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Derrota do Império: Venezuela entra no Mercosul

Ontem foi ratificado em Brasília a entrada da Venezuela no Mercosul. Deste modo o bloco comercial sul-americano se reforça tanto quantitativa como qualitativamente. No primeiro caso, porque agrega um novo sócio com um Produto Bruto estimado – pelo World Economic Outlook do FMI em paridade de poder aquisitivo – em 397 bilhões de dólares. Quer dizer, se agrega uma economia de um tamanho ligeiramente superior à da Suécia…

Por Atilio A. Boron(*) – reproduzido do jornal argentino Página/12, de 01/08/2012
Ontem foi ratificado em Brasília a entrada da Venezuela no Mercosul. Deste modo o bloco comercial sul-americano se reforça tanto quantitativa como qualitativamente. No primeiro caso, porque agrega um novo sócio com um Produto Bruto estimado – pelo World Economic Outlook do FMI em paridade de poder aquisitivo – em 397 bilhões de dólares. Quer dizer, se agrega uma economia de um tamanho ligeiramente superior à da Suécia. O Mercosul agrandado conta agora com um Produto Interno Bruto de 3,6 trilhões de dólares, o que o converte na quinta economia do mundo, somente superado por Estados Unidos, China, Índia e Japão, e claramente por cima da locomotora europeia, Alemanha. Qualitativamente falando, a incorporação da Venezuela significa integrar um país que, segundo o último anuário da OPEP, dispõe das maiores reservas certificadas de petróleo do mundo, lugar que foi ocupado por várias décadas pela Arábia Saudita.
Além disso, do ponto de vista da complementação econômica de suas partes, o Mercosul aparece como um espaço econômico muito mais harmônico e equilibrado do que a União Europeia, cuja fragilidade energética constitui seu insanável tendão de Aquiles. Começa, portanto, uma nova e decisiva etapa, onde a um conjunto de países sul-americanos grandes produtores de alimentos e, nos casos da Argentina e Brasil, possuidores duma importante base industrial e significativas riquezas minerais, se agrega a maior potência petroleira do planeta. Num contexto de crise mundial como o atual, e diante das políticas protecionistas que cada vez com mais força adotam os governos do centro capitalista, a integração dos países do Mercosul é a única salvaguarda que lhes permitirá resistir aos embates da crise mundial do capitalismo ou pelo menos amortecer seu impacto.
Não é preciso demasiado esforço para comprovar as projeções a que pode chegar este Mercosul “recarregado”. Se os governos da região traçam mecanismos flexíveis e eficazes para tirar partido desta enorme potencialidade econômica e se, ao mesmo tempo, se resolvem entraves decorrentes dos acordos que originaram o Mercosul – a Declaração de Foz de Iguaçu firmada por Raúl Alfonsín e José Sarney em 1985 e, anos depois, o Tratado de Assunção, datado de 1991 – e que refletiram a hegemonia ideológica do neoliberalismo naqueles anos, o futuro econômico de nossos países seria muito mais promissor.
Um componente fundamental desta nova etapa deve ser, sem dúvida, o fortalecimento dos “otros mercosures”: o social, o trabalhista, o educativo, para não mencionar apenas aqueles que têm suscitado, precisamente por sua ausência, as maiores e mais fortes reclamações. Isto propiciará aos movimentos sociais e às forças políticas populares uma oportunidade ímpar  para fazer ouvir suas demandas e pressionar efetivamente os governos para que adotem, sem mais demoras, as políticas necessárias para que o Mercosul deixe de ser um acordo pensado para ampliar os mercados e reduzir os custos operativos das grandes empresas e se converta num projeto de integração a serviço dos povos.
Mas o significado fundamental da entrada da Venezuela radica em outra parte. O isolamento desse país e sua conversão num Estado pária era o objetivo estratégico número um dos Estados Unidos após a derrota da ALCA em Mar del Plata. O Senado paraguaio se havia prestado a esse jogo, em troca de uma suculenta recompensa para seus tribunos, mas o golpe de Estado perpetrado da noite para o dia contra Fernando Lugo desbaratou, para estupefação de Washington, os planos do império. A Casa Branca se esqueceu de que as épocas em que seus desejos eram ordens haviam sido definitivamente superadas e jamais pensou que os governantes da Argentina, Brasil e Uruguai iam ter a ousadia de aproveitar a suspensão do Paraguai ocasionada pela violação da cláusula democrática do Mercosul para acabar uma absurda espera de seis anos.
Do ponto de vista geopolítico, a inclusão da Venezuela no Mercosul é, e convém reparar nisto, a maior derrota sofrida pela diplomacia estadunidense desde o descalabro da ALCA. Tal como o recordara há poucos dias Samuel Pinheiro Guimarães, que até um mês atrás atuava como alto representante do Mercosul, daqui para frente será muito mais difícil e custoso orquestrar um golpe de Estado contra um Chávez protegido institucionalmente pelas normas do Mercosul. Muito mais complicado para um país como os Estados Unidos, insaciável consumidor de petróleo, tratar de apropriar-se da riqueza energética venezuelana. Muito mais atrativo para os demais países sul-americanos integrar-se o quanto antes a um rico espaço econômico que se estende, sem descontinuidades, da Terra do Fogo até o Mar do Caribe. E, por último, muito mais difícil rearmar o esquema de “livre comércio” descartado com a derrota da ALCA. Em suma, há fundados motivos para o regozijo: ontem os sonhos integracionistas de Bolívar, Artigas e San Martin deram um grande passo à frente.
(*) Atilio A. Boron é cientista político e sociólogo argentino. É diretor do PLED – Programa Latino-americano de Educação à Distância em Ciências Sociais.
Tradução: Jadson Oliveira (O título no Página/12 é Venezuela no Mercosul. O título acima é do blog do autor)

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