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Lições de um ofício

Creio já ter me referido em outras oportunidades, ao quanto tenho colhido de bons frutos, nesta tarefa de escrever, partilhando descobertas e sentires, experiências e reflexões. Não sei se conseguirei agora resumir estes benefícios. Apenas gostaria de me referir a um deles, em especial. A certeza de estar cumprindo com uma atividade útil, de estar fazendo algo que é bom para mim e para outras pessoas também.

Os comentários de quem lê o que escrevo, tem ido me ajudando a me recuperar como pessoa, a me ter de volta, a ser mais eu mesmo, a descobrir que tenho um lugar no espaço e no tempo. Que a minha vida vale a pena. Uma palavra bem dita, que chega a uma pessoa na hora certa, faz um bem enorme. Eu tenho me beneficiado de muitas leituras, agora é a minha vez de colaborar com outras pessoas que vem se buscando na leitura.

De repente você descobre que esse seu lugar no mundo é um lugar que você mesmo foi criando, em diálogos com outras pessoas, consigo mesmo ou consigo mesma, com o seu passado, com seus sonhos, com as suas dores e esperanças, com a vida na sua infinita inextinguibilidade. Dias atrás percebi — o que me consolou muito — que somos, como seres humanos, uma continuidade indissociável.

Em nós se perpetuam sonhos e trabalhos de seres queridos que em nós vivem, e que por nós prosseguem uma atividade construtiva e positiva pelo bem comum. Tenho encontrado no campo da palavra um espaço de auto-descoberta, de crescimento e de partilha, inesgotáveis. É como um manancial que não para de jorrar, dentro de si e no mundo ao redor.

Pois ao você ir partilhando o que vê, o que sente, mesmo que sejam experiências aparentemente anódinas do cotidiano, há um espelhamento em quem lê o que você escreve. Alguém se vê nas suas palavras, e lhe devolve (ou não) o seu reflexo. E nesse ricochetear de percepções e visões, cria-se, ou torna-se evidente, a unidade do gênero humano. Um espaço coletivo em que todos e todas respiramos e tentamos, de diversas formas, e muitas vezes em confronto, viver a nossa vida.

Ao escrevermos e partilharmos o que escrevemos, se desfaz o isolamento, a estranheza, o mundo torna-se mais familiar, e cria-se como que um espaço de refazimento, de comunhão, em que não é necessário pensar igual ou sentir igual à outra pessoa. Basta soltar um pouco uma certa noção de separatividade que possa ter-se ido infiltrando em nossas vidas, e poder perceber, num lento diluir-nos com o entorno e com os demais, o quanto há de nos ali fora, o quanto desse mundo que vemos e no qual vivemos, há dentro de cada um, de cada uma de nós.

Por Rolando Lazarte

Escritor. Sociólogo. Terapeuta Comunitário formador. Membro do MISC-PB Movimento Integrado de Saúde Comunitária da Paraíba. Professor aposentado da UFPB. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

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2 respostas em “Lições de um ofício”

Primeiro mandamento do Terapeuta Comunitário se ouvir, se sentir, se perceber para ouvir o outro, perceber o outro, sentir o outro.
Tenho acompanhado quietinha suas publicações e vibrado cada dia mais. Você tem seguido este mandamento de se acolher e acolher o outro, nós não temos outra saída a não ser nos amarmos e amarmos o outro, isto é saúde mental, a pulsação natural da vida.
Grata pelo contato consigo e pelo transbordamento de sentimentos e sensações. Grata mesmo, tenho aprendido bastante.

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