Brasil entre o passado e o futuro

Brasil Final.indd“É um livro cujo título é justo, o entre significa que o passado não morreu e o futuro que a gente não está pronto”, comentou o professor Gaudêncio Frigotto, no início do lançamento de “Brasil, entre o passado e o futuro” (Ed. Boitempo e Ed. Fundação Perseu Abramo), na noite da última segunda-feira (22), na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Trata-se de uma obra que reúne ensaios de pensadores da cena política e intelectual brasileira sobre a dinâmica política, econômica e cultural nos últimos anos no país. Coordenado pelo sociólogo Emir Sader e o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, o livro traz artigos sobre o país com dados, análises e propostas, além de uma entrevista com a ministra Dilma Rousseff.

Da esquerda para a direita: Gaudêncio Frigotto, Lia Faria, Emir Sader e Marco Aurélio Garcia. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
Da esquerda para a direita: Gaudêncio Frigotto, Lia Faria, Emir Sader e Marco Aurélio Garcia. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

O que motivou Marco Aurélio Garcia à iniciativa, segundo as suas palavras, “foi o debate intelectual que faz tanta falta no Brasil. A enorme necessidade de restabelecer a discussão, a cidadania de confrontar posições”, destacou. Na sua opinião, as grandes transformações no país sempre ocorreram com uma simultaneidade fértil do pensamento nativo e as manifestações artísticas. Citou Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda, com o surgimento do romance brasileiro (anos 30); Raimundo Faoro, Celso Furtado e a criação do ISEB, junto à renovação do teatro, cinema e música (anos 60).
“No momento atual, há uma transformação mais intensa que as precedentes, mudanças econômicas e na estrutura social do país. Mas a manifestação do pensamento está acanhada e as artísticas imperceptíveis”, destacou Garcia.
Questionado sobre a política econômica do governo Lula, Marco Aurélio sustentou que “o presidente representa, entre outras coisas, uma ruptura econômica que não é efetiva, mas que prepara transformações para o futuro”. E acrescenta que “crescemos constantemente, com equilíbrio macroeconômico, aprofundamento da democracia, longe das visões apocalípticas que dizem que o país está à beira de um projeto totalitário”, complementou.
O livro foi feito para polemizar, gerar debate, mobilizar a sociedade, destacou Emir Sader. “Vivemos um período em que o velho insiste em sobreviver e o novo tem dificuldades em encontrar suas formas de existir. O velho é o neoliberalismo, e o novo é aquilo que vai superar o neoliberalismo”, disse.
“Eles propõem ajuste fiscal, nós propomos prioridade às políticas sociais. Eles propõem tratado de livre comércio, nós propomos integração regional. Esses são dois avanços significativos, mas chegamos a um certo limite, não só porque está terminando o mandato de Lula, mas porque precisamos pensar mais a fundo que Estado e que sociedade queremos ter. Pensar quais são as transformações que o Brasil precisa e qual é o bloco social, político e cultural que pode levar isso a cabo”, argumentou Sader.
Emir Sader acredita que há uma crise de hegemonia e o maior desafio da esquerda é reestabelecer as relações com as organizações sociais, estas, por sua vez, precisam romper obstáculos para se estabelecerem como novos atores no cenário político. O professor deu ênfase na necessidade de se democratizar a relação do Estado com a sociedade, chamando a todos para se mobilizarem a fim de se criar uma nova forma de diálogo entre as instâncias do poder político e a população.
"Não haverá democracia no Brasil enquanto não houver uma democratização dos meios de comunicação", afirmou Emir Sader, ao centro da mesa. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.
"Não haverá democracia no Brasil enquanto não houver uma democratização dos meios de comunicação", afirmou Emir Sader, ao centro da mesa. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

“A retomada de valores de sociedade, justiça e decisões coletivas estão em déficit no país, é preciso mostrar os avanços e apontar os obstáculos”, acrescentou o sociólogo.  Para ele, a política monetária tem que estar mais articulada com as projeções econômicas,  citou, por exemplo, que não é possível mudar o agronegócio com decretos, pois a exportação e o uso de transgênicos já estão estendidos às pequenas e médias empresas. Assim como não é possível o Brasil continuar importando alimentos com a sua imensidão de terras e sem terras. Emir Sader fez essas ponderações observando que quem está com esse governo tem críticas a ele, mas reconhece as suas melhoras.
“O governo Lula será um parênteses e retorno às elites nacionais na história do Brasil ou uma ponte para superar e exercer o poder para um novo projeto de nação?”, foi a pergunta deixada no ar pelo debatedor.
O ator Joel Barcellos, que estava sentado no público do auditório e há décadas não aparece em público, encerrou a atividade dizendo que é preciso resgatar a “rebeldia como disciplina da alma” arrancando o aplauso de todos.
Imprensa Brasileira
Com a intelectualidade progressista numa época de timidez, os meios de comunicação foram ocupados por subintelectuais da direita que na falta de idéias destróem pessoas, destacou Marco Aurélio Garcia.
“A sociedade se deu conta que a opinião pública não é a publicada, eles [os meios de comunicação] estão caindo no descrédito. E nós não vamos endurecer o regime e eles vão ficar isolados”, afirmou.
“Não haverá democracia no Brasil enquanto não houver uma democratização dos meios de comunicação”, criticou Emir Sader. Para ele, é preciso “constituir democraticamente a opinião pública formada pelas múltiplas vozes do Brasil e não por cinco ou seis famílias proprietárias de empresas e financiadas, em grande parte, pelas agências de publicidade”.
“São empresas privadas, movidas por participação de grupos, que ocupam o espaço público”, destacou, advertindo que é preciso se criar uma imprensa que chegue às pessoas, que os escute, e apresente múltiplas formas de expressão. Entretanto, salientou que no momento o campo progressista não tem condições de criar no Brasil um jornal impresso de âmbito nacional, daí a necessidade de uma imprensa pública com participação da imprensa alternativa.
Política externa
Área de atuação de Marco Aurélio Garcia, a política externa foi alvo de amplo debate. O assessor disse que em função da capacidade do atual governo de suscitar questões encobertas e mexer em feridas, há um combate declarado contra a política externa atual.  A integração latinoamericana, a busca de articulação com o mundo africano e árabe, mantendo uma boa relação com os EUA, mesmo em repúdio à guerra do Iraque, são algumas das questões apontadas por Garcia que incomodam os interesses e privilégios estabelecidos há anos no país.

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