Jornal comunitário é como um filho coletivo, diz o venezuelano Gustavo Pérez

“A favela e o cotidiano são nossa universidade. O que sabemos pode nos formar em comunicadores”, disse Gustavo Jesús Borges Pérez, colaborador de alguns meios comunitários na Venezuela…

“A favela e o cotidiano são nossa universidade. O que sabemos pode nos formar em comunicadores”, disse Gustavo Jesús Borges Pérez, colaborador de alguns meios comunitários na Venezuela. Gustavo tem experiência de formação em comunicação comunitária no país e é responsável pelo site el23.net. Ele esteve no dia 27 de outubro, na Universidade Federal do Rio de Janeiro e ministrou a oficina “Apropriação popular da comunicação”. A oficina fez parte da programação do IV Festival de Tecnologias Sociais e Economia Solidária o Núcleo de Solidariedade Técnica (SOLTEC/UFRJ), que aconteceu de 26 a 28 de outubro no Rio.
Em diálogo aberto, com intervenções e questionamentos dos participantes a todo tempo, Gustavo falou sobre as peculiaridades da comunicação comunitária, do poder que é comunicar e traçou um cenário resumido da comunicação alternativa e comunitária na Venezuela. Gustavo afirmou que aqueles que dirigem os meios de comunicação dirigem o poder. “Quem maneja os códigos de comunicação domina. Se nós queremos recuperar nosso próprio código de comunicação, o que nos identifica, o que nos faz iguais, temos que começar a pensar nisso”, disse. Ele entende os jornais alternativos e jornais militantes como importantes trincheiras de luta, mas focou sua exposição nos meios de comunicação comunitários, que para ele são como um filho coletivo da comunidade.
“Um jornal comunitário não pode ser imposto de uma só vez, tem que começar sem já estar pronto e se desenvolver através das mãos da comunidade, junto com ela. Assim a comunidade vai financiá-lo. É mesmo como um filho”, disse. Deixando claro que para que um jornal comunitário exista não é necessária apenas a parte técnica, com redatores e diagramadores, Gustavo ressaltou que toda a comunidade deve fazer parte do jornal. Os moradores devem contribuir contando histórias, distribuindo o jornal, pequenos comércios locais podem ser anunciantes. Sobre a linguagem, Gustavo disse que é preciso escrever como falamos, “escrever da forma como nos reconhecemos na comunidade e não como aprendemos na universidade”. Questionado se concordava ou não se a equipe de um jornal comunitário deveria receber salário, Gustavo foi firme: “Se há um esforço coletivo, é antinatural que a equipe promotora receba salário”.
O caso da Venezuela
Gustavo sustentou que os poderosos codificaram a comunicação de uma maneira que lhes permite dominar, mas que na Venezuela, recentemente teve início um processo de decodificação destes códigos que o poder hegemônico comunicacional tinha imposto. “O mais interessante é que quem começou a fazer essa decodificação não foram os acadêmicos ou os grandes pensadores da comunicação: foi o povo. É o povo que está tendo um papel protagonista”, ressaltou.
Segundo ele, a Venezuela tem hoje cerca de 800 meios de comunicação alternativos entre rádios, TVs e jornais impressos. Tudo isso sem contar com iniciativas na internet. “Antes de Chávez, a política era de repressão e hoje há um grande espaço para estes meios”. Apesar disso, Gustavo vê este cenário com desconfiança. “Há algo ainda mais perigoso que a repressão: a armadilha da institucionalização”, ressaltou, alegando que é muito difícil manter uma comunicação realmente livre desta forma. “Com o financiamento estatal vem a tutela e muitas vezes o meio deixa de ser uma trincheira de luta”, explicou.
(*) Matéria reproduzida da página do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC).

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