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FOTOGRAMA, por Marcia de Almeida

A cada manhã eu resisto
por todos nós e por mim,
nesse país onde o sol também testemunha e cala
como nós a cada segundo,
como as gargantas arranhadas
e os olhos agrisalhados.
 
A cada manhã crio em mim
um novo pasto, um cabrito,
um punho fechado e um aberto
para lutar e afagar,
fazendo questão absoluta de não errar de rosto
e não marcar de sangue a boca de um amigo
nem manchar de Amor a cara de fera dos homens que são só lobos.
 
 
A cada manhã renasço e insisto,
reespero (mesmo que à tarde desespere)
e acredito que haverá um dia em que serão bandeiras
e, não, lenços brancos que cobrirão o espaço;
que serão risos e não lenços brancos que revestirão
o cais e os aeroportos;
que sairá das vozes não um gemido estertor
mas um grito humano e de guerra,
como guerreiros que somos da Vida, insistentes sobreviventes
de um túnel que nunca será (e)terno.
 
A cada manhã, eu  – que andei léguas e quilômetros
nas praças de outras gentes, senti e vi o frio, a Dor e a fome
e amei sempre loucamente,
me lembro da minha cidade (azul como o céu em dia de sol),
do meu vizinho, do companheiro
que na cadeira do ônibus me diz nos vergões dos seus silêncio e rosto
como vai indo a Vida;
me lembro que mesmo morrendo levarei sempre a esperança comigo,
e Irecê, e San Sebástian do Rio de Janeiro, y as manhãs cinzas de sangue
que durante tanto tempo nos têm cortado os olhos e amassado o coração
como se ele fosse um simples maço de cigarros vazio;
e da visão intrínseca de milhões de bocas
rotas, desdentadas, comendo fogo e o pão que o Diabo amassou
    (por ordem de quem, eu não sei),
a cada dia que passa e repassa.
 
A cada manhã me suicido por ter que falar e calar essa mesma língua,
                          que é minha,
mas sei que não são praças longínquas que me têm nada a ver.
A cada manhã tenho saudades do tempo que não sei e daquele que não
                        sei se era feliz,
e saudades das saudades que me corroeram durantes cinco longos anos e meio
                        de exílio;
mas também a cada manhã tenho certeza de que faço parte desta cidade
(azul como um céu em dia de Céu aberto), das paredes – e, não, dos
muros desse país; do mijo
dos transeuntes, da boca de cada um, das mãos que ora me afagam, ora me
empurram, ora me apertam e apertam a campainha do ônibus e descem
                    pra trabalhar; dos
olhos encardidos que olham e guardam cada facada no peito estraçalhado
de cada homem que se chama brasileiro, cuja profissão é a esperança,
cujo destino é incerto e desconhecido, cujo próximo segundo pode ser a
                                                                            Presidência de República,
um carro sobre a cabeça, uma overdose de heroína, cocaína ou porrada,
um tiro no meio da testa ao sair do edifício ou à porta do trem.
 
Dentro deste país moram Homens e dentro deles um anjo de ferro, de aço, de fogo,
que se chama Solidão.
Dentro deles moram Homens
e a cada manhã tenho mais certeza disso.
E acredito em cada uma que começa, como se nunca tivesse sabido
o que fosse o depois.
 
Nesse país moram Homens e nessa cidade, também.
Nesse país moram homens e mulheres, meu(s) amore(es), quando começam todas as
      manhãs.
 
———
Por Marcia de Almeida
Rio de Janeiro, agosto/76
Do livro ‘Fios y Navios’

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