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Cantar mourão

Dentre os variados gêneros do Repente, é este o que me reporta à figura do Prof. José Rabelo de Vasconcelos, grande especialista e incentivador da Arte do Repente. Aliás, também um exímio Poeta.

Revisitar esse gênero traz-me a idéia de estar diante de Rabelo, a escuta-lo, empolgadíssimo, a justificar seu fascínio pela Arte do Repente. E o fazia, recorrendo a páginas antológicas, inclusive desse gênero. “O Mourão é fascinante!” – dizia-me. E prosseguia sua fala, justificando com argumentos convincentes e recheado de boas metáforas, com o entusiasmo que lhe era tão caracterísitco, que, no Mourão, o primeiro repentista finca a primeira estaca: são os dois primeiros versos, que desencadeiam, como se fossem expressão da tese hegeliana. Vem o segundo cantador, e finca a segunda estaca, isto é, os dois versos seguintes, que funcionam como uma espécie da antítese hegeliana. E, por último, cabe ao primeiro cantador “fechar” o mourão construindo a porteira, como numa síntese. Que imagem, a de Rabelo!

A título de uma recordação-homenagem à figura do Prof. José Rabelo de Vasconcelos, houve por bem selecionar as seguintes estrofes.

Nelas, o primeiro cantador, ao propor um duelo, e, já na próxima estrofe, começa a anunciar a pretensa surra, dizendo-se “de chicote na mão”…

Primeiro Cantador:

Chegou a oportunidade
De se cantar um mourão

Segundo Cantador;

Eu já estava com vontade
Vamos entrar na questão

Primeiro Cantador:

Um tem que sair correndo
E o Povo ficar sabendo
Quem é o mais valentão

– Meu chicote está na mão
Pra dar surra em cabra ruim
– Mude a sua opinião
Que talvez não seja assim
– Bote pipa em sua barca
Cantador de sua marca
Tem de ser sujeito a mim

– Dou uma surra em cabra ruim
Que até o Diabo tem dó
– Mas você não em mim
Que eu quebro seu catimbó
– Sua cara é rabujenta
Vou pegar a sua venta
Boto no seu mocotó

(…)

– É muito fácil dizer
Só é difícil provar
– Então você vai saber
Que a peia vai manobrar

– Vou lhe tirar da cidade
Pois você já tem idade
De conhecer seu lugar

– Tinha graça eu apanhar
De um poeta inconsciente
– Você vai se ajoelhar
E soluçar na minha frente
– Na viola eu sou seu pai
Esse besta aonde vai
Vai fazer vergonha à gente

– Esse aí é a serpente
Que traiu Eva e Adão
– E você é a semente
Do fruto da perdição
– Esse bicho é tão ruim
Tem o gênio de Caim
Que assassinou o irmão

A forma do “Mourão” traz pouca novidade. São estrofes de sete versos, cada verso com sete sílabas, e estruturados, quanto à rima, ao modo ABCBDDB.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)

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