Contra trabalho escravo, protesto fecha rua de grifes em SP

Os manifestantes chamaram a atenção para as marcas Zara, Ecko, Gregory, Billabong, Brooksfield, Cobra d’água e Tyrol, que segundo a Procuradoria Regional do Trabalho, são produzidas em condições semelhantes à escravidão…

Manifestantes tomam rua Oscar Freire para protestar contra trabalho degradante na confecção de roupas de grife. Foto: Daniela Souza/Folhapress.

O Sindicato dos Comerciários de São Paulo fez, na manhã desta sexta-feira (26), uma manifestação na Rua Oscar Freire, onde estão concentradas lojas de grifes famosas na capital paulista, para protestar contra a exploração de trabalhadores bolivianos e de outras nacionalidades da América do Sul que são submetidos a condições insalubres e desumanas em confecções no interior do estado e do Brasil.
Os manifestantes chamaram a atenção para as marcas Zara, Ecko, Gregory, Billabong, Brooksfield, Cobra d’água e Tyrol, que segundo a Procuradoria Regional do Trabalho, são produzidas em condições semelhantes à escravidão.
“Queremos conscientizar os comerciários das lojas e os consumidores, porque muitas vezes eles pagam dez vezes mais do que o valor inicial da mercadoria e não sabem que esse produto está maculado com trabalho escravo ou mão de obra infantil. Essa atividade que desenvolvemos aqui na Oscar Freire é exatamente para que todos nós estejamos conscientes de que não podemos mais permitir que o povo, além de ser pobre, tenha esse tratamento, em um país que está se tornando cada vez mais rico,” disse o presidente dos Comerciários, Ricardo Patah.
O presidente do Instituto de Cultura e Justiça da América Latina e Caribe, René Cesar Camargo, disse que a situação da comunidade boliviana em São Paulo está muito ruim porque as oficinas e lojas de roupas de grande porte estão explorando os trabalhadores, passando da terceirização para a escravidão, com jornadas que chegam a 16 horas diárias.
“As marcas se preocupam em lucrar e não com as pessoas. Os trabalhadores não recebem por salário e sim por produção, por peça. As lojas encomendam às oficinas que façam 300, 400 peças por semana. Só que o valor que pagam é muito baixo”.
O modelista boliviano Horácio Jorge, contou que chegou ao Brasil há dez anos e permaneceu três anos trabalhando nessas condições. Ele disse que o ambiente de trabalho é degradante e normalmente o mesmo da moradia. Famílias inteiras são colocadas em habitações minúsculas. A alimentação é fornecida pelo empregador, mas descontada do salário, assim como o aluguel. Segundo ele, não há uma norma padronizada para o sistema de trabalho e cada oficina tem a sua maneira.
“O que para os brasileiros significa o sonho americano, ir para os Estados Unidos trabalhar, para nós é igual, nós temos o sonho brasileiro. Nós chegamos ao Brasil para trabalhar e ganhar dinheiro para mandar para nossas famílias em nosso país. Mesmo nessas condições, quando trocamos a moeda, a quantia é boa para nós, pois não há muito trabalho na Bolívia, assim como no Paraguai e no Uruguai”, disse Jorge.
Algumas empresas recrutam trabalhadores em países vizinhos, ou procuram um estrangeiro para fazer o aliciamento. Jorge disse que, normalmente, os estrangeiros não sabem das condições precárias a que serão submetidos.
“Eles são iludidos antes de vir. Todos podem sair dessa situação, mas a realidade é difícil de mudar, porque há muitas pessoas que trabalham assim. Com essa manifestação conseguimos mostrar o que há por trás dessas grandes grifes, mas para mudar vai demorar. As pessoas (em condições de escravidão) têm medo de denunciar porque essa é a única fonte de trabalho”.
(*) Reportagem publicada originalmente na Rede Brasil Atual. Com informações da Agência Brasil.

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