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“Jesus hoje certamente seria considerado por muitos um subversivo, esquerdopata”, diz Ismael Souza, pastor evangélico e professor de Jiu-Jitsu

Existem pessoas que se posicionam à esquerda, mas que não são, não sabem o que é e acabam trazendo prejuízos ao próprio ideal. De forma inadequada, se apropriaram do suposto discurso para oprimir, e isso também é inadmissível.

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Por Paulo Branco Filho e Eduardo Sà (*)
Ismael Souza é professor de Jiu-Jitsu, campeão de Vale Tudo e pastor Evangélico. Foi um dos mais jovens a receber a faixa preta da modalidade, contribuindo para tornar sua família a segunda maior do mundo em número de faixas pretas da Arte Suave. Entrou no hall dos lutadores com feitos eternizados: foi o único representante do Jiu-Jitsu a sagrar-se campeão do circuito do IVC (International Vale Tudo Championship). Além disso, possui mais de 250 títulos no Jiu-Jitsu. Após uma grave lesão afastou-se das competições e hoje atua como professor e presidente da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Profissional. Formado em educação física, filosofia e em teologia,  o lutador e pastor é mais um a quebrar paradigmas: posiciona-se contra a onda antidemocrática que se instala no país e, principalmente, ao uso de uma religião deformada como instrumento político.
Conte sua trajetória na luta e por que você começou a praticar Jiu-Jitsu?
Minha ligação com a luta surge por intermédio dos meus irmãos. Lá em casa somos seis, e os três mais velhos praticavam Jiu-Jitsu. Desde a primeira aula que assisti me identifiquei, foi amor à primeira vista. Juntando os irmãos, sobrinhos e primos, hoje constituímos a segunda maior família do mundo em número de praticantes. Antes do primeiro treinamento, como precisava aguardar a chegada do kimono, ficava em casa treinando sozinho. Tinha a tradição de não se ensinar em casa nos anos 1980, mas eu sempre ficava observando e buscava nos livros de Judô e Jiu-Jitsu. Treinava as quedas na janela, amarrava faixas na porta e no meu primeiro dia na academia eu finalizei todos os faixas branca, amarela, só um laranja conseguiu segurar a onda.
Conte como foi ser o único representante do Jiu-Jitsu a vencer o IVC? 

Ismael Souza com o cinturão do evento IVC.

O IVC foi um dos maiores eventos de Vale Tudo da década de 90 até o início de 2000. Era um evento com regras bem severas, com apenas um round de 30 minutos, sem luvas. O ambiente era muito hostil. Era muito difícil para um lutador de Jiu-Jitsu ter êxito, pelo fato de os juízes permitirem muito pouco a luta se desenvolver no solo. Isso favorecia os praticantes de luta em pé. Consegui, no IVC 12, ganhar três lutas numa mesma noite. Até hoje sou o único faixa preta de Jiu-Jitsu a vencer o circuito de um dos eventos mais temidos da história do Vale Tudo.
E a relação com a religião, de onde vem isso? 
Minha mãe é evangélica e isso se tornou um referencial muito forte na família. Na adolescência me desconectei do mundo religioso, até porque o Jiu-Jitsu tomou a minha adolescência toda e a igreja, na época, possuía muito pouca estrutura para receber os adolescentes. No início da idade adulta comecei a fazer alguns questionamentos, a perceber a necessidade de um autoconhecimento, a busca do porquê do mundo, da existência, e acabei retornando ao Evangelho. Era muito notório na família, sempre utilizar a oração pelo o bem do próximo e crescimento pessoal. Antes mesmo de chegar ao seminário tive uma busca muito ampla, investigando as múltiplas religiões existentes na nossa cultura e me encontrei no Evangelho. Após longa caminhada de seminário e faculdade fui levado à condição de poder exercer a vocação pastoral cumprindo todos os pré-requisitos e ritos solicitados pela igreja. Uma fase sensacional, com muitas experiências e aprendizagem.
A dominação econômica e social sempre encontrou no discurso religioso uma maneira de consolidar suas bases. Isso no Brasil tem sido fatal. Há uma legião de oprimidos carregando o discurso opressor.  Você concorda com isso?
Sim. A política incoerente dentro da religião é algo extremamente nocivo. Isso já se mostrou no decorrer dos séculos, quando a religião tenta manipular, colocar os seus princípios como os que deveriam ser assumidos pela política. E toda a história da humanidade já mostrou que essa união, que essa tentativa do poder religioso usurpar o poder político e se favorecer, em qualquer lugar é negativo. No Brasil temos um panorama muito ruim, porque a teologia protestante, evangélica, dentre outras, que aqui tomou espaço é de matriz norte-americana fundamentalista, isto é, com grande dificuldade de interpretar os textos bíblicos. Neste tipo de teologia mais vale a letra que a vida, mais vale a doutrina do que a existência. O discurso que a Bíblia possui sobre justiça social, igualdade e equidade entre os pares é podada por esta linha teológica. Chegou sem essas características. É uma matriz fundamentalista que diz que a sociedade tem que se enquadrar no seu discurso, e isso é totalmente anticristão. Isso que falo não tem força dentro dessas linhas evangélicas, por uma série de fatores.  Primeiro pela má formação teológica, porque os principais líderes evangélicos do Brasil, principais no sentido de captar pessoas, não possuem a mínima formação plausível. E também, logicamente, não é do interesse deles instrumentalizar o povo para um adequado entendimento.  Muitos deles usam um discurso satânico e o membro não consegue identificar o poder prejudicial desse discurso. Em segundo lugar pelo fato do ego de muitas pessoas rejeitarem o ensino que desvenda a alienação e manipulação que elas sofrem. Não são todos que conseguem ser confrontados com a verdade. Em terceiro lugar existe o fator social. A pessoa se encontra inserida há anos nesse meio e todas as suas interações sociais se encontram nele, seus amigos, as festas, os passeios, etc. e ela não consegue abrir mão disso.
A religião fala muito em salvação. E junto com o discurso de salvação vendem uma gama de comportamentos e crenças que devem ser seguidas cegamente evitando o pensamento crítico e normalizando a repetição de preconceitos. Como manter a fé, desviando da parte que paralisa e violenta a diferença?
Temos os que identificam as incongruências desse discurso e temos os que foram catequizadas nessa linha que fortalece as diferenças sociais, o racismo, a intolerância e não conseguem perceber. A consciência deles está tranquila, porque não conseguem enxergar outro caminho. Aquele foi o mundo ensinado. O nível de escuridão é tão grande que eles vivem a fé crendo que é uma fé plausível, sem perceberem que os princípios defendidos não conseguem ter efeito nenhum dentro da sociedade para diminuir as diferenças e para desenvolver o próprio ser humano. A alienação e a manipulação são capazes de fazer com que o ouvinte não enxergue o óbvio. Aqui se aplica e se comprova a atualidade descrita no Mito da Caverna, de Platão, onde os que acreditam que as sombras projetadas na parede da caverna são a única verdade possível, desacreditando daquele que saiu da Caverna e que ao retornar anunciou o engano de pensar que as sombras projetadas fossem a verdade plena. O drama fica por conta dos que conseguem enxergar. Quem possui sua fé fundamentada nos Evangelhos consegue viver esta fé de forma coerente, dentro dos princípios cristãos, mesmo entendendo que esse outro lado de escuridão e sombras é predominante no Brasil.
O protestantismo valoriza muito o trabalho, a produtividade e a disciplina. Foi aditivo no motor capitalista. No meio da luta fala-se muito de meritocracia. Ambos produzem soldados perfeitos para seguir a determinação da classe dominante, que hoje prega ódio, ditadura, liberação de armas, fim de direitos. Como combater o desastre no meio?
Ismael tem seu braço erguido após vencer o terceiro e último combate, no circuito IVC.

É difícil desconstruir esse discurso em pouco tempo. Passa pelo debate das ideias e uma série de pressupostos que a pessoa tem que estar disposta a querer compreender. Em um país com tamanha desigualdade, o termo meritocracia é muito infeliz. O esporte pode até induzir a questão do mérito. Talvez o lutador esteja comprando este discurso por confundir meritocracia no sentido político, socioeconômico com os méritos do esforço que se faz para atingir o pódio, vencer uma luta. Mas por outro lado, esquece que há pessoas que não possuem as mínimas condições para atingir um resultado razoável, onde parte da população morre prematuramente numa guerra civil, onde há trabalho escravo e famílias inteiras morando em lixões. Antes de falarmos de meritocracia precisamos falar de políticas humanitárias e de humanidade. Se eu busco uma verdade, uma coerência, uma justiça, não há nada de errado eu perceber a fragilidade do meu discurso. A grande questão é que a nossa educação nunca foi baseada na possibilidade de cada um atingir o autoconhecimento e o conhecimento do mundo. Somos catequizados a obedecer aos discursos dominantes. E a partir dali, ele acredita estar pronto para emitir juízo, debater, acreditando que as próprias ideias estão corretas. Esse é o princípio do desastre. E isso, apesar de simples e notório, dificilmente é compreendido tanto no protestantismo quando no meio da luta. Nós sabemos que o Jiu-Jitsu possui uma filosofia, mas essa filosofia nem todo mundo consegue aprender. Ela é mediada por um professor e o aluno recebe essas orientações. Se esse professor não tem condições de transmitir a própria filosofia esportiva que vai contra toda essa alienação, então ele se torna uma ferramenta que dá força ao discurso opressor. Eles, a exemplo dos líderes religiosos no tempo de Jesus, preferem defender seus interesses pessoais dialogando com o poder político do que andar no meio do povo vendo e reconhecendo suas verdadeiras necessidades, como fez Jesus.
Você foi idealizador do projeto “Lute e Coexista”, que promovia a filosofia esportiva e a paz nas religiões. Conte sobre isso.
Esse projeto parte do princípio que todos temos que coexistir, ou seja, existir juntos, mesmo que venhamos a pensar diferente. Coexistir não significa aceitar tudo do outro, significa coexistir pacificamente. Eu preciso me relacionar com quem é de uma religião diferente da minha, entender o que essa religião trouxe de benefícios para o outro e os caminhos que o levou a essa compreensão. O objetivo do projeto era fazer o sujeito respeitar o esporte do outro e a religião do outro. Toda religião e esporte que zele para o bem do ser humano devem ser respeitados, a questão sempre será entender o que é o bem.
Você tem se posicionado nas redes sociais contra esse movimento negacionista, racista, classista e, principalmente, aos pastores vendilhões da fé. Como tem sido conviver com as críticas?  
Na capa de revista: reconhecimento por muitos títulos no Jiu-Jitsu e um triunfo no Vale Tudo.

O meio evangélico brasileiro é muito intolerante a quem se posiciona de forma diferente. Com alguns pastores é impossível a convivência. Há os que pregam uma mentira, sabendo que é mentira, para o seu benefício próprio. Há os pastores sem formação teológica que compraram um discurso e passam ele para frente acreditando que é verdade, porque ele não tem a mínima condição de identificar a mentira que está pregando. Conheço pessoas boas, que não querem vender a fé, mas que não percebem que o seu discurso é uma venda de Jesus. Jesus virou uma forma de atingir a prosperidade financeira, é a pedra de toque do emergente e sonho de consumo dos desfavorecidos vítimas deste discurso. Por outro lado, há aqueles que são mau caráter mesmo, como existe em qualquer lugar. Os pastores midiáticos, por exemplo, sempre irão fazer ação social. O seu discurso precisa ser legitimado, mais ou menos como o marketing verde de algumas empresas que destroem a natureza. Então, toda vez que alguém identifica ou denuncia a incoerência, sempre tem alguém que vai abrandar e amaciar essa ação anticristã por algum feito realizado. Com relação ao racismo e a intolerância, há um processo cultural de amaciamento de todas as vertentes e nuances do racismo. Nenhum ser humano em plena consciência vai aceitar contribuir para um charlatão, a pessoa sempre vai querer criar um discurso para se sentir em paz, para que ele se sinta fazendo algo de bom. Ainda que o discurso que se ouve seja anticristão.
Em 1964 o golpe militar contou com o apoio de grande parte da Igreja Católica. Atualmente parte dos Evangélicos apoiam figuras que atentam contra a democracia. No golpe militar de 64 setores católicos fizeram oposição. Há setores evangélicos que se opõem ao avanço das quebras constitucionais?
Sim, há um grupo expressivo. Há setores evangélicos sensacionais. Os pastores que são contra a uma possível quebra constitucional são os mesmos que possuem o discurso alinhado ao Evangelho. Pelo discurso contundente acabam sem tanta entrada no próprio meio, e também pela dor que o discurso deles promove aos ouvidos dos que estão alheios a mensagem de Jesus.
Enquanto pastor, onde você acha que a esquerda erra no diálogo com setor?
Todo posicionamento extremista possui suas dificuldades de ganhar campo, é um processo lento até se tornar dominante. No Brasil, os de extrema direita ganham terreno porque atualmente são dominantes, de uma classe social que tenta sempre se manter no poder. A esquerda deve continuar a mobilização de pessoas com seu discurso de igualdade social, desenvolvimento humano, evitando a ideia da violência e se caracterizando verdadeiramente como esquerda, com ideias a favor dos desfavorecidos, oprimidos, contra os privilégios. Existem pessoas que se posicionam à esquerda, mas que não são, não sabem o que é e acabam trazendo prejuízos ao próprio ideal. De forma inadequada, se apropriaram do suposto discurso para oprimir, e isso também é inadmissível. E também foi vendido que a esquerda promove ideais nocivos à sociedade, tornando quase impossível alguém despolitizado compreender quais são os verdadeiros ideias da esquerda. Enquanto a extrema direita apontar que as minorias são nocivas e esse discurso for aceito no meio da religião, a esquerda terá um longo tempo para desconstruir. Outra questão relaciona-se a alguns grupos identitários que fogem da proposta de atingir o reconhecimento e respeito da sociedade. Eles enveredaram pelo caminho de vilipendiar símbolos sagrados, atacar os demais setores da sociedade com comportamentos agressivos, impositivos, dentre outras coisas. Estes grupos rapidamente, independentemente de suas associações políticas, são identificados como militantes de esquerda. Diante deste comportamento, qualquer cidadão que discorde desta postura se descreverá como de direita e conservador, mesmos sem saber o significado e posicionamento destes termos. Com certeza, isso contribuiu negativamente e trouxe severos prejuízos para a esquerda.
Cite um livro, filme ou figura que influenciou seu pensamento político.
Jesus Cristo. Ele e seus princípios são os meus referenciais de vivência, filosóficos e políticos, que consegue nos ensinar sobre a estrutura de prevaricação do poder religioso e político para usurpar o que é do povo. Diante da contundência de seus ensinos e ações Jesus foi acusado pelos líderes religiosos de seu tempo de ter envolvimento com poderes satânicos, agindo pela força de Belzebu. Foi acusado de embusteiro, subversivo, perverso, além de iludir as pessoas. Entre o próprio povo havia dissensão a respeito de Jesus. E os religiosos acusavam de ser maldita a multidão que acolhia Jesus e seus ensinos. Tudo isso por Jesus estar ao lado das necessidades do povo e por expor as estruturas religiosas de alienação, dominação e o envolvimento destas estruturas com o poder político em busca de benefícios. Jesus hoje certamente seria considerado por muitos um subversivo, um esquerdopata.
Fotos: Arquivo pessoal do entrevistado
(*) Paulo Branco Filho é professor de artes marciais e cronista e Eduardo Sá é jornalista
 
 
 

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