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Da solidão à leitura coletiva: Clubes de leituras ampliam a discussão da literatura

Por Aneliza Moreira

Em expansão no país encontros fomentam à leitura e ampliam as percepções sobre os livros

Os clubes de leitura ganharam o Brasil nos últimos anos. Tem para todos os gostos, livros escritos por mulheres, infanto-juvenil, sobre a América Latina, clássicos da literatura, política, literatura brasileira, entre outros.

Os clubes são organizados por editoras, livrarias, bibliotecas e por quem é entusiasta da literatura e são espaços de compartilhamento de ideias de quem leu cada livro. Geralmente funciona assim: o livro do mês é divulgado e, na data marcada, participantes e mediadores conversam presencial ou virtualmente sobre as várias leituras possíveis daquele livro. Em alguns, o próprio escritor ou especialista na temática também participa dos encontros que acontecem em bibliotecas, escolas ou centros culturais.

Mulheres

Um dos clubes que mais se destacam – e bem antes da pandemia – é o ‘Leia Mulheres‘, que completou sete anos em março e já está presente em mais de cem cidades brasileiras, de todos os estados do país e no exterior, em países como Suíça, Berlim e Portugal.

O Leia Mulheres surgiu em 2015, a partir de uma mobilização da escritora Joanna Walsh que propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014) que consistia em promover a leitura de escritoras.

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Uma das três organizadoras do Leia Mulheres” é a coordenadora de marketing na Editora Nós, Michelle Henriques. Ela explica que, em cada cidade, o clube ganha um enfoque. No caso de São Paulo, são selecionados previamente os livros, alternando diferentes editoras, gêneros literários e o país de origem das escritoras para passar pelos mais diversos tipos de literatura.

“A leitura sempre foi um ato muito solitário para mim e creio que para outras pessoas da minha geração, que antes do boom da internet liam o livro e não tinham com quem falar sobre ele. As redes sociais ajudaram no compartilhamento de leituras e os clubes também tem isso, você chega no encontro, ouve opiniões diferentes e cria uma nova ideia sobre o livro”, relata.

::“Para as mulheres pobres a dificuldade é maior de se imaginarem escritoras”, diz pesquisadora::

Ao longo destes sete anos, são incontáveis as escritoras que foram tema do Leia Mulheres desde escritoras independentes até os clássicos e para diferentes públicos, entre elas, estão Elena Ferrante, Carolina Maria de Jesus, Aline Bei,  Rupi Kaur e Judith Butler..


Encontro Leia Mulheres em São Paulo com a participação da escritora Aline Bei / Leia Mulheres

Segundo Henriques, a leitura pode ser uma arma para combater a misoginia no atual cenário político brasileiro.

“Esperamos que a leitura possa reverter essas ideias e pensamentos errados que foram normalizados nos últimos anos de governo Bolsonaro. A literatura é transformadora e os debates podem trazer mudanças positivas para a situação que o país está vivendo agora”, afirma.

Diálogos

A escritora Thais Campolina está à frente de dois clubes: é organizadora do Clube Cidade Solitária e mediadora do Leia Mulheres em Divinópolis (MG). Ela diz que se descobriu apaixonada por esse processo que acontece a partir da troca sobre o mundo literário. Para Thais, o clube proporciona um exercício estético e político, mas também vai além do livro, pois tem a ver com escuta e respeito.

“Quando a gente incentiva a leitura e o acesso à cultura, os clubes de leituras são muito importantes, porque eles encorajam pessoas a lerem mais que não necessariamente é em quantidade, mas em qualidade também. Porque quando você lê para discutir, você lê mais atento e diferente e essa leitura é importante incentivar em uma era em que têm tudo está na palma da mão”, assegura.

Diversidade

Campolina ressalta que há muitas iniciativas para promover a leituras de livros escritos por mulheres, LGBTQIA+, e negros e mas para popularizar a leitura é preciso promover o acesso à literatura para esses grupos.

“O clube de leitura é o jeito mais fácil de atrair novos leitores, mas é difícil chegar até eles, porque o país tem pouca tradição de leitura não só por causa de questões culturais, mas principalmente pela desigualdade social, que estamos vivendo um momento que muita gente está com dificuldade de sobreviver, de pagar aluguel e conseguir comida, então é muito desafiador incentiva a leitura quando a gente está enfrentando todos esses problemas”.

Bibliotecas

Os clubes de leituras também acontecem em espaços como bibliotecas. O Mulheres Negras na Biblioteca surgiu em 2016 quando em um curso de biblioteconomia em que as três únicas alunas da sala perceberam que na biblioteca da instituição não havia obras de escritoras negras.

A partir de então, foi feito um levantamento nas bibliotecas de São Paulo sobre a presença da literatura negra nos acervos, porque não estava presente e se o público se interessava por essas obras. O resultado foi que alguns espaços diziam que não havia demanda e foi aí que elas assumiram a responsabilidade de formar esse público leitor, como explica Juliane Sousa, uma das mediadoras do projeto.

“A gente vem entendendo através das nossas atividades que é preciso tirar o que seria o empecilho do público de se aproximar do texto. A nossa estratégia foi promover a leitura de contos de escritoras negras, porque o conto é um texto curto, a pessoa só precisa chegar até o encontro ou se tiver passando, é só ela sentar e ali ela já vai sair com um texto lido de uma mulher negra”, afirma.

Mulheres Negras na Biblioteca faz também parceria com as editoras para sortear no clube de leitura exemplares dos livros selecionados. “Estamos falando de todo universo de leitura que envolve editoras, festivais e escolas que não olha para essas autoras negras como interessantes para o mercado editorial. Então quando o público passa a levar pra casa esses livros e comprar de outras autoras negras, a editora e as instituições entendem que têm público, a gente começa a mobilizar”.

A dica de Thais para quem quer começar é buscar assuntos que te causam curiosidade ou interesse e participar de clubes online.

Conheça:

Leia Mulheres

Clube Cidade Solitária

Querido Clássico

Coletivo Escreviventes

Nossa Literatura

Mulheres Negras na Biblioteca

Edição: Daniel Lamir

Fonte: Brasil de Fato

(28/05/2022)

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