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Heróis com garantia

Os heróis por aqui não trabalham sem garantia. A ação corajosa não se dá antes de um bom acordo, como nos moldes do fatídico “com o Supremo, com tudo”.


Em conluio com poderosos, encarnam profunda solidão; amparados institucionalmente, desfazem-se de forma fictícia do seguro, esbravejando contra as organizações públicas. Normalmente financiados pelas grandes corporações, exaltam um tom de desamparo capaz de fazer um miserável estender uma moeda ou oferecer-lhe uma oração.
Em seus discursos costumam bater em gato morto, apontando sempre o sistema, o terrível sistema – ao qual eles normalmente pertencem – como inescrupuloso e corrupto.
Aécio Neves, um dos primeiros dessa estirpe, disse: “Tem que ser um que a gente mata antes de fazer a delação”. Neves, que não era bobo e dizia querer mudar o Brasil, quis incumbir de pegar dois milhões em propina um sujeito que se pudesse matar antes de delatar. No caso, o sujeito era o próprio primo.
Grandes garantias tinham os procuradores da Lava Jato. Acordo com os americanos, louvação e suporte midiático, protetores no Supremo e um juiz que julgava e, clandestinamente, orientava. No afã de garantir mais, buscaram sua emancipação criando um fundo patrimonial privado, resultado de um acordo com o departamento de Justiça norte-americano. Segundo eles, estavam mudando o Brasil.
Mas o grande herói brasileiro veio trabalhar protegido pelo departamento de Estado americano. Sem brincar em serviço, numa tacada só, tirou o favorito das eleições e garantiu um cargo de ministro, com pensão e tudo.
O problema é que seu aliado, até aquele momento, Jair Bolsonaro – o homem que ficou 28 anos no mesmo lugar e conseguiu ser vendido com outsider -, também queria resguardo. Uma garantia que protegesse seus filhos e, consequentemente, o blindasse de possíveis problemas.
Por ironia do destino, aqueles que não pediram garantia acabaram sendo traídos pela imprudência. A autonomia dada à Polícia Federal nos governos petistas, exaltada no último depoimento de Moro, foi umas das brechas de entrada para articulação do golpe. Ali, naquele ato – moralmente louvável, mas politicamente imaturo – esqueceu-se que, muito mais provável que o combate à corrupção era a prevalência da secular luta de classes, pautada pelo espírito escravocrata.
Por ora, os ressentidíssimos com os últimos acontecimentos voltam a bradar, com uma combalida pose, que não possuem político de estimação.
Como disse meu amigo Eric, eles realmente não possuem. Quem os possui com estimação são os políticos, os heróis com garantia, que usam velhos clichês para estimular nessas pessoas os sentimentos mais ignóbeis e rasos.
Foto(*): agenciabrasil.ebc.com.br

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