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Irmã Soledade

Às vezes, a solidião fica pesada. Sobre tudo, quanto tendes a povoa-la com os que não estão, com que falta, com o que não tem. Acordas antes do sol nascer, antes mesmo da meia noite, como agora, e lembras da barulheira do vizinho que não sabe ter vizinhos, aquele que se julga só, acima da vizinhança. Pensas, então, na ligação da tua amada, eu não houve. Olhas o celular e nenhum recado, nenhuma ligação não atendida. Lembras, então, da irmã solidão ou, talvez, irmã soledade.

Aquele poema que mamãe deixara antes de partir e que recitaras às companheiras e companheiros em Guaviyú, Paysandú, Uruguay. Aquele irmão com quem aprenderas a viver em solidão porque te visitara, impecável, durante os anos da tua ausência. Pois te levas a ti quando caminhas. Mamãe deixara uma frase, hoje escrita na sua lápide, ao pé dos Andes: felicidade é obedecer a lei que está escrita no céu e no coração do homem.

Esse teu constante companheiro, teu fiel amigo, te visitara discretamente durante anos e ainda o faz, em horas não marcadas e sabes, é um ser de Deus, um que serve, silenciosamente, a uns e outros/as, sem barulho, caladamente. Como te julga ausente teu desuelo pois te levas a ti quando caminhas, que quem tem prendas tão divinas nasce a ter por pátria todo o solo. O poema esta em espanhol, então lês: Pues te llevas a tí cuando caminas, que quien nace con prendas tan divinas nace a tener por pátria todo el suelo.

“A mis soledades voy, de mis soledades vengo, pues para estar conmigo me bastan mis pensamientos.” Um velho poema repetido por teu pai, Omar. Não sabes o autor, se seria Lope de Vega ou outro poeta do Siglo de oro español. Pouco importa. Que descansada vida a do que foge do mundanal ruido e segue a escondida senda por onde tem ido aqueles ocos sábios que neste mundo hão sido. Irmã solidão, irmã soledade. Então sabes, não estás só.

E os que não sobreviveram, pensas. Os que não tiveram a sorte de sobreviver àquilo que motivara tua vinda ao Brasil, lá nos distantes anos do ontem. Então sabes, não estás só. Pensas em Dom Fragoso, que também, como aquele constante companheiro, te acompanhara nos anos da tua ausência, dando a mão sem te fazer saber, do seu modo calado, também. Tantos amigos e amigas da caminhada que hoje povoam teu sentir. Tu mesmo, que te julgaste fora de ti, durante anos, hoje estás aqui, tecendo fios da noite para/com quem te lê.

Lembras das moças do curso de enfermagem, as companheiras da saúde comunitária, as mulheres do posto de saúde dos Ambulantes, em Mangabeira. A irmã Ana. Djair, Aninha. Pádua, de Cabedelo.  Pensas em Santo Antônio, por exemplo. São Francisco, a guiar as caminhadas de tantas e de tantos. Paulo Freire, construindo, desde o Grande Além, caminhos de utopia por onde chegarás, igual que o teu irmão e irmã, ao meu peito. É Deus que fala. A divina mãe. Pouco importam maiúsculas ou minúsculas.

O relógio passa de um dia para outro e, sabes, de aqui a pouco estarás com teus irmãos de caminhada do grupo de Comblin. Lembras do mecânico feliz, ontem, no posto. Encontrara a mulher da sua vida, como tu a tua, Maria. Então o que lamentarias? Festejas com Carlos, frentista de volta à frente do posto. Qual posto? O posto da vida, meu amigo/a. Ninguém esta só se ama, e amas. És amado como poucos/as e amas como poucos/as, pensas.

Lembras dos anos da ausência, como o vendedor da farmácia da Avenida Nego lembrara, naquela nuvem dos psicotrópicos em que a pessoa se perde em nome da saúde e vai afundando, cada vez mais longe de si mesma. Lembras da enfermeira dos Ambulantes. Posto Nova Esperança. Socorro, Rosário, Dona Terezinha, seu João, nunca esquecerias. Alunos e alunas do curso de enfermagem da UFPB. Nunca esquecerias. Começavas a voltar.

Nunca deixamos de voltar. Estamos sempre, de uma maneira ou de outra, constantemente voltando. Adalberto voltara da França, atendendo refugiados chilenos. Voltaria de/a Canindé. Voltarias a/de Mendoza. Escreves para ti, apenas para ti. Nesta madrugada do dia 16 de julho em que o grilo canta e, sabes, a irmã soledade te acompanha. Bom dia, amigo. Não estás só, viu? Viste? Apois.

Por Rolando Lazarte

Sociólogo e escritor. Terapeuta Comunitário. Professor aposentado da UFPB. Membro do MISC-PB Movimento Integrado de Saúde Comunitária da Paraíba. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

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