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Expressão microscópica das intervenções imperialistas, no mundo: a invasão de Granada pelos Estados Unidos em 1983

Por Alder Júlio Ferreira Calado e Gabriel Luar

Passados os dias de uma cobertura midiática excessiva do funeral da Rainha Elizabeth II – expressão de uma demência coletiva dos nossos tempos (importa evocar o alerta paulino, de que “quem está de pé, cuide para não cair”. o processo de humanização não está garantido: há sempre a tensão “homo sapiens/homo demens”) -, eis que nos encontramos, no Brasil, a 10 dias do primeiro turno das eleições presidenciais. Ante as ameaças de continuidade da barbárie, observa-se uma crescente tendência de se decidir este pleito de já no 1º turno.

Com efeito, tem sido sem precedentes um cenário de devastação socioambiental, econômica, política, sanitária, educacional, de maus tratos aos povos originários, às comunidades quilombolas e tradicionais, às mulheres, à população LGBTQIA+, sem mencionar o retrocesso cultural, em relação às artes, ao negacionismo, a cultura da mentira erigida em prática diária, o extremo reacionarismo do fundamentalismo religioso, a gritante inversão de valores/ tudo a reclamar um enfrentamento da barbárie, a curto, médio e longo prazos.

Ocupa-nos o interesse em rememorar as sangrentas intervenções feitas pelo Imperialismo contra dezenas de povos, nos diversos continentes. No entanto, aqui tratamos especificamente de rememorar mais um ato de barbárie praticado pelo Imperialismo, desta vez em Granada em 1983.

 

“Ainda é fecundo o ventre de onde surgiu a besta imunda”, dizia Bertolt Brecht referindo-se ao alcance deletério do nazismo, do qual não se deve separar do capitalismo nem do imperialismo. Com efeito, como descreve Mauro Iasi (cf. https://www.youtube.com/watch?v=xlx2_UhObaw), desde finais do século XIX ao presente, estimam-se em cerca de 240 as intervenções dos Estados Unidos pelo mundo afora. Nem nos lembramos se nesta gigantesca lista está ou não incluída a invasão a Granada, uma minúscula ilha do Caribe, de menos de 400km² e com uma população atual estimada em 110 mil habitantes… Como se percebe, trata-se de um fragmento das devastadoras ações intervencionistas do governo dos Estados Unidos, tantas vezes em associação com o Império Britânico, como é o caso aqui destacada.

Por que, diante de tão importantes e numerosos países espalhados por todo o mundo, o Império Estadunidense haveria de se preocupar com a ilhota perdida no Caribe? Comecemos por fornecer alguns dados histórico-geográficos de Granada. Granada situa-se na região do Caribe, em meio a diversas outras ilhas, das quais se destacam República Dominicana/ Haiti, Cuba, Barbados, Trinidad e Tobago, além de uma série de minúsculas ilhas, inclusive ao redor de Granada.

Muito antes do impropriamente chamado “Descobrimento”, em 1492, tratava-se de uma região habitada por povos nativos, que foram dizimados pelos “descobridores” europeus, com objetivo de tomar-lhes a terra e roubar-lhes as riquezas (recomendamos, a este respeito, a (re)leitura de textos como os de Eduardo Galeano (“As veias abertas da America Latina” por ex) e Enrique Dussel (por ex, “ 1492: O encobrimento do outro”). No caso de Granada, a invasão se deu inicialmente pelos franceses, seguidos dos ingleses. Mesmo após a “independência” de diversos países latino-americanos, entre 1808 e 1830, Granada continuou sendo mantida sob o controle direto ou indireto do Reino Unido da Grã Bretanha. Mesmo assim, graças à resistência de sua gente, seja por meio de greves, seja por meio de sublevações, Granada seguiu buscando sua libertação. Importa sublinhar que esta região do Caribe, a exemplo de outras em nosso continente, é marcada profundamente pelo escravismo colonial. Neste sentido, convém ressaltar a energia revolucionária de seus libertadores, marcada pela mística negra.

 

Após uma longa ditadura instalada desde os inícios dos anos 50, estendendo-se por mais de vinte anos, graças à ação militante e educativa de um grupo de jovens revolucionários, no qual se destacava a liderança de Maurice Bishop (1944 – 1983), os granadinos conseguem superar o governo ditatorial e inaugurar um novo período.

Gigantesco desafio! De fato, três séculos de escravismo foram acumulados, implicando profundas cicatrizes naquela terra e naquela gente, não só de Granada, mas de todo o Caribe e de toda a América Latina. A tal estrutura escravocrata tem-se associado à ação imperialista, sob a forma de múltiplas manifestações econômicas, políticas, culturais… enfrentar esse desafio foi o que se propôs aquela insurreição vitoriosa de 1979. Fato que se dá em meio a um complexo cenário de conflitos, no Caribe e na América Central, onde povos como o da Nicarágua e o de El Salvador também experimentavam situações profundamente desafiadoras, diante da brutalidade imperialista do governo Reagan, a perseguir e buscar abortar processo revolucionários incipientes.

 

É assim que os revolucionários granadinos, animados por um grupo de jovens talentosos e em parceria com Cuba e com forças revolucionárias da África, da Ásia e da Europa, em um contexto de aliança terceiro mundista, passam a lançar as primeiras sementes de um novo tempo. Com efeito, em um cenário de escandaloso analfabetismo legado pelo imperialismo durante séculos, o governo revolucionário prioriza o enfrentamento do analfabetismo, em parceria com Cuba, tendo logrado em pouco tempo alfabetizar alguns milhares de granadinos. Ao mesmo tempo, no campo da saúde pública, mais uma vez em parceria com Cuba, traça e implementa o frutuoso programa de saúde coletiva. Na área da infraestrutura, inicia-se a construção de importante aeroporto, visando a uma conexão mais efetiva de granada com os povos da região, ao tempo em que o governo tratava de enfrentar a praga do desemprego, cuja taxa alcançava mais de 40%, tendo conseguido, em poucos anos, reduzi-la para cerca de 12%. Para tanto, cuidou de abrir diversas frentes de trabalho, na área de transporte, estradas, agro-indústria de pescado, agricultura e outros setores.

No plano das relações internacionais, foram dados passos relevantes, seja no âmbito diplomático, seja no âmbito da cooperação internacionalista. Diversos governos foram contactados por granada e, corresponderam à altura dos seus desafios, principalmente no tocante aos governos de esquerda da América Latina, da Europa, da então URSS e outros.

 

Passados quatro anos e meio do processo revolucionário, o Imperialismo não cessava de semear a Cizânia, de vários formas:

  • Empreendeu uma campanha midiática infernal contra o governo de Governo de Maurice Bishop

  • Espalhou prepostos para enlamear, localmente, os dirigentes do processo revolucionário, tendo conseguido cooptar uma parcela do próprio grupo dirigente;

  • Financiou grupos locais de ferrenha oposição ao Governo de Granada…

Pretextando ameaças para a região que a Revolução Granadina representaria para outros países da região, supostamente ameaçando a “democracia”, eis que a CIA, a mando do governo Reagan, acaba preparando a invasão de granada, com poderosos armamentos e grupos de elite, de modo a prender e assassinar Maurice Bishop, e a ministra de educação de Granada, Angela Bishop (esposa de Maurice) e outros dirigentes, ocasionando sangrentos confrontos, deixando centenas de assassinatos.

No próximo ano, a tragédia de Granada completa 40 anos. É mais uma oportunidade de exercitar-nos a memória histórica dos oprimidos, renovando nossos compromissos com os deserdados da Terra. Também em 2023, será uma ocasião para rememorarmos os 50 anos de um documento profético, intitulado “Eu ouvi os clamores do meu povo”, assinado por onze bispos do nordeste e oito superiores religiosos da região. Que a memória histórica siga sendo alimentadora de nossa mística revolucionária.

 

João Pessoa, 22 de de setembro de 2022.

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