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FMI, guerra na Ucrânia, fome e exclusão regional: a dura mensagem de Fernández a Joe Biden

Por Fernanda Paixão

Na presidência temporária da Celac, Argentina representou voz de países não convidados à Cúpula das Américas

Os representantes dos países presentes na 9ª Cúpula das Américas, nos Estados Unidos, discursaram na noite desta quinta-feira (9) em Los Angeles. O discurso mais esperado era o de Alberto Fernández, presidente argentino. Presente no encontro também como presidente da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), Fernández foi incumbido de responder à decisão do presidente Joe Biden de não convidar Cuba, Nicarágua e Venezuela. Além disso, atendia o pedido do presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, um dos mandatários que decidiram não comparecer à Cúpula em forma de protesto.

Sexto orador na ocasião, o presidente argentino foi direto já no começo de seu discurso: “Lamento que não podemos estar presentes todos os que devíamos estar, neste âmbito tão propício ao debate”, afirmou, logo após estimar os esforços para realizar a Cúpula.

Em seu discurso, Fernández não deixou de fora nenhuma das temáticas mais caras à região latino-americana: os impactos da guerra na Ucrânia, da crise climática e da fome sobre uma região que emite pouco gases do efeito estufa, contribui para emissão de oxigênio no planeta e é grande produtora de alimentos. Além disso, falou da sujeição econômica na lógica de dívidas imposta aos países em desenvolvimento; e do papel da Organização dos Estados Americanos (OEA) no golpe de Estado na Bolívia.

Na semana em que enviou ao Congresso Nacional o projeto de lei para arrecadar parte do lucro inesperado de grandes empresas na Argentina que cresceram graças à guerra na Ucrânia, Fernández também apontou para a desigualdade perpetuada pelo poder econômico concentrado. “Devemos abordar a necessidade de políticas impositivas progressivas, mesmo quando as elites domésticas nos apresentem como um perigo para a qualidade democrática”, destacou.

O lucro inesperado que a guerra entregou como um presente a grandes corporações alimentícias, petroleiras e armamentistas deve ser taxada para melhorar a distribuição de renda.

A voz dos países excluídos

Reforçando estar presente na ocasião como presidente da Celac, ressaltou o impacto da pandemia de covid-19 sobre a América Latina e o Caribe, que passou a ser a região mais endividada do mundo. “O peso médio da dívida externa supera 77% do Produto Bruto Regional”, apontou. Outro dado citado por Fernández foi a informalidade trabalhista, que supera 50% na região, além da expectativa de vida mais baixa na pobreza, o que chamou de “loteria do nascimento”.

Em seguida, questionou a ordem global vigente. “O mundo central determinou regras financeiras evidentemente desiguais. Alguns poucos concentram renda enquanto milhões de seres humanos ficam encurralados na pobreza.”

Logo de início, não deixou de mencionar os bloqueios efetuados contra países da região. “Da periferia onde nos colocam, a América Latina e o Caribe veem com dor o padecimento de povos irmãos. Cuba suporta um bloqueio de mais de seis décadas imposto nos anos da Guerra Fria, e a Venezuela tolera outro, enquanto uma pandemia que assola a humanidade arrasta consigo milhões de vidas.”

Mesmo sem nomear os Estados Unidos em relação aos bloqueios perpetuados, foi direto ao criticar a exclusão política de determinados países da Cúpula das Américas: “Ser o país anfitrião não outorga a capacidade de direito de admissão”, disse.

“Estou aqui buscando construir pontes e derrubar muros”, disse. E, dirigindo-se a Biden, fez uma contra-proposta à lógica excludente perpetuada pelo presidente anfitrião. “Como presidente da Celac, quero convidá-lo a participar da nossa próxima reunião plenária. Sonho que, em uma América fraternalmente unida, tenhamos o compromisso de que todos os seres humanos do nosso continente tenham direito ao pão, à terra, ao teto e ao trabalho digno.”

Apostando no que chamou de “associação estratégica comum”, o presidente argentino lançou uma proposta global para enfrentar a fome e a emergência climática. “Organizemos continentalmente a produção de alimentos e proteínas e desenvolvamos nosso enorme potencial energético e de minerais críticos para a transição energética.”

Dirigindo-se a Biden em diversos momentos, Fernández, em outras palavras, convidou o presidente norte-americano a escolher um caminho diferente de seu antecessor, Donald Trump.

“Presidente, Biden, tenho certeza de que este é o momento de abrir-se de modo fraterno em prol de favorecer interesses comuns. Os anos prévios à sua chegada ao governo dos Estados Unidos estiveram guiados por uma política imensamente danosa para nossa região, executada pela administração que o precedeu. É hora de que essas políticas mudem e os danos sejam reparados.”

Na sequência, apontou contra as instituições internacionais que operam contra países da região.

“A OEA foi utilizada como um soldado que facilitou um golpe de Estado na Bolívia. Apropriaram-se da condução do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que historicamente esteve em mãos latino-americanas. Foram desbaratadas as ações de aproximação a Cuba”, afirmou. “A intervenção do governo de Donald Trump no Fundo Monetário Internacional foi decisiva para facilitar um endividamento insustentável a favor de um governo argentino em decadência”, disse, em referência à presidência de Mauricio Macri, cúmplice de Trump, único momento em que citou a política de seu país em particular. “Por tamanha indecência, hoje, todo o povo argentino sofre.”

Antes de fechar seu discurso, apontou para a logomarca que ilustra a 9ª Cúpula das Américas e foi enfático: “Seguimos exigindo, por vias diplomáticas, os legítimos direitos que temos sobre as nossas Ilhas Malvinas, que estão ausentes nessa logo”, disse, apontando para o painel atrás de si. “Seguimos confiando no diálogo. Depois da tragédia da pandemia, observamos as guerras como o triunfo da insensibilidade humana.”

Ministro de relações exteriores reforça mensagem da Argentina à Cúpula

Na quarta-feira (8), os ministros de relações exteriores de cada país se reuniram para definir os pontos dos documentos que serão assinados pelos chefes de Estado, a partir dos cinco temas definidos pelo país anfitrião: Plano de Ação Interamericano sobre Governabilidade Democrática; Nosso futuro verde e sustentável; Plano de Ação sobre Saúde e Resiliência nas Américas; Programa Regional para a Transformação Digital; e Acelerando a Transição para a Energia Limpa.

Na ocasião, o chanceler argentino, Santiago Cafiero, ecoou a mensagem do país no contexto da Cúpula das Américas. “A equidade é, mais que nunca, a base da estabilidade política, da democracia profunda e da harmonia nas relações internacionais”, e afirmou: “A OEA nunca mais deve legitimar processos de desestabilização.”

Além disso, citou também os bloqueios a países da região como obstáculos para o alcance dos planos aspirados. “O compromisso sobre a governabilidade democrática que foi trabalhado nessa cúpula não poderá ser alcançado se persistirem as sanções e medidas unilaterais ainda vigentes em nossa região, mesmo que os fatos vislumbrem que tenham fracassado e só tenham gerado sofrimento na população”, disse.

Ao final da reunião, o ministro reafirmou seu posicionamento à imprensa, sobre o discutido na reunião. “As sanções ou bloqueios vão contra as práticas para alcançar a equidade.”

Edição: Arturo Hartmann

 

Fonte: Brasil de Fato
(10/06/2022)

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