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“Hora de criar novas propostas latinoamericanas com base nas experiências e aspirações de nossos povos”

Autor de diversos livros, Nils Castro, intelectual do Panamá, lançou durante a Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20, no Rio de Janeiro, sua mais recente obra: “As esquerdas latino-americanas em tempo de criar”.

Nils Castro, autor do livro "As esquerdas latinoamericanas em tempo de criar". Foto: Arquivo do estrevistado.

Autor de diversos livros, Nils Castro, intelectual do Panamá, lançou durante a Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20, no Rio de Janeiro, sua mais recente obra: “As esquerdas latino-americanas em tempo de criar”.  Em entrevista ao Fazendo Media ele fala sobre a interferência dos EUA na região, a deposição de Fernando Lugo no Paraguai, qual papel o Brasil desempenha atualmente na América Latina, e quais são as principais forças de esquerda em atividade na região. Segundo o autor, os governos progressistas derrotaram nas urnas a direita tracional latinoamericana nos últimos anos, mas o poder econômico, sóciocultural e, sobretudo, midiático desta se mantém firme e pode se restabelecer por meio de novos métodos e linguagens.
Nils Castro nasceu no Panamá, é doutor em Letras e licenciado em História da Arte. Participou de iniciativas para o reestabelecimento da democracia em diversos países na América Latina. Foi professor em universidades no Panamá, Cuba e México, e diretor do Grupo de Contadora, coletivo que contava com México, Panamá, Colômbia e Venezuela como resposta a retomada política intervencionista norteamericana na América Central. Nils escreve para diversas publicações da região, inclusive do Brasil.
Gostaria que você explicasse com mais detalhes a origem do título de sua obra.
Em que pese o talento e o heroísmo de muitos de seus protagonistas, na América Latina a maioria de suas grandes propostas revolucionárias do século XX não produziram os resultados que se esperavam, senão conquistas parciais ou resultados adversos. A isto se agregou o colapso do assim chamado “socialismo real”, a ofensiva ideológica neoliberal e os ambíguos efeitos políticos culturais que tudo isso provocou.
Isso ocasionou um  intervalo de tempo dos fatores “subjetivos” do processo revolucionário e das ideias e inciativas das esquerdas em geral como, por exemplo, o tsunami neoliberal que agravou dramáticamente a situação socioeconômica e moral de nossos povos. Então, os fatores “objetivos” que chamam a realizar uma mudança revolucionária se acentuaram, mas a capacidade de novas propostas de transformação revolucionária se defasaram.
Isto mudou quando o mal estar social causado pelo agravamento da injustiça e a desigualdade levaram vários povos a repudiar o velho sistema político e os partidos e candidatos que valorizavam o neoliberalismo, e a votar por novas alternativas. Enquanto isso, nas esquerdas se criaram programas moderados, que a maioria dos eleitores pudessem aceitar. Isso facilitou a eleição de vários governos progressistas, que hoje solucionam injustiças e melhoram as condições de vida de seus povos, mas que não foram eleitos para realizar grandes mudanças revolucionárias, nem têm as condições para lançá-las e sustentá-las.
Temporariamente, foi sim um novo projeto estratégico das esquerdas, que deve ser um projeto crível, persuasivo, factível e sustentável. De nada serve propor um projeto muito revolucionário que a gente não esteja disposto a assumir, impulsionar e defender. O que falta é achar um caminho revolucionário realizável, não um novo martírio sem resultados efetivos e duráveis. Não é possível propor objetivos pós capitalistas com projetos que não podem sustentar a si mesmos.
No entanto, não deve acontecer outra vez que tomemos as ideias e modelos revolucionários das experiências e aspirações de outros povos e regimes revolucionários. Com as ideias alheias vêm as limitações e interesses alheios. Temos que construir as propostas latinoamericanas com base nas experiências, nas aspirações e as capacidades dos povos latinoamericanos. Assim, deve-se criar novas propostas de maior alcance estratégico. Para poder ir mais além dos horizontes atuais, esta é a hora de criar e a isso se deve o título do livro.
Quais são as principais forças de resitência na América Latina hoje?
Nosso continente tem uma rica diversidade de processos nacionais e socioculturais que é preciso compreender e somá-los sem restringir as forças da pluralidade de seus integrantes. No passado, o esforço teórico por destilar definições classistas, rigorosas e estreitas nem sempre conduziram a melhores resultados práticos senão a maiores sectarismos políticos. Prefiro as noções mais generalizadas que abarcam toda a variedade dos contingentes dos oprimidos, marginalizados, despossuídos, explorados e discriminados. A todos os que padecem da injustiça e carecem de participação, sem importar muito se se trata de pobres do campo ou da cidade, de trabalhadores manuais, de pequenos proprietários ou de intelectuais.
Talvez na Europa dos socialdemocratas do século XIX e começo do XX essas definições excludentes tiveram utilidade, mas na América Latina não foi assim; essas categorias sociais aquí não estão tão diferenciadas, e se estiveram nosso papel não seria o de separá-las e sim a de uní-las. Assim prefiro as noções mais amplas de chamada, como a de Fidel Castro em “A história me absolverá”, que não excluía e incitava a classe média – por isso ali a revolução triunfou – e como a de Nelson Mandela.
Nenhuma solução revolucionária pode nascer e desenvolver-se nascendo de um sectarismo.
A América Latina passou por um período, no século passado, de muitas ditaduras militares e muitas delas, segundo alguns estudiosos, foram viabilizadas pelos Estados Unidos. Qual a inlfuência norteamericana hoje na região?
Não apenas viabilizadas, mas impostas por distintas agências estadunidenses, quando suas autoridades impediam que os povos latinoamericanos pudessem eleger os governos que gostariam. Isto não é mais assim na medida em que o poder relativo dos Estados Unidos tem diminuído, e que alguns setores da opinião pública americana agora têm concepções mais éticas e democráticas, em que os povos latinoamericanos são menos tolerantes com as ingerências estrangeiras, e em que os governos progressistas na América Latina têm conseguido recuperar maiores cotas de autodeterminação e soberania.
No entanto, embora a hegemonía estadunidense não esteja tão esmagadora como antes, não deve ser subestimada. No establishment quem controla Washington são as forças reacionárias e prepotentes que dispõem de um conjunto de agências oficiais, extraoficiais e privadas de amplo alcance conspirativo e pouco respeito pelas leis e o espírito do direito internacional. Há anos que experimentamos invasões militares como a da República Dominicana (1965) e Panamá (1989), mas isso não significa que essa alternativa seja materialmente possível, posto que em países mais remotos como Iraque e Afeganistão elas seguem ocorrendo.
A viabilidade de nossos projetos progresistas de maior alcance depende de nós mesmos, e da solidariedade entre nossos povos e governos: de nossa própria coragem moral e política, como tem demonstrado a resistência cubana. Isso exige duas coisas: por uma parte, incrementar nossa capacidade de esclarecer ideais e criar cooperações em diálogo com setores progressistas norteamericanos. De outro modo, nossa capacidade de propor a nossos povos projetos em que eles possam crer e confiar, e que produzam resultados desejáveis e eles queiram defender.
Nos últimos anos ocorreram tentativas de golpes na Venezuela, Bolívia, Equador e Honduras, e nesta semana o presidente do Paraguai foi deposto. Existe alguma relação entre esses fatos? Como você avalia a saída de Fernando Lugo do poder?
No ano passado publiquei um ensaio chamado Quem é e o que pretende a “nova direita”, que circulou bastante nos meios digitais e que aborda um tema que agora desenvolvi mais neste último livro. Ali digo que com a eleição dos governos progressistas a direita tradicional foi vencida nas urnas e perdeu temporariamente a luta, mas que não foi derrotado em seu poder econômico, sociocultural e midiático. Portanto, tem amplos recursos para reavaliar a situação e criar seus novos métodos, linguagens, mitos e formas de persuasão e engano para lutar pela recuperação do governo.
Pode ser por novos meios, como no Panamá e no Chile, criando a lenda de que convén eleger um “não político” que é um empresário exitoso, isto é, um personagem que demonstra grandes habilidade para os negócios e está disposto a por seu serviço à disposição da sociedade. Um  personagem que acima de tudo, como é muito rico, já não necessita enriquecer com o uso do governo: eficiente e honesto, é o substituto perfeito dos desprestigiados políticos tradicionais. Este modelo se iniciou com Berlusconi na Itália e continuou com Martinelli e Piñera em nossa América. Nos três casos, apoiando-se em uma esmagadora ofensiva midiática, para instalar esse mito e desqualificar seus adversários.
Este modelo é um fracasso, posto que os três têm sido um fracasso no governo e tem causado uma enorme desilusão social.
No entanto, as direitas também estão tentando reconquistar o governo através de variantes “melhoradas” de seus velhos métodos: em Honduras, os generais deram o golpe mas em seguida se disseram ao lado entregando o poder aos civis mais reacionários, para amortecer as reações antigolpistas. No Paraguai não acionaram o exército mas promoveram astutamente um golpe parlamentar supostamente “legal” mas ostensivamente ilegítimo, também buscando neutralizar as resistências. No Equador e Bolívia, tentaram simular conflitos étnicos e sindicais, como o das demandas salariais e dos policiais.
Em todos os casos, houve uma cobertura  de artilharia intensa dos grandes meios tradicionais de comunicação, que servem para distorcer os fatos e o discurso dos pretextos golpistas.
No caso do Lugo, temos um país ainda saturado pela velha cultura política da tirania e do partido Colorado, assim como um líder popular que, todavia, não é um dirigente de um movimento organizado. Ele não reagiu com a firmeza que correspondia a sua popularidade, porque esta não se sustenta na estrutura política. No entanto, ainda dispõe de uma grande oportunidade: a de dar a volta na situação e organizar e mobilizar politicamente sua popularidade, e a de apoiar-se na solidariedade latinoamericana, a fim de desmascarar e desautorizar os traidores e golpistas, para destruir-lhes seus controles do Congresso.
O papel de Lugo na história dependerá de sua capacidade para esse contragolpe; tem amigos dentro e fora do país para fazer, a menos que pese demais sua batina.
Qual é a posição do Brasil no contexto da região?
Enorme, porque está agora na nossa vanguarda e em nossa retarguada, em comparação com os países menores. A partir do governo Lula, o Brasil conseguiu oferecer exemplos de como as coisas podem ser feitas e oferecendo solidariedade, sem por isso deixar de cumprir suas responsabilidades como país grande. Além disso, os governos de Lula e de Dilma tem susntentado consequentemente o esforço por manter o grupo latinoamericano unido, apesar da heteogeneidade de nossos governos progresistas e até mesmo a presença de importantes governos conservadores.
Finalmente, a Cúpula dos Povos de alguma maneira renovou os movimentos populares latinoamericanos? Qual a sua avaliação do evento?
A Cúpula contribuiu para interrelacionar a um gênero o aspecto dos movimentos populares, e de que são inseperáveis os vínculos entre a justiça social e a sustentabilidade ambiental. As pessoas apontam que o principal objeto da luta é por um ambiente melhor e uma comunidade humana em harmonia e proveitosa convivência com seu contexto natural. Ao juntá-los para compartilhar a discussão, a Cúpula fortaleceu conceitualmente essa gama no que diz respeito aos movimentos populares.
No entanto, ainda foi visível que muitos dos lutadores pelo desenvolvimento sustentável expressam mais denúncias e críticas que propostas viáveis. Certamente, deve-se  denunciar o péssimo modelo, e que desmascarar o caráter depredador do capitalismo selvagem e o capitalismo em geral, assim como é preciso propor e impulsionar iniciativas que os governos possam levar a cabo, mas também há que propor e estruturar iniciativas que as próprias organizações populares possam levar a cabo e se sustentar por si mesmas. Além de criticar, nós mesmos temos que fazer e produzir, para aprender e ensinar a criar, não somente reclamar.
Dado que na Cúpula dos Povos se celebrou a interação e uma confrontação com a agenda da Rio+20, era lógico que o tema ambiental e a sustentabiliadde prevaleceram nas discussões. No entanto, deve-se reintegrar esses temas ao contexto dos demais temas ideológicos e políticos da resistência contra o capitalismo selvagem e pela transformação de nosso mundo mais além do horizonte imediato. Porque a questão ambiental e da sustentabilidade só podem ser entendidas e resolvidas integralmente se analisadas dentro desse contexto maior.

Uma resposta em ““Hora de criar novas propostas latinoamericanas com base nas experiências e aspirações de nossos povos””

Companheiro Eduardo, já tinha lido há poucos dias matéria sobre o livro aí do Nils Castro, anotei até pra comprar na primeira oportunidade. A entrevista me esclarece mais suas ideias, muito pertinentes, me parece.
Na minha opinião, faltou tocar no papel relevante que vêm jogando os avanços na Venezuela. Também é preciso enfatizar mais a importância das forças internas de cada país: mobilização e organização popular.
Tem um pequeno trecho que, creio, está truncado: “Há anos que experimentamos invasões militares como a da República Dominicana (1965) e Panamá (1989), mas isso não significa que essa alternativa seja materialmente possível, posto que em países mais remotos como Iraque e Afeganistão elas seguem ocorrendo”.
O Nils certamente quis dizer que elas (as invasões militares) continuam na ordem do dia, podem sim ocorrer.
Grande abraço.

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