Bula do funkeiro


Bula de Funkeiro: ‘Vamos falar de um preconceito social / O que te faz homem do bem / E o que te faz homem do mal‘”
Por Daniel Israel,
Mesmo mal-vista, a favela não para de apresentar grande variedade de opções culturais, desde evento literário ao habitual baile funk; do poder público, espera-se menos repressão e mais bom senso
“O galo já não canta mais no Cantagalo / A água não corre mais na Cachoerinha / (…) Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres…” De composição do também poeta Paulo César Pinheiro, estes versos fazem parte da música ‘Nomes de Favela’, típico samba que se canta com a boca cheia de vida e os olhos recheados de lágrimas.
A música de Pinheiro remete a um tempo em que fazer samba no Brasil estava associado a ficar de vadiagem; hoje, não há como negar, o senso comum estabelece que esse papel cabe ao funk e aos funkeiros, independente do teor que contenham as letras de suas composições. “A repressão é menos ao funk enquanto música do que a quem faz, população favelada de maioria negra. Toca em ambientes frequentados pela classe média, mas a questão é com os bailes funk. Não é à toa que o funk, por ser uma expressão dessas populações, será afetado,” analisa Adriana Facina, que concluiu seu pós-doutoramento pelo Museu Nacional/UFRJ com apresentação de trabalho sobre lazer e música popular no Rio de Janeiro, com ênfase no funk.
A UPP Traz o Mercado
Mesmo com tanto interesse de especialistas pelo ato de “pesquisar com a favela“, no dizer de Adriana, a opção da cultura consumista é colocada pelo poder público como o principal atrativo, em oposição ao fomento na criação ou ampliação no acesso a políticas de incentivo do Estado nos ramos de educação e cultura.
Aliado a isso, e pensando na proximidade dos megaeventos esportivos (Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016), que a cada novo dia bate à nossa porta assinalando a contagem regressiva, os governos (municipal, estadual e federal), unidos sob a égide de uma inseparável aliança, enxergam um grande filão para o futuro das favelas.
No dizer das autoridades , “a retomada de territórios é muito importante para a cidade como um todo”. Com isso, a ocupação de favelas pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) é o que Adriana Facina (autora de artigo que investiga o estigma social atrelado à juventude funkeira da favela), professora de História na UFF, chama de “um pacote para as comunidades”. Ao que ela acrescenta: ”A UPP é uma iniciativa ligada muito mais do que apenas à segurança pública, gerando especulação imobiliária, obtenção de serviços para telefonia e tevê, abertura de lojas e fonte de cultura.”
FLUPP e Produção Artística Local
Desde a implantação da UPP, tem aumentado o número de eventos organizados por entidades de fora das comunidades. Um desses eventos, resultante da mescla entre saberes populares, pesquisas acadêmicas e integração ao mercado, ocorreu entre os dias 7 e 11 de novembro, no Morro dos Prazeres.
 
Em sua primeira edição, a Festa Literária Internacional das UPPs (Flupp) transcorreu sem qualquer imposição por parte do comando da UPP – a Flupp não foi idealizada e organizada pela UPP (“a gente foi a favelas sem UPP, casos de Manguinhos e Vigário Geral, durante a preparação da Flupp Pensa, que resultou em um livro com 43 autores novatos”, lembra Écio Salles, codiretor da Flupp) – e abriu o horizonte da Literatura em novas frentes no município e Região Metropolitana do Rio de Janeiro, habitualmente restrita a uma minoria de cariocas: brancos, ricos, letrados, com alto nível de escolaridade e em grande parte moradores da Zona Sul.
Segundo Júlio Ludemir, o segundo de quatro diretores da Flupp, uma outra concepção de cidade foi na que se debruçou a organização da Festa, com o intuito de expandir a cidade por meios pouco convencionais, embora com maiores chances de produzir resultados benéficos para mais pessoas: ”Fazer no Morro dos Prazeres teve uma razão especial: trata-se de uma favela na zona central. A gente queria evitar de fazer na Zona Sul (com aquele clima da mesmice praia-sol-praia); por outro lado, fazer numa comunidade distante, traria problemas de logística. A solução, então, é que fosse feita numa região que já tivesse alguma tradição cultural, caso de Santa Teresa, sem contar que o Prazeres tem uma vista em 360º do Rio de Janeiro. Aí, a gente incorporou à Flupp esse conceito de 360º. Ainda por cima, era simbólico fazer em um morro que tem esse nome”.
UPP Inibe Festas Comunitárias
Presidenta da Associação de Moradores do Morro dos Prazeres há quatro anos, Eliza Rosa também já foi secretária e tesoureira da entidade. O último imbróglio provocado pela UPP do Prazeres começou e terminou no dia 17 de novembro, um sábado, para quando estava marcada a realização do Bonde da Nike.
Trata-se de um evento organizado pelos moradores, como o Bonde do Pio e o pagofunk, com entrada gratuita, e estava para acontecer na quadra de esportes da comunidade. Segura do compromisso firmado com o comando da UPP local e pela quantidade de convites que foi distribuída, Eliza tinha certeza de que o comparecimento seria em massa. De acordo com o previsto, seria, porque não ocorreu: “O capitão tinha me garantido a realização do Bonde da Nike, só que ele saiu para fazer um curso. O tenente que ficou no lugar dele, não quis liberar o evento. Mas eles acham que podem se encontrar a hora que bem entenderem, nesse espaço que é dos moradores. Já estou vendo o dia em que os policiais da UPP quiserem usar a nossa quadra, e nós não deixaremos que se reúnam”.
Eliza na sacada do Morro dos Prazeres
Por isso, quando se trata de favela, a relação de quem mora no local com os agentes do poder público costuma expor mais espinhos do que flores. Devido à repetida intransigência do poder policial, a verdade é que, atualmente, moradores de favelas com UPP correm o risco de que a decisão sobre a realização de certos eventos caiba exclusivamente à Polícia Militar (PMERJ).
De festas de aniversário – recorrentes em qualquer parte da cidade – a bailes funk – típicos da favela e sua juventude –, se aprovada a Resolução 013, ficará nas mãos do comandante de cada UPP se haverá, ou não, determinado evento.
Tornado patrimônio cultural em setembro de 2009, o funk foi definido como “movimento cultural e musical de caráter popular”, segundo a Lei 5.543, (com a substituição de algumas palavras, a vírgula tornou-se necessária) aprovada pela maioria dos deputados estaduais na Assembleia Legislativa (Alerj). E embora se tenha evitado que o funk fosse colocado à margem da legalidade, infelizmente ainda não foi possível, pela articulação entre alguns desses deputados e a Apafunk, legitimar os bailes em todas as favelas com UPP: “O baile funk não é visto com bons olhos por boa parte dos comandantes, não só das UPPs, como de todos os batalhões do Rio de Janeiro. Os bailes foram parar dentro das favelas, não respeitando horário e volume, por conta da falta de políticas públicas”, relata MC Leonardo, cofundador e atual presidente da Apafunk.
Migrante brasiliense, Eliza vive no Morro dos Prazeres há 15 anos, e desde o primeiro ano se envolve com as rotineiras dificuldades que prejudicam a vida de quem mora no morro: ”Com a entrada da UPP, a expectativa era de que haveria melhoras. Infelizmente, até agora, nada. E nada é nada mesmo. A nossa água é feita através de manobra. Antes da UPP, tinha dois manobreiros, e com a “pacificação” eles nos tiraram um, ao mesmo tempo que a Cedae começou um projeto chamado “Água Para Todos”. São 19 manobras na comunidade, mas o funcionário tem que ter oito horas trabalhadas; o meu, se brincar, trabalha 24 horas, porque, às vezes, água boa só de madrugada. E ele recebe só um salário-mínimo. Agora, água para todos como?”
Até a próxima edição da Flupp, em 2013, que terá como sede a Vila Cruzeiro, a esperança reside na até agora deixada em suspenso realização de bailes e festas nos espaços públicos das favelas “pacificadas”. Porque enquanto houver qualquer tentativa de silenciar a favela, sempre haverá um funkeiro disposto a “voltar pra defender nossa bandeira“.
(*) Reportagem reproduzida da RioOnWatch.

4 comentários sobre “Bula do funkeiro”

  1. Quero deixar claro que sou absolutamente contra a intervenção da polícia em eventos de particulares, como festas de aniversário, casamentos, batizados, etc. Porém, tenho uma dúvida. Como fica a questão do barulho excessivo? Sou absolutamente contra o desrespeito que acontece neste país à “lei do silêncio”, com igrejas, bares, casas de evento em geral impondo sua presença de suas ondas sonoras acima de um limite razoável para as pessoas que se encontram nas proximidades do evento. É um desrespeito absoluto. Gostaria apenas de ter isto respondido: os moradores da favela que não participam do baile funk, como fica a situação deles?

  2. Sinceramente…ou o que ouço em minha casa tem outro nome ou chamar o que somos obrigados a engolir de “cultura” é ,no mínimo perda dos mais elementares valores… Consumo e venda de drogas,sexo explícito…um palavreado aviltante berrado a ponto de estremecer nossas janelas…os senhores chamam isso de “cultura”????? Não sou obrigada a transmitir aos meus netos esse tipo de comportamento. .. não temos o direito de escolha??? não temos mais o direito de dormir depois de uma semana de trabalho????ler um bom livro,assistir a um filme com a família????receber um amigo sem ter que dividir com ele o esgoto,o lixo????

  3. Prezada Ana Paula,
    Como autor da reportagem, faço questão de levantar o debate a partir da sua mensagem.
    Concordo que é uma questão muito difícil. Não moro em favela, mas Lei do Silêncio é algo que se precisa cumprir independente de onde estamos na cidade. A questão é a quem compete cumprir a decisão que estipula o fim de determinados eventos, e em certos casos os mesmos são impedidos de última hora.
    Por exemplo, no outro domingo (9/12), fui ao HIP HOP Santa Marta + Viva Zumbi e, às 23h20, os PMs da UPP local chegaram sorrateiramente, foram ocupando até a laje de uma residência na Praça do Cantão, onde ocorria a manifestação político-cultural.
    Mas no caminho até o evento, produzido pelo Repper Fiell, esses mesmos PMs passaram em frente à quadra da escola de samba, onde havia só o ziriguidum da percussão e nada foi feito para igualmente encerrar a festa.
    Portanto, vejo da seguinte forma: a favela é um espaço como qualquer outro que existe na cidade, por isso quem organiza o evento, sabe a hora que deve encerrá-lo. E se a PM não avança sobre festas que ocorrem em casas e edifícios de pessoas com maior poder aquisitivo, não se pode permitir que essa instituição, a serviço do Estado, passe por cima da autonomia de quem mora na favela; não nos esqueçamos de que a mesma repressão, o mesmo silenciamento foi imposto ao samba, até o momento em que sambista deixou de ser enquadrado, pelo aparato policial, como alguém vadio; na mesma linha, precisamos lutar para que pare esta repressão ao funk!
    Um fraterno abraço,

  4. Prezada Maria do Rosário,
    Faço questão de estabelecer diálogo, a fim de que possamos estruturar possíveis linhas de ação.
    Citando novamente evento do qual participei, domingo retrasado (9), no Santa Marta, não havia uma letra de funk em que se cantasse palavrão ou os homens e as mulheres que dançassem, exibissem seus corpos de forma nada exemplar para as muitas crianças presentes.
    Muito pelo contrário, até hoje tive poucas oportunidades de interagir com a cultura dentro de favelas. Sem qualquer paternalismo, sendo morador da Gávea e interessado nas mais diversas representações da cultura popular, já tinha esgotado meu tezão para ouvir funk, por exemplo, só em casa ou boates da Barra e da zona sul.
    A verdade é que gosto de ir aonde a cultura se consolida sempre de forma mais genuína, e na maioria das manifestações que ocorrem nas favelas cariocas, as pessoas presentes ainda conseguem se ver livres das lentes e estigmatizações da grande mídia.
    Por exemplo, sugiro que você preste atenção qual é o tipo de funk que sempre toca nas novelas da Globo e depois compare com algumas das letras — também de funk! — que é possível ter acesso pela leitura do texto que publiquei acima. E o universo é ainda maior, não tenha dúvida, afinal alguns dos melhores funks que já ouvi na vida, eu tive a oportunidade de conhecer na última vez que visitei o Santa Marta.
    Um fraterno abraço,

Deixe uma resposta