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Homenagem a Iemanjá resgata resistência cultural e racial afro-brasileira

Através da manifestação religiosa, negros e simpatizantes resgatam a cultura e identidade afro-brasileira em homenagem a Iemanjá nos festejos no Rio de Janeiro…

procissaoProcissão em direção à baía de guanabara para despachar oferendas à Mãe D’Água. Foto: Marcelo do Oxum.
Em homenagem ao Dia de Iemanjá, a Mãe D’Água, a comunidade afro-brasileira do Rio de Janeiro realizou na manhã do dia 02 uma procissão da Federação dos Blocos Afros e Afoxés do estado (Febarj), na Lapa, à Praça XV. O grupo de aproximadamente 1.000 pessoas seguiu para a Baía de Guanabara, onde despachou balaios, que representam os orixás e são oferecidos à deusa do mar, com flores, sabonetes e perfumes. Rodas com danças e cantos afro-brasileiros também ocorreram, antes de os blocos retornarem para o almoço de confraternização na Febarj.
Segundo a organizadora da atividade, Atanizia D’Oyá, fundadora e presidente da Casa de Cultura Afoxé Estrela D’Oyá, a festa ocorre no Rio há 15 anos com a participação de umbandistas, candomblecistas, capoeiristas, ciganos, o movimento negro e simpatizantes, uma mistura da cultura afro-brasileira. Cândida Celeste da Silva, governadora da Província do Namibe, no sul de Angola, também participou da atividade e destacou a semelhança cultural entre os dois países.
“Por meio de acontecimentos, a gente começou essa atividade mostrando a nossa cultura, a religiosidade, a capacidade do negro de realizar algo quando quer. O que você está vendo aqui é um resgate, uma valorização e divulgação da cultura afro-brasileira. Então, hoje em dia no Brasil está mais fácil, porque o negro está sabendo se posicionar e se conduzir muito melhor do que antes”, afirmou Atanizia.
Coordenadores do evento num barco no meio da Baía de Guanabara, para presentear Yemanjá com as oferendas. Foto: Marcelo do Oxum. 
O culto à Iemanjá faz parte da tradição cultural brasileira, sobretudo na Bahia, onde participaram mais de 300 mil pessoas nos festejos em Salvador.  Segundo Marcelo do Oxum, coordenador da atividade no Rio, Iemanjá “é a dona de todas as cabeças e orixás, a soberana das águas, filha de Olodkun. Na África era cultuada pelos Egbá, nação Iorubá da região de Ifé e Ibadan, onde se encontra o rio Yemonjá. No candomblé a saudação Erú Iyá, faz alusão às espumas formadas do encontro do rio com as águas do mar. Yemonjá é a mãe que não faz distinção dos seus filhos, criou um grande guerreiro ( Omolú) e foi violentada pelo seu próprio filho Orugan. Dessa relação nasceram diversos orixás e os seus seios jorraram todos, e suas lágrimas se transformou num rio que correu em direção ao oceano. Portanto, as lágrimas e o mar têm o mesmo sabor.”
Marcelo destacou também as dificuldades que ainda ocorrem no país em relação ao culto da religião africana: “Ainda temos muita dificuldade, existem alguns preconceitos, até pela falta de oportunidades de projetos para os barracões com arte, cultura, dança afro, cânticos, culinária. Falta muita coisa ainda, veem a religião afro como uma coisa tenebrosa, e esses tabus têm de ser quebrados. Essa manifestações são importantes, como as da intolerância religiosa, para demonstrar o nosso potencial e que somos todos iguais”, afirmou. Alguns coordenadores da atividade também são integrantes do movimento contra a intolerância religiosa, e lembraram da histórica repressão ao culto afro-brasileiro no país e de ataques recentes aos terreiros cariocas por parte de outras seitas religiosas.
Governadora angolana fala sobre a semelhança cultural entre o Brasil e a África
Cândida Celeste, com os Arcos da Lapa ao fundo, falando sobre a cultura africana e sua terra natal. Foto: Marcelo do Oxum.
De passagem pelo Rio de Janeiro em visita à sua nora, Cândida Celeste, governadora da província do Namibe, no litoral sul de Angola, apontou ao Fazendo Media algumas semelhanças entre nossos países ao observar as manifestações culturais afro-brasileiras e falou sobre sua terra natal.
Como você vê essa manifestação cultural, em específico como atividade negra no Brasil?
Uma coisa muito engraçada, muito bonita, muito cultural. Faz recordar o passado das raízes, porque a roupa que trazem é praticamente a roupa africana e isto faz recordar os brasileiros que têm raízes africanas. Se as angolanas e as brasileiras não abrirem a boca, parecem todas iguais.
Como é a questão racial em angola?
Somos todos angolanos, há pouco racismo e dificilmente nós distinguimos, pois as pessoas se sentem bem em qualquer situação. Por exemplo, os casamentos fazem isso normalmente entre brancos e negros.
Quais são os principais desafios da província angolana em que você é governadora?
O nosso desafio para as províncias está na área social do desenvolvimento da qualidade de vida da população: educação, saúde e o saneamento básico. Neste momento estamos na construção de novos edifícios. Temos um programa para os próximos 4 anos de construção de 1 milhão de casas. E não somente edifícios, como restaurantes, hotéis, em especial mais atenção na área turística
Há muita diferença da estrutura do Rio de Janeiro?
Há muito mais desenvolvimento aqui no Brasil. A angola sofreu com guerras durante cerca de 30 anos, estamos em uma fase de construção e reconstrução, por isso não podemos comparar de maneira nenhuma o Rio com a Angola. Estamos em um desenvolvimento galopante. Iremos desenvolver as infraestruturas , como as estradas, os caminhos de ferro e as áreas marítimas.
A Copa na África do Sul está sendo bem vista em Angola?
Está mexendo com todos os países, em especial a Angola que é quase vizinha. Fizemos um grande investimento por causa do Campeonato Nacional Africano de Futebol. E pensamos também que sairá da nossa província um grande grupo que irá participar na África do Sul, embora não tenhamos saído em 1º lugar
Em seu país também ocorrem manifestações religiosas como essa?
Angola tem vários cultos em relação à África. Temos uma religião mais forte que a católica, mas há outras religiões, cerca de 840 entre religiões e seitas religiosas africanas. Nosso país é um pais laico.

Por Gustavo Barreto

Jornalista, 39, com mestrado (2011) e doutorado (2015) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. É autor de três livros: o primeiro sobre cidadania, direitos humanos e internet, e os dois demais sobre a história da imigração na imprensa brasileira (todos disponíveis clicando aqui). Atualmente é estudante de Psicologia. Acesse o currículo lattes clicando aqui. Acesse também pelo Facebook (fb.com/gustavo.barreto.rio) e Twitter (@gustavobarreto_).

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3 respostas em “Homenagem a Iemanjá resgata resistência cultural e racial afro-brasileira”

Parabéns pela excelente matéria, repleta de ótimas informações, cultura, parabéns por esta edição e espero q venha mais. Adorei a história desse orixá, de um tamanha beleza, eu só sabia um pouco de Yemonjá, graças a esta magnifica edição fiquei sabendo mais. Parabéns!!!

A entrevista coloca a claro a aproximação que existe entre os dois povos,contudo por razões de desenvolvimento e economicas muito dispares há sempre um risco de Angola perder sua autenticidade cultural…por influencias,como formas de vestir,cabelos,esportes….e sendo a mãe da capoeira é essa classificada como cuktura nacional brasileira…Há ainda muito desconhecimento dos paises africanos e tudo fica englobado como Africa….
Alguns povos africanos geraram a cultura hoje afro-brasileira e não o Brasil a africana.
Os valores de culturas autenticas se fazem pelo conhecimento reciproco e de respeito.

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