Consciência Negra: vamos falar dos sem história

O dia 20 de Novembro vem aí. É a data de Zumbi dos Palmares, hoje reconhecido com todo mérito como herói nacional. Marca também o mês da consciência negra e o choro das milhares de viúvas ou mães que perderam seus filhos nas periferias do país.

Zumbi dos Palmares. Foto: reprodução internet

O dia 20 de Novembro vem aí. É a data de Zumbi dos Palmares, hoje reconhecido com todo mérito como herói nacional. Marca também o mês da consciência negra e o choro das milhares de viúvas ou mães que perderam seus filhos nas periferias do país. Só existe uma raça, a humana, e isso tem que ficar claro para a sociedade.
Hoje quero falar de heróis menos mencionados na nossa historiografia brasileira, pouco lembrados nos livros didáticos e no nosso dia-a-dia. Quero falar de outros personagens, que não são poucos e tiveram participação no processo social e político de nosso país. Hoje vamos falar dos Lanceiros Negros, da Guarda Real Negra e Chiquinha Gonzaga (não a maestrina e compositora), e sim a mulher abolicionista que a TV inste em fazê-la branca.
O Brasil tem sérios problemas para por a limpo em seu passado histórico de lutas populares a favor da liberdade. Mesmo antes de Zumbi dos Palmares, a rebeldia do escravo já começara dentro dos navios negreiros antes de chegarem ao Brasil. Mulheres abortavam os filhos em pleno alto-mar para que eles não tivessem o mesmo futuro dos demais. Muitas dessas mesmas mulheres pagavam com a vida, preferindo morrer a ser escrava.
Chiquinha Gonzaga foi uma dessas bravas lutadoras, além do seu talento musical foi de suma importância ao movimento abolicionista do Brasil. Enfrentou toda a fúria da sociedade machista e opressora da época. Nas suas próprias músicas, como forma de rebeldia incluía ritmos africanos o que era até então um escândalo. Não abriu mão de seus ideais e entrou de corpo e alma na campanha abolicionista. Com os recitais que ele fazia, parte do dinheiro direcionava à campanha contra a escravidão . Chiquinha poderia se passar por uma mulher da sociedade, no entanto sendo filha de uma negra casada com um militar não escondia sua identidade racial e por isso também desagradava os conservadores. Além despertar a ira dos escravistas, a abolicionista e compositora lutava a favor do voto feminino até então impensável.
Chiquinha Gonzaga. Foto: Reprodução internet

Chiquinha Gonzaga sempre foi guiada pela luta de liberdade e igualdade em todos os sentidos. Não cabe a mim como estudante/professor de história explorar sua vida particular ou amorosa. Faço, sim, a minha crítica à persistência de emissoras de TVs em apresentar a compositora como mulher branca. Isto para história é como se fosse mutilação. Apagar a personagem na sua característica e essência racial.
Crianças em fase escolar devem perguntar se o negro participou na luta social e política do Brasil? Respondo que sim. São vários os exemplos, como na Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul, que durou 10 anos e se não fosse os Lanceiros Negros era provável que os Farroupilhas tivessem morrido. Os Lanceiros checavam os locais de conflitos para passar informação aos Farrapos, que lutavam contra o governo central(império). Mas era os lanceiros que tomavam a frente da situação. Haveria liberdade para esses escravos? Segundo a promessa dos Farrapos, sim, mas numa República era inadmissível ter escravos. Será que os Farroupilhas cumpririam com a sua promessa? Um dos líderes dos Farroupilhas, David Canabarro, traiu a luta dos Farrapos ao dar chance às tropas do governo Central massacrar os Lanceiros numa emboscada onde estes estavam desarmados de forma proposital. Além dos negros, que eram a maioria, lutaram ao lado dos Farroupilhas os índios e mestiços também embora em número menor. Além da frente de guerra, esses negros tinham grande importância na economia local, na qual o cuidado com o gado, plantações de fumo e charque estavam aos seus cuidados.
Ainda há aqueles que não concordam com as políticas de ações afirmativas, achando-as privilégios de certos grupos. Pergunto: Quem eram esses grupos e por que a geração negra hoje merece ser ressarcida por parte do Estado? Até então o poder público nunca fez nada para retribuir com está participação e de outras lutas apoiadas pelos escravos.
IMagem
A liberdade dos escravos era eminente. Milhares de leis que proibiram o tráfico de escravos estavam dando certo. Outros escravos através do trabalho remunerado (raro), compravam sua carta de alforria. Oficialmente havia pouco menos de 5% de escravos para serem alforriados pela Princesa Isabel, chefe de Estado do Brasil. A República ainda estava para acontecer, enquanto isso era formada a Guarda Negra Imperial, constituída por ex-escravos fiéis à Princesa Isabel. Antes de julgá-los por estarem protegendo a princesa, é bom destacar que a Família Real era admirada pelos ex-escravos embora ele não simpatizassem com a monarquia. Ainda assim lutavam no exército contra os adeptos à República
A guarda foi idealizada por José do Patrocínio e no ano seguinte foi proclamada a República no Brasil, terminado assim mais de 400 anos de Monarquia no país. Logo então esses ex-guardas passaram a ser perseguidos pelos republicanos, e é interessante que foi nesta ocasião que a capoeira passou a ser marginal e seus praticantes (negros) considerados criminosos. Mesmo tendo um curto período de tempo, podemos dizer que esses guardas foram heróis.
O dia da consciência negra vai além do dia 20 de novembro. Temos que reverenciar os heróis do passado, como Dom Óba, príncipe dos esfarrapados. E os contemporâneos como João Cândido, marinheiro negro da Revolta da Chibata, cuja a família até hoje não foi indenizada pelo Estado federal.
Outros grupos de luta e resistência que considero como heróis são os favelados, que vêem seus direitos constitucionais violados todos os dias. As mães dos jovens negros assassinados pela máquina armada do Estado, que mesmo sem garantias de proteção não têm medo de mostrar seus rostos. Para que ter medo? O bem mais precioso que elas possuíam lhes foi retirado. Os praticantes das religiões de matrizes africanas, que são constantemente perseguidos por praticarem a sua forma de fé, também são vítimas do preconceito e traduzem a forma mais explícita de racismo que conhecemos nos dias de hoje.
Heróis são aqueles da nova geração de historiadores e professores de história, que pesquisam, labutam e ensinam que o negro brasileiro não foi somente samba, carnaval, feijoada e samba.
O negro brasileiro tem histórias riquíssimas de ciência, medicina, cultural, dentro tantos outros áreas intelectuais, como a jurídica. São muitos os exemplos que atestam essa realidade ontem, hoje e sempre.
TODO DIA É DIA DE ZUMBI DOS PALMARES !!!
Trabalho de pesquisa. Tente dizer quem são essas personalidades:

 
 
 
 
 
 
 
( ) Abdias do Nascimento
( ) João Cândido
( ) Souza Marques
 

 
 
 
 
 
( ) Juliano Moreira
( ) Pixinguinha
( ) Lima Barreto
 

 
 
 
 
 
 
( ) Mães da praça de Maio
( ) Mães da Praça da Sé
( ) Mães de Acari
(*) Fabio Nogueira é estudante de história e militante da Educafro

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