Dona Zélia, depois da limpeza social: “Ficou parecendo uma Miami”

No quintal de casa, dona Zélia e a papelada das remoções

“Isso chama-se limpeza social. Removeram a primeira e maior parte da comunidade, 68 famílias, para fazer um belo jardim na entrada do condomínio. Ficou parecendo uma Miami. Quando os moradores abriram os olhos, já era tarde demais. Agora, mais uma vez, sem necessidade, vão acabar com o resto”.
O desabafo é de Maria Zélia Carneiro Dazzi, a presidente da Associação de Moradores e Pescadores da Vila Arroio Pavuna, na zona Oeste do Rio de Janeiro. Descendente de um dos primeiros integrantes da comunidade, dona Zélia é parte viva de uma história de remoções que marca o avanço da especulação imobiliária na cidade.
Surgida em 1910, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona Sul, em 1938 a comunidade foi transferida pela primeira vez, para as proximidades da Lagoa de Jacarepaguá. Em 2006, a construção de um condomínio de luxo nas redondezas desfez casas e laços comunitários.
A ‘Miami’ de dona Zélia, onde ficava parte da comunidade removida

“A área do condomínio e de tudo aqui era uma enorme mata. A gente saia com um pedaço de pau na mão, porque era cheio de bicho: cobra, capivara, coelho. Tinha borboletas azuis lindíssimas. Os pássaros noturnos, todos sucumbiram.Tinha pássaro Carão, aquele que parece uma galinha e tem um canto lindíssimo. Naquela época [da construção do condomínio] os bichos conseguiram escapar para o terreno aqui do lado. Mas dessa vez, não. Foram todos aterrados, coitadinhos”.
Dona Zélia se refere ao aterro onde caminhões e tratores se preparam para erguer um viaduto que fará parte da TransCarioca, a ligação entre o aeroporto do Galeão e a Barra da Tijuca, uma das obras de infraestrutura para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Para concluir a avenida, a Prefeitura pretende remover as 28 famílias que restam, extinguindo uma comunidade centenária.
Dona Zélia diz que só ficou sabendo que perderia a casa quando repórteres de TV vieram até o bairro no dia seguinte à publicação do decreto no Diário Oficial.
“A verdade é que não estamos entendendo nada. Cada hora a planta que fazem da comunidade está de um jeito, sempre com erros. Tudo bem desapropriar as casas da frente, mas não é necessário fazer isso com todas”, ela argumenta.
Organizados pela ativista, os moradores estão decididos a não permitir que a Prefeitura faça a avaliação das casas para efeito de desapropriação. Tiram proveito do fato de que existe um portão isolando a comunidade. Recorreram à Defensoria Pública. Por enquanto, os moradores não tiveram acesso ao projeto e reclamam da escassez de informações.
“Minha casa não está à venda. Não tenho porque permitir que entrem nela”, diz dona Zélia.
As marcas em tinta preta que a Secretaria Municipal de Habitação deixou na entrada do bairro, supostamente para marcar as casas a serem demolidas, foram cobertas pelos moradores com tinta branca.
No muro onde a prefeitura pintou as marcas da remoção, moradores cobriram com tinta branca

“Isso é uma prática nazista, não vamos aceitar”, diz dona Zélia.
Ela continua planejando o futuro. Fez um curso para elaborar projetos comunitários na Fiocruz e gostaria de promover o turismo ecológico no entorno da Lagoa de Jacarepaguá, hoje altamente poluída.
A luta para salvar a comunidade fez com que ela descuidasse da própria saúde. Dona Zélia sofreu um mal estar, por um breve período deixou de sentir o lado esquerdo do corpo, levou um tombo na rua e feriu o joelho. Mas não teve tempo de procurar atendimento médico. Além de lidar com a ameaça de remoção, precisa ajudar o marido a enfrentar as consequências de um câncer recém-descoberto.
Apesar dos abalos, ela demonstra determinação. Passeando pela comunidade, aponta para uma árvore centenária e lamenta a perda de outra, que ficava por perto.
Foi então que disparou a frase mais marcante da entrevista:
“Isso chama-se limpeza social. Removeram a primeira e maior parte da comunidade, 68 famílias, para fazer um belo jardim na entrada do condomínio. Ficou parecendo uma Miami. Quando os moradores abriram os olhos, já era tarde demais. Agora, mais uma vez, sem necessidade, vão acabar com o resto”.
A construtora Delta, de Fernando Cavendish, amigo do governador Sérgio Cabral, é a responsável pela obra que vai remover a comunidade

O limite entre o terreno de dona Zélia e as obras do aterro que precedem a construção de um viaduto

(*) Reportagem publicada originalmente no blog Vi o Mundo.

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