“É uma reforma na educação que se tem de fazer”

Lygia Lessa Bastos, parlamentar recordista e professora. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
Lygia Lessa Bastos, parlamentar recordista e professora. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Professora, é assim que Lygia Lessa Bastos se sente, é assim que gosta de ser considerada, apesar de parlamentar recordista. Foram 36 anos de atuação na política nacional, e hoje com mais de 90 anos, aposentada, mantém-se irredutível no que diz respeito à educação: para ela, é a base de tudo e a implantação dos Centros Integrados de Educação Pública (Ciep’s) em todos os estados é a salvação do Brasil.
Apesar de sua formação na antiga União Democrática Nancional (UDN) e na Aliança Renovadora Nacional (Arena), partidos adeptos do regime militar na década de 60, é uma admiradora do trabalho de Anísio Teixeira e reconhece a contribuição de Leonel Brizola para o ensino no Rio de Janeiro. Em entrevista ao Fazendo Media, Lygia aponta os desafios para área, suas mazelas e alternativas para a melhoria.
Diante da sua experiência, o que lhe vem em mente quando você pensa na educação hoje no Rio?
Hoje estou sentindo uma decadência total do ensino e da educação. Na educação começa pelo código do menor, que não se modifica, não se dá responsabilidade aos pais que põem a criança no mundo e pensam que o estado é obrigado a sustentar. Então, são culpados os que não estão legislando sobre isso.
Se essas crianças andam pelas ruas e ninguém recolhe, ninguém encaminha elas, ninguém está se preocupando, talvez seja porque elas não votam ainda, estão por aí abandonados. O ensino está há muito tempo em decadência, quando eu saí em 1982 já estava porque eu não conseguia aprovar muitos projetos já que os donos dos colégios particulares eram mais forte que eu no plenário.
Eu só queria que a professora tivesse a técnica pedagógica que tinha a escola normal e o Instituto de Educação. Que os professores pudessem ensinar, que eles tivessem uma técnica pedagógica adequada. Hoje qualquer pessoa que faça um curso normal em qualquer colégio particular tem o diploma de professor e vai ensinar. Muitas vezes eu vejo entrevistas com professores e tenho a impressão de que são merendeiras. Agora estão com medo até de entrar na sala de aula, chegou a esse ponto.
Tem que começar com a creche, com a criança sendo logo educada, e depois passando para os Ciep’s. O ensino integral onde você possa estudar a criança e que ela possa ter uma profissionalização: a criança tem tempo de estudar para ver o que ela gosta mais, qual é sua tendência. Dessa forma ela já está encaminhada, isso que é educar e ensinar. Pensam que o Ciep é entrar às 8h e sair às 18h e mais nada. Não: tem a técnica toda desenvolvida por Anísio Teixeira. Esse homem não pode ser esquecido!
No que diz respeito à técnica, me vem à mente a questão do método.
Nós tínhamos uma escola normal que só formava professores, depois criaram o Instituto de Educação, onde eu me formei. Nós aprendíamos a ensinar, quem não tivesse o dom de ensinar não fazia escola normal nem o Instituto de Educação. Porque se a pessoa não queda para tomar conta de criança, não tem paciência, não pode ser professora. Nós tínhamos provas semanais, éramos formadas para ensinar as crianças, havia uma técnica especial. Hoje se você quiser ser professor essa técnica vai por conta própria, você vai pegar uma criança e vai ensinar o que você acha que deve ensinar em primeiro lugar.
Você atribui a que, essa precarização dos Ciep’s? Porque ele ainda está aí…
Quando o Brizola chegou e o Darcy conseguiu, apesar do Brizola não estar com muita verba, ele aproveitou aqueles terrenos dos municípios que estavam vazios e mandou levantar os Ciep’s todos para funcionar. Mas houve uma enchente no Rio de Janeiro, então as pessoas invadiram os Ciep’s e eles acabaram destruídos.  E aqui você tem dois ou três Ciep’s, quantos você pensa que tem? Procura fazer o levantamento de aonde que funciona de 8h às 18h…
Mas você acha que se os Ciep’s realmente funcionassem seria um caminho para melhorar a educação?
É a salvação. É preciso que haja esse entrosamento do estado com a união e o município, já que eles querem gastar uma fortuna com Câmara de Vereadores, o que eu acho hoje em dia desnecessário.
As verbas no Rio direcionadas para a segurança pública são infinitamente superiores das que são utilizadas na educação.
Será cada vez maior, porque está cheio de moleques nas ruas abandonados. As professoras eram formadas e podiam acompanhar a turma delas do primeiro ao quinto ano. De 1958 para cá, as coisas pioraram muito e estão piorando cada vez mais, o Instituto de Educação está acabado.
É um absurdo ter numa Câmara 500 e tantos deputados, o povo é que paga. O Jânio pensou em acabar com a Câmara de Vereadores, hoje são duas mil quinhentas e tantas Câmaras sustentadas por cada município. O que tinha de fazer é esse administrador regional, cada bairro tinha um administrador que fosse funcionário, ganhava uma gratificação, e no fim do mês apresentava um relatório do que o seu bairro precisava.
Então, ele era um vereador, sabia o que se passava no bairro. Alguém tem de ter coragem, seja militar ou civil, de fazer uma reforma. Não temos uma liderança para acabar com isso, e colocar a verba para a criança quando estiver em idade já ir para uma escola: começa na creche. Tem que ter dinheiro para fazer, se não não vai ter jeito porque a criança quando cresce já começa a ver que os ladrões estão prosperando.
“Hoje uma criança sai e você conversa e fica com pena, se eles não estudarem bem em casa e não fizerem cursos particulares não vão acima”, destaca a professora. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
“Hoje uma criança sai e você conversa e fica com pena, se eles não estudarem bem em casa e não fizerem cursos particulares não vão acima”, destaca a professora. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Em relação aos meios de comunicação, na década de 40 você tinha um projeto de estender a educação para as rádios. Como é que você vê esses mecanismos em relação à pedagogia e cultura?
Muito fracos, há muito pouco espaço. Ultimamente eu estava notando que havia uma certa preferência a determinados assuntos que agradavam mais a situação que está aí, que havia realmente uma fiscalização por parte de alguém do governo. E em todas as televisões na hora dos jornais as notícias são as mesmas, você não vê falar que o ensino está caindo e as crianças estão abandonadas nas ruas e estão assaltando. Não há espaço, é limitado, porque há censura, sempre houve alguém que desvia o material e distribui o que pode e não pode.
Você se debruçou durante um tempo sobre a educação física, agora teremos Olimpíadas e Copa do Mundo no Brasil. Como você vê essa área atualmente?
Infelizmente, para quem foi professora da Escola Nacional de Educação Física no primeiro ano, aluna e colega da Maria Lenk, eu sou contra esses eventos ocorrerem no Brasil. Eu acho que foi gasta uma fortuna para viajar com uma equipe sabendo da situação do país. Se houvesse amor ao Brasil não haveria aqui, porque com o dinheiro que se vai gastar dava para você fazer um mundo de Ciep’s em cada estado e consertar o país. 
Sobre a educação no campo, qual é o cenário?
Na prática não existe.
Qual a sua percepção em relação ao ensino público e o privado? Porque hoje, as universidades principalmente, são em sua maioria particulares.
Desde a época que eu era vereadora, a maioria dos diretores de escolas particulares pesaram e tiveram influência de não aprovar os projetos do Anísio e essas idéias nossas do Instituto [de Educação] cada vez mais forte. Nós queríamos que continuasse aquele tipo de escola, mas eles começaram a ter colégios particulares. E essa rede muito forte, além do dinheiro, teve o poder porque se elegeram e conseguiram que as leis não passassem. Agora está aí o que você vê.
Então, isso que você fala deles terem maior número de escolas, eles têm sim porque ganham muito. Qual é a escola que você recomenda hoje? Se você começar a examinar a qualidade do aluno que sai e o que ele vai ser, se ele tem capacidade de passar num concurso… Mas no Brasil, infelizmente, está de tal ordem a coisa que até eu duvido que muitos concursos aí sejam combinados, porque eu vejo muito protegido de político entrar e quando conversam só abrem a boca para dizer bobagem.
O que você pensa do vestibular?
No momento em que você tivesse aquela escola de formação quando o aluno saísse você sabia que ele tinha que ter capacidade. Vestibular é mais um outro ramo que inventaram, mais um órgão, mais dinheiro para o diretor e para quem trabalhar lá. E vai testar o quê?
“Se nós não educarmos é muito difícil alguém ter interesse, e é por isso que o Brasil está assim”, afirma Lygia Lessa Bastos. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
“Se nós não educarmos é muito difícil alguém ter interesse, e é por isso que o Brasil está assim”, afirma Lygia Lessa Bastos. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Quanto ao professor, o desafio está aonde? Na remuneração, na capacitação, nas condições de trabalho?
Na formação do professor, aí reside todo o mal. Mas o professor também não é bem pago no Brasil, por isso que eu estou te dizendo: há 515 deputados federais, 2.600 municípios com câmara de vereadores, quando não há necessidade disso. E também não precisa ter 3 senadores por estado, basta ter um, seja um estado pequeno ou grande. Está esbanjando? Tem dinheiro? Então gasta em educação.
O que o atual governador do Rio de Janeiro faz pela educação?
O único governador que quis gastar dinheiro com o ensino foi o Leonel Brizola. O Darcy Ribeiro deu continuidade à obra do Anísio Teixeira. Eu tentei fazer esse sistema educacional com o Carlos [Lacerda], e ele disse: “Ligia, a gente só vai ver o resultado daqui a uns 10 anos”. “Verdade, porque vai lutando e quando eles crescerem é que vão ver como foi bom ter esse sistema educacional”. Mas ele tinha que fazer o túnel Rebouças antes, e não elegeu o seu sucessor. Se o Flexa Ribeiro, sucessor do Lacerda, tivesse sido eleito, apesar dele ser diretor do colégio Andrews [colégio particular na zona sul do Rio], ia implantar o sistema  porque ele também pensava assim.
Outros daqui do Rio de Janeiro, que eram donos de colégio, conseguiram que as escolas particulares dessem diploma, bastava ter um curso normal nesses colégios particulares e já era professor primário. Então eles puderam ser nomeados para o Estado, daí houve uma queda de aproveitamento no ensino.
Atualmente eu não vejo nada, o Cabral está muito preocupado com as Olimpíadas, com essas enchentes. Ele está procurando verba para trazer para o Rio, procurando se unir aos que estão mandando e têm poder de distribuir as verbas. Está fazendo a política do bom vizinho, tanto assim que até agora ele não saiu como candidato a coisa alguma. Só se há por trás disso tudo alguma coisa. No ensino no Rio ele não aumentou nenhum Ciep, não criou nada, pelo contrário, ele deixou morrer o Instituto de Educação, não se incomodou muito.
O Darcy Ribeiro, na década de 60 e 70, ressaltava a questão da pesquisa, da ciência, da tecnologia. Qual a importância disso na educação?
Ele defendeu sempre, e ele era um especialista, ele queria levar avante, como eu que era professora e achava que o ensino era a base de tudo. Mas, para você gastar uma verba para aquelas pesquisas você tinha de pensar primeiro cá embaixo. Se todo mundo chegar com a sua especialidade e começar a fazer obras e mais obras, como agora a Olimpíada, o dinheiro que vai gastar não vai ser jogado na educação.
Ninguém vai botar um reformatório? Porque é um reforma na educação que se tem de fazer. Você pegar essa gente da rua e educá-la, e cada uma tem uma história e pode ser salva. Pode ser que de 100 moleques de rua 10 já estejam completamente drogados, porque não estão conscientes não. Nesses reformatórios você faria uma seleção e salvaria quem pode ser salvo, e quem não pode vai ser tratado por médicos e especialistas que entendem desse assunto.
E a hegemonia cultural norteamericana, ela não prejudica nossa formação? Como, por exemplo, gerações serem formadas pela televisão com filmes só com o modo de ver deles?
Eu já vi muito filme italiano e francês, que passam nos cinemas. Só que o brasileiro tem a mania do abatimento, eles facilitam o norteamericano, eles compram muito mais barato, a diferença é enorme. Eles têm a tabela deles, agora, o Brasil compra o que quer e quem compra é quem está lá mandando. Quem manda na televisão? O diretor é quem manda botar aquele filme, repetir a novela, porque interessa mais a ele, ele está ganhando mais.
Cada filme que ele passa americano ele ganha também, há muita vantagem que o povo não sabe. O problema é que as pessoas nem pensam nessas coisas. De que adianta questionar se são eles que compram, que impingem? Se nós não educarmos é muito difícil alguém ter interesse, e é por isso que o Brasil está assim.

5 comentários sobre ““É uma reforma na educação que se tem de fazer””

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  2. Por favor, saberia dizer se a professora Lygia trabalhou no G.E. Baltazar Bernardino em Niterói nas décadas de 60 e70?
    Grata pela atenção.

  3. Cara Tereza,
    a professora disse que nunca deu aula em Niterói. Obrigado por ter lido a entrevista e deixado seu comentário.
    grande abraço,

  4. Parabens,
    Essa Entrevista foi a melhor reportagem que já li neste site.
    A forma como a Ex Vereadora vê a Educação e a política nacional é louvável neste mundo de alienados.
    Raimundo Lira
    Estado do Ceará

  5. Parabens prima, a sua transparência e esperiências de vida pública, poderiam nortear alguns problemas que se tornaram ciclos viciados, onde o poder dá voltas e se perde, não projetando um Marco Regulatório para o crescimento sustentável do nosso Brasil…

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