precisamos ter uma forte política em defesa do empreendedorismo no país. O Estado tem que dar oportunidade. O cara que montar uma loja, uma pizzaria.. é preciso criar condições, ter crédito”, sugeriu.

“Se tem uma coisa que o povo quer é viver bem. Todo ser  humano gosta de se vestir bem, comer bem, dormir bem. Esse é papel do Estado, garantir, não é luxo, é tornar a sociedade mais igualitária”.

Ser candidato

Lula falou que se for para ganhar a eleição, terá de ser para fazer mais e melhor do que em gestões anteriores. “Só existe um motivo para disputar uma eleição presidencial, é a crença de que podemos consertar esse país, de que podemos restabelecer a harmonia entre os Entes da Federação, na relação com o empresariado, com governantes de outros países, de que a sociedade vai ajudar a reconstruir o país”, conclamou.

“Tenho uma missão, que é provar que o país pode voltar a crescer, com política de transferencia de renda. Temo de gerar emprego de todas as formas possíveis”, observou o petista, citando algumas medidas urgentes, caso chegue à Presidência.

Um novo Brasil

“A primeira coisa a fazer será reunir os 27 governadores e estabelecer o que iremos fazer em obras de infraestrutura, retomar obras paralisadas e fazer as que precisam ser feitas”, disse Lula.  “Tudo na perspectiva de gerar empregos e renda. Se a economia começar a crescer, se as pessoas começaram a ter credibilidade, se começar a voltar investimento externo, não de venda de estatal, mas para construir o que a gente não tem, dá certo”.

“Ninguém pode falar que o PT não tem responsabilidade fiscal, que não cuida das coisas. Quando chegamos no governo, em 2003, o país tinha US$ 30 bilhões de dívida. Nós pagamos e fizemos uma reserva que hoje está em US$ 370 bilhões, que é o que tem salvado o país desde que deixamos o governo”, pontuou. “E fizemos tudo isso com a maior política de inclusão social que esse país já conheceu”.

Juventude

Lula discorreu ainda sobre a importância do voto da juventude de como a política é o único instrumento capaz de transformar a realidade. “Ao invés de desistir e fazer biquinho, vá fazer política, vá defender suas ideias, vá para o debate. Assim você vai construir o novo político, não é se afastando”, provocou Lula.

“Acho que temos tido um apoio considerável da juventude. Acho que jovens de até 26, 28 anos, têm tido uma participação muito grande no compartilhamento das coisas que queremos discutir”, comentou.

“Temos de continuar falando mais. Essa é uma eleição em que a mulher tem um peso excepcional, Não só porque é maioria, mas porque está sendo empoderada para muitas coisas, temos que trabalhar com carinho a questão da mulher e da família, e a questão da juventude. Se o jovem é futuro na nação, vamos tentar fazê-lo participar desde cedo, temos de conversar muito com essa juventude”.

“Essa é a nova tarefa. Por isso é que no PT tentamos fazer uma campanha para as pessoas tirarem o título e começar a votar.

Fonte: PT

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