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Do direito à identidade

Com o passar do tempo, podes ter ido incorporando uma noção equivocada acerca de ti mesmo, de quem és, da pessoa que em verdade aninha nesse corpo. O trabalho do sistema capitalista é o do estranhamento da pessoa, o de fazer com que, de fato, não nos queiramos como somos. Os nossos pais, a cultura, as pessoas em volta, funcionam como mãos executoras dessa tarefa perversa, a alienação, o processo pelo qual vais te distanciando de ti mesmo e de ti mesma. Mas a solução não é esbravejar contra a nossa família ou contra o sistema em abstrato, contra as classes dominantes, contra a educação que tivemos, contra os fatos que nos tocou viver. Isso tudo é um jogo de dominó que apenas começa a se desfazer desde dentro, num trabalho construtivo de recuperação da própria identidade, da noção do ser autêntico que cada um de nós, é, do que podemos, do amor que nos cabe ter por nós mesmos. O nosso passado é o estrume donde brota a planta, donde nasce a flor.

Este trabalho de resgate passa pelo reencontro com a nossa criança interior, essa menina ou esse menino que fomos, que soube dar a volta por cima, soube sobreviver transformando as dores em flores. Esse ser aninha no mais íntimo de nós mesmos. É nosso gurú, nosso deus interior. Essa parte de nós mesmos que sobreviveu à educação castradora, essa parte de nós que sabe que há um inimigo interno plantado pelo sistema dentro de cada um de nós. Essa parte tão íntima de cada ser humano, de cada ser consciente, é que chamo de a criança interior. Esse é o nosso libertador, nossa libertadora, se és mulher. É a parte nossa que é feliz por ser quem é, por ser um ser de amor, que foi capaz de fazer o cainho de volta. Que com infinita paciência aceita o fato de que é uma pessoa única no universo, um ser de amor, com qualidades e defeitos, e com uma vontade indomável de ser quem é, autênticamente.

O trabalho de recuperação da pessoa humana passa pelo reencontro da criança interior. Pela recuperação da gratuidade, da espontaneidade. Você não foi feito para ganhar sempre, para acertar sempre, para vencer encima da derrota dos demais. Construir um mundo de paz passa pela compreensão de que a diversidade é o dado do humano. O outro nunca será como eu penso que deveria ser. É como é, assim como e sou do jeito que sou. Não preciso gostar desse outro que me resulta muitas vezes incompreensível ou desagradável. Não preciso amá-lo, basta saber que ele ou ela tem tanto direito a existir como eu mesmo. Apenas posso moldar a minha própria existência, ou, melhor ainda, deixar-me ser. Deixar a minha vida me levar, deixar a vida me levar, como uma onda do mar, sem medo de ser feliz, sem medo de ser. Feliz

Por Rolando Lazarte

Escritor e sociólogo. Terapeuta Comunitário. Professor aposentado da UFPB. Membro do MISC-PB Movimento Integrado de Saúde Comunitária da Paraíba. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/

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