História de Brotas de Macaúbas

Biblioteca na entrada de Brotas de Macaúbas, com nome em homenagem a Milton Santos que ansceu na cidade. Foto: Eduardo Sá
Biblioteca na entrada de Brotas de Macaúbas, com o nome em homenagem a Milton Santos que nasceu na cidade. Foto: Eduardo Sá
O município de Brotas de Macaúbas, cena da resistência à ditadura liderada por Lamarca, despertou a ganância dos bandeirantes. A área se localiza numa região minerológica da Chapada Diamantina. É irrigado com pequenos afluentes do Rio São Francisco, 75% do seu território é composto de cadeias de montanhas. Fica no interior semi-árido da Bahia, a 550 quilômetros de Salvador.
O clima é quente e seco, com variações bruscas de temperatura, influindo em toda a cadeia produtiva: ora na terra, ora nas minas. Hoje, só sobraram praticamente os cristais de rocha, abundantes no solo. A principal riqueza do município é a extração do quartzo. A ocupação urbana é dispersa, casas ficam longes umas das outras. De origem vegetal, existem algumas madeiras e ervas medicinais. Na fauna, são comuns aves de rapina. A pesca só ocorre próxima ao Rio São Francisco e em açudes. Também está presente a pecuária de subsistência.
Para alguns historiadores, a região começou a ser povoada em meados de 1700 por causa do trabalho em jazidas carboníferas e também na extração do ouro. Outros atestam que foi devido aos diamantes, em meados de 1850. De qualquer forma, ambas as versões afirmam que foi habitada em função da sua riqueza mineral, no meio do “polígono das secas”. Com a aglomeração de garimpeiros foi se formando o povoado, a igreja, e assim por diante. Em 1847, vira freguesia Macaúbas, até que em 1878, por Lei providencial, foi denominado Brotas de Macaúbas o território próximo ao município.
Com o decorrer do tempo, a região recebeu várias denominações administrativas, assim como os distritos ao seu redor. A ambição pelas riquezas enriqueceu muita gente no local. As reservas minerais foram quase exauridas. A história do município também é marcada pela escravidão.
A Brotas de hoje

Ônibus itinerante de atendimento hospitalar na região. Foto: Eduardo Sá.

Ônibus itinerante de atendimento hospitalar na região. Foto: Eduardo Sá.
Existem hoje cerca de 13 mil habitantes em Brotas de Macaúbas. Segundo o relato de moradores, muitos recorrem aos serviços de Seabra, um município com cerca de 130km de distância, que é mais estruturado. O hospital de Brotas, por exemplo, é um ônibus itinerante que circula pela região. Já na sede municipal há um pequeno consultório.
O programa do governo federal Bolsa-família não chega à localidade, somente em Seabra. Banco, só tem um, o Bradesco, a serviço de uma minoria. Há algumas escolas dispersas entre os vilarejos. No centro de Brotas, existem três: duas públicas e uma particular, onde funciona uma faculdade. A internet chegou recentemente em alguns lugares, como no colégio e na biblioteca municipal, que tem o nome de Milton Santos, reconhecido geógrafo brasileiro nascido na cidade.
Sede do Partido dos Trabalhadores, agora a frente no governo, no centro de Brotas. Foto: Eduardo Sá.
Sede do Partido dos Trabalhadores, agora a frente no governo, no centro de Brotas. Foto: Eduardo Sá.
“Dadá do Vale da Revolução”, como é conhecido na região o agente cultural da prefeitura da cidade, falou sobre o projeto Cinema Ação, que realiza com crianças. Ele destacou também um planejamento turístico pretendido na região, num percurso chamado Vale da Revolução, passando por diversos distritos do município. Ele elogiou os projetos do governo federal nas redondezas. Citou o relacionado à energia eólica, que está sendo instalado, e as cisternas de captação de água, realizadas pela ASA – Articulação do Semi-Árido. Este segundo projeto ainda está longe de servir a todos.
Planta-se muita mandioca pelo município. Cana para a rapadura e a pinga, laranja, mamão e coco. A palma, um cacto rasteiro, arredondado, com pouco espinho, costuma ser refogado e temperado. Cultiva-se também o mel, dentre outros alimentos, todos dispersos e para subsistência, quando não esturricados pela seca. As ferramentas são precárias, as vias de acesso para escoar a pequena produção são limitadas. O transporte é quase nulo.
Há uma festa tradicional que atrai turistas, a do Divino Espírito Santo, espécie de Folia dos Reis, parte do folclore local. As pessoas vão às casas para recolher doações, fazem roupas a caráter e realizam uma procissão até a igreja no centro da cidade, onde ocorre uma missa de louvor.
Interior da igreja na praça central de Brotas de Macaúbas. Foto: Eduardo Sá.
Interior da igreja na praça central de Brotas de Macaúbas. Foto: Eduardo Sá.
Essa igreja matriz é católica, mas o culto religioso no entorno se estende às religiões caboclas e africanas, originárias dos índios e escravos que habitavam a região. Em destaque no ambiente religioso aparece Joanes Cristiano, da Casa Santo Afonso, que desenvolve trabalho de base através da educação, e cursos técnicos para trabalhos agrícolas com crianças e adultos. A igreja vem realizando também, desde 2001, uma celebração aos mártires perto do dia 17 de setembro.
Em meados de 2008, assumiu a prefeitura Litercílio Júnior (PT), após décadas de governança dos coronéis da região afinados com a política de Antônio Carlos Magalhães, político histórico da Bahia, representante das oligarquias. O ex-prefeito era Arilton de Oliveira, mas o médico Antônio Cléber foi quem de fato dominou a região durante 20 anos, de acordo com o atual prefeito. A população vem perdendo o medo, está mais participativa segundo as lideranças locais. Mas as condições econômicas, a distribuição de renda e as relações de poder ainda estão longe de atingir um nível efetivamente democrático.

Buriti Cristalino: a terra do massacre

Atividade realizada no galpão no centro de Buriti Cristalino. Foto: Eduardo Sá.


Atividade realizada no galpão no centro de Buriti Cristalino. Cerca de cinco casas de cada lado do galpão, eis Buriti. Foto: Eduardo Sá.
O distrito de Buriti Cristalino chegou a ter 300 pessoas em épocas de grande exploração de minério, mas hoje tem oito famílias, de acordo com informações da prefeitura.
Buriti fica a 26 quilômetros de Brotas. A infraestrutura local ainda é precária: “Não tem como escoar a produção da mina, é preciso asfaltar os pedaços mais críticos para caminhões poderem chegar e revitalizar a região”, afirmou Roque Aparecido, presidente do Instituto Zequinha Barreto.
Uma jovem chamada Marilena, com seu neném ao colo, o Vitor Antônio, contou no caminho de Brotas para Buriti sua experiência como professora. Ela se formou em Brotas e dá aulas em Pé do Morro, no meio da estrada para Buriti. Leciona cinco matérias: história, ciências, matemática, português e religião. É professora de 14 alunos. Com relação ao transporte, conta que existe uma Kombi que busca as crianças em suas casas.  Mas contou que muitas não estudam. “Elas têm que trabalhar desde cedo, principalmente as que moram mais para dentro do campo. Então, nem todas estudam”.
Leia abaixo outras matérias sobre o evento em Brotas de Macaúbas:
Uma visão pontual para um problema estrutural: o coronelismo
Direito à memória da luta no Sertão contra a ditadura: Lamarca e Zequinha Barreto
Para que se conheça quem foram Lamarca e Zequinha Barreto
Pintada: a morte dos guerrilheiros

6 comentários sobre “História de Brotas de Macaúbas”

  1. Sou filho dessa terra meus pais eram compadre do pai e mãe de Zequinha e Olderico.Nasci na casa que fica vizinha da casa da Familia Barreto. Tenho muito orgulho dos meus conterraneos e amigos Olderico,Olival mai conhecido como Divá,Dolores, Eni,Edinha são como irmãos.

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