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Grupo Kairós, 21 anos

Em diálogo com Pe. José Comblin, pelas veredas do Movimento de Jesus

O Grupo Kairós Nós Também Somos Igreja alcança seus vinte e um anos, momento propício para o exercício de celebração, de rememoração, de avaliação da caminhada e de renovação de horizonte e compromissos. Alguns membros isolados do Grupo já acompanhavam a trajetória da Teologia da Enxada, desde seus inícios, em finais dos anos 60 e, por meio dela, os passos do Pe. José Comblin. Em 1998, na companhia do próprio Pe. José e da Missionária Mônica Muggler, inclusive com a presença do já Bispo emérito de Crateús, Dom Antônio Batista Fragoso, agora residindo em João Pessoa, formava-se um pequeno grupo de amigos e amigas de Pe. José passou a reunir-se mensalmente na residência dele, em Bayeux-PB, com o objetivo de dialogar e refletir sobre a conjuntura sócio-eclesial, bem como sobre textos produzidos pelo Pe. Combin. Foi o caso do livro recém-lançado, “Vocação para a Liberdade”, recém-editado pela Paulus. Tratava-se de encontros mensais em que na sala de sua casa, as/os participantes cuidavam de compartilhar alegrias, angústias e esperanças daquele contexto sócio-eclesial, tendo, ao final, uma palavra de aprofundamento que se pedia a Pe. José, com perguntas e colocações que se lhes seguiam. Ao final, graças aos cuidados e sensibilidade de Mônica, o grupo era convidado a sentar-se à mesa para um café ou, ocasionalmente, a uma refeição.

No texto que segue, cuidamos de rememorar, de modo avaliativo-prospectivo, a caminhada do grupo Kairós de 21 anos. Neste sentido, iniciamos fornecendo alguns elementos históricos de suas origens; em seguida, destacaremos aspectos organizativos do Kairós, inclusive em sua filiação ao IWMAC – International Moviment We Are Church, que data de 2009. Por último, faremos memória das principais atividades realizadas pelo Kairós, destacando em especial a organização, já em sua 9ª edição, da Semana Teológica Pe. José Comblin, da qual fazem parte as Jornadas Comunitárias. Em conclusão, sublinhamos alguns desafios enfrentados pelo Kairós.

Como nasce o Kairós/Nós Também Somos Igreja?

Dentre os primeiros participantes – um grupo de cerca de uma dezena, com variações ocasionais, aí se encontravam: Pe. José, Mônica, Dom Fragoso, João Fragoso, Ir. Ana Vigarani, José Brendan, José Hailton, Rolando Lazarte, Pe. Glênio, Pastor Osmar Ludovico, Isabelle Ludovico, Luiz Zadra, Genaro Ieno, Luciano Silva, Alder e outras pessoas com presença esporádica.

Tempos desafiantes, seja ao interno da Igreja Católica, já com um longo pontificado do Papa João Paulo II, com suas estratégias de esvaziamento da “Igreja na Base”, seja no plano macrossocial, com o avanço e agravamento do Neoliberalismo no mundo. Tema, aliás, sobre o qual o próprio Pe. Comblin havia escrito um livro, “O Neoliberalismo – Ideologia dominante na virada do século, São Paulo: Loyola, 2000”, que fazia parte da célebre coleção “Teologia e Libertação”, editada pela Loyola, com apoio de mais de cerca de 120 bispos da América Latina.

Pouco antes da publicação deste livro, Comblin nos havia brindado com um outro de grande impacto no mundo cristão, intitulado “Cristãos Rumo ao Século XXI – Nova Caminhada de Libertação” (São Paulo, 1996). Como se percebe, vivíamos um tempo caracterizado, dentro e fora das Igrejas cristãs, por um clima de tensão, de incertezas, mas também de esperança. É neste contexto que as reuniões mensais deste grupo se desenrolavam, na casa do Pe. José Comblin.

No âmbito da Arquidiocese da Paraíba (João Pessoa), viviam-se os últimos e conturbados anos do governo de Dom Marcelo Carvalheira, a enfrentar resistências ao interno do próprio clero, relativamente a situações econômico-financeiras então enfrentadas e outras questões. Ao alcançar sua idade-limite, Dom Marcelo Pinto Carvalheira torna-se emérito, e os diocesanos passam a viver certa tensão, quanto a quem o sucederá: Dom Aldo Pagotto, que dá início, desde sua chegada, a uma sucessão de medidas autoritárias que o que passa a ser a marca principal de seu governo. De perfil fortemente conservador e mesmo reacionário, chegava a escandalizar sobre tudo pela perseguição por ele movida contra tudo que dissesse respeito a temas tais como Teólogia da Libertação, Pobres, CEBs, CPT, CEBI, em breve, à Igreja na Base. Posição que perdura até à sua renúncia provocada pelo seu envolvimento em episódios ligados a várias denúncias de co-participação em casos de escândalos homossexuais.

Importa assinalar que este grupo se compunha de pessoas, em sua maioria, atuantes em diferentes atividades sócio eclesiais. Tratava-se de um grupo do qual faziam parte pessoas que trabalhavam como professoras e professores universitários (alguns já aposentados), alguns pastores, alguns padres, leigas e leigos animadores de comunidades…, a exemplo de Giovanni Pizzetti e Pe. Josenildo Lima.

A roda de partilhas e de notícias sobre a conjuntura sócio-eclesial e sobre os trabalhos de cada participante eram sentidos como um denso momento de abastecimento interior e de animação à continuidade da luta., diante de desafios intermináveis. Foi, por exemplo, o que se deu com o anúncio do Projeto de Transposição de água do São Francisco para quatro Estados do Nordeste (Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará). Em resistência a tal plano, tanto Pe. José Comblin como membros daquele grupo se engajaram em atividades de resistência, organizando, inclusive, manifestação em praça pública, em João Pessoa, com a presença também do próprio Pe. Comblin. Este passou a ser chamado para contribuir com sua  análise acerca do Projeto, em várias Estados do Nordeste. Numa dessas ocasiões, Comblin fazia questão de marcar bem sua posição, o que se pode perceber, inclusive, numa de suas mensagens, recebidas por um membro do Grupo:

Mais: com a decisão tomada pelo Bispo de Barra, Dom Luiz Flávio Cappio, da Diocese de Barra – BA, de marcar sua posição profética, fazendo duas greves de fome – a primeira, à margem do São Francisco, em Cabrobó – PE (por onde passaria a água desta Transposição), o que se deu no ano de 2005, e que durou onze dias; a segunda duraria o dobro, e foi realizada em Sobradinho _ BA, em 2007. Durante este testemunho profético, acompanhado de alguns membros do Grupo, Pe. José fez questão de testemunhar ao vivo sua solidariedade ao bispo em jejum de resistência, com ele mantendo conversas consistentes sobre aquela e outras questões e desafios sócio eclesiais. Foi de tal ordem a solidariedade prestada a Dom Luiz, que este não hesitou em fazer-lhe o pedido/convite para que Comblin se dispusesse a colaborar com o povo dos pobres da Diocese de Barra, para onde Comblin se mudaria. A missionária Mônica Muggler, também convidada pelo Bispo de Barra, também acatou o convite.

O Grupo Kairós seguia com suas reuniões mensais na casa do Pe. Comblin, até sua mudança para a Diocese de Barra. Pe. José muda-se para aquela diocese baiana, por volta de 2009. A partir de então, o Grupo passa a reunir-se semanalmente, na UFPB, numa sala de uma professora -a Profa. Aparecida, do Centro de Educação, que também passa a integrar o Grupo.

Após a mudança do Pe. José, o grupo Kairós passa a reunir-se semanalmente, numa sala da UFPB.

Mantendo uma frequência semanal de reuniões com cerca de uma dezena de integrantes, incluindo pessoas recém-chegadas, em especial com membros de outras denominações, fato que propiciou uma convivência ecumênica ainda maior. Uma das pessoas recém-chegadas ao Grupo foi o Pastor Luciano Batista de Souza, que se havia tornado amigo do Pe. José Comblin. Por iniciativa do Pastor Luciano, foram sendo convidadas outras pessoas evangélicas, tais como Joamingos, Daniel e outras. O grupo Kairós também passou a contar com outros novos membros, tais como: Angelina Oliveira, Aparecida Paes Barreto, Magdala Melo, Ricardo Brindeiro (“in memoriam”), Elias Cândido do Nascimento, João Batista Silva, Irm. Edleuza, Graça Xavier Batista, Efigênia Dias, Ellison Dias, além de presenças esporádicas de Pe. Antonio Paulo Cabral, Pe. Gedeón Oliveira, entre outros.  Nos anos mais recentes, temos contado, de modo mais frequente, com a participação dos seguinte membros: João da Cruz Fragoso, Elias Cândido do Nascimento, José Hailton Bezerra Lyra, Rolando Lazarte, Maria Ferreira Filha, Aparecida Paes Barreto, Ellison Dias, Gloria Carneiro, Ir. Maria Besen, Elenilson Delmiro dos Santos, Emanuel Soares, Assueros, Maria das Graças Nóbrega, Alder.

Durante as reuniões, a principal atividade (não a única) era a de refletir e debater vários livros, notadamente diversos livros do Pe. José Comblin, tais como:

Tempo da Ação, A Palavra, Vocação para a Liberdade, O Caminho, A Vida em busca da Liberdade, entre outros.

Além dos livros do Pe. José, diversos outros teólogos e teólogas foram objeto de reflexão, no Grupo. Dentre eles/elas:

– Hugo Echegaray. A Prática de Jesus; (vozes, 1982)

– Leonardo Boff. Saber Cuidar;

– Hans Kûng.

– De Ivone Gebara, vários textos.

– Jean-Yves Leloup e outros.

– Normose;

– Eduardo Hoornaert. Origens do Cristianismo; A Missão do Povo Cristão; Em busca de Jesus de Nazaré

– Luiz Carlos Araújo. A Heresia primordial;

– José Hailton Bezzeira Lyra; (Espiritualidade)

-Teresa Forcades. O Feminismo na história da Teologia;

-José Antonio Pagola. Jesus, aproximação história

Iniciativa e coparticipação na organização das Semanas Teológicas Pe. José Comblin;

– Participação na organização e vivência das Jornadas Comunitárias.

Vinculação do grupo Kairós ao IMWAC

(International Moviment We Are Church).

Tal participação se dá a partir de 2009, graças a duas circunstâncias especiais: o arcebispo Dom Aldo Pagotto, em seu estilo polêmico de protagonista de sucessivos conflitos, desde que assumiu suas funções na Arquidiocese da Paraíba, logo se indisporia com diversos padres, a alguns chegando a suspender de ordem. Foi o caso também do Pe. Luiz Couto, que exercia o cargo de Deputado Federal. Sua suspensão se dava por motivos de duvidosa justificativa: o arcebispo alegava que o Pe. Luiz, em um boletim da Câmara de Deputados, tinha feito publicar uma nota na qual expunha uma posição supostamente indevida em relação à homossexualidade e ao celibato sacerdotal. Em defesa do Pe. Luiz, foi organizada uma série de atividades e de protestos, inclusive em praça pública, uma delas em frente ao Palácio Do Bispo, manifestação com amplo apoio popular de alguns movimentos e pastorais sociais. Nesse ambiente de tensão, um grupo foi até à casa de Comblin, em busca de conselhos. Na ocasião, Comblin se referiu, de passagem, à atuação de leigos e leigas do Chile, ligados ao Movimento Somos Tambíén IGlesia. Daí nasce a inspiração de se organizar uma página na internet, um blog, como nome Kairós/Nós Também Somos Igreja. Pouco tempo depois, para surpresa nossa, eis que recebemos uma mensagem da parte de Pedro Freitas, desde Portugal. dizia haver tomado conhecimento do nosso grupo Kairós, e que ele fazia parte do Movimento International Movement We Are Church, como membro do grupo de Portugal, ao mesmo tempo incentivando-nos a nos filiar ao mesmo movimento. Para tanto, eniou-nos o link da página eletrônica, do IMWAC, bem como endereço de contato do coordenador do IMWAC. Fraternalmente acolhidos, solicitaram-nos enviar-lhes nomes de representantes do Kairós, para fins de correspondência rotineira. Foram-lhes apresentados, inicialmente, os nomes de Rolando Lazarte e Alder Calado, aos quais foram acrescentados os nomes de Joseph Brendan McDonald, Aparecida Paes Barreto e Magdala Melo.

O Grupo Kairós-NÓS TAMBÉM SOMOS IGREJA é um coletivo formado por leigas, leigos, religiosas, religiosos e ministros ordenados da Igreja Católica Romana, com sensibilidade ecumênica, integrado por membros de outras Igrejas cristãs e outras pessoas interessadas, animados pelo propósito de responder, com humildade e solicitude, à vocação missionária do Seguimento de Jesus, a serviço do Reino de Deus. Formado há dez anos, vem se encontrando periodicamente, na casa do Pe. José Comblin, para compartilhar suas angústias, desafios, alegrias, lutas, esperanças e projetos, como cidadãos e como cristãos.

Além dos momentos de partilha, o Grupo também se encontra periodicamente, em momentos fortes de oração, de retiro, de celebrações e diferentes atividades de caráter formativo. Tem tido como referência animadora de sua caminhada de Fé a Teologia da Libertação, da qual também é expressão a Teologia da Enxada, na perspectiva de teólogos como o próprio José Comblin, e contando com a inspiração profética de figuras como Oscar Romero, Helder Câmara, Gustavo Gutierrez, Antônio Batista Fragoso, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, entre outras.

Pela sua reconhecida atuação profética, há mais de meio século, no Brasil e na América Latina, Pe. José Comblin tem sido, desde o início do nosso Grupo, uma inspiração abençoada e sempre presente. Graças à resistência do Pe. José, o Grupo passou um bom tempo sem se identificar com um nome específico. Pretendia carregar o nome de José Comblin, em reconhecimento e homenagem pela sua incansável ação missionária entre os pobres do Brasil e da América Latina, desde 1958.

Mais recentemente, sentindo-se cada vez mais afinado com o promissor empenho do Movimento internacional “Nós também somos Igreja” (também conhecido como “Wir sind Kirche”) (Áustria: http://www.wir-sind-kirche.at/; Alemanha: http://wir-sind-kirche.de/), “We are Church” (http://www.we-are-church.org/”), a partir do qual se obtém informações sobre o Movimento atuando atualmente em mais de vinte países: “Nous sommes Église”, “Somos Iglesia”, “Noi siamo Chiesa”, movimento esse que já conta com dez anos de caminhada, o nosso Grupo houve por bem ajudar a engrossar as fileiras desse movimento, cujos principais objetivos (que fazemos nossos) são, entre outros: – retomar o impulso evangélico em direção a uma Igreja servidora e pobre, comprometida com a causa libertadora dos empobrecidos; – reafirmar, como ponto de partida, o espírito do Concílio Vaticano II, de modo a despertar em nós a leitura atenta dos sinais dos tempos; – o exercício da colegialidade nas principais decisões eclesiais; – reconhecer e promover o justo lugar dos leigos – especialmente das mulheres – na Igreja, nas instâncias de decisão; – a livre opção pelo celibato, no exercício de todos os ministérios (ordenados ou não); – valorização e avaliação positiva da sexualidade e afetividade, como dimensões da pessoa; – recuperar a radicalidade e simplicidade da mensagem, palavra e vida de Jesus; – a valorização da justiça social e dos direitos humanos; – a disposição para o diálogo.

Tendo em vista que esse Movimento ainda se acha incipiente no Brasil e na América Latina (no Chile, encontramos sinais animadores), embora já tenha dez anos de caminhada, nós queremos, em fraterno e fecundo diálogo com seus membros e representantes, em escala internacional, contribuir nessa direção, buscando dele participar com nosso rosto latino-americano e brasileiro, enfatizando a dimensão conciliar de uma Igreja servidora e pobre, na perspectiva anunciada em Medellín e Puebla, para que “a esperança dos pobres viva”, ao mesmo tempo em que também nós nos comprometemos em contribuir para a realização de uma Assembléia Mundial do Povo de Deus prevista para 2015, meio século após o encerramento do Concílio Vaticano II.

Não é objetivo do nosso Grupo propor nem insinuar uma “igreja paralela”. Manifestamos, na confiança e na liberdade que o Espírito de Jesus nos inspira, nosso compromisso com a permanente renovação da Igreja, na perspectiva do Seguimento de Jesus. Da nossa Igreja queremos fazer parte ativa, inclusive nas instâncias de decisão, junto com os demais membros da mesma Igreja, estando abertos ao diálogo fraterno com outras Igrejas cristãs e ao diálogo interreligioso, sentindo-nos todos como membros do mesmo Povo de Deus (https://kairosnostambemsomosigreja.wordpress.com/2009/08/22/quem-somos-3/).

Queridos irmãos e irmãs do Conselho do IMWAC,

A poucas horas do início do Encontro do Conselho do IMWAC, em Dublin, nós, membros da secção brasileira do IMWAC, reunidos em nosso encontro semanal, não tendo podido contar, desta vez, com representantes neste Encontro de Dublin, dirigimo-nos a todos vocês participantes deste Encontro, , para

* saudar fraternalmente/sororalmente cada um, cada uma de vocês, desejando-lhes um abençoado Encontro;

* agradecer a todos vocês, em especial aos queridos membros do WAC – Irlanda, pelo reconhecido empenho nos preparativos, no envio de seus relatos nacionais, bem como na disposição de acolher a todos em Dublin;

* ressaltar fortemente e agradecer aos membros do IMWAC, notadamente a Didier, pela fecunda iniciativa de participação no recente e abençoado Encontro em Chiang Mai, junto com nossos queridos irmãos e irmãs de distintos países da Ásia, ao mesmo tempo em que expressamos nosso desejo de que iniciativas como esta sejam priorizadas e se ampliem cada vez mais, de modo a permitir um diálogo contínuo e orgânico com os irmãos e irmãs de outros continentes, do que depende nosso testemunho de fidelidade ao espírito do Evangelho e ao próprio caráter de catolicidade de nossa Igreja, o que poderia implicar numa consulta/convite aos irmãos e irmãs da Ásia, de participação mais efetiva no IMWAC;

* lamentar e expressar nossa profunda tristeza em relação ao episódio do (auto?)desligamento de nosso querido Rolando Lazarte, da lista de correspndência do Conselho do IMWAC, reconhecendo e agradecendo-lhe pela significativa contribuição por ele oferecida ao IMWAC, o que seguirá fazendo a Kairós/Nós Também Somos Igreja e a outros grupos;

* lamentar e manifestar nossa indignação com relação a práticas comunicativas demasiado rígidas demonstradas por alguns membros do IMWAC, por sua pouca sensibilidade no trato com o diferente, em especial em relação a temas ou pessoas “de longe”, o que nos alerta contra um certo risco de eurocentrismo, conforme, aliás, já reconhecido, mais de uma vez, por alguns irmãos e irmãs europeus do próprio IMWAC;

* expressar a alguns e algumas de vocês nossa gratidão, por se haverem manifestado, em termos pessoais, sensíveis à posição de Rolando, tendo inclusive dele solicitado reconsideração quanto ao seu pedido de desligamento da lista do IMWAC, reconhecendo a importância de seus escritos e textos compartilhados, na lista do Conselho do IMWAC;

* agradecer pelo convte que nos é feito, de participar, via Skype, de uma vídeo-conexão, tendo inclusive Raquel se proposto a conduzir como intérprete esse momento. A este respeito, pouco antes do episódio de seu desligamento, ele já havia feito teste em sua casa, para nos receber, nessa ocasião, após o que não se sentiu mais à vontade de assim proceder. Por outro lado, João Fragoso, assíduo integrante do nosso Kairós (ele próptio irmão do conhecido Dom Fratoso, bispo de Cratéus, um dos signatários do famoso “Pacto das Catacumbas”) também havia preparado o ambiente em sua casa, para nos receber, caso Rolando não pudesse, eis que há dois dias sofreu um sério problema de saúde (ele tem 80 anos), o que muito lamentamos, à medida que isto adia para outra ocasião nossa tão aguardada e preprarada vídeoconexão.

– agradecer a todos e, mais recentemente a Martha, pelo envio da Programão do Encontro, que vamos seguir, na medida do possível.

Que seja frutuoso o Encontro de Dublin, e que, solícitos, nós nos disponhamos a escutar o que o Espírito do Ressuscitado tem a nos dizer, a todos e a cada um, a cada uma.

Fraternalmente, sororalmente,

Kairós/Nós Também Somos Igreja

Secção Brasileira do IMWAC

INTERNATIONAL MOVEMENT WE ARE CHURCH (IMWAC)

KAIRÓS/ NÓS TAMBÉM SOMOS IGREJA (Brazilian Section of IMWAC)

ABOUT US AND OUR ACTIVITIES FOR A CHANGING WORLD (CHURCH AND SOCIETY)

SOBRE NÓS E NOSSAS ATIVIDADES EM UM MUNDO (IGREJA E SOCIEDADE) EM MUDANÇA

QUEM SOMOS

ABOUT US

Kairós-Nós Também Somos Igreja, secção brasileira do IMWAC, constitui um bem diversificado Grupo de cristãos e cristãs,principalmente do Nordeste do Brasil, que se quer de caráter formativo, informativo, celebrativo e atuante. Com perspectiva ecumênica, há reuniões semanais e atividades regulares desenvolvidas por seus componentes, junto a diferentes movimentos e pastorais sociais, comunidades eclesiais e outras organizações de base de nossa sociedade.

O Grupo foi iniciado em 1998, em torno de reuniões mensais na casa do teólogo Pe. José Comblin, a quem o grupo tem como principal referência em seu processo formativo sócio-eclesial. Devido ao interesse aí suscitado, e tendo em vista crescentes desafios atuais, o grupo decidiu, há vários anos, encontrar-se semanalmente, tendo como propósitos:

·        discernir, debater e ajudar a enfrentar os velhos e novos desafios, seja no âmbito macro-social, seja ao interno dos caminhos e descaminhos da Igreja Católica e de outras Igrejas Cristãs;

·        fortalecer e tornar mais afetivos e efetivos nossos laços organizativos, numa dimensão comunitária;

·        estudar e refletir sobre livros do teólogo José Comblin, em especial os dedicados à compreensão da missão do Espírito Santo no mundo, na perspectiva da Teologia da Libertação, da qual ele é uma das primeiras referências;

·        debater textos de outros teólogos e teólogas, tais como Hans Küng, Carlos Mesters, Ivone Gebara, Jon Sobrino, Leonardo Boff, Eduardo Hoornaert, Jean-Yves Leloup, Hugo Echegaray, etc.;

·        intercambiar e refletir sobre relatos de nossas experiências de cidadãos e de cristãos junto às pessoas e às comunidades de distintos espaços de que participamos;

·        fazer memória dos acontecimentos, numa perspectiva de mútua ajuda;

·        fazer intercâmbio com pessoas e grupos de outros lugares, regiões e países, notadamente com os grupos de cristãs e cristãos empenhados na luta por mudanças libertárias na sociedade e nas igrejas;

·        organizar periodicamente seminários, colóquios, fóruns de diálogo com outros sujeitos históricos.

SOBRE NOSSAS ATIVIDADES EM BUSCA DE UMA SOCIEDADE E DE UMA IGREJA EM MUDANÇA

I. O que entendemos por uma Igreja em mudança?

Como filhos e filhas de Abraão, e sobretudo como discípulos e discípulas de Jesus, aprendemos que o Povo de Deus sempre foi e segue sendo um povo de caminheiros, de migrantes, de gente sempre a caminho, peregrinos em busca de um continuo processo de conversão: conversão da morte em vida, das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade. Daí soar-nos familiar o que aprendemos da tradição: “Ecclesia semper reformanda”. Não apenas a comunidade eclesial, mas cada uma, cada um de nós é chamado a uma contínua e profunda renovação, não uma reforma superficial.

Resta a saber: mudar, em que sentido, em que direção? Não se trata de mera adaptação aos valores hegemônicos de nossa época, de modo a tornar-nos agradáveis aos tempos de hoje. Não seria isto, por certo, ser homens e mulheres do nosso tempo! Trata-se, sim, de um incessante esforço de mudança, na perspectiva do Evangelho, no espírito do seguimento de Jesus, cujo apelo implica efetiva solidariedade e compromisso com a causa de libertação dos pobres, marginalizados e esquecidos, de uma clara opção por um estilo sóbrio de vida, fora dos altos padrões de consumo, e de modo a testemunhar amorosidade em relação à natureza, aos humanos e a toda a comunidade de viventes, em especial os mais desprezados: as crianças, as mulheres, os jovens, os povos indígenas, os povos afrodescendentes, os camponeses…

A Igreja em mudança pela qual nos comprometemos, é a que se põe a serviço da causa libertadora dos pobres e pela dignidade da Mãe-Natureza. Isto requer profundas mudanças do atual paradigma eclesiológico, seja do ponto de vista de suas estruturas, seja sob a ótica de sua organização e de gestão, seja no que se refere ao estilo de vida de seus membros.

Não faz sentido, por exemplo, do ponto de vista evangélico, mantermos o atual modelo piramidal de Igreja, que mais se parece com uma estrutura imperial condenada por Jesus, em Mc 10, 42-45: “Entre vós, não será assim”. Precisamos inspirar-nos na forma de organização das primeiras comunidades cristãs, de feição horizontal, fraterna, solidária, protagonizada pelo povo dos pobres, atuando na liberdade e na autonomia das pequenas comunidades, orgânica e fraternalmente ligadas, por meio de periódicas assembléias, numa dimensão de serviço e não de poder de um sobre os demais.

Na tradição evangélica, em que buscamos inspirar-nos, não faz igualmente sentido uma Igreja organizada à feição de um Estado autoritário, com seus eficientes aparelhos de controle e repressão, hostis ao espírito de colegialidade. Queremos uma Igreja Povo de Deus, conforme o espírito do Concílio Vaticano II, uma Igreja formada por irmãos e irmãs portadores da liberdade do Espírito e dotados da mesma condição de igualdade para todos, para todas, conferida pelo Batismo e pelo discipulado de Jesus, que tendo vindo “para servir, não para ser servido”, também nos propõe, a nós membros de sua Igreja, a fazer o mesmo.

II O que vimos fazendo

Temos desenvolvido uma agenda bastante diversificada, conforme, aliás, o não menos diversificado perfil do nosso Grupo, do qual fazem parte homens e mulheres, católicos em sua maioria, mas também pessoas de outras igrejas cristãs.

Nosso grupo é ecumênico e eclético. Dele fazem parte pessoas nascidas no Brasil e fora do Brasil; é formado por pessoas de diferentes etnias, gênero e faixas de idade, de distintos níveis de escolaridade e integrantes de diferentes movimentos e pastorais sociais e outras organizações de nossa sociedade.

A partir desse perfil, podemos distribuir em três itens as atividades que temos desenvolvido: 1) as atividades rotineiras e de caráter intragrupal; 2) iniciativas de diálogo com outros grupos eclesiais e de outras igrejas; 3) atividades junto a movimentos sociais, a pastorais sociais e a outras organizações de base de nossa sociedade.

1) Atividades internas do nosso Grupo – Aqui assinalamos as principais atividades que realizamos em nossos encontros semanais, já há vários anos:

·        informações compartilhadas de intervenções dos membros do Grupo em diferentes atividades junto a movimentos sociais e organizações de base;

·        reflexão sistemática e compartilhada de obras de teólogos e teólogas da Libertação;

·        partilha de situações de vida por parte dos componentes do Grupo;

·        frequentes debates sobre elementos da conjuntura sócio-eclesial (internacional, nacional e local);

·        confraternização e celebrações especiais em algumas datas emblemáticas.

2) Iniciativas de diálogo com outros grupos – Além de nossas atividades rotineiras, também promovemos ocasiões de debate e de diálogo com outros grupos sócio-eclesiais, tais como:

·        seminários de Teologia;

·        sessões de memória de figuras emblemáticas (Dom Oscar Romero; Dom Helder Câmara; Pe. José Comblin);

·        encontros de intercâmbio com outros grupos eclesiais (grupos de Ação Católica, Pastoral de Juventude do Meio Popular, Movimento dos Trabalhadores Cristãos, entre outros).

3) Atividades em diferentes movimentos sociais, pastorais sociais e organizações de base – Parte expressiva do Grupo mantém atividades regulares junto a diferentes sujeitos sociais, tais como:

·        Movimentos Sociais (Movimento das Comunidades Populares – MCP, inclusive com participação em seu Jornal das Comunidades Populares; Assembléia Popular, Sindicato dos Trabalhadores em Extensão Rural, Movimento dos Trabalhadores Cristãos – MTC);

·        Pastorais Sociais e movimentos eclesiais (Comissão de Pastoral da Terra, Pastoral da Juventude do Meio Popular, Pastoral Operária, entre outras).

·        Organizações de base (Associação Brasileira de Terapia Comunitária – ABRATECOM, Grupo de Assistência de Familiares e Amigos de Alcoólicos – ALANON, Cooperativismo inspirado na economia solidária, grupo de pesquisa sobre a América Latina contemporânea), educação popular.

III O que propomos aos demais participantes desse Encontro

            Dentre as principais inquietações e propostas aos demais membros do IMWAC, destacamos:

·        articular mais expressamente, e de maneira regular, nossas análises críticas concernentes à Igreja, de forma historicamente contextualizada, de modo a refletir também as injunções históricas e macro-sociais;

·        exercitar, com incessante autovigilância, o espírito de colegialidade, ampliando a participação de mais pessoas do IMWAC, nos processos decisórios;

·        priorizar nosso olhar analítico (seja em relação à Igreja ou à sociedade) a partir dos excluídos de nossas sociedades (as mulheres, os pobres, os negros, os migrantes, os trabalhadores rurais e urbanos, etc.);

·        ampliar, de modo mais efetivo, nossa ação, investindo mais e melhor no intercâmbio com irmãos e irmãs de outros continentes;

·        priorizar as relações concretas e horizontais, para bem além dos contatos virtuais;

·        atualizar as contribuições da Teologia da Libertação, e suas aplicações no empoderamento de pessoas e comunidades, ecofeminismo, ecologia, relações inter-étnicas, etc.

·        prevenir toda forma de violência pública ou privada, de várias maneiras, dentre elas: a criação de vínculos comunitários e o fortalecimento da auto-estima.

·        defesa irrestrita dos Direitos Humanos.

·         valorizar o diálogo inter-religioso e a prática de uma espiritualidade integrativa e includente, sem fronteiras ideológicas, institucionais ou doutrinárias.

·         valorizar a afetividade e a sexualidade, como dons de Deus, e como formas de felicidade e de comunhão;

·         tornar mais efetivo o uso das línguas (Espanhol e Francês) no IMWAC, incluindo o Português;

·         ampliar o direito de voto para além dos representantes oficiais, ou seja, a todos os membros do IMWAC participantes nas assembléias decisórias;

Outubro de 2012

Kairós-Nós Também Somos Igreja (KNTSI)

João Pessoa, Paraíba, Brasil

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